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A atração entre as pessoas: interesses vitais x interesses materiais

 
A atração interpessoal é um processo psicológico dinâmico, que promove a ação e/ou reação de estabelecer estreita conexão entre pessoas. Trata-se da atração que uma pessoa sente por outra, que pode levar à amizade ou a um relacionamento amoroso, constituindo uma faixa emocional que inclui amar, gostar, antipatizar ou odiar alguém. Faz-se necessário ressaltar que a atração interpessoal não se restringe à atração física, pois vai além do que é considerado belo ou esteticamente atraente.
A atração interpessoal se caracteriza como um processo de seletividade do ser humano em relação ao outro e contempla um conjunto de elementos, dentre os quais se destacam: a atração física; a proximidade entre as pessoas em determinados lugares durante certo tempo; a familiaridade que se estabelece entre elas; a similaridade ou a semelhança entre elas quanto a: interesses, atitudes valores pessoais, aparência do rosto, poder socioeconômico, orientação política, hobbies, autoestima, idade, escolaridade. Também é possível uma atração por complementaridade ou por diferenças (Ramos, 2020).
A semelhança entre as pessoas produz confiança, segurança e valida ambas, à medida que são aprovadas e aceitas uma pela outra. A complementaridade considera as diferenças em termos de habilidades e características de personalidade. Nesse caso, existem características que uma pessoa valoriza, mas não encontra em si; encontra-as em um grau inferior ao que ela gostaria ou ela busca no outro o que sente faltar em si. Desta maneira, se formam as parcerias: uma pessoa protetora com uma pessoa vulnerável, uma pessoa dominadora com uma submissa, uma pessoa doadora com outra receptora, uma pessoa falante com uma ouvinte, entre outras. A teoria das necessidades complementares propõe que os parceiros têm necessidades opostas e complementares, que, quando combinadas, criam harmonia no relacionamento (Reik, 1957).
 
