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[Roteiros] DESPREZO

Não sei explicar, eu me sinto pequena e frágil diante de ti. E o incrível que isso é só perto de ti. É ridiculamente insano. Acontece, sobretudo, quando estamos a sós.

Em qualquer outro momento eu me sinto forte (e sou), uma mulher inteligente, sedutora… Mas, quando estou contigo, me sinto ridiculamente com doze anos. Extremamente frágil e buscando não só a sua proteção, mas estranhamente também aprovação. É insano. Me vejo numa ânsia em te ver reconhecer, mesmo, “quem eu sou”.

Não me interprete mal. Não quero ser maior ou melhor que você (sequer sei quais palavras usar). Não se trata disso. Aliás, repudio totalmente essas ideias. A questão é que eu me sinto, sobretudo, “insuficiente para você”, acredito que se trate disso…

Ainda que você diga “tudo” o que vê em mim e o quanto me acha “foda”, suas falas, posicionamentos e risos me fazem sentir algo no extremo oposto.

Deve ser porque quer controlar a altura da minha voz, o meu jeito de se portar, o tom da minha fala… deve ser porque não suporta a minha simpatia “exagerada”, o meu caminhar “chamando atenção”, os meus posicionamentos (principalmente políticos) “desnecessários”…

Você momento me endeusa e em outros instantes age com completo desdém e quer mudar minúcias em mim a qualquer custo. Deve ser por isso que quando estou ao seu lado, sem querer, a deusa viril que habita em mim se vai. Em questão de segundos em me sinto uma criança com doze anos que ainda não foi beijada e anseia com receio por isso.

Talvez seja essa sua necessidade em se fazer grande, você quer brilhar e brilha, enquanto ridiculamente me ofusca.

É estranho. Quando estamos diante de outros, você tem uma ridícula necessidade em me “mostrar”, como se eu fosse uma espécie de prêmio. Me idolatra. Age como se tivesse um puta orgulho por estarmos juntos, principalmente pela nossa “troca”. Isso seria ótimo se perdurasse a todo instante e não somente quando diante do olhar alheio.

Quando estamos só eu e você, não são raras as vezes que por toda e qualquer coisinha quanto a mim, que o desagrada, solta frases como “eu me doou demais para não receber conforto”, “você deveria fazer isso e aquilo, como eu”, “não está bom para mim”, “aquela pessoa agia assim, você não faz isso e me magoa”, “não sei porquê continua nisto, ninguém liga”.

Isso acontece até mesmo quanto as coisas mais banais. Da última vez, fiquei surpresa, reclamou da minha mania em entrelaçar os dedos no cabelo, soltar e prender, disse que faço isso “só para chamar atenção” e deveria parar. Sempre há um problema em mim.

Como se não bastasse, resmunga quando eu satirizo tudo e digo abertamente o que penso sobre os seus comentários e como me sinto diante deles. Me murcha, corta a minha onda, cessa todo o meu clima. E, depois de tudo, ainda se atreve em questionar o porquê da minha mudança de humor.

Isso nem é o principal. Tem instantes que tudo isso é ainda mais saliente e podre. Acontece quando diz coisas como “você é individualista, só vou agir de acordo”, “não presta atenção em mim”, “olha o que eu deixei por você”, “sempre descarto uma série de coisas para estar contigo e você ignora isso”, “se você não vem, vou arranjar outra pessoa como companhia”.

E sabe porquê é podre? Eu penso mais em ti do que em mim mesma. Justamente por gostar de você, algo me move a tentar de agradar. Não há nada que eu faça que o meu pensamento não caia em você. Te coloco num pedestal e ainda assim, toda a minha doação é insuficiente. Você não a vê.

Sobretudo, eu mesma não consigo entender… Você não diz, mas me põe como insuficiente.

Vivo atormentada pelo desprezo e o prazer em tê-lo comigo. Sinto o mundo por você (sequer sei apontar o princípio ou razões, simplesmente sinto). Mas, não estou vendada, estou sempre muito consciente de tudo e é justamente por isso que a criança de doze anos que ânsia com receio pela primeira aventura amorosa, me invade quando estou contigo.

Você não quer uma companheira, tu deseja uma mulher “bem vista” ou com uma espécie de “moral”,” “status”, alguém vista como uma espécie de “prêmio” para rastejar por você. Beijar o chão que você pisa. Ser emocionalmente, psicologicamente e fisicamente submissa. Isso te deixa louco.

Você tem uma gana doentia em impor e sente prazer ao ver o outro ceder. Este é o imbróglio entre nós. A minha resistência ao ceder.

Acredito que pela minha resistência, ainda que em muitos momentos eu me sinta “insuficiente”, você diz coisas como “não vejo o seu sentir”, “você não se importa comigo”, “você me dá motivos para desconfiar”.

