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Deixe o Karl cair parte 3

MEU MELHOR AMIGO (ATÉ ENTÃO)
Na maioria das amizades em que eu corro atrás dela pra acontecer, o resultado é não dá certo e durar super pouco tempo também.
Eu tenho que admitir que não cheguei a conhecer cem por cento o Vinicius, até mesmo por conta do jeito dele: já que não se abre fácil e não é tagarela como eu. Essa diferença de personalidade era muito evidente entre nós dois, era algo bom e ruim ao mesmo tempo (como tudo na vida afinal).
Se eu tivesse que descrever o Vinicius em três palavras, seria: intenso, introspectivo e vaidoso. Foi o primeiro cara que conheci que fazia mais dieta que muita mina e também tinha um cuidado com a aparência além do normal.
O Vini tinha medo de muitas coisas, mas as principais eram engordar e não conseguir passar em uma boa faculdade. Ele futuramente falharia em uma dessas duas coisas... quem sabe eu conto pra vocês, mas agora não é boa hora.
Tenho que admitir, com um pouco de vergonha que eu já gostei do Vini. Eu fiquei meio petrificada, estática quando percebi isso. Foi num dia em que ele me abraçou, e naquele momento de poucos segundos eu me senti bem, muito bem. Sem brincadeira, aquilo me acalmou e me deu uma paz como eu nunca tinha sentido antes. Além disso, toda vez que o via meu coração acelerava. Eu nunca admiti isso pra ele até porque custei consentir pra mim mesma.
Vale ressaltar que eu já gostei de muita gente, parecia que se apaixonar era um hobbie pra mim. Fazer o que, coração mole é assim mesmo. Essa minha paixonite pelo Vinicius durou pouco tempo, até porque era meio sem razão. E, além disso, gostar do seu melhor amigo é muito esquisito.
Eu conheci o Vini de repente, a primeira vez em que a gente se viu foi quando eu cheguei atrasada. Uma monitora me levou até a minha sala que ficava do lado do anfiteatro. A turma dele estava usando essa sala multimídia para algum tipo de projeto do nono ano, eu acho.
Foi assim: enquanto eu esperava a professora me deixar entrar, eu olhei para o lado, justamente o da porta do anfiteatro, ele olhou para mim também. Aquele contanto visual durou uns 5,6 segundos; não sei exatamente o que estava passando na cabeça dele, mas na minha eu pensava: conheço esse menino de algum lugar!
O que eu tenho a dizer é que durante aquela semana, eu fiquei pensando em uma maneira de iniciar uma conversa. Eu queria que parecesse o mais natural possível, e não intencional também.
Sabe aquele contato visual de alguns poucos segundos que mencionei? Então, aquilo me fez recordar de onde eu o conhecia. Não se preocupe, vou resumir o máximo possível essa história.
Fui em uma aula de vôlei e o professor me colocou para treinar com um veterano, que era o Vini. Isso aconteceu na época das férias, até porque eu não iria por vontade própria jogar vôlei com um professor chato me avaliando por vontade própria. Ele ficou bem entediado em ter que jogar comigo, nós nem nos falamos, nó Maximo trocamos palavras bem tidas da linguagem referencial, tipo “vai você agora” “quer que eu busque?”  “joga mais alto”. Ou seja, nada demais. Ele parecia ser bom mesmo, porque era um dos titulares pro campeonato estadual que esse time/clube ia participar.
Uma das coisas que mais me deixou feliz nisso tudo, por mais que pareça bobagem, é que ele gostava de um esporte diferente do habitual. Não quero reclamar (mas já reclamando), eu não suportaria alguém falando de futebol 24 horas por dia. Isso me irritaria e também fortaleceria a minha teoria de que quanto maior o conhecimento sobre futebol, menos porcentagem cerebral o cara usa. É como se grande parte disso já estivesse ocupada, entende?
Eu sei que é um tanto quanto preconceituoso e grosseiro pensar assim. Mas, se você quiser, faça o teste, às vezes dá bem certo (quase sempre na verdade, só estou tentando te dar um pouco de esperança).
Depois desse ocorrido, e da semana pensando em como iniciar uma conversa, preferi esperar que o acaso do dia a dia me ajudasse a ter uma oportunidade perfeita. Em outras palavras, eu estava enrolando por conta da minha falta de coragem. Que o acaso me ajude, amém.
EU DUVIDO
Acho que “eu duvido” é uma frase motivacional. Afinal, quem não quer provar pessoalmente que os outros estão errados? Eu tentei fazer isso, já que meu objetivo era mostrar para meus amigos que eles não deviam duvidar da minha capacidade.
Na segunda-feira de nosso Senhor, tinha um jogo de vôlei à tarde. Era o pessoal do Ensino Médio jogando, o que garantiria um grande público. É claro que as minhas amigas me importunaram bastante durante o recreio, ela queriam que eu ficasse de tarde. Não seja ingênuo leitor, adolescente não perde uma oportunidade de fugir de suas responsabilidades.
Eu não tinha aula integral naquele dia, então não havia motivo pra eu ficar o dia inteiro no colégio. Aliás, nem tinha me planejado para isso, obvio. E veio a proposto irrecusável: Eu duvido que você fica pra assistir o jogo, Anna. Essa frase veio da Nicole, que com certeza ficaria para admirar a beleza dos garotos. Na época, a Nicole era o que chegava mais perto de ser namoradeira/cheia dos contatinhos... Que bela inspiração de vida, não?
Parece que o acaso me deu um presente, certo? Então, se eu estava disposta a agarrar aquela oportunidade, eu tinha que me preparar para a ocasião.
