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Catorze horas

Eu estou perdido em um mundo só meu enquanto os astros dançam no céu. O passar dos dias é estranho, cada pequeno movimento do tempo mostra a realidade em que estou preso, uma realidade só. O ócio é a norma e buscar no fundo do tédio, que virara regra, algum significado é o que me sobrou. Eu vejo a rua de minha casa quando me sento ao quintal, vejo o relógio contando os minutos e vejo minha desprezível inutilidade ser uma canção única para os meus ouvidos. Ninguém ouve a minha voz, mas quartzo vibra e os ponteiros deixam o seu som. Eu imagino, as vezes, que poderia cantar a música que vem do meu peito para alguém ao meu lado, como se todo o sentindo de existir é se ver no reflexo de olhos brilhantes. Até o momento mais inóspito de propósito parece uma jornada quando ao lado de outro ser. Uma conversa simples parece romper a prisão de só esperar o tempo passar; uma troca de palavras torna minha identidade algo, mas os momentos extensos desses meses são somente um memorando do estado puro do isolamento. Sorrisos me dão a vida, beijos me aquecem e abraços me dão importância no que é ser humano. A luz do sol sobre meu rostos e os leves sopros da brisa afastam a solidão, como se o mundo e a estrela próxima, de alguma forma, fossem meus companheiros íntimos enquanto meus semelhantes estão distantes. Nós não trocamos palavras, eles são estranhos significados, mas o tato entre nós me lembram do simples ser. Eu sou vida e, mesmo que sozinho, sou parte desse universo. Ele brinca comigo quando me sinto uma criança sem seus brinquedos. Se eu tenho o Deus-pai, quem mais eu precisaria? Se eu sou algo entre o vibrar do universo, por qual motivo busco o olhar de outro? Não sei. Mas sei que quando troco calor com alguém, sinto que dois universos se colidiram e o brilho de galáxias, não antes conhecidas, ofuscam minha visão e tornam única a presença de outro ser celestial. Devo somente aproveitar o entardecer enquanto a luz no horizonte se afasta e me dá sua benção ou devo embarcar em uma nave de prata para desbravar a alma dos que compartilham esse estado; a vida? A necessidade dessas respostas me move, mesmo sabendo que nunca irei alcança-las. O equilíbrio entre os mundos parece o caminho certo, ou melhor, o único caminho. Eu sou muito menos que o infinito do ser supremo, ao mesmo tempo que preciso das palavras dos anjos que me acompanham nessa viagem pelas nuvens que é ter um coração ainda pulsante. Nós somos parte do ser supremo. Eles são parte de tudo, eu sou tudo e eu somente contemplo ele, o todo. No fim, isso só é uma procura pelo sentir e eu não sei para onde os meus sentimentos me levam nesse terreno escuro e cheio de brilho. As lâmpadas estão acesas e em minha volta, assim como dentro de mim, mas eu ainda preciso aprender a não ter medo da luz.
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Atualizado em: Qua 1 Jul 2020

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