person_outline



search

Rota 66 Cap02

Rota 66

Capitulo 02, A floresta negra, morte gelada

Estava então parado não muito distante da Taverna, lembrava-me do pesadelo e naquela criança
que vi, o sonho pareceu tão real, a menina vestida com roupas claras de pano, cabelos negros, olhos
escuros, olhos tristes, a figura embora fosse pequena, sua fronte apresentava uma pitada de
desespero junto a uma tristeza tão profunda que era o que mais me deixou incrédulo, por que
sonhei com ela, quem era ela?
As arvores balançavam, o vento gelado trazia um zumbido tão horripilante que me deu calafrios, era
um frio irreal naquele lugar, parecia já não ser o mesmo cenário em que eu cheguei à tarde passada,
eu não tinha ideia de onde estava pra onde tinha que ir, não sabia que horas eram ou se havia mais
alguém naquela floresta, não ouvia o som de nenhuma ave ou animal habitante do lugar, eu estava
sozinho ali? Ou será que... Lembrei-me dos mortos-vivos de ontem. Com atenção fitei com o olhar
floresta adentro procurando qualquer possível inimigo ou até mesmo algum animal, qualquer ser
que pudesse andar, saltitar, correr, respirar, mas os únicos movimentos que identifiquei eram folhas
caindo dos galhos que balançavam violentamente por culpa do vento, por um momento parecia que
o vento estava em batalha contra a vegetação daquela floresta, ainda parado no mesmo lugar, só
tinha em mente que de alguma maneira fui parar naquela realidade e de algum jeito tinha que voltar
para casa, para o mundo em que conhecia e vivia até a tarde de ontem. Caminhei pela estrada de
barro que tinha logo à frente do bar, com fome, com sede, com medo e com frio.
Três horas se passaram e com o frio absurdo de dentro da floresta eu já estava quase no meu limite,
enquanto caminhava notei que era impossível identificar o fim da estrada, pois além de tudo que já
estava lutando contra, uma nova dificuldade aparecia sutilmente, nevoa. Caminhando sem destino,
já ofegante, examinei a lâmina da espada, e vi que o sangue daquela maldita criatura se impregnava
na ponta, descendo com o olhar pude ver meu reflexo, meus olhos cinzentos, cansados, meus curtos
cabelos negros, sujos estavam, meu nariz pequeno e redondo, estava ficando avermelhado, meus
lábios que não eram grandes, estavam arroxeados pedindo por água. Eu já estava exausto e não
entendia por quê, mesmo nessas condições eu aguentaria andar mais que três horas no meu
mundo, na realidade que eu conhecia, mas por algum motivo meu corpo pesava e se continuasse
assim eu precisaria pensar em algum jeito para sobreviver até o amanhã, mesmo sabendo que seria
impossível suportar aquele frio da noite em que os graus estavam perto do 0, minha respiração já
estava forçada e dessa maneira eu teria que escolher entre caminhar ou respirar. Fazia quatro dias
que eu não comia uma refeição decente, apenas em lanchonetes fast-food, e talvez isso esteja
ajudando a me cansar mais rápido.
O frio macabro daquela floresta aumentava e caminhar já não era mais uma opção, o nevoeiro agora
ficou ainda mais denso, dificultando a visibilidade da estrada e da mata ao redor, além de estar no
meu limite não me parecia uma boa ideia continuar minha viagem por aquele lugar, a nevoa era tão
densa que ofuscava totalmente o meu campo de visão, não conseguindo enxergar minhas botas

