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[Roteiros] DESCONFIANÇA

[…]


20h15


Você falou que não, mas eu senti isso. Não custa nada me dizer. Juro. Jamais faria algo para te magoar ou sei lá. Fica bem.

Não quer falar comigo, não é mesmo? Olha, lembra o que combinamos? Pensa no que está te deixando assim, depois, a gente conversa pessoalmente a respeito. Tudo bem? E eu prometo que irei te ouvir e me colocar no seu lugar.



22h45

— (…) Não quero conversar pessoalmente.

Se é assim, respeito. Mas, deixo claro que, no meu ponto de vista, seria o ideal. No mais, se trata de algo que já falamos. Mas, ainda acho importante conversar.



00h40

— (…) Ele é seu amigo há um tempo considerável, tem mais crédito. Não há que se dar importância pra mim. Aquele episódio não era para ter acontecido. Não há mais o que se falar. Vai se resolver com seu amigo e me deixa quieto.

Não vejo isso. Não tem sentido algum esse seu raciocínio. Vocês sãos pessoas diferentes e ainda que ambos sejam importantes, ocupam postos diferentes em mim. E o seu posto é exclusivo, ele é só seu, te coloquei nele.

Sinceramente, não dou motivos para você se sentir desconfortável quanto aos meus amigos.

Sou franca com você e quando digo que quero um contato puro, me refiro a isso. Eu estou com você, num relacionamento contigo e muito consciente do que eu quero. Você me falar que eu dou motivos para desconfiança me atinge, de um modo que não gosto.

Sou mulher o suficiente para me impor e assumir meus erros, tanto que não tenho receio em pedir desculpas. Jamais iria cobrar de você algo que não está em mim. Sinceridade, reciprocidade, confiança.

Não importa o que eu diga, você vê problemas onde eu não vejo.

Ainda que eu diga, você desconfia e ainda ousar falar que dou motivos para tal. Não acredita que estou contigo.

Você sabe que ele é um amigo e não há que de questionar pretensões.

— (…) Não importa o que é ou não. Eu estou disposto a deixar qualquer pessoa por você, seja lá quem for, enquanto você não está disposta a nada.

Está equivocado e sabe disso. Não quero que eu seja a pessoa que vai fazer você trocar os seus amigos (sejam homens ou mulheres), não é para ser assim. Quero ser a sua companheira e isso implica em você estar rodeado de pessoas (familiares e amigos) e estar comigo, a troca sendo entre a gente.

— (…) Irei passar a agir contigo da maneira que você age comigo. Simplesmente. Vamos ver se você irá responder como eu respondo.

Ótimo. Se você agir comigo da forma que eu sou contigo, por você querer agir, irei adorar. Pois, estou muito consciente das minhas ações e você nāo as percebe. Espero que tenha entendido o que expus. Já havíamos falado disso antes.

Se for demais para você, precisa me dizer. Não quero ter que falar sempre “nāo troque ou abandone os seus amigos”. Isso serve para nós dois. Pensa nisso.

— (…) O que?

Amizade. Se você não gosta, precisa dizer. Abertamente.

— (…) Com aquele seu amigo, não gosto. Eu “deixei” muitas pessoas, amigos e colegas, para ter somente a sua atenção e você nem imagina. Aliás, depois de você, só tenho amigos homens, deixei amizades com outras mulheres.

Eu só preciso e desejo a ti. Não importa nenhum tipo de vinculo com qualquer outro alguém.

Fez isso porque quis. Se elas fossem realmente suas amigas, pensaria antes de simplesmente romper um vínculo. Se fez, havia outro interesse em jogo que não somente a amizade, pois, eu mesma falei “não apaga amizade por causa de relacionamento”.

— (…) Quero dar um tempo com você. Sinto que estou aturando muita coisa e sem retorno de conforto, faço muito para receber pouco.

É sério? Existe isso de “tempo”? Eu não acredito em tempo. Quer “dar um tempo” mesmo?

Eu queria uma conversa pessoal justamente por isso. Sempre a mesma cena se repete. Não na mesma ocasião, mas, se repete. Vamos conversar a respeito?

— (…) Não tem o que conversar. Você não está nem aí para nada, simplesmente não se importa. Eu já expus e você dissimula.