Daí surge a parte mais desafiadora e incisiva, a minha sensação constante de que preciso provar que estou com você. Não importa o quanto eu diga, fale, faça… és inseguro quanto a mim. Eu sou integralmente pura, nua e crua. Fizemos um pacto, lembra? Eu o sigo a risca.

Entramos em outra vertente do problema que arremata com todo o já exposto. A sua segurança, quanto a mim, está condicionada em eu escancarar para todos, gritar para o mundo e “mostrar” o quanto eu sou realizada por estarmos juntos. Isso não é do meu eu.

Você tem uma gana em escancarar e literalmente mostrar aos outros que está ao meu lado. Na realidade, tem uma sede doentia em me ver te idolatrar e que os outros percebam o quão estou entrelaçada emocionalmente a ti.

Sim, eu estou insanamente apaixonada por você. A minha doação, entrega, o meu sentir e, sobretudo, o respeito pelo nosso vínculo eu não tenho que provar para ninguém, muito menos especular. É o nosso vínculo e é completamente insignificante os pensamentos e/ou apontamos de terceiros sobre. Eu só preciso e desejo que somente você perceba isso.

Você é a minha cobiça. Tenho imenso tesão ao pensar que és “o meu homem” (ainda que eu reconheça o peso dessa frase). Sim, eu te faço grande. Você deveria perceber e se sentir confortável ao invés de simplesmente se importar em mostrar isso aos outros

Mesmo vendo tudo isso. Ainda assim, eu persisto. Tenho uma esperança em te ver reconhecer que pode ser completamente tranquilo quanto a mim. Que independe de tudo, o meu sentir pertence a ti. Não faz ideia do quanto eu valorizo e sou fiel ao que sinto.

No entanto, apesar de tudo o que eu expûs, o mais difícil de engolir, lidar, suportar… é reconhecer que toda essa insegurança, receio, temor… possuem uma raiz e ela não está em mim.

Você adora isso… se sentir grande e,principalmente, eu te ver grande. Pois, sabe que assim temerei “te deixar”. Você mesmo pode pormenorizar todos os motivos que eu teria para tanto e tenta omiti-los.

Não é só frustrante ou decepcionante. Corta ter certeza que eu estou entregue para ti como jamais esteve para mim.

No fundo, esse seu desejo em vigiar os meus passos e cobrar (sem necessidade) uma a série de coisas é justamente porque teme que eu aja da mesmíssima forma que você.

Tem um receio do caralho que eu dissimule, assim como faz.

Nenhuma das vezes que eu proferi aquela frase foi em vão. Aliás, el se tornou corriqueira, enquanto eu faria o impossível para ter não sentido necessidade eu proferi-la nem mesmo uma única vez.

“Eu sempre estou muito consciente sobre tudo. Você pensa que me engana e eu finjo que acredito”.

Por isso sempre detestei sua desconfiança injustificada quanto a mim. Eu não sou como você. Não mesmo.

Ao menos, eu tenho plena ciência de que sempre tento agir da melhor maneira possível, da maneira que eu quero agir, para o meu próprio bem emocional, psicológico. Livre do pesar do ressentimento alheio. Sou incapaz de agir para com outro da forma que repudio agirem quanto a mim.

Sabe, era disso que eu falava… sempre me diz coisas como “você nāo age de acordo, parece que nāo está comigo” e, ainda que eu contrarie, você joga no lixo. Como se a minha entrega (literal) precisasse ser ainda mais evidente.

No final das contas, sāo nas coisas nāo vistas que isso se demonstra, a entrega, o valor e a importância quanto ao outro. O respeito ao vínculo.

Eu nāo preciso provar nada… Entende? Nunca precisei.

Por estar muito consciente de tudo, eu prometi a mim mesma que nāo ia nunca mais te implorar confiança e muito menos tentar provar qualquer coisa.

Aliás, nāo estou discutindo. Só mostrando o que você parece nāo ver.

— Não quero mais falar disso.

Nem eu.

— Então para.

Mas, sei lá. Eu precisava jogar na cara. Tudo isso estava engasgado. Eu sou nua e crua. O tempo todo. Isso é assustador.

— É, eu sei muito bem disso.

— Está trabalhando?

Estava, mas aí a minha mente ficou ocupada com isso aqui…

Estive pensando… sabe, eu sou o bilhete dourado. Mas, você só vê preto e branco.


Janaina Couto ©
Publicado — 2020

@janacoutoj

[PS. Não se trata de um relato pessoal. Mas, confesso que é um imenso pesar reconhecer que o meu texto foi lapidado sob um apanhado de relatos de pessoas queridas que estão ao meu entorno.
Ainda que mesmo nas coisas mais sutis possamos constatar algo a se repudiar e imediatamente afastar-se, não raramente, horrivelmente, isso acontece apenas quando se tornam salientes.]

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Atualizado em: Dom 28 Jun 2020

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