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[Desabafo] PEDREGULHO

Chega. Acaba agora. Para. Só para. Como você consegue? Cansei de entrar no seu jogo pra ver até onde vai o seu cinismo. Me manipulando esse tempo todo.

Muito compreensível o seu temor pela manipulação, você ter medo de ser controlado pelo “sentimento”, teme que sua arma seja usada contra você.

Não bastasse, como transcurso do tempo, depois da noite de “nitidez”, você mesmo escancarou que eu me doei enquanto você dissimulou.

Eu tenho pena de você, por ser, nesse sentido, alguém tão desprezível.

Eu não tenho mais o que falar. Se depender de mim, nunca mais precisarei dirigir qualquer palavra a ti.

Após a lucidez, quando você me dilacerou, muitas coisas choveram em mim.

Principalmente, quanto ao pedregulho.

Nāo sei a dimensão do que aconteceu entre você e essa mulheres, tão menos o quanto possam ter ferido um ao outro psicologicamente, emocionalmente e — ridiculamente — fisicamente. Ouvi pavorosamente os relatos quando já estávamos nos relacionando.

Tive uma vaga lembrança de uma conversa sobre relacionamento abusivo, tóxico, sequer sei se tratava-se apenas disso, tão menos o teor e extensão.

Como se isso nāo bastasse, preciso questionar… Novamente. Ainda me intriga.

Realmente não te causa incômodo? Não te é desconfortável? Seja pela verdade atroz, quer seja por uma mentira repudiante que os circunda? Nāo se sente mal? Nem mesmo um pouquinho? Sabendo que algumas das mulheres que tiveram qualquer tipo de contato intrínseco contigo nāo possuem possuem um bom relato? Aliás, um em específico é repudiante.

Eu apenas queria que você, por si mesmo, reconhecesse… Entende? Nāo porque duas ou três vezes gritei o peso de todo esse contexto na sua cara e o faço novamente agora.

Aliás, assumo com pesar que não adentrei no novo vínculo estando “enganada”. Confesso que quanto a outras coisas — pequenas — eu sabia exatamente como eras e ainda assim persisti na criação de um elo. Não me causava incômodo algum a “fama”, dotada de veracidade, de galanteador, mulherengo, chame como quiser. Eu estava apaixonada e acreditei que você também, nada me impedia, neste sentido, pois aquela versão não condizia com o elo que se estabeleceria.

Eu confiei naquele seu “agora”. No cara que era comigo, mas isso nāo significava que nāo reconhecia o seu antes quanto o cara que foi com algumas mulheres. Quanto a este ponto, eu estava muito consciente. Fui mais uma mulher que estava passando pela sua vida, não tive como ignorar quem tu fostes, que eu mesma reconhecia, quando nāo estava comigo.

No entanto, sabe o que é mais tenso de tudo? Aquele relato repudiante. Eu o ouvi… até havia te encurralado nesse sentido, óbvio. Antes de iniciarmos, te disse: “há um imenso pedregulho”. E eu confiei em você, com medo, confesso, arrisquei. Afinal, aquela versão que ouvi de você, imunda, pareceu dolosa, pois, era completamente distante de quem eu putativamente conhecia.

Prometi confiar. Eu fiz isso. Porém, estarei enganando a mim mesma se afirmar que em instante algum não tenha tornando à mente. Você não era, para mim, atroz (ao menos, não diretamente, não à minha frente). Não mesmo. Te fiz meu céu e desejei insanamente dividir contigo o “pra sempre”. Não bastasse, morri de medo de “te perder”.

Antes mesmo da noite de lucidez, eu reconhecia se tratar de um “problema” seu, mas que não te sucsitava nada. Não tirava a sua paz. Enquanto eu, justamente pelo nosso vínculo,à época, sangrava toda vez que pensava na ideia! Por duas vertentes. Por olhar os dois lados da balança. Era ferida de duas formas, pelo temor da decepção com o meu insano e desmedido amor e pelo relato alheio, que feriam os meus valores, os princípios, sobretudo, inteiramente o meu eu mulher.

