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[Desabafo] PRECISAR

Eu chorei.
Chorei mesmo, muito. Desmoronei. Pois essa foi a madrugada em que mais me senti incrivelmente sozinha. Sim, sozinha.
Pode parecer drama ou até mesmo clichê. Mas, juro que nunca fui tão sincera. Lamentavelmente, até então, não houve sequer um alguém que tenha sido fixado pelo meu “eu”. Sim, incrivelmente, eu chorei por causa disso. Só o universo sabe como eu desejei ter alguém comigo.
Apesar de reconhecer e saber distinguir muito bem o ser solteiro do ser sozinho, a linha é bem tênue. Sabe, acredito que se há vertentes da solidão. E, nessa gélida madrugada, me senti sozinha e digo isso quanto a uma dessas linhas.
Vez ou outra me pego pensando… me surpreendo por questionar quando e se realmente um dia, sem mais nem menos, de mansinho, irei me deparar com um alguém digno do título de “incrível” fascinado pelo meu “eu”.
Alguém que possa ser o meu refúgio e, sobretudo, para me fazer sentir, dessa forma, amada. Para me fazer acreditar que eu sou capaz de significar muito a ponto de ouvir aquele tipo de “eu amo você”.
Sou torturada pela espera de me deparar com alguém que me conheça do zero, e que justamente por enxergar a mim do jeitinho que eu sou, se cative.
Será que existirá esse alguém? Um humano falho, assim como eu, que descubra o melhor de mim e que não fuja quando se deparar com o meu pior?
Nesses dias frios, cogitei a hipótese de dividir as minhas idas à adoráveis Cafés nos dias frios.
Alguém que me ensine infindas coisas. Alguém que me floresça, que me desperte, que me permita sentir algo encantador e profundo... que me leve a descobrir essa forma de amor que tanto falam.
Tenho medo dessa gana incessantemente em sentir-se especial para um alguém signifique um excesso ou uma falta qual eu sei quer sou capaz de imaginar.
Bom. Não importa. A única convicção que tenho é de que é com esse alguém que eu quero passear na orla da praia de madrugada, ver o amanhecer, beijar na chuva e esquecer do resto do mundo.
Foi desejando tanto isso que nessa fria madrugada eu chorei. Não foi um choro de desabafo. Foi um choro de desejo.
Desejando tanto isso, me toquei que nunca vivencie nada perto disso, com ninguém, sequer uma mísera vez. Nunca me permiti.
Sempre priorizei “gastar” o meu tempo priorizando a mim mesma, fazendo “as minhas coisas”. Nunca fui do tipo que caçava companheirismo e muito menos que estava aberta e disposta a conhecer novas pessoas. Sempre pensei “não me darei o trabalho, tenho coisas mais importantes a se fazer”. Confesso, não raramente, de última hora desmarquei encontros para fazer qualquer outra “coisa minha”.
É claro, ao correr dos dias, conheci pessoas e tive alguns envolvimentos, mas tudo sem mais pretensões. Estou cansada de contatos efêmeros. Não gosto de coisas rasas.
No entanto, ainda assim, não me puno ou me arrependo disso. Sobretudo, quanto a outras vertentes de ser “sozinha”, eu gosto. Na realidade, não sou sozinha, sou independente. Tenho familiares e amigos, que aliás, amo de forma desmedida e por tê-los é hipocrisia alegar ser “sozinha”.
Não vou negar. Gosto do silêncio da minha casa e das disposições das minhas coisas. Amo a calmaria dos meus dias. Sinto imenso prazer em fazer tudo o que me der vontade de fazer à qualquer hora. Adoro fazer compras sozinha. Sou fascinada em ser vista como “bem resolvida”, pois acredito que sou. Sempre eu e eu. Independência, em muitos sentidos.
Nunca fiquei imersa na ideia de dividir os meus dias, a minha rotina, com um outro alguém. Nesta madrugada, foi a primeira vez que isto me ocorreu. Fiquei assustada.
É estranho a firmar, mesmo desejando companhia, naquela forma especifica de amor, ninguém em veio à mente. Não pensei em qualquer pessoa especial. A sensação não foi boa, acabei somente por confirmar que todos os meus contatos foram irrisórios. Chega a ser previsível. Não consegui, chorei.
