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Esmeraldas

Eu abro meus olhos. 
Uma máscara dourada com olhos de esmeralda luminosos está na minha frente, seus traços carnavalescos venezianos reluzem no tom verde vindo de seus olhos. Seu véu caminha até meus pés, e pelo meio dos panos transparente saem duas mãos, uma que encontra meu pescoço. Seu toque é leve, frio, mas ao mesmo tempo, não consigo respirar. Sua outra mão está estendida sobre meu peito, como se quisesse sentir as batidas do meu coração. Gotas de chuva pingam como trilha sonora, o barulho das lágrimas do céu caindo sobre a janela só é interrompida o respirar da máscara. Você tem minha alma já, não é? Você veio buscar a carne para sepulta-la? Você vai me carregar para o inferno? Meus olhos verão sob o ar da noite o reflexo das minhas memórias no asfalto molhado? O tempo. Ele é estranho. É você? Você é o tempo? Você veio me resgatar do amanhã? Você veio me punir pelo ontem? Você viu, no hoje, a única coisa que importava em mim? As esmeraldas no seus olhos, o que são elas? Eu devo olhar para elas e buscar pelo reflexo da minha alma? Devo olhar e esperar rostos? Momentos? Atos?
O relógio da igreja toca. É meia noite. A mão assentada no meu peito se solta e uma corrente negra surge em suas mãos. Ela não é de aço, ela é de carvão e em seus sulcos quebrados se vê a chama. Ela enrolou a corrente pelo meu pescoço. A corrente falava meu nome ao pé do meu ouvido, mas cada vez que falava, uma outra voz me chamava. Eu tinha me esquecido de como alguma dessas vozes eram, mas pouco importa, agora elas estão me cobrando. 
Nós voamos pela janela e nos perdemos entre as ruas. Engraçada a vista daqui, vejo poucos guarda chuvas. Engraçado também como pareço ter destino. Eu estou numa peregrinação? Eu fui chamado? Eu não sei. Essa corrente me sufoca, eu não tenho voz, mas eu não entendo. Um dia eu tive ela? Minha voz foi poderosa e agora meu dever é o silêncio? Por favor, assombração, me carrege. Nos seus braços provavelmente me encontrarei. Entre os vivos, somente a fuligem de tudo que amei restou sobre meus pés. 
Estamos abaixando, pelo visto até uma praça. Ao pé de um banco o espectro me amarra como um cachorro. Eu sou um cachorro esperando seu dono? Ou dona. Não sei. 
Antes de sua despedida, o espectro aponta a esquerda e me mostra meu carro, deixa uma garrafa de conhaque em minha mão e junta seu rosto ao meu. Eu nunca me senti tão próximo de alguém. Quem é você?
Boa noite, amor. 

 

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Atualizado em: Dom 9 Ago 2020

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