Aquilo me esfaqueava, mas o meu choro era manso. Você não ouvia. Eu prometi:“superado”, “resolvido”.

Porém, os meses correram e exatamente o mesmo pedregulho veio a tona, diretamente o relato (falacioso ou não) para mim. Naquele instante, eu não mais ficaria inerte. Não pude. Não me limitaria ao “não se trata de um contexto meu, não está ao meu alcance”. Não mais iria agir de uma forma que eu mesma repudiava… descartando toda a minha luta e entrega por uma causa. Eu estava sendo hipócrita e isso me matava. Senti nojo de mim mesma. Me vi “uma filha- da-puta”.

Naqueles tempos, quando a névoa com outra parte gritante do pedregulho chegou, me vinha um pensamento súbito e, com muita razāo, me torturando. Justamente pelo teor.

Eu sou empática e me via num eterno nāo senso. Meus valores e princípios em confronto uns com os outros. Eu precisava por isso para fora.

Me assombrava cogitar que um pessoa que demonstrava ser de tal forma para mim, poderia ter feito mal a outra mulher ou qualquer outra pessoa. Principalmente alguém que x deveria, à época, ter zelo (e demonstrando algo totalmente fora disso a ponto de magoar esse alguém).

Confesso, sei o quanto é pesado falar, mas, assim como sempre fiz com os homens ao meu redor, me via caçando todo e qualquer indício em você que conotasse algo que enfatizasse as outras versões.

Como se não bastasse, vez ou outra ficava imersa no pensamento quanto a hipótese de “mudança”. Mas, ainda assim, acabava sendo falho pois, afinal, nāo sei o que acontecia e não tenho como apontar transformação sobre algo que não conheci o “antes”.

Outras vezes, me prendia a outro viés ainda dessa pauta. “Mudança”. Na hipótese, ainda que ela exista… Andei tendo pensamentos do tipo “É tudo absurdamente insano”.

Confesso. Era estranho olhar para alguém, gostar de quem ela era com você e, concomitantemente, sentir desprezo de como alguém a retrata, e, o pior, de como ela realmente possa ter sido.

Eu iria te encurralar. Passei três tortuosos dias matutando como. Não haveria acusações, haviam interrogações e o mínimo que eu desejava eram palavras sinceras, fossem elas afirmativas ou negativas.

No final das contas, me senti péssima, pois, acima de tudo, ainda que eu tenha pensado demais nas palavras para não acusar quando fosse conversar sobre o pedregulho que sempre ressurgia e cada vez de uma forma ainda mais incrivelmente ruim, além de tudo, pedindo complacência, você agiu com fúria e descarregou o peso da situação sobre mim.

Acabei me sentindo ridiculamente ouvindo somente um lado da história. Como parceira, imaginando o contrário, eu seria dilacerada. Me senti ingrata e imunda, justamente pelo tipo do nosso vínculo. Mas, ainda sim, confesso, existiu receio, desconfiança e temor da minha parte. Óbvio.

Fui nua e crua. Chorei e ainda escancarei com todas as letras que não entendia como aquilo não te atingia. Não te importava. Ainda assim, te esclareci como me senti e que era um pedaço grande, seco e difícil de engolir. Eu tentei, mas acabei engasgada.

Lembro claramente de ter dito algo como “Precisa confiar em mim, seja franco, precisamos entender o que leva o outro a fazer isso. Está permanecendo e se perpetuando no tempo, você precisa resolver essa situação. Suscita um imbróglio entre nós, você sabe”. Desculpa, mas não engoli, lógico, aquele “As pessoas se incomodam com a felicidade alheia, estamos bem e estão tentando estragar”. Bom, se este era o desprezível intuito, conseguiram. Sabe, eu até queria acreditar nisso.

Fui incisiva. Recordo de ter lhe dito algo como: “Ainda que, na remotíssima hipótese absurda, você tenha realmente sido ‘um monstro’, precisa aceitar e, por repudiar, não ser mais aquela pessoa, como — pela forma que me trata e me tem. — eu acredito que não é”.