Eu não sou assim e você sabe disso. Então você realmente quer um tempo? Para de ser idiota, se o motivo desse desconforto é eu ter amigos e você não confiar em mim nesse sentido, isso não vai dar certo. Jamais vou abandonar amizades.

Poxa, sou muito clara e sincera contigo, exageradamente em todos os sentidos e, ainda assim, você só me diz que te causo desconforto e que não consegue confiar em mim (vejo isso quando me diz que dou motivos). Poxa, acha que isso não me cansa? Eu me entregando de corpo e alma a alguém que não vê isso… Eu estou para você e tu não percebe.

Sabe… a única coisa que me desconforta no nosso relacionamento é isso. Eu me coloco em primeiro lugar e, quanto a ti, somente você é com quem me relaciono, não há que se falar em segundo plano. Te ponho no pedestal ao meu lado e você parece temer a altura, implorando para eu descer e ficar na sua “zona de conforto”.

— (…) Já falei o que pretendo. O assunto está encerrado. Tudo bem?

Se sendo eu mesma e falando sério a respeito de tudo e sendo muito aberta e querendo estar contigo, não consigo te deixar confortável/seguro quanto a mim… não sei o que preciso fazer.

Acha bacana isso? Aparentemente querer me controla em todos os meios possíveis, desde fiscalizar mensagens a questionar amizades? Não é saudável.

— (…) Eu nunca pensei nisso de ficar vigiando seus passos, muito menos lendo suas mensagens de texto…

Nunca pensou, mas já fez, por desconfiança e sem qualquer razão para tanto. Isso só mostra que não confia em mim. Pessoas insignificantes e, pior, as minhas amizades e até mesmo as suas amizades estão sendo “motivos” para seu imenso receio, que sinceramente não sei donde vem. Não é para ser assim.

— (…) Você sabe que está errada e desvia o assunto.

Não estou errada. Estou me impondo e pontuando que alguns dos seus desconfortos não tem sentido. Estamos conversando, novamente, sobre as suas inseguranças comigo. Aliás, quanto a coisas que eu já te falei que pode confiar em mim a respeito.

— (…) Não vou ficar perdendo meu tempo falando coisas que pra você não fazem sentido. Isto aqui está péssimo para mim.

Sinceramente, está ruim para você. No mais, desse jeito eu não consigo, me sinto sufocada. Jamais queria me ver ao lado de quem não confia em mim. Quando quis me relacionar contigo, te falei o que me assombrava e você me falou para confiar. Estou fazendo isso.

Isso difere nós. Em tão pouco tempo, quando ainda estamos nos conhecemos, estamos na primeira estação, sequer deu tempo de mostrar um ao outro cada uma das nossas versões, e já há desconfiança da sua parte quanto a mim.

— (…) Sabe o que você pode fazer? Procurar por uma pessoa que confie, corra atrás e goste de você mais que eu. Faça isso, despenda seu tempo em vão, arrisque numa tentativa certamente falha. Duvido você encontrar.

Eu me doo e você simplesmente fecha os olhos. Você fala tanto na sua “entrega”, mas eu não a vejo.

Em primeiro lugar, não tem essa de se doar mais ou menos.

Em segundo lugar, estamos num relacionamento, confiança é basilar. Confio em ti e você não confiar em mim me mata. Me sinto imunda por te ouvir falar que é incapaz de confiar em mim.

Sendo sincera. Você se sente desconfortável comigo, qualquer coisa é um motivo para você. Não irei me justificar sobre amizades, nem mesmo mudar meu jeito de ser enquanto não ver razão para tanto. Se a origem do seu desconforto for outra coisa, precisa me dizer.

Agora , se realmente se tratar da minha simpatia “exagerada”, do meu jeito “escandaloso”, da minha maneira de andar “chamando atenção” e entre outras minucias que te incomodam, como já me disse outra vez, não sei por qual razão está comigo.

— (…) Quer romper?

Sendo franca, não entendo porque está comigo se você está desconfortável e não confia que eu quero estar com você. Não importa o que eu diga, não importa o quanto eu sinto, nada importa. Você descarta que se eu topei um relacionamento, quero que ele dê certo. Descarta sobretudo tudo quem eu sou, joga fora tudo em mim que o cativou.

