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Ladeira Abaixo

Hoje eu fiz de novo. Quer dizer, isso parece não soar bem, mas não fiz nada proibido ou criminoso, ou sexualmente vergonhoso. Se quiser saber mesmo, eu apenas desci uma ladeira abaixo de bicicleta à toda velocidade e sem os pés nos pedais, como se fosse um louco, sem me importar se viria ou não algum carro pela esquina para me atingir. Isso foi um alívio. Quer dizer, não exatamente quando desci são e salvo; isso não me deixou muito feliz, mas fazer isso em si. Descer. Simplesmente agir sem nenhuma proteção, preocupação ou precaução (essas palavras se escrevem quase do mesmo jeito e no fundo, significam a mesma coisa). Tudo me aliviou, na verdade, e mesmo que se eu tivesse sido atingido, ainda me sentiria aliviado. Mesmo se eu tivesse me arrebentado todo no asfalto por ter vacilado no controle da bicicleta, ainda me sentiria aliviado. Sentiria como se as amarras se afrouxassem um pouco mais. Talvez me sentiria ainda mais aliviado se me atingissem, mas não quero me suicidar e nem sou masoquista, ou sou? Acho que quero quebrar a rotina que me prende a fazer todas as mesmas coisas repetitivas e corriqueiras esperando sentado e ofegante que sejam as decisões certas para minha vida.
Acertar é um tipo de peso que ainda seguro. Espero, então, que não me julguem. Não tenho por que mentir. Mas não me julguem. Estou fazendo todos os dias o que todas as pessoas que se importam comigo querem que eu faça: estudando, trabalhando aqui e acolá, rezando, lendo, assistindo, mexendo no meu celular. Agindo da melhor maneira possível em meio a um futuro comum para pessoas da minha idade e da minha classe. Não espero ser rico, mas também não quero viver na pobreza e na necessidade, ou mesmo na miséria como eu vejo nas ruas isso se repetir; simplesmente isso. Não sou nenhum anormal afinal, como sempre pensei que fosse, desde de que me lembro de viver entre as outras pessoas, com esse mesmo nome estranho que me deram. Pouco a pouco, parece que estou me misturando a tudo ao meu redor, mas... Não sei se quero viver assim para sempre, nem sei se conseguirei... Alguma hora todas as coisas estranhas que guardo comigo vão vir à tona e da pior maneira possível, como a espuma de um champanhe chacoalhado, manchando tudo ao seu alcance. Ou talvez a metáfora certa fosse um vulcão carregado de magma. Eu sei disso. Sei que vou estourar e lava bem quente vai sair de mim. Vou acabar machucando os outros como eles me machucam. Não adianta pedir ajuda. Só vão me julgar, entende? Mesmo que não digam nada; mesmo com ações gentis que se pareçam muito com alguma piedade, você consegue ler a desaprovação nos olhos delas. Viver como elas parece muito fácil e seguro; aparentemente tentar destruir as ligações profundas entre as pessoas que se conhecem a muito tempo é algo como tentar arrebentar um osso com uma almofada recheada de espuma, mas um único desvio no caminho e parece que todos os olhares tortos se direcionam a você. E você não sabe o que fazer para impedir isso, pois não adianta argumentar. O erro é seu e você tem que viver com isso. São esses pensamentos os que visto todos os dias, como um paletó surrado de tanta dor reprimida, quando me levanto da cama para um dia que não tenho certeza se vai ser novo; mas tenho dúvidas se consigo tirar esse mesmo paletó surrado quando me deito. Outros dias tenho certeza que não consigo.
É por isso que pego a bicicleta e desço a ladeira. Nem a bicicleta e nem a ladeira irão me julgar. Não vão tentar me rotular e dizer o que eu devo fazer. Eu apenas desço. Sinto o vento agradável e veloz no meu rosto, as mãos firmes, mas relaxadas, nos guidões, as pernas livres e retas apontadas para qualquer lugar, o tempo correndo em segundos e também um carro saindo da esq-
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Atualizado em: Seg 13 Jul 2020

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