person_outline



search

Meio-fio

Você estava sentada na beira da calçada e parecia comigo. Todo mundo no primeiro olhar já sabia que essa calçada era sua casa. Moramos tanto tempo sobre o mesmo teto sem nos conhecer, mas um dia, finalmente, isso aconteceu. Eu me aproximei e ofereci companhia, afinal, era madrugada e você estava sozinha, parecia estar com frio, então te ofereci meu cobertor. Conversamos um pouco, na realidade, conversamos muito, afinal, nossas histórias eram parecidas. Saímos de casa por medo, por não sentirmos que éramos alguém, por só trazer sofrimento, por só sermos lembrados como o amigo ou primo que se perdeu. Nossos pais não sabiam muito o que fazer conosco, então tentamos liberta-los do que éramos. Nós falamos da possibilidade de eles ainda nos procurarem, mas disse que esse sofrimento é menor que o deles nos vendo definhando todos os dias. Eu sempre achei que fiz o certo, você tinha suas dúvidas. Dividir o cobertor foi um segundo especial, sentir o calor de alguém por um momento depois de tanto tempo parecia um mundo novo, parecia que eu, finalmente, me sentia vivo. A rua nos deixou magros, a companhia que ela nos deu foi a fome. Depois desse dia, começamos a conviver, começamos a existir. Uma pessoa no mundo via minha existência com carinho, não com mágoa ou dor. Eu nunca falei da minha gratidão a ela por esse sentimento, mas acho que ela sabia. Faziamos bem um pro outro, era divertido rir de suas piadas nos fim de tarde, mesmo que quem estivesse andando a nossa volta achasse que estivéssemos loucos ou fumando crack. Eu já fumei, me arrependo, mas pouco importa. Eu senti, depois de muito tempo, o que era amar alguém. Você parecia o reflexo da luz, você era meu abrigo na vida sem posses, você foi tudo que eu tive, a primeira coisa comigo em anos. Nós nos falamos nossos nomes completos, nossas histórias, compartilhamos o nosso viver pelos dias. Sentamos por escadarias, bebemos garrafas de 4 reais, recebemos marmitas, nossa, como esses dias eram maravilhosos, mas então, tudo simplesmente acabou. Eu odeio ter memória desse dia, eu odeio não poder ter te salvado quando nos atacaram. Eu não sei quem eram, eu não lembro de seus rostos. Eu lembro do cheiro quando você começou a pegar fogo, eu lembro da sensação dos dois homens me segurando com força enquanto desejavam que eu olhasse aquilo, só ouvindo o meu constante grito, só sentindo meu desespero. Eu vi você retorcer enquanto riam. Você era minha única família, você me fez sentir uma chama de vida em mim, mas eu vi, em chamas, o seu fim. Uma hora tudo isso acabou, apareceu um resgate, alguém passando de carro pela rua pouco movimentada deve ter ligado, e eu te acompanhei, ainda viva. Com seu nome completo, consegui, com ajuda de terceiros, achar sua família enquanto você ainda estava no hospital. Acho que fui injusto com eles, mas também acho que você pode ver os olhos deles antes de se despedir dessa vida. Não sei como você se sentiu, mas você estava rodeada daquele sentimento esquecido, amor. Eles te amavam e te davam carinho, te lembravam da sensação de quando você era uma criança e ralava o joelho jogando bola. Lembro que você me disse que gostava muito mesmo que os garotos odiassem estar no seu time. Eu ficava esperando na calçada na frente do hospital e lembrava como conheci você em um lugar como aquele. Eu vivi ao seu lado, minha companheira de breves meses. Uma parte de mim morreu quando me contaram que você tinha partido, acho que a mesma parte que tinha voltado a vida quando você surgiu. Seus pais me perguntaram muito sobre você, me arrumaram um motel pra tomar banho e umas roupas para ir ao seu velório. Foi na sua cidade natal. Você estava linda, com um vestido azul e cercada de girassóis. Seus últimos anos não foram rodeados de flores, eu tentei ser o melhor pra você, não sei se consegui, mas eu estou aqui. Eu acho que sou como as flores a sua volta agora, eu estive olhando para você enquanto você brilhava nos momentos difíceis, que eram o tempo todo, ao meu lado. Você era minha estrela perdida, que me dava calor até nos dias de inverno escondida no céu infinito. De qualquer forma, foi bom dizer adeus a você, amiga. Seus pais querem me ajudar um pouco, acho que a retomar minha vida "normal", mas não sei como reagir a isso. Eu só queria dizer obrigado. O futuro provavelmente vai me fazer chorar quando eu pisar em uma calçada, não sabendo como caminhar sozinho novamente. Pouco importa, eu acho que você ainda vive dentro de mim.
Não se esqueça de mim aí onde você estiver, um dia eu vou chegar. Eu prometi pra você, você nunca mais vai ficar sozinha. Eu juro, todo dia você vai estar viva em meus sonhos. Você foi um sonho curto, mas uma memória perpétua. Eu preciso parar de falar. Eu estou aqui, sentado numa calçada de novo esperando dar o horário de uma entrevista de emprego. Eu acho que você também foi o início do novo sonho que vai se tornar minha vida após esses anos. Deu a hora, estou indo.
Pin It
Atualizado em: Seg 29 Jun 2020

Deixe seu comentário
É preciso estar "logado".

Curtir no Facebook

Autores.com.br
Curitiba - PR

webmaster@number1.com.br

whatsapp  WhatsApp  (41) 99115-5222