pretas de couro sujas de barro, resolvi então sentar-me no pé de uma das arvores que seguiam a
estrada pela beirada, a espada eu deixei perto de mim, no chão ao lado direito, com o corpo
encolhido, o frio agora era insuportável e já era impossível enxergar em volta, este é o meu fim? Eu
pensava de todas as maneiras que existem para morrer, aquela era uma das mais indesejadas, meu
rosto e minhas mão, não podia mais sentir, sem chances, sem ideias, sem nada, era como eu me
sentia, pensei em enfiar a espada ou uma das flechas no meu coração, era o único jeito de sair
daquele inferno gelado, meus olhos pesados, minha pele arroxeada, e meu corpo paralisado pela
temperatura glacial, cada vento que batia em meu rosto era como se canivetes me cortassem, já
exaurido, sem poder respirar normalmente, a cada inspirada o ar congelava minhas entranhas. Já
não dava nem para mexer os dedos, tampouco aliviar aquela situação com a espada como tinha
pensado, nem sequer conseguia mexer meu pescoço, agora me sentia como se estivesse com
queimaduras por todo o corpo, a cada segundo que passava era sufocante, agonizante, latejante,
infernal. Podia sentir minhas pálpebras congelando, fechei os olhos com certa dificuldade e esperei a
morte vir me buscar, queria antes de morrer ter lembranças do passado, da minha infância, mas por
algum motivo nada surgia em mente, era como se eu nunca tivesse existido, não conseguia lembrar
da minha família nem de meus amigos, dos meus sonhos, o único desejo que eu tinha agora era só o
desejo louco e incontrolável de morrer o mais rápido possível, minha consciência estava se
perdendo, pouco a pouco minha visão escureceu. Antes de apagar de uma vez, eu ouvi gritos, mas
não pude compreender, pareciam gritos de uma mulher...

Calor era o que sentia. Finalmente o paraíso ou poderia ser o andar debaixo? Abri os olhos e não
estava na floresta. Era um quarto pequeno, senti um aroma adocicado, um aroma agradável, olhei
em volta e vi que as paredes eram de rochas cruas, era uma construção simples, porém, inteligente,
as rochas eram encaixadas como em um quebra-cabeças perfeito, minhas coisas estavam em uma
cadeira do lado da cama, onde eu estava deitado, sentei confuso, e vi uma porta de madeira sem
fechadura, uma corda amarrada nela fazia o papel de maçaneta, levantei e caminhei até a porta,
puxei a corda e olhei o que tinha do outro lado, uma menina me olhava, estática, a mesma menina
que sonhei na noite passada.

—Você! Quem é você menina? — apontei com o dedo para ela entusiasmado.
No cômodo não tinha nada além da menina parada em minha frente e uma porta atrás dela.
Ela se virou e caminhou até a porta.
—Aonde vai? Que lugar é esse?
Ela saiu pela porta e correu, andei ligeiramente para porta para ver onde ela estava indo. Ela corria
em um campo tão verde e magnífico, que me senti aliviado, contente por finalmente aquela criança
estar podendo ser feliz, assim, deixei-a ir, era um lindo dia, o sol aparecia, o céu sem nuvens ganhava
o tom de um azul tão penetrante que precisei perder alguns segundos o admirando, resolvi
caminhar pelo mesmo campo que a menina corria, foi quando percebi que estávamos em um campo
no topo de uma montanha, e olhando em volta podia ver montanhas maiores, a planície era
realmente indescritivelmente fabulosa, havia canteiros simetricamente espalhados por todo o