Naquela noite imaginei cada momento que ainda não vivenciei. Acredito que justamente por reconhecer a minha intensidade, jamais me permiti mergulhar em “qualquer pessoa”. Talvez, tenha sempre se tratado de uma espécie de “cautela” para se evitar desilusões, desconstruções do meu eu e, principalmente, a perda da minha essência para mantença de relações vazias movida por uma dependência emocional doentia. Não sei, simplesmente não sei.
Sim, foi imaginando como gestos e momentos simples para alguns amantes, poderiam ter em algum lugar no tempo significado um “universo” para mim.
Confesso, anseio sentir o gostinho de cada momento ao lado do meu [futuro e ainda desconhecido] amor. O gostinho da brisa da manhã, da chuva que molha e congela o dedinho do pé - me fazendo estremecer-, do abraço com aconchego de casa e outros sabores e até mesmo, quem sabe, cruciais dissabores.
O anseio de ter alguém aqui e por mim, nesta madrugada, chegou a ser invasivo.
Reconheço que anseio sim alguém, mas não pra me fazer sentir inteira. Inteira eu já sou. Anseio alguém que transborde comigo.
Há um vazio. E estranhamente há algo de belo no vazio. E esse vazio a ser preenchido tem haver com paixão. Não com as formas de amor que já sinto, convivo e conheço muito bem. Felizmente, as caixinhas dessas formas de amor estão completas, mas a desse outro tipo de amor, atrelado à paixão, não.
A caixinha desse amor está empoeirada por fora, mas ainda com cheirinho de novo por dentro. Esta foi a noite em que mais ansiei que ela estivesse preenchida.
Ela não está. Não está preenchida e a culpa não é minha. Sequer há que se pensar em culpa. Prefiro apontar o dedo e dizer que tudo está nas mãos do destino, assim, me livrando de todo e qualquer pesar nesse sentido.
Sabe, eu já me apaixonei, de forma intensa, mas a minha intensidade não foi capaz de acender sequer uma pequena chama no outro, acredito eu. No mais, confesso, também não “lutei” por isso. Aliás, essa ideia de lutar por essa forma de amor me desagrada. Tenho a percepção de que ele deve ser manso.
A minha caixinha vazia sempre esteve pronta para guardar fotografias e canções sobre momentos intensos. Momentos como a sensação da brisa da manhã ou o friozinho da chuva ao lado do meu amor. Amor esse que ainda não encontrei.
Amor que não fui capaz de despertar em sequer um único alguém.
Eu chorei. Chorei porque me senti desprezivelmente insuficiente. Chorei porque me senti incapaz de suscitar a vontade em alguém de ficar. Me senti incapaz de ser, dessa forma, amada.
Francamente, a ideia de “ser sozinha”, me assombra. Temo a solidão, nos exatos termos da palavra. Porém, acredito que ela me assusta justamente pelo fato de que, se tratando de futuro, imagino-me em qualquer circunstância exatamente como o agora. Apenas comigo mesma.
Sabe, valorizo tanto o “sentir”, as conexões humanas. A essência da vida é pautada, para mim, em quem sou e na troca que tenho com as outras pessoas, especialmente, os receptores de toda a imensidão do que sinto. É por valorizar isso que me intimida cogitar os dias que estão por vir sem uma companhia para desfrutar a continuidade da vida.
Confesso, gosto muito, mas estou cansada da monotonia dos meus dias. Desejo fervorosamente alguém para me proporcionar picos dos sentimentos e sensações incríveis. Claro, sei que não dependo de alguém para tanto. Mas, independente de qualquer coisa, é a minha vontade agora, ter com quem compartilhar esses momentos.
Claro, chorei ainda mais por me negar a acreditar que isso foi capaz de me levar aos prantos. Me senti ridiculamente com doze anos. Eis mais uma coisa que me espanta, alguns instantes tenho doze, outrora 30 e, boa parte do tempo, os meus 18 anos.
Ultimamente, tenho me desmanchado em muitos sentidos. Me faço e me desfaço. Não sei quando isso vai cessar, muito menos tenho ideia do que possa significar. Chorar tem sido algo corriqueiro.
Por fim, sobretudo, nesta madrugada, eu chorei de forma desmedida.
Chorei porque eu precisava do amor.
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Atualizado em: Seg 29 Jun 2020

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