Essas primeiras ideias visam apresentar o tema de forma geral, porém o foco desta reflexão é a atração entre as pessoas com base em interesses. Esses interesses podem ser: interesses vitais e interesses materiais. Com relação aos interesses vitais, o adjetivo vital remete a algo que afeta a vida de maneira essencial, que tem importância primordial e que dá vida e vigor. Os interesses vitais ligam profundamente as pessoas entre si, inclusive porque esses interesses envolvem aspectos biológicos, psicológicos, sociais e profissionais. Os interesses vitais podem unir um músico-compositor a uma cantora-intérprete, um cineasta-fotógrafo a uma atriz-roteirista, um ator-cantor e uma atriz-dançarina que amam o teatro musical. Nesses exemplos de interesses vitais no campo da arte, tanto existem semelhanças quanto diferenças complementares entre si em cada dupla. Em outros campos das atividades humanas, também, podem se formar parcerias significativas entre as pessoas.
A atração por interesses materiais se revela em ligações típicas da nossa cultura: um homem mais velho com ótimo poder aquisitivo e uma mulher mais jovem, bonita e atraente, que visa à ascensão econômica; bem como dois sócios arrojados, gananciosos e competitivos, que tem por objetivo comum a conquista do poder aquisitivo em larga escala. Eles se ligam mediante interesses superficiais, mas altamente valorizados na cultura. Existem aspectos psicológicos envolvidos nas ligações mencionadas, contudo, imperam nestes casos, a excessiva valorização da aparência, da posse de dinheiro, de sua exibição através de carros caros e luxuosos e de outros bens materiais.
Para aprofundar as questões psicológicas presentes nessas modalidades de atração, recorre-se ao pensamento de dois psicanalistas.
Para Freud (1914), há dois tipos de escolha de objeto: narcísica e anaclítica. Na escolha narcísica, ama-se: o que se é (a própria pessoa), o que se foi, o que se gostaria de ser. Na escolha anaclítica, ama-se: a mulher que alimenta, o homem que protege e as pessoas substitutivas que venham a ocupar seu lugar.
Junta-se a isso a teoria freudiana do amor, construída ao longo de sua obra. Em 1912, Freud considerava que, dentre as correntes terna e sensual, a terna é ligada aos cuidados parentais. Ela procede da primeira infância; funda-se na pulsão de autoconservação e se dirige para as pessoas da família e aquelas que cuidam da criança. Ele acrescenta que a necessidade de ser amado é inerente à condição humana.
A seguir, enfoca a idealização e as tentativas de restaurar o estado narcísico. Estar apaixonado consiste em investir maciçamente a libido narcisista sobre o objeto, elevado ao nível do ideal. A idealização outorga ao objeto virtudes e perfeições imaginárias inexistentes, tornando o eu apaixonado, frágil e dependente do amado. A paixão tem um caráter ilusório, já que projeta no objeto os próprios ideais narcísicos e visa uma completude irrealizável (Freud, 1914). Ele considera, ainda, que estar apaixonado é resultado da confluência do amor sensual e da ternura. A ternura é responsável pela persistência do amor, além da simples atração sensual (Freud, 1921).
Bion (2004) aborda a cisão do eu entre provisão material e provisão emocional. No campo da pulsão agressiva/destrutiva, o impulso do bebê lactante em busca de provisões pode ser obstruído e cindido, fazendo com que haja uma divisão entre satisfações materiais e psíquicas. A internalização dos elementos brutos da experiência aumenta a necessidade de uma comodidade material em detrimento da psíquica, que se converte em voracidade e incrementa a destrutividade e a inveja.
Cabe, então, situar criticamente as teorias das semelhanças e das diferenças. Há controvérsias entre os autores quanto à importância de cada uma na atração entre pessoas. Quanto à afirmação de que – na atração por diferenças – há características que uma pessoa valoriza, mas não encontra em si, cabe indagar se ela não as tem ou se esses traços foram reprimidos ao longo de sua história de vida e ela os projeta em grande proporção no parceiro. Ao idealizá-lo, ela se desvaloriza e deixa de reconhecer aquela característica em si mesma. Isso vale também para a segunda e a terceira informação acerca de ser completado pelo outro.
No que tange à possibilidade de a atração entre pessoas por necessidades complementares produzir harmonia, tal aspecto adquire maior sentido no início da relação, porém depurado o encantamento inicial, a relação pode produzir hostilidade entre elas. Essa parceria por complementaridade é importante, mas funciona se as diferenças entre as pessoas não forem muito extremas. Nesse caso, a parceria não é saudável, dada a impossibilidade de se estabelecer um equilíbrio duradouro entre elas.
Faz-se necessário, ainda, pensar outros aspectos psicológicos dessas relações. A atração entre pessoas por interesses vitais tende a incluir o amor, a ternura, a admiração e o respeito mútuos, dentre seus componentes psicológicos. Já no caso da atração por interesses materiais, os componentes do amor e da ternura parecem ser muito restritos, visto que a questão dos aspectos materiais está em primeiro plano.
A seguir, retoma-se Freud acerca do desejo de ser amado ser inerente à condição humana. Quando prepondera o interesse material, aquele desejo é colocado em segundo plano. Provavelmente, trata-se de uma defesa contra relações anteriores em que ambos sofreram, de modo que eles estariam reprimindo seu desejo de serem amados. Além disso, à medida que a relação não for interessante o suficiente para o homem, detentor do dinheiro e do poder, a tendência é que ele dispense a mulher, com menor poder na relação. Por sua vez, Bion aborda a divisão do eu entre provisões emocionais e materiais. Estas podem imperar sobre as primeiras, no caso do sofrimento psíquico ter sido considerável.
Em suma, torna-se possível afirmar que, quanto ao tipo de relacionamento mais saudável, a atração por interesses vitais tende a ser a mais saudável, pois proporciona o sentimento de proximidade emocional e seus elementos, como amor, ternura e admiração, integrados a outros componentes psíquicos capazes de proporcionar a harmonia, o equilíbrio. Nesse caso, o amor prepondera sobre o ódio, outro aspecto que Freud enfatizava como favorecendo a saúde mental nas relações humanas.
 
 
Referências
 
Bion, W. R. (2004). Elementos de psicanálise. Rio de Janeiro: Imago.
 
Freud, S. Psicologia do amor (1912). Rio de Janeiro: Imago, 2006. Edição standard
brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud,.
 
Freud, S. Sobre o narcisismo: uma introdução (1914). Rio de Janeiro: Imago, 2006.
Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, 14.
 
Freud, S. Psicologia do grupo e análise do ego (1921). Rio de Janeiro: Imago, 2006
Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud,.
 
Ramos, A. L.M. (2020). Atração interpessoal.
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Reik, T. (1957). Of love and lust. New York: Farrar, Strauss.
 
Winch, R. F., & Ktsanes, V. (1954). The Theory of Complementary Needs in Mate-
Selection: An Analytic and Descriptive Study. American Sociological Review, 19, 241-249.
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Atualizado em: Dom 8 Nov 2020

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