campo, cada canteiro com flores diversas, com espécies surpreendentes com as cores mais vibrantes
que já vi, uma brisa agradável me atingia, fechei os olhos e respirei fundo, aliviado, quando abri os
olhos vi a menina correndo voltando para minha direção, porém, a expressão que ela usava era de
desespero , ela gritava tão alto como se não tivesse esperanças, uma sombra a perseguia, uma
sombra de forma arredondada que ia a envolvendo a cada passo dado, e a cada centímetro movido
suas dimensões aumentavam absurdamente, conseguindo chegar a uma área aproximadamente de
5m2, quando tentei correr em sua direção, uma enorme rocha caiu dos céus esmagando-a e
silenciando-a subitamente...
Acordei sufocando, com crises de falta de ar, com dificuldades de respirar, desesperado, sentei-me,
tontura, ânsia, sentia todos os músculos do meu corpo enrijecendo, dores pelo corpo, frio, muito
frio, arregalava os olhos, mas nada eu enxergava, suando frio, com os braços abertos tentei tatear
ao redor, minha mão esquerda apenas alcançou o vento, enquanto o movimento com o braço
direito foi limitado por um muro, uma parede, rochas, rochas intercaladas, encaixadas como em um
quebra-cabeça, calafrios subiam pela minha espinha, o frio aumentava, onde eu estava? A floresta?
O inferno? Notei que estava sentado em algo macio, não era no chão, não era a floresta, foi quando
inconscientemente mordi meu lábio inferior com força, e logo senti uma dor tão fina e irritante que
finalmente consegui abrir os olhos, e no momento em que eles se abriram pude ver que eu estava a
salvo, não era a floresta, nem o inferno, ao menos não parecia. Examinei rapidamente o local onde
estava, ainda sentado em uma cama improvisada com feno e tecidos de algodão, pude identificar
uma lareira na parede feita com tijolos de barro a esquerda da cama que deixava o ambiente com
uma temperatura tão confortável e quentinho, que por um momento, um curto momento fechei
meus olhos, era como se eu estivesse na minha casa, no Brasil, na minha cama, com meus
cobertores, na época do inverno, era um calor tão desejado e nostálgico, que realmente eu abri os
olhos rapidamente jurando que ia estar sentado na minha cama, da minha casa no Brasil, mas
logicamente era apenas uma ilusão, a espada, a aljava com o arco e as flechas estavam no chão ao
meu lado esquerdo, uma porta era a única maneira de sair daquele quarto, as outras 3 paredes eram
de madeira com o tom escuro, assim como o piso do cômodo, uma mesa redonda e pequena de
pedra ao lado da porta que ficava mais à esquerda na parede de frente para mim, servia uma
refeição, ainda sentado, avistei dois pães, maçãs, bananas, e até uvas verdes, ao lado das frutas uma
caneca de metal e uma jarra do mesmo material. Levantei então sem pensar muito e ataquei aquela
mesa com voracidade, comi loucamente os pães, as frutas, me servi com o liquido que a jarra
guardava, era vinho, devorei aquela refeição em menos de 5 minutos, logo estava satisfeito, o vinho
era de um doce tão doce que por mais um momento me senti nostálgico, lembrei-me de um dos
meus vinhos favoritos que era feito com jabuticaba, foi a segunda vez em que tive uma lembrança
do meu mundo. Devolvi a caneca para a mesa, mais calmo pude me lembrar do sonho que tive
novamente com aquela criança, eu não sabia o que podia significar mais uma vez, como vim parar
onde estou e por que sonhei com aquela criança de novo?
Caminhei em direção à cama improvisada e me equipei com a aljava e a espada que sempre ficava
em minhas mãos, olhei para a porta, e automaticamente me veio à mente a figura da garotinha,
balancei a cabeça, direcionei-me até a porta que tinha fechadura de ferro, abaixei a maçaneta e
puxei-a, devagar fui deixando o quarto em que acordei, no outro lado da porta existia o que eu
conhecia como hall, no cômodo se encontravam uma lareira como a do quarto anterior, uma cama
improvisada, uma mesa com duas cadeiras, uma janela ao lado da porta de saída, e no meio do
cômodo estava parada uma figura baixinha e magra, a pele era tão perfeita e lisa que não parecia
real, os olhos claros refletiam o brilho da chama ardente da lareira e me miravam, os cabelos
pareciam uma cachoeira dourada que terminava na cintura da figura, orelhas pontiagudas e
marcantes, usava roupas leves com a cor verde floresta, botas marrons reforçadas, claramente era