“Não esquece o nosso pacto. Me magoa com a verdade, mas nāo mente, nāo me engana, nāo me ilude. Lembra que te falei que precisamos ser fortes, maturos e francos para lidarmos, juntos, com ‘grandes coisas’? Acredito que estamos diante da primeira delas”.

Pelo seu posicionamento, fals, jeitos e andados, fiquei devastada.

Sabe o que não fez sentido algum? Você sequer se colocar no meu lugar, como parceira! É óbvio que algo assim tinha condão para me amedrontar.

Foi horrível te ver tratar com desdém o que para mim era um pedregulho.

Você não respondeu qualquer das minhas indagações. Jamais esquecerei suas palavras “Eu só consigo sentir nojo de você por cogitar uma merda dessas sobre mim, justamente você, quem deveria ter certeza do contrário. Não sou imundo. Poderia esperar isso de qualquer pessoa, exceto você. Não quero mais ver o seu rosto, está me causando repulsa”.

As palavras que eu havia te remetido, foram na tentativa de te ajudar a repensar algumas coisas e suscitar o questionamento em si a respeito. Jamais para te por como inimigo, como disse que eu fiz. Você se viu como inimigo.

Definitivamente não havíamos “superado” aquilo.

O cerne da questão não foi sequer eu não ter constatado um mísero arrependimento. Um reconhecimento. O imbróglio é que você simplesmente enfatizou “não dar a mínima” e tratar tudo como “exagerado” e “absurdo” (concordo com este último).

Se tratando do próprio teor, o mínimo que alguém faria seria tentar esclarecer com o outro a razão para tanto. Buscar compreender, tirar a limpo, o que se aconteceu a dois e é tratado de modos absurdamente distintos. Apurar a visão do outro e as razões para te fazer “seu monstro”.

E durante esse tempo todo, houveram instantes em que eu pensei “Deus, ele jamais seria capaz de uma coisa dessas”, chegando absurdamente a questionar “pontos de vistas” e “verdades”. Porém, você superou as minhas péssimas expectativas sendo ainda mais escroto, por coisas que vi e/ou ouvi diretamente de ti.

Depois daquela noite de lucidez, eu levei na cara.

Me dei conta de queera incapaz de te suscitar qualquer coisa, quem diria “mudança”, independente do quanto eu desejasse.

Numa sociedade patriarcal e machista, apesar de toda revolta e frustraçāo, infelizmente a gente nāo se surpreende com algumas coisas. Mas, foi um soco no estômago ver essa sociedade personificada em você, ainda que nāo tenha agido assim comigo quando ainda existia um vínculo. Demorei a acreditar, eu precisava ver. Nāo queria sequer pensar na ideia de que você seria justamente o meu tipo certo de cara errado.

Absurdamente levando como MÁXIMA apenas um lado da história:

O que me diferenciava das outras mulheres? O que? Se tudo aquilo fosse verdade, o que faria você nāo agir da mesma forma comigo? Teria mudado? Particularmente, acredito com veemência na evolução do ser humano. E se tivesse mudado, ainda assim me feria como mulher. Pior: e se eu estivesse questionando, INJUSTAMENTE apontando o dedo e gritando algo tão pesado na cara do homem que me tinha com cuidado, que me amava. Jamais perdoaria a mim mesma por isso.

Porém, por questōes óbvias e razões infinitas, ainda que eu queira, nāo consigo responder a essas questões, pelo simples fato de você mesmo ignorar tudo, tratar com desdém e nāo questionar. Se limitar a escancarar o IMENSO desprezo que sentiu de mim ao te encurralar. Justamente por tanto, o pedregulho me feria também de outra forma. Me desculpa.

Sendo muito franca contigo. Felizmente, no decorrer do elo, você não foi nem um pouco parecido com o cara daquele relato. Vivi exatamente o extremo oposto, de modo que, até então, já após a ruptura, mas, ainda antes da noite de nitidez, me sentia incapaz de imaginar qualquer coisa naquele péssimo sentido e associar ao seu “eu”.

