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[Poema] OUTONO

A brisa entra pela janela do meu quarto
no amanhecer chuvoso de agosto…
O cheiro das folhas e de terra molhada
invadem o meu quarto.
O barulho das árvores agitadas me atrai. 
Percebo o ambiente, sinto o clima…
Levanto e sento-me diante da janela 
e fico ali, simplesmente a observar.
A rua vazia, aparentemente tranquila
apesar da chuva ainda fina… 
E em meio aquela espécie de mormaço, 
havia uma tempestade em mim.

Abro a janela,
na tentativa de absorver a calmaria da manhã
A brisa assanha o meu cabelo,
me arrepio…
Me arrepio não só pelo frio
Arrepio por aquela sensação de pertencimento
instantaneamente
me lembrar você.

Desde então, as manhãs não são as mesmas
As vezes sou caos e desmorono
ao recordar os dias de outono aquecidos ao teu lado. 
Outrora sou eterno vazio
de um instante a outro 
as coisas já não fazem mais sentido.
E esta cidade perde todo o seu significado.
Me fazendo questionar
se esse tempo todo foi perdido
Não quero acreditar nisso
Como poderia?
Se já me fez florescer...
Outono, agora, me deixa incredula
Ainda não acredito 
Como pôde me deixar? 
Se entre nós havia aquilo
aquilo que pela primeira vez
chamei de “amor”

A chuva fica intensa 
Fecho as janelas. 
Olho ao redor 
Percebo algo que já havia caído no esquecimento
Encaro a caixinha de madeira marfim
abro a pequena caixinha de lembranças
e, aleatoriamente, 
tateio um antigo caderno de poemas.