uma mulher, mas não uma mulher comum, sua expressão era neutra, e quando olhei para seus
olhos, para o fundo deles, era como se eu estivesse a salvo, a salvo de tudo, era como se eu
estivesse voltado para casa, era como se eu não quisesse mais ir embora, poderia passar horas, não,
dias, podia passar dias a fitando, eu sentia uma energia diferente vindo dela, uma energia boa, pura,
uma energia que acelerava os batimentos do meu coração, uma energia única, que eu queria que
nunca acabasse, que nunca fosse embora.
—Finalmente acordou, como se sente? — ela me perguntou.
Sua voz era uma melodia de tão suave e calma, o timbre de sua voz me arrepiou e naquele
momento, foi gravado para sempre no meu cérebro, e por alguns segundos eu fiquei ali, naquele
lugar, parado, observando-a, imóvel. Então ela perguntou novamente.
—Você está me ouvindo? Entende o que estou dizendo?
—Estou. Desculpa... — respondi ainda encantado com a presença dela.
— Foi por pouco, se eu não tivesse te visto naquela arvore, você estaria congelado agora.
— Obrigado por isso. Mas como você me trouxe para cá? Por quanto tempo eu dormi? — eu estava
confuso.
— Não, não foi eu quem trouxe você. — ela sorriu, entendendo que era quase impossível que me
carregasse sozinha, 1,60 contra 1,95, e naquela floresta, com certeza seria complicado.
— E quem foi então? — procurei pelo resto do cômodo e não tinha mais ninguém.
— Foi um amigo, meu irmão, ele foi reconhecer a área para que possamos partir, afinal, faz 2 dias
que encontramos você.
— Dois dias?! Ainda estou na floresta? — perguntei coçando a cabeça.
— Sim, não é muito longe daqui a estrada por onde você caminhava. Mas o que te trouxe até esse
lado da floresta? Ainda mais na situação em que estamos.
Contei tudo que tinha acontecido comigo até a minha morte gelada.
Ela olhou para mim, parecia acreditar em tudo, parecia analisar tudo.
— Esta floresta em que estamos, costumamos chama-la de floresta negra, criaturas das sombras,
criaturas perigosas habitam-na. Você teve sorte com os mortos-vivos.
— E mais sorte por vocês terem me salvado. Obrigado. — agradeci do fundo do coração.
— Como se sente? Consegue continuar viagem conosco? — ela perguntou um tanto preocupada.
— Não sinto dores... — mentira. — Estou bem, consigo com certeza. — eu sentia dores, meus
músculos ainda estavam doloridos, sentia meu rosto sensível, mas não poderia recusar esse convite,
são moradores daquele mundo, eu precisava conhece-los, e assim tentar entender um pouco mais
sobre aquele lugar.
— Fico contente... Então se prepare, logo que Erestor voltar, nós partiremos. — ela falou com
firmeza.
Voltei para o quarto onde repousei, peguei três dos panos que foram usados para fazer a cama, e os
coloquei como túnicas. Quando estava para abrir a maçaneta meu corpo congelou, e o frio voltou a

me atormentar, pensei em como podia ser Erestor, seria parecido com ela? Seria diferente? Seria
bom? Respirei fundo e olhei para a mesa que me serviu o banquete, onde havia a caneca e jarra do
vinho, e os cestos que anteriormente guardavam as frutas, me servi mais daquele vinho saboroso.
Pensei naquela garotinha dos meus sonhos, pensei em minha batalha contra aquela criatura na
taverna, pensei na floresta negra, pensei naquele balconista, vários flashs vieram novamente em
mente, todos sobre aquele mundo, mais uma vez me perguntei onde eu poderia estar. Foi quando
lembrei-me daquela mulher que tinha acabado de conhecer e que possivelmente tinha me socorrido
e prestado os primeiros socorros, silencio, estava muito quieto. Balancei a cabeça para poder voltar
ao presente, e busquei a minha espada que tinha deixado encostada do lado da porta enquanto fui
tomar fui tomar um gole do vinho. Abaixei a maçaneta, e ela estava observando a paisagem lá fora
da janela, calma, atenta, imóvel...
— Desculpa, mas não sei seu nome. — eu perguntei a olhando.
—Sou Eámane Tasartir, e você? — ela respondeu virando a cabeça e com um sorriso doce.
— Arthur, sou Arthur Gomez. — falei firme com um sorriso amigável.
Com a lareira já se apagando, esperávamos por o tal de Erestor. Eu sentado na cadeira que estava
encostada na parede e Eámane ainda imóvel na janela, como uma coruja vigiando seu território.
Encostei a cabeça na parede e pensei naquela menina de novo, será que é algum sinal? Será que
alguém corre perigo? Será que Eámane tem alguma ligação com ela? O que sabia daquele mundo
em que estava não era muito, não sabia de nada na verdade, para mim o que havia acontecido até o
presente era algo impossível, eu estava armado com uma aljava nas costas e uma espada na mão,
realmente eu não sabia muito, estava louco? Era um sonho? Um pesadelo? Fui drogado por aquele
cara que me atendeu no bar? E assim, questionando minha existência cheguei a um raciocínio,
preciso encontrar aquela menina.

Continua no capitulo 03. Rota 66 - Eámane e Erestor.
Pin It
Atualizado em: Dom 22 Mar 2020

Deixe seu comentário
É preciso estar "logado".

Curtir no Facebook

Autores.com.br
Curitiba - PR

webmaster@number1.com.br

whatsapp  WhatsApp  (41) 99115-5222