E eu nāo queria ser do tipo que joga fora ou cegamente acata a ideia do “as pessoas mudam”, “aprendem com o erro”. Tenho horror a qualquer coisa se distancie do meu ideal de justiça.

Nesse momento, eu quero ser tudo, menos injusta.

No entanto, com o advento da ruptura, descobri como se pode ser, ao mesmo tempo, o céu e o inferno de alguém. Você me fez seu monstro. Naquela noite, da lucidez, lembra?

Naquela noite, eu fui dilacerada e os golpes vinham de muitos lugares, quais eu sequer podia ver quem desferia… a minha mente me fazendo atrelar a culpa a qualquer outra pessoa que não a você.

Naqueles minutos, que foram fortes o suficiente a ponto de parecerem horas, eu vi um lado seu que eu não conhecia. Um homem que, para mim, não existia.

Não me fez mal fisicamente. Não fez nada do tipo. Mas nada apagará as coisas ditas. Eu jamais esquecerei cada grito, a voz rancorosa e a um rosto exalando desprezo.

Foi exatamente ali que eu percebi que ainda não havia conhecido todas a suas versões. Sobretudo, as ruins. Diante daquela sua versão, inevitavelmente, recordei cada minúcia do imenso pedregulho e seja lá o que for que me fez estancar aquela hemorragia, naquele momento, o sangue voltou a jorrar.

Sangrei novamente com um problema que, a principio, não era meu. Mas, pelo viés, pensando no posto que havia ocupado num passado nem um pouco distante, pelo sentimento que ainda pulsava em mim… reconhecendo que não o conheci integralmente e que sequer podia afirmar qualquer coisa sobre o seu antes, foi ali que memorei cada palavra daquele relato. Todos os sentimentos convertidos em nojo, desprezo.

Não faz ideia do quanto eu desejo estar completamente EQUIVOCADA nisso.

Aquela onda abalou a nossa estrutura, a minha confiança.

Espero que um dia aprenda a tratar bem todas as mulheres por realmente as respeitá-las, como ser, e não porque deseja algo em troca. A base para qualquer relaçāo humana é o respeito. Respeito. Respeito pela imagem, honra, corpo, pelo sentir.

Nāo importa o quāo você seja bom. Nāo importa o quanto você seja bacana para os seus amigos. Nāo importa se você é um cara bonito ou seja lá qual for os outros atributos que você tenha para se orgulhar. A partir do instante que você nāo respeita quem está com você (ainda que se trate de algo momentâneo), nāo me é interessante ficar com contigo.

Tudo isso faz eu me sentir suja e jogando todos os meus valores no lixo. Tive vontade de arrancar a minha pele.

Por respeito a mim.

Desculpa. Percebe? Ainda existe a balança, tenho um medo do caralho de se injusta, de acusar alguém de algo horrível e também de ser mais alguém, nessa sociedade podre, que não dá a mínima para os relatos.

E é um imenso pesar notar que tudo de mais puro, profundo, belo e imenso que pulsava em mim por ti, me renderam uma decepção desmedida com o seu “eu”.

A questão é que eu ainda me vejo presa entre duas constantes.

Aliás, juro que em instante algum ignorei, diminuí ou atribuí qualquer tipo de descrédito ou coisas do tipo quando diante de ambas as falas, confesso que, sobretudo, a das mulheres.

O problema é que nāo posso falar, afirmar, fazer qualquer juízo de valor, acusar ou acatar uma versão sobre algo que nāo vivi. Não me envolvia. Não dizia respeito a mim.

E eu nāo julgo se você, assim como elas, tiverem qualquer tipo de decepção ou crítica quanto a minha pessoa, por cuidado e respeito a si mesmos, nesse sentido.

Preciso que saiba que eu nāo quero ser hipócrita. E talvez eu esteja terrivelmente sendo.

Estou sendo super franca. Serena. Talvez, tentando justificar o injustificável.

Nāo sei se o que fiz agora é “ridículo”. Espero, de verdade, que nāo.

(…)

Janaina Couto ©
Publicado — 2020

@janacoutoj

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Atualizado em: Qui 17 Set 2020

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