Sabe, desse jeito não flui. Poxa, eu implorando confiança. Fala sério! Eu detesto a ideia de implorar qualquer coisa e me vejo deixando isso de lado muitas vezes pelo “nós”.

Não percebe? Mesmo eu estando frenética com as nossa coisa, empolgada quanto ao “nós”, literalmente me doando, você continua se sentindo mal. Poxa, qualquer minúcia se torna um “problema” (e normalmente algo, que no meu ver, não teria condão para tanto) e sempre parte dela… a “desconfiança”.

Se esta assim agora, tenho medo do depois. Pois, já falamos sobre antes e, pelo visto, de nada adiantou. A questão não é nós termos discussões, mas o cerne dela é se tratar da mesma coisa.

Olha, sinto muito se eu falar com amigos ou ter uma vida social te faz pensar assim ou te deixa inseguro.

Não preciso nem falar que estou contigo e que respeito a nossa coisa. É óbvio, se trata de um requisito mínimo.

E, cara, se eu desse motivo, sou mulher o suficiente para falar “fiz” e me redimir.

Nesse caminhar, a nossa coisa para mim não flui. Tira a minha paz. Como eu disse, o único ponto do nosso relacionamento que me atinge de um jeito que não gosto.

— (…) Eu mostro estar com você. Você não mostra estar comigo.

É um absurdo você dizer algo assim. Sabe, me atinge.

Não quero ser a sua mais bonita mágoa. Não quero conviver com um cara que está inseguro quanto a mim, que não confia e que não sente que estou com ele, causando desconforto em ti e, por isso, me cortando.

Poxa, se tu é meu companheiro, quero poder compartilhar tudo! Sem freios! Sou sem filtros. Mas, coisas banais te atingem, por exemplo, eu ter um melhor amigo e simplesmente contar de momentosque vivi em comum com ele.

Se eu quisesse estar com qualquer outra pessoa, eu estaria com “x” e não com você.

— (…) Encerra o assunto.

Não terminamos a conversa. Respeita a minha hora de fala, por favor.

Eu me recordo de todos os instantes que me justifiquei, mostrei e expliquei coisas, quais eu não precisaria ou sequer deveria, para simplesmente “comprovar” e confortar para você confiar em todas as vezes que eu disser “pode ficar tranquilo com isso”.

Até então, pelo visto, nenhuma delas adiantou.

Seguinte, ou confia em mim ou isso acaba, agora. Não consigo assim. Não há qualquer tipo de relação que perdure sem um “voto” de confiança.

Deixo claro que, para mim, não há “tempo”.

Pensa bem… pouco nos vemos e sempre acontece uma situação desagradável por seu receio seu quanto as minhas e as suas amizades em relação a mim.

— (…) A questão não é você ter amigos. Confesso que acho estranho tanta proximidade, afeto e contato. Você se doa demais, parece não vê que as pessoas podem usar umas as outras. Te vejo frágil. Confio em você, só não confio nem um pouco neles.

Quanto ao que te falei mais cedo, por favor, faça aquilo, só assim ficarei tranquilo com isso. Aliás, não ouse falar novamente que é um hábito, precisa mudar, quero que mude.

Disse isso só porque conhece meus hábitos. Não irei muda-los a partir do instante que não vejo problema neles. E ainda que você veja, já disse o que tem por trás, o que me frusta, a velha desconfiança e/ou insegurança.

Estou consciente de não se tratar de jeito, princípios ou valor, mas sim de um mero hábito.

Já disse, não tenho problemas em mudar, vou mudar sempre para evoluir. Mudança é crucial, mas, quando há sentido nela.

Se eu ceder nisso, vai se tornar um costume e pouco a pouco as mudanças serão mais viscerais.

Enfim, para mim, está sendo sufocante. Eu imploro algo que sou plenamente digna, CONFIANÇA. Não irei implorar e não esmiuçar o problema de mais nada.

A decisão é sua.

— (…) Aparentemente, você fez uma escolha. A conversa acabou. Quanto a nós, já falei.

Isso significa o que exatamente? Bom, você quer um tempo. Um tempo de mim. Você o tem. Vamos seguir.


