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[Roteiros] CONTRADIÇÃO

[…]


19h05

— O que você quer comigo?

— Como assim? O que você quer saber afinal?

— Quero saber o que você quer comigo.

— O que você quer comigo?

— Não vou ficar nesse joguinho. Se continuar eu vou sair fora. Sinceridade, o que eu sou pra você? Gosta de mim de outra maneira?

— Fala sério, você sabe.

— Você nunca disse.

— Você quem faz o joguinho. Quer me ver falar pela enésima vez a mesma coisa pra eu ouvir que você é incapaz de sentir o mínimo.

— O que você quer comigo?

— Vendo de longe, sabe o que parece? Que você tem medo, seja por gostar ou por não gostar, uma das duas coisas e por isso quer se afastar de mim. Tem a necessidade de saber se o que eu sinto permanece para tomar alguma decisão. Ao invés de perguntar o que eu quero, fala de uma vez o que você quer, independente do que eu tenha a responder (alias, você já sabe mesmo).


20h10

— Não vai responder nada do que eu falei? Não vai falar mais nada? Por que me conduz a conversas que não levam a lugar nenhum? Você entra no assunto e foge dele.

— Eu te fiz uma pergunta e estou esperando uma resposta.

— E depois que eu responder a mesma coisa você vai fazer o que?

— Não sei qual é a resposta.

— Está esperando o que? Que eu me declare? Que eu fale NOVAMENTE que gosto de uma pessoa que se diz incapaz de sentir o mínimo? Caramba. Quer que eu responda o que eu quero de uma pessoa que nāo sente nada por mim e que, aliás, disse querer se afastar? Apesar de tudo, independente do que eu sinta, felizmente, prezo pela reciprocidade.

— É recíproco em partes. Quis me afastar porque acredito não seria bom para você estar comigo. Só isso. Não há nenhum mistério.

— “Em partes”???

— Sim.

— Explica.

— Gosto de você. Você é totalmente diferente de todas as outras mulheres que conheço ou já conheci… em muito sentidos. Você é peculiar, de um jeito maravilhoso. E é óbvio que eu queria ficar contigo. Mas, infelizmente, eu me conheço o suficiente, por uma série de coisas, acho que não daria certo. Isso sem contar que estou muito longe.

— Não entendi como isso justifica o “em partes”? No sentido literal de “ficar”?

— Ficar com você, estar com você.

— Isso é muito relativo. E por qual razão falou aquilo pra mim? Que não sabia o que era sentir nada por ninguém?

— Porque eu sinto bloqueio em me entregar, tenho temor em me machucar… acredito que por isso acabo isentando tudo na minha mente.

— E você não se sente mal percebendo que falando aquilo você pode magoar alguém?

— Mas é melhor do que não dizer.

— Então está confirmando ?

— Na realidade, eu sinto. Mas, tento não sentir.

— Por que? Pra que?

— Porque sim.

— O que isso te trás? Não faz sentido algum para mim. Sem sentir, você nada mais é do que um corpo que um dia vai apodrecer. Sentir é uma das poucas coisas que nos diferencia das coisas inanimadas.

— É conforto para mim. Não me entregar para alguém, impede que a pessoa tenha “controle” do que eu sinto. Quando o nosso controle emocional é pautado em alguém, isso normalmente dói. Para me entregar, eu tenho que confiar bastante. Sem contar que, se tratando de eu e você, somos pessoas incrivelmente diferentes e com gênios difíceis, não sei como lidaríamos. Somos amigos e ainda assim com um bom histórico de desavenças. Nesse novo vínculo, tenho medo de quem eu seria para você nos meus dias/momentos ruins.

— Você e sua velha mania de “constatar um problema antecipadamente”. É complicado pensar em algo que não se vivenciou. Eu não tenho muito o que dizer a respeito. É o que é, as coisas não são como a gente quer, nem tudo pode ser perfeito. As pessoas se adaptam as coisas ou abrem mão delas. Eu quero resolver isso. Estou cansada de um assunto que não chega a lugar nenhum.

— Okay.

— Agora me responde.

— O que?

— Por que me falar isso agora? Por que por isso em pauta só agora?

— Porque eu senti que precisava. Sobretudo, porque eu senti sua falta.

— Então, se deu conta disso há pouco tempo?

— Não. Eu só senti com mais força, mais intensificado… Eu quero ser uma pessoa melhor, primeiramente para mim mesmo… só assim conseguirei ser uma boa pessoa para um outro alguém. Tenho dificuldade em lidar com emoções, já estive sob dependência emocional e agi de maneiras nada legais, fui alguém que não gostei.

— Todos correm esse risco. Aliás, sobre controle emocional, isso depende tanto da pessoa e até mesmo de você. Não é algo previsível e muito menos algo que possamos ter controle.

— Por isso eu preciso confiar muito.

