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Lábios Coloridos

Laressa montou e saiu a cavalgar pela fazenda. enfiei as mãos nos bolsos e fiquei olhando ela desaparecer, virei para meu pai e ele, passando a mão no meu cabelo, disse que era hora de comer biscoito. subindo a escadinha me perguntou o que eu queria ser quando crescer, mecânico, respondi sem levantar a cabeça. o dia estava coberto por uma grossa neblina que se movia suavemente, sentei a mesa e esperei pacientemente meu café com biscoitos.

quando Laressa voltou eu 'tava sentado no último degrau da escadinha olhando o verde, o azul e o amarelo e tentando descobrir que cor era o sol, o céu ou as árvores, sempre confundi tudo. quando ela desmontou perguntei, que gosto tinha andar à cavalo. gosto de maria cachucha. Laressa foi buscar água para o cavalo, voltou trazendo um balde transbordante, perguntei qual era o nome dele. vento, respondeu soltando o balde após um longo suspiro. levantei e fui a cozinha pedir mais café, meu pai 'tava pintando, perguntei: que cor é o sol? amarelo, disse apontando o pote de tinta, quero mais café. o dia finalmente estava claro, no rádio da sala tocava música de rock 'n' roll.

Laressa sempre usava um lenço verde no cabelo, gostava de valsa e de sonhos impossíveis, se apaixonou por um cara do colégio, sujeito de riso fácil e tez trigueira. não sei o que ela viu nele, mas não podia vê-lo, seu coração disparava, suas mãos suavam, precisava urgente de um copo d'água, e lá ia eu, seu fiel escudeiro, atrás de um copo d'água.

quando ele falava, ela mudava, tinha um ar superior, gestos firmes, voz doce e um leve tremular nos lábios. ele dispensava dois minutos de sua preciosa atenção e saía atrás de outras companhias. ela então, se virava pra mim com um brilho nos olhos e dizia o quanto ele era maravilhoso. eu dava de ombros, quando a gente tem sete anos, não entende isso direito, ouvia e ficava olhando o céu distante.

minha irmã era uma magricela desengonçada e esse cara um chato que só me chutava as canelas, um dia eu o pegaria de jeito. fiz uma espada de madeira para duelarmos num pôr-do-sol. lembro de uma vez em que o céu estava cor de laranja. em todos os cantos sempre ouvi dizer que o céu era azul, mas naquele dia era cor de laranja. Laressa apareceu com uma blusa cor de laranja e também o batom, me perguntou o que achava, disse que ela 'tava com cara de céu, ela me olhou atravessado, dei de ombros. Laressa 'tava mais interessada nas fivelas do cabelo do que com a minha opinião.

estou com sono, meu pai não veio buscar a gente ainda, eu e Laressa estamos sentados abraçando os joelhos, somos os últimos a sair do colégio. ela dormiu, estou olhando meu pai que dirige calado... a noite é gelada, o céu é cor de laranja com manchas de azul, os faróis passam, os faróis passam, os faróis passam...

sempre gostei do outono, é frio mas tem sol, folhas espalhadas no chão, o ar com um cheiro diferente. em manhãs assim, Laressa aparecia na cozinha, com sua colcha colorida, que envolvia desde a cabeça até os tornozelos, mostrava o rosto e parte de seus cabelos amarelos, e seus inseparáveis chinelos de pano. meu pai dizia que isso era costume de índio norte - americano. ela pegava sua caneca de louça branca, enchia de café com leite fumegante, segurava com as duas mãos para esquentar e sentava no seu banquinho, enquanto a neblina ia embora.

eu também tinha um banquinho e às vezes ficávamos lado a lado, como dois cúmplices do silêncio. meu pai não tinha banquinho, acho que ele era muito grande para ter um. não consigo lembrar onde ele estava nessas horas, eu e Laressa ficávamos ali parados durante muito tempo, até que ela se cansava e saía para passear a cavalo, eu, às vezes, continuava no banquinho e, às vezes, ia brincar no tanque de areia.

na parte da tarde íamos à escola, aquela paixão que Laressa tinha pelo cara de tez trigueira, durou um bocado de tempo, ele era da quinta, Laressa da quarta e eu da primeira. na hora do recreio ,eu sempre 'tava sentado na escada ao lado dela e a cena do copo d'água se repetia. quando esfriava muito, a noite, ficávamos em frente a fogueira, comecei a imitar a Laressa com o cobertor e olhávamos o fogo sob o céu estrelado, meu pai não estava, mas eu sabia que fora ele quem fizera a fogueira. às vezes a Laressa me levava pra cama, muitas vezes acordei pela manhã e ela ainda estava a beira do fogo (agora extinto), mas ainda havia uma luz, como se o fogo estivesse dentro dela.

numa noite de outono nossa casa pegou fogo, as labaredas se ergueram contra a noite e estalavam surdamente, meu pai disse para ficarmos onde estávamos, no tanque de areia. eu e Laressa ficamos mudos, ela com seu cobertor colorido, eu com uma varinha na mão tentando escrever meu nome na areia. meu pai entrou na casa e demorou muito a sair.

