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Eu sou a número 7

      A lua brilhante que ilumina o céu de Minas Gerais engrandece meus pensamentos mais sensuais. A imaginação que flutua solta entre suspiros e gemidos satisfaz meus desejos por enquanto. Uma combinação perfeita de feriado prolongado com vinho tinto e musica clássica. Uma mulher sozinha aos 33 anos precisa agradar-se ou estou errada? Quisera eu estar acompanhada em plena sexta-feira, mas infelizmente meus dedos macios é o que me resta.
Sento no sofá vermelho do meu apartamento novo. Olho fixamente para o relógio pendurado na parede da sala. O ponteiro maior marca duas horas da manhã. Deito com a cabeça na almofada confortável e cochilo por alguns minutos. A sensação de tranquilidade após dias conturbados no trabalho é interrompida por um grito de socorro.
    Ouço os vizinhos abrindo suas portas e corro até a minha. Lentamente engatilho a chave no buraco e giro a maçaneta. Dois tiros são disparados logo em seguida silenciando o desespero da pobre mulher. Fico congelada de medo. Dou três passos para fora e inclino meu pescoço em direção ao corredor. O sangue de Juliana Moretti escorre no chão de mármore enquanto o namorado ciumento foge pelas escadas de emergência.
Direciono meu corpo trêmulo até a vítima. Seguro sua mão pálida. A face de arrependimento transborda pelas lágrimas que caem de seus olhos azuis. Nada mais podia ser feito além de esperar pela ambulância. Os minutos finais assistidos por todos ali presentes trariam uma cena de horror e sofrimento que eu jamais esqueceria. Ela estava morta.
- Boa noite, Valéria. Sou o Delegado Rogério, preciso pegar seu depoimento sobre o crime cometido ontem. Podemos conversar?
- Claro. O que deseja saber?
- Você conhecia ou tinha contato com a vítima?
- Não, mal nos falávamos. Somente nos cumprimentávamos.
- E sobre o acusado? Consegue descrever algo?
- Não. Nunca o vi. Nem sabia que ela estava com alguém. Mas e as câmeras do prédio? Não ajudam na investigação?
- Infelizmente estavam desligadas. Não temos uma foto dele. Estamos procurando um fantasma.
- Que pena. Não poderei ajudar. Mas se descobrir algo te aviso. Tem um contato para que eu possa ligar?
- Sim. Esse é o meu cartão. Obrigada pela ajuda mesmo assim. Uma Boa noite!
*******************
   Episódios como esse são difíceis de esquecer, minha memória perturbada transformava as noites de sono em um verdadeiro pesadelo noturno. Mesmo após um ano do ocorrido e diversas conversas com a psicóloga, Dra. Janaina Pillar, nenhuma melhora estava ocorrendo em minhas crises de pânico.
Mas a vida é cheia de surpresas e nesse meio tempo entre o passado e um futuro incerto eu acabei conhecendo o meu atual namorado, o incrível médico cardiologista Roberto de Ávila. Sua conversa elegante, fina e sofisticada encantaram a minha frágil situação emocional. Uma boa risada e duas horas de cerveja em um bar de esquina foram suficientes para abrir o meu coração.

Nunca achei que um aplicativo de celular para encontros resultaria em um romance ardente como o nosso. E exatamente hoje, o dia oito de outubro de dois mil de dezenove, comemoraríamos nosso sexto mês de relacionamento em uma viagem romântica para Monte Verde.

- Boa noite meu querido. Já está chegando?
- Boa noite Beatriz Gonçalves! Minha bela amada. Sim estou te esperando aqui em baixo. Pode descer. Não se esqueça de deixar seu celular em casa. Seremos apenas você e eu.
- Nossa, que ciumento! Fique tranquilo, levarei minhas malas e documentos, nada mais.
- Perfeito. Esse final de semana será inesquecível.
*******************
    O caminho até o meu destino final foi estranho e me deixou nervosa durante quase todo o percurso. Ele não falava muito. Estava com uma cara fechada e inquieta ao mesmo tempo. Ouvimos músicas para distrair e paramos para comer em um posto de gasolina. Depois de quase 8 horas de estradas e curvas sinuosas chegaríamos a Pousada Vale das Oliveiras.
Decidimos, por estarmos cansados, optar pelo café da manhã em nosso quarto luxuoso. As toalhas brancas em formato de cisnes, rosas vermelhas em cima da cama, uma banheira relaxante e uma vista para as montanhas enriqueciam o clima novamente. Era para tudo acontecer de forma simples, harmoniosa e pura, porém infelizmente o destino traiçoeiro traçava um plano maquiavélico para mim.
O sexo frio sem amor, as palavras de baixo calão e insultos jamais citados antes estremeciam minhas pernas bambas. Quem de fato era o homem deitado ao meu lado? O que eu sentia era nojo. Uma repulsa misturada com ódio e indignação. Estávamos a menos de quarenta minutos hospedados e eu já queria ir embora. Quem ele achava que eu era? Perguntas surgiam em minha cabeça enquanto ele me olhava de forma cruel.
- O que está acontecendo? Posso saber?
- Eu apenas estou relaxando.
- Mas eu te fiz algo? Está me tratando mal desde a hora que saímos. Não estou te reconhecendo mais.
- Sério? Ainda me pergunta? Posso esclarecer os meus sentimentos, mas você não vai gostar.
- Como assim? Eu quero saber!
- Não sou quem você pensa. Tenho gostos peculiares. Sou controlador, possessivo e violento, minha diversão é caçar vítimas dominá-las e matá-las. E adivinha quem caiu na minha armadilha virtual?
- Não estou entendendo. Você está me assustando.
- Que bom, adoro esse impacto. Lembra-se da Juliana? Sua vizinha gostosa?
- Meu Deus... Não me diga que...
- Sim. Sou eu o assassino dela. Que sorte a minha hein?
- Por favor, me deixei ir. Não contarei a ninguém sobre nós. Eu quero viver...
- Não sou de deixar minhas presas escaparem.
- Tire as mãos de mim. Eu não fui nada para você?
- Você é a número sete.
*******************
   Gritos de socorro foram ouvidos pelos turistas que nadavam na piscina aquecida. Uma jovem esfaqueada lutava por sua vida enquanto seu serial killer fugia por entre as matas. A querida Olívia, recém-casada, segurava as mãos da pobre moça que aguardava a ambulância aos prantos. Um tumulto logo se formou. A cena se repetia, contudo dessa vez o desfecho seria diferente.
- Quero te dizer algo...
- Poupe suas forças, logo ficara boa!
- Eu sei que vou morrer. Pegue minha bolsa, por favor.
- O que quer dela?
- Um cartão do delegado Rogério, diga a ele que tenho uma única foto do assassino que ele tanto procura!
- Não diga mais nada, eles já estão chegando.
- Prometa que irá ligar e mandar a foto! Esse é o meu último pedido para você.
- Tudo bem. Qual é a sua senha?
- 570036. Está salvo nas minhas imagens. Um homem alto de cabelos loiros, olhos azuis e pele branca.
- Eu achei, prometo que envio para ele. Por favor, aguente mais um pouco!
- Obrigada. Sua atitude salvará outras mulheres.

   Ao fechar seus olhos a nossa protagonista desse conto sentiu-se em paz. Ela sabia que sua morte não seria em vão. Sua história sairia em jornais e noticiários de todo o mundo como sendo a última vítima de Ávila. Uma verdadeira heroína que levou um dos maiores assassinos do Brasil para a cadeia.

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Atualizado em: Dom 21 Jun 2020

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