Espero que já tenha entendido que aceitei o desafio da Nicole e então naquele momento eu precisava de um meio de avisar meus pais que eu não voltaria para casa a tempo do almoço.
Felizmente, (contexto, claro) não era muito incomum que isso acontecesse. Para passar total credibilidade, era importante toda essa encenação parecer muito natural, coisa do cotidiano.
Quando já estávamos no final da primeira aula após o recreio, chamei discretamente a Nicole para ir comigo até o banheiro. Chegando lá, ela achou que eu tinha alguma fofoca bem incrível pra da minha vida pra contar... mas minha vida não era tão emocionante assim. Ainda mais pra mim que tinha que vivê-la.
Eu expliquei que na verdade queria ligar pra minha mãe, assim ela não se preocuparia. Nicole fez uma cara de tipo onde mães se encaixam nisso?” e emprestou o celular.
Na pior das hipóteses eu ligaria a cobrar pra minha mãe, ela não atenderia e eu gravaria uma mensagem de voz falando sobre turno integral fora de data, ela escutaria isso em um domingo e pensaria: será que é uma festa?
O pior não veio, e ela atendeu no terceiro toque. Não é nada confortável conversar com minha mãe enquanto alguém olha. Ela atendeu meio confusa, já que era um numero desconhecido e eu respondi com um : “Oi mamãe.”.
Muito feliz ou não, ela continuou: “Esqueceu alguma coisa em casa de novo minha filha?” Comecei a dar meu pontapé inicial: “Na verdade esqueci sim. Eu tinha que contar da aula integral de hoje. Vai ter um jogo de vôlei mais tarde e praticamente todo mundo vai assistir. Além disso, seria bom passar um tempo na biblioteca pra revisar algumas matérias.” Até que fui bem sucinta, eu acho. De contra ataque veio: “Ah minha filha você nem avisou suas irmãs, elas vão ficar preocupadas. E como você vai almoçar? Você não tem dinheiro né? Ou tem?”
Tentei responder a altura, sem ser à altura demais ao ponto de parecer rude ou algo parecido: “ Mas você pode avisar elas pra mim. O cartão do papai tá comigo e dá pra almoçar um dia só sem problemas!”  É isso aí gênia, muito perspicaz.
Resumindo, minha mãe deixou, disse que ia pedir pras minhas irmãs guardarem um prato pra mim. Além disso, falou para eu não almoçar nenhuma besteira. Almoço é almoço, na língua dela isso quer dizer comida. Na minha língua, muito mais caro que um CHEETOS tamanho família.
Tudo certo no role do banheiro. Chegamos alguns poucos minutinhos depois do começo da 2ª aula após o intervalo. Mas há um consentimento universal em relação a “a coisas de garotas” e provavelmente foi dessa maneira que as outras pessoas entenderam a situação. Ainda bem que eu não estava menstruada no dia, ter azar no azar em plena segunda- feira é até que demais.
Bom, eu estava suave na nave por saber que eu não precisaria voltar pra casa cedo e nem aguentar a loucura do 6º horário na topic.
Em alguns momentos, que infelizmente são muitos, eu só sinto vontade de conversar comigo mesma nos meus pensamentos e com mais ninguém. Nesses momentos eu sinto vontade de me isolar para poder pensar tranquilamente.
Por conta disso, eu não senti vontade de almoçar naquele dia, mas eu precisava, porque não queria que a minha conversa com aquele garoto tendencialmente começasse com a minha barriga roncando e ele perguntando se eu tô com fome. Imagina que horror!
Do fundo do meu coração de garota na pré-adolescência, eu realmente não tenho o desejo de ficar com ele, só queria ter um amigo bonito... quem nunca?
Acabei dando um perdido nas meninas e indo pra biblioteca. Lá nosso único lugar desejável de se estar no inferno, por ter ar-condicionado pique freezer. Tava tudo tranquilo “good vibes”, porque evidentemente não tinha ninguém ali. Tinha um funcionário, claro, que na verdade é uma funcionaria e eu não ia com a cara dela porque me olhava como se cobrasse a minha multa da biblioteca.
Ok, eu posso estar exagerando e ficando paranoica, mas era esse olhar que eu tinha dela. Já imaginava que se a minha pessoa tivesse uma amizade com o Vinicius seria algo super superficial e bem sem sal mesmo, mas não custava tentar. Já que não tinha interesse nele, o que eu tinha a perder? No máximo a vergonha na cara, e agir logo porque continuar pensando, pensando e pensando nisso já está me deixando irritada comigo mesma... eu não tenho nada melhor pra fazer não?
** nota do autor: Jesus amado, quantos gerúndios!**
Talvez essa ladainha desse meu plano maquiavélico tenha me feito esquecer que eu tenho que comer...
É proibido comer na biblioteca, mas ninguém com mais de 10 anos respeita isso, então por que eu o faria? Porque eu sou uma idiota covarde que não tem nem a coragem de falar com um adolescente, e eu SOU uma adolescente! Do que estou com medo? Deus sabe que adolescentes mordem, mas crianças o fazem mais.
** o autor ataca novamente: E esse foi um vergonhoso trocadilho com a expressão: “tá com medo de que? Eu não mordo!”. Eu especialmente gosto mais quando termina com “só se você quiser”. É mais sexy, eu sou um gato? Um cachorro? Um humano? Nunca se saberá. **
Próximo capitulo: Os homens cheiram mal?
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Atualizado em: Sex 3 Abr 2020

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