nós olhamos a casa pegar fogo, mas não saímos dali. quando ele voltou me pegou no colo, deu a mão à Laressa, que o acompanhou arrastando o cobertor e saímos noite adentro, de repente me lembrei do cavalo da Laressa, mas ele já tinha ficado pra trás. naquela noite dormimos numa casa estranha, meu pai falou que eu ia ficar bem, na manhã seguinte, ele e Laressa não estavam.

uma senhora de avental disse que eles não voltariam, pedi café com leite, me enrolei no cobertor com a xícara, sentei na escada e fiquei olhando o horizonte. meu pai eu não sentia tanta falta, me acostumara as suas ausências, mas era a primeira vez que eu ficava sem a minha irmã.

continuei indo à escola, uma vez na hora do recreio, o cara da tez trigueira veio falar comigo. me perguntou onde 'tava a magricela desengonçada, disse que ela tinha ido embora. prá onde? prá longe. ele estendeu a mão e disse: eu sou victor. sorri e respondi: frank. eu e victor nos tornamos amigos e agora era ele quem me fazia companhia na escola. um dia ele apareceu na casa onde eu 'tava, me lembro que foi em frente a fogueira, com um violão, sob a lua minguante, tocou uma valsa que Laressa gostava. nos olhamos e percebi que ele também esperava que ela voltasse.

victor tinha um caderno cheio de coisas escritas, mas eu não sabia ler direito, e agora que Laressa não 'tava, não tinha vontade de aprender nada, ficava horas à toa. victor passava na casa onde eu 'tava depois do almoço e íamos à escola juntos, às vezes desviávamos o caminho e íamos à um celeiro abandonado, brincar com uns amigos dele que eu não conhecia direito. quase sempre eu os deixava e saía caminhando pelas ruas de terra.

numa manhã ainda de outono, eu 'tava com o cobertor e a xícara na escada, avistei Laressa. ela 'tava com um lenço verde no cabelo, usava calça comprida, uma mochila nas costas e um cigarro aceso nos dedos. passou por mim, abriu um sorriso e me afagou os cabelos. senti um cheiro de água de colônia no ar, ela me deu um beijo nas bochechas e entrou na casa, como se já a conhecesse. conversou com todos, como se fossem íntimos há muito tempo, eu tinha nove anos. Laressa pareceu mais bonita, porém suas feições eram duras e seus gestos econômicos. meu pai não veio, não perguntei, e comecei a sentir que nunca mais o veria. Laressa partiu novamente e fiquei com a mesma sensação.

não gosto de escovar os dentes, mas Laressa sempre dizia que se eu quisesse ficar parecido com ela, deveria. mas eu não gostava do gosto de hortelã que ficava na boca e além do mais eu não queria ficar parecido com ela. uma vez o victor me disse que eu o fazia lembrar da Laressa, fiquei mudo.

faltavam duas semanas para o meu aniversário, onze anos e completariam dois anos que eu não via a Laressa. a mulher da casa onde eu 'tava fez uma surpresa, me deu um colar que era da Laressa, fiquei com vergonha de usá-lo no pescoço e comecei a usá-lo no pulso. quando victor viu o colar ficou doente, queria de toda forma o colar. disse-lhe que quando fosse seu aniversário lhe daria, ele saiu chutando pedras e sumiu. fiquei muito tempo parado em frente a casa, era sábado, não passava ninguém, a noite foi caindo, caindo, até que caiu completamente, mas eu ainda tinha esperanças de poder ver a Laressa. Levantei, abri a porta e entrei para o jantar, bati a porta atrás de mim. lá fora só o barulho do vento.

agora eu usava o cobertor da Laressa e o seu colar no pulso, tomava café numa xícara branca e a esperava. ninguém cortava meu cabelo, 'tava cada vez mais parecido com a Laressa e o victor ficava cada vez mais atrapalhado. uma vez ele me confundiu com ela, me puxou pelo braço e disse que sempre me amou, olhei firme e com um leve tremular nos lábios disse: victor, não sou a Laressa, sou o frank. a Laressa foi embora pra longe e talvez nunca mais volte... ele não me ouvia e pela segunda vez o vi chutar as pedras da rua, só que desta vez ele 'tava chorando.

decidi não esperar mais pela minha irmã, ela 'tava tão presente em mim que era praticamente impossível não me parecer com ela. ajeitei o colar no pescoço, me enrolei no cobertor, colori os lábios, penteei o cabelo  e prendi com um lenço verde. olhei no espelho e não me reconheci, não sabia quem eu era, fiquei um longo tempo me olhando e tentando me descobrir.

a porta se abriu de repente, era o victor, abri um sorriso, ele abriu os braços. fiz cara de esnobe, ele me apertou, me beijou, me abraçou, me despenteou e manchou minha boca. quando me soltou, abri outro sorriso e ele sério me perguntou: você não é a Laressa? não. como vou te chamar então? não sei, se você é apaixonado por ela me deixe em paz. ele me olhou atravessado e saiu. fiquei mais algum tempo e fui trocar de roupa.

dois dias depois victor apareceu com um presente, na verdade, três. primeiro disse que tinha um nome pra mim, o olhei intrigada. Lúcia. depois ele me deu um estojo embrulhado em papel vermelho, desfiz o embrulho e vi um estojo de maquiagem. dentro do estojo havia um bilhete. coloquei a mão sobre o rosto e fiquei olhando aquele garoto deslumbrado.

escrito originalmente em 1999.

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Atualizado em: Qua 20 Maio 2020

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