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Outra agulha?

O som que o piano toca carrega para os ouvidos noturnos os ossos dos membros que me foram amputados. Eu nunca mais pude dar um abraço, eu nunca mais pude tocar o piano, eu nunca mais pude sentir o seu corpo. O seu, sim, universo. Eu não mais estendi meus braços enquanto corria contra o vento, eu não mais abri suas infinitas portas, únicas, de uma via. Como irei aplaudir a revoada dos pássaros? Como irei escrever sobre a revoada de minha mente? Sim, eu queria estar em uma biografia. Ou não, melhor: eu queria estar escondido nas metáforas únicas à caneta. A tinta em meu rosto não pode mais ser limpa com meus dedos magros, a tinta que sai do meu olho e deixa um caminho escurecido até meu queixo. O sol repentino vem da janela e corrói meu rosto enquanto vejo as teclas seguindo os movimentos do espectro. Seus olhos brilham, ele não tem boca, ele não tem memória. Tudo é memória, tudo sou eu e na lembrança do meu tato, eu me deixo correr por entre os acordes do eterno: o que foi, o que é, o que será. O que foi e o que será. Nada existe no presente, eu fui deixado apenas com as minhas digitais perdidas nas armas que segurei e com a esperança de um dia o revólver não mais ecoar pelos meus tímpanos. Eu acho que me esqueci de aniversários, somente restam as velas acesas esperando o sopro do infinito as silenciar.  
Sinto um toque em meu rosto. Uma mulher de branco vestindo uma máscara. Onde estou? Para onde foi a noite? Para onde foi o sol? As luzes estão queimando minha pele. Minha pele. Eu estou amarrado. "Você se lembra?", ela pergunta. Ela me contou o que era real e o que era mentira. Ela me contou quem eu sou. Ela me contou. Ela me deu o presente. Sua voz era um piano como aquele que ouvira o dedo do fantasma, sua voz carregou minhas chagas para o passado, antes, esquecido por mim, mas não por aqueles que me conheceram. A agulha em meu braço, antes decepado, me dá a sanidade mas ela só me faz querer gritar até que as trombetas anunciem o último dia. Eu não ouvirei o som da última trombeta. Eu ainda não consigo limpar minhas lágrimas. Eu ainda não consigo. 
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Atualizado em: Dom 28 Jun 2020

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