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ESPETÁCULO

(...) - Gosta dessa quebra?


- Penso diferente, vejo diferente a situação. é como se eu assistisse você dançar, ir e voltar, se fazer e se desfazer. Se refazer. Oscilar quando lhe é conveniente. Entende?

Eu sou a plateia. quem assiste, com certa indiferença. Já que a plateia segue inerte e se adapta ao que assiste, ainda que com uma visão crítica, seja ela negativa ou positiva. Mas, ainda assim, aquela plateia que não abandona o espetáculo. E, talvez eu seja esse tipo de espectador. Não sei, complicado.
A questão é que, pensando do ponto de vista do espetáculo, há instantes em que a gente, expectador, se ver extremamente cativado, porque tudo ainda é desconhecido e ainda estamos esperando, com ansiedade, já que não sabemos o que vai surgir dali. É fresco. Desperta uma enorme curiosidade para desvendar o desconhecido. É excitante. Principalmente a ideia de ter algo tão próximo e quase ao alcance das nossas mãos. O segredo está aí, no quase, principalmente na incerteza se as nossas expectativas supridas ou frustradas.
Só que quando nos deparamos com o primeiro embate, a primeira crítica, a primeira cena do espetáculo que a gente não gosta… acho que a oração é essa “não gosta” ou que fere aquilo em que acreditamos, bem como os nossos valores ou princípios; a gente fica com um pé atrás, surge então o receio do que há de vir, a plateia fica com um olhar mais cauteloso ou até mesmo fascinado pela quebra de expectativa. Ruptura.
Aí sim, ocorre aquela velha coisa de “se adaptar a situação” e nosso encanto passa a se pautar em momentos. “Ah, gostei dessa cena” outrora “nossa, não gostei nem um pouco disso”... entende? Deixando-se levar pela maré.

Sempre vai ser assim, passa a ser assim, a depender do espetáculo como um todo e do desenrolar do enredo, o espectador vai se adaptando as cenas e se impondo a respeito delas ou, simplesmente, sem mais nem menos, e algum instante sai da sala e abandona o espetáculo.

Isso, abandona. Porque já não faz sentido ver aquilo, assisti-lo já não o cativa. Talvez justamente em razão das coisas que confrontam os seus anseios, valores princípios ou, até mesmo, as expectativas frustradas do espectador; se sobressai quando diante das coisas que o cativaram naquele espetáculo. Então, ele decide ir embora, com plena convicção e ciência do que faz. Ele sai daquela sala, literalmente abandona, porque já não há mais sentido permanecer, ficar, e observar uma coisa que em cima ele vai desmoronar.
[...]

(...) - Por que permanece?


- Sinceramente, não sei.

Acho que… ansiei por tempo demais a transformação do nosso vínculo, ou melhor, a saída do meio termo. Eu percebi a entrada e não a interrompi, pois acreditei que logo haveria uma definiçāo e a linha já nāo seria mais tênue. Seria uma coisa ou outra.

Mas, eu esperei por tempo demais. Identifiquei idas e vindas e senti coisas diversas. Também reconheci muita coisa que me desagradou e que pulsam para que eu abandone o espetáculo e pequenas coisas que me cativaram, sendo assim, me fazendo questionar o que mais teria a conhecer.

Me importei com algumas coisas e muitas outras me atingiram, justamente por ferirem meus valores e princípios. Sobretudo, ainda assim, houveram aquela que eu gostei intensamente.

E permaneço, creio que por elas.

Quer saber? Acontece que eu já nem sei. Simplesmente permaneço. É isso, fico a observar. Porém. Sem expectativas, nem mesmo a menor delas. Nenhuma.
[...]

(..) - Está presa nisso aqui.


Finalmente, me levanto. Após nenhuma cena específica, mas, simplesmente porque aquilo já havia me cansado. Passou a ser tedioso e nenhuma cena mais me causava euforia e as que deveriam me causar pavor, nāo me surpreendiam. Eu seguia inerte, sequer ansiava o final do enredo ou fazia presunções.

Me levanto. Sem mais, nem mesmo. De uma hora para outra. Sozinha. Sem nenhuma transformação. Cambaleio no escuro, esbarro em uma pessoa ou outra, ouço alguns murmúrios e sussurros, sobretudo questionamentos sobre a minha saída.

Em segundos, passo pela grande porta. E, por incrível que pareça, indago a minha partida. Sigo o longo carpete vermelho e entro desesperadamente no banheiro. Fito o meu rosto sereno e sólido no espelho. "O que estou fazendo?".

Suo frio e cogito voltar. Não sei exatamente o que me levou a isso.

Lavo as minhas mãos e, numa tentativa fútil de amenizar a tensão, - que nāo sei donde vinha - as deslizo molhadas sobre meu rosto.

Encaro-me. E falo, em alto e em bom tom, para mim mesma, com convicçāo: "eu abandono o espetáculo, agora".

Saio caminhando, levemente, até a loja de conveniências. Compro um chocolate qualquer, o saboreio, reclamo do gosto enjooso e do dinheiro que perdi. Como se nāo bastasse, resmungo do tempo perdido e do valor do ingresso da porra daquele espetáculo.


Janaina Couto ©
[Publicado - 2020]
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Atualizado em: Ter 24 Mar 2020

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