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A madrugada

Frio. Escondido debaixo das cobertas, por onde o vento que entra pela sacada semi-aberta não consegue passar, exceto que há um furo, pequeno e, aparentemente, insignificante, no cobertor de lã, mas que faz o sopro dos ares atingir seu braço esquerdo. Os pelos ficam arrepiados. Não por conta da temperatura, mas sim, por causa dos pensamentos. Silêncio. Escuro. Frio. Tais características são capazes de trazer um fluxo de pensamentos perturbador. Dói, não? Você se deita, vira para o lado direito na cama, a mola solta do colchão velho faz um barulho alto, você arruma o travesseiro, ajeita a coberta, fecha os olhos e percebe que não há ninguém ali. Madrugada, momento de solidão. Só você, seus pensamentos e o silêncio, o escuro e o frio. Você tenta dormir, mas algo te impede. Pode culpar as três xícaras de café que tomou às 5 da tarde. Não é isso que o impede de dormir, você sabe. A imaginação, que é capaz de nos levar aos melhores lugares, na madrugada, torna-se um pesadelo. As lembranças, que são capazes de colocar em nossos rostos um sorriso amarelo (resquícios do café) genuíno, na madrugada, nos fazem pensar em todo tipo de erro que cometemos. De manhã, imagina que seria muito bom ver Aquela Pessoa. De madrugada, imagina que Aquela Pessoa não quer vê-lo. De manhã, lembra como foi bom ver Aquela Pessoa. De madrugada, desmancha o sorriso, lembra que não vê Aquela Pessoa há tempo. Aquela Pessoa. É ela que o faz perder o sono? Que faz você ver a Lua virar Sol? Que faz você, às 5 da manhã, ouvir o primeiro canto do Bem-te-vi? O pássaro Bem-te-vi. O pássaro que tira o seu sono. Não pelo seu lindo e alto canto, mas sim, porque seu nome, Bem-te-vi, o faz lembrar d'Aquela Pessoa. Aquela Pessoa. É ela que o faz perder o sono? Que faz você pegar seu celular, com 5% de bateria após um longo dia, e pensar se deve mandar uma mensagem? Que faz você respirar fundo e se ajeitar na cama novamente, num gesto autopacificador? É aquela pessoa, não é? Que o faz querer dormir para poder sonhar com ela e, ao mesmo tempo, te mantém acordado. Então, num mundo paralelo, você se deita ao lado d'Aquela Pessoa, ela te abraça. Dói, não? A mola solta do colchão velho faz um barulho alto, você arruma o travesseiro, ajeita a coberta para que ela cubra vocês dois igualmente, fecha os olhos e percebe que não há ninguém ali. Mesmo que Aquela Pessoa esteja ao seu lado, te abraçando. Madrugada, momento de solidão. Frio. Escuro. Silêncio. O que te faz perder o sono dessa vez, se o motivo não é Aquela Pessoa?

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Atualizado em: Dom 12 Abr 2020

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