— Todo mundo precisa. Não tem como se relacionar com alguém se não há sequer confiança. E apesar disso se ganhar com o tempo, precisa-se dar um voto. Relacionamento é uma coisa complexa, ninguém conhece o outro integralmente antes disso. A gente amadurece nesse sentido… Reconhece defeitos e qualidades. Ninguém está preso a ninguém, ainda que exista controle e/ou dependência emocional. A coisa perdura enquanto sentido faz.

— Isso só fez eu querer me afastar. Não quero que perdure por estar fazendo sentido ou não. Quero que seja um laço forte. “Ninguém larga ninguém em nenhum momento”, entende?

— Óbvio. Todos querem isso. Lembra da nossa última conversa, no recanto? Quando digo sobre “fazer sentido”, é aquilo…

— Lembro. Recordo principalmente dos conselhos que demos um ao outro. Mas, geralmente é assim. Damos conselhos que nem nós seguimos. Porém, que servem de grande utilidade para quem tá ouvindo.

— Bom, retornando ao cerne da conversa, por que não falou antes? Por que me ouviu dizer novamente o que eu sentia e me deixou num calabouço emocional pelo seu silêncio? Sem contar que antes já havia deixado subentendido que via diferente o nosso vínculo e justamente por isso eu trouxe a tona a mesma coisa.

— Porque eu não quis. Não me senti seguro. Me apavorou, pois me fez encarar tudo o que pulsa em mim e eu estava ignorando. Num imediatismo cego, te mandei aquela “carta” sobre se afastar.

— Percebi.

— Nesses dias, sentiu saudade?

— Na verdade, eu fiquei revoltada. Te achei um tremendo hipócrita. Afinal, havia dito o que eu significava para ti, pra depois dizer que era incapaz de sentir o mínimo. Me vi enganada e detestei. Comigo é o seguinte “me magoa com a verdade, independente do que seja; mas, nāo mente pra mim, não esconde, não engana”.

— Então não sentiu saudade?

— Senti, confesso. Bom enfim… e qual é a conclusão de tudo isso?

— Nada.

— Pois é, nada, novamente.

— O que quer concluir?

— O que vai ser? Vai se afastar? Vai fazer o que? Qual foi seu intuito em me perguntar aquilo? Por qual razão me contou que mentiu e ainda explicou o porquê?

— (…) Podemos marcar de conversar pessoalmente amanhã, você sabe onde… às 21h00, como sempre.


[…]


21h35

— Estou revoltada contigo. Não entendo essa sua saudade. Ansiei o dia todo querendo te ver, para esclarecermos aquele assunto importante, para você agir daquela maneira. Muito obrigada. Muito obrigada mesmo.

— O que eu fiz? Você mudou os planos. A gente marcou 21h00 e você não estava lá. Quando te liguei, já estava quase indo para casa.

— Ás 21h10 eu estava lá. Eu te vi, falei com você e quis ir pro local combinado, enquanto você virou pra mim e disse “tem 5 minutos, fala o que tem pra falar’.

— Não distorce.

— Eu não fui literal. Não faz isso comigo… fazendo eu me arrepender em sentir saudade. Eu queria que fosse como das outras vezes… a gente sentar e conversar, dar risada, se abraçar e tudo mais. Você não quis. Mais de um mês sem se ver… eu tinha tanta coisa pra falar. Eu sei que as coisas saíram do planejado. Mas, no final das contas, eu estava lá e quis estar lá.

— Não quero discutir, não há necessidade. Você sabe por qual razão fui embora.

— Eu não vi necessidade. Só consegui perceber falta de respeito e desdém comigo. (…) Tudo bem. Hoje, já implorei o suficiente para ser ouvida.

— Você não pensa da mesma forma. Você nem olhou na minha cara. Senti indiferença.

— Olhei sim. Não diga que não. Aliás, eu fiz um escândalo para você não ir embora. Me senti super infantil e realmente fui.

— Na próxima, espera no local marcado e da forma que combinamos.

— Pra você agir da mesma forma quando qualquer coisinha sair do planejado? Você saiu andando e me deixou falando sozinha. Ninguém nunca fez isso comigo. Eu estou me sentindo péssima e com raiva, claro. Não tinha necessidade de nada daquilo. Era muito simples, a coisa acontecia, você me falava depois o quanto e o porquê de ter ficado chateado e, em seguida, eu explicava o que houve. Você deseja tudo à sua maneira, só se satisfaz quando ocorre do seu jeito… basta uma coisa ínfima sair do seu controle para fazer um escarcéu e tomar decisões imediatistas incrivelmente ruins. Pelo que parece, eu faço mais questão de estar com você do que o inverso. E isso explica muita coisa. Não vai ter próxima.

— Se você quer assim… 

—  Você também quer assim. E se não quer, é um “tanto faz, tanto fez”. Como me mata sua contradição. Não entendo essa sua saudade, muito menos o seu sentir. Eu entendi sua frustração, mas você não precisava ter ido embora. E, sobretudo, eu quero estar perto de você. Mas, suas ações me deixam cada vez mais distante.



Janaina Couto ©
[Publicado — 2019]

@janacoutoj

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Atualizado em: Dom 28 Jun 2020

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