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O grande opróbrio

              Uma das melhores formas de conhecer alguém é saber quem são suas referências, suas influências, quais as pessoas cujas ideias este alguém respeita. Alcebíades Pintacilgo se dizia um pensador moderno, pragmático e crítico mas reverenciava figuras autoritárias, populistas e superficiais. Ribamar Asteroide: discurso duro e draconiano mas aplaudia de pé as exceções corporativistas que o beneficiavam. “Incoerências, quem não as tem?”, perguntaria o solitário leitor mas acima e além de inconsistências sobre as quais repousam nossas convicções está um veneno que temos paulatinamente desenvolvido, a ponto de ser simultaneamente ubíquo e desconhecido: o opróbrio, a ofensa, a indignação, a reação desmedida, o pretenso aviltamento.
              Ao revisitar alguns eventos que marcaram a nossa História, constatamos que em todos eles houve ruptura em relação ao estabelishment, houve a identificação de uma ofensa, injustiça, ameaça, opressão - seguida de uma ação que visava restaurar uma definição mais ampla de justeza, moral, ética. Percebe-se que a causa, em si, embora importante, cede espaço à bravura indômita que levou estes heróis ao movimento, da indignação à ação. Se até a Intentona Comunista chegou aos livros de História é menos pela relevância da causa e mais pela luta solitária, desigual e até cruel entre adversários tão desiguais em força, poder e estratégia. Então, aqui vai: nós adoramos uma história de injustiça como pano de fundo para que nosso herói possa derrubar o rei, matar o dragão, expulsar o inimigo ou, ao menos, fazer um discurso demagógico no palanque de papelão. Temos um apreço quase literário pelos certames onde nossos protagonistas mostram quem são, o que pensam, como eles se rebelam contra perversidades que por vezes nem conseguimos enxergar. Imagine o quão enfadonha seria a história de um personagem de meia idade, funcionário público, torcedor do América, que, ao receber proposta de emprego na iniciativa privada, recusa-a e escolhe manter sua lealdade ao povo brasileiro e segue incólume no exercício diário e sacrificado de fiscal de café.
              Não, não gostamos deste tipo de história: queremos mais movimento, mais injustiça, mais revolta, mais sofrimento pois quanto mais destes ingredientes, tanto mais radical, imprevisível e assustadora será a reação deste pequeno anti-herói que, através da sua narrativa, nos ajuda a dar sentido e ordem à nossa própria. Então se por um lado louvamos o trabalho sério, continuado, disciplinado e ordenado, por outro nossas pupilas se dilatam quando ouvimos os feitos dos que não se conformaram, dos divergentes, dos que não se ajustaram, do que encontraram (ou perfuraram) uma outra saída para seus problemas. “Incoerência” - eu sigo ouvindo alguém dizer isto (entre as várias vozes que se amontoam) e intrigantemente o que nos cativa não é exclusivamente o que afirmamos que nos arrebata. Assim, descrever-se como uma pessoa sensível, solidária e preocupada com a fome no mundo é, além de eventualmente verdadeiro, útil para formar e transmitir um conceito sobre si mesmo e se esta fome está no outro continente e é virtualmente impossível tomar ações para mitigá-la, tanto melhor: agora esta indignação será eterna (nem é preciso buscar novas indignações), a responsabilidade, nula, e ainda a pessoa goza do benefício de projetar a imagem de humanitária e consciente. Por fim, todos felizes (ou quase ...).
              Talvez este tipo de simulacro de magnanimidade sempre tenha existido mas recentemente foi levado a níveis muito maiores pelo uso das redes sociais. A Internet e as redes sociais são o ambiente por excelência para este tipo de projeção, onde fotos e feeds emolduram aqueles momentos-chave, projetam a confirmam a narrativa que queremos que as pessoas capturem mas a longo prazo, ad nauseum, criamos um ambiente onde só valorizamos os reclamões, só temos interesse em ouvir quem esbraveja seus argumentos, substituímos o falar pelo ladrar, o conteúdo pela forma, a realidade pela projeção, o real pela silhueta. Com sorte, em algum momento, um filósofo contemporâneo (vou chamá-lo de Ratão”, fazendo uma releitura dos esquecidos clássicos, publicará um ensaio chamado “A alegoria da sala de bate papo”, onde ele mostrará o que é real e o que não é, em uma deliciosa narrativa desruptiva, como tanto gostamos.
               
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Atualizado em: Dom 8 Nov 2020

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