04h22

— (…) Me desculpa. Eu me preocupo com você, com o “nós”. Sei que fui impulsivo. Agi daquela forma por temer perder você…

Você agindo assim (sobre o que apontei), me faz sentir-se mal e querer ir embora, para não magoar você por não ser aquilo que quer e, principalmente, para que eu não mude a ponto de sequer me reconhecer.

Eu me preocupo com você. E por isso escancarei novamente a mesma coisa.

— (…) Você quer ir embora? Se você for embora, vai me magoar muito, mas se é o que quer, respeito.

Você não confiar em mim, no nosso relacionamento, me magoa muito. Nem preciso falar isso, é óbvio. Eu sinto o mundo. Gosto de você pra caralho, mas, assim eu não consigo.

Não sou capaz de estar bem ao lado de alguém que não confia em mim, fazendo me sentir uma pessoa qualquer, fazendo me sentir indigna a ponto de não merecer confiança.

Você não vai conseguir correr junto comigo se se sente desconfortável e inseguro. E eu sabendo e vendo isso, me faz mal, pois não há razão para tanto. Pela existência da desconfiança, pequenas situações tornam-se “grandes problemas”.

E é cansativo e sufoca saber que independente de qualquer coisa, só vou conquistar sua confiança mudando meu jeito, meus hábitos e etc. A sua confiança em mim está condicionada a eu mudar coisas banais, por exemplo, não mandar mensagem para um amigo.

São coisas pequenas mas que a sua vontade em me impor condutas mostra que só estará seguro se eu fizer e agir somente do jeito que você quer e não eu sendo eu mesma.

Juro para você, ainda que você ache um absurdo, eu adoraria me relacionar com alguém como eu. Digo isso por ter consciência de tudo que eu faço e quando eu escolhi estar contigo é por ter muita consciência do que eu quero. Mas, não é o bastante.

Da última vez que conversamos, colocamos muita coisa na mesa e as semanas seguintes após aquele “pingos nos ‘i’s” foram as melhores de todas. Mudei nos aspectos que prometi (os detalhes), lembra? Mudei porque eu quis a mudança, já que vi sentido nela, concordei com você e sou grata por ter me mostrado. Percebe isso? Não sou hipócrita…

Porém, em menos de um mês, esbarramos na mesma coisa. É desgastante.

Se você não é capaz de confiar em mim para coisas pequenas, (ainda no início, quando sequer deu tempo de enfrentarmos grande coisas), como é o fato de ser seguro no meu agir para com os outros, como será capaz de dividir uma vida comigo?

Estamos em conflito, sua confiança depende de mudança e eu só estou dispostas a elas quando for para evoluir (quando houver sentido nelas).

Nenhuma vez pedi para você mudar quem é, pedi? Somente, coloquei condições para nós dois (respeito, sinceridade, lealdade — entrega -, eu e você nu e cru).

Não quero que mude quem és por minha causa, se eu te mudar você vai se tornar uma versão pirata de si mesmo e não o cara por quem me apaixonei.

Se eu ceder, vai acontecer isso comigo.

Poxa, eu quero que você me deseje, fervorosamente do jeito que eu sou e esteja totalmente seguro disso. Confiança.

Vai me magoar também…

Eu sei que confiança se conquista. Mas, num relacionamento, a gente dá um voto, aposta e vai (às vezes com medo, mas vai). A desconfiança deveria existir quando já tivesse sido quebrada a confiança antes dada.

Havíamos combinado de sempre conversar pessoalmente quando algo nos incomodasse, para evitar situações como essa, que já se repetiu. Eu quis fazer isso, pois, sabia que você ia levantar tudo novamente e eu ia ouvir mais uma vez que o seu incômodo é por desconfiança.

Eu disse achar importante a gente conversar pessoalmente. Mas, agora, já não sei se isso ainda é necessário.




Janaina Couto ©
[Publicado — 2020]

@janacoutoj

[PS. Não se trata de um relato pessoal. Mas, confesso que é um imenso pesar reconhecer que o meu texto foi lapidado sob um apanhado de relatos de pessoas queridas que estão ao meu entorno.
Ainda que mesmo nas coisas mais sutis possamos constatar algo a se repudiar e imediatamente afastar-se, não raramente, horrivelmente, isso acontece apenas quando se tornam salientes.]

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Atualizado em: Qua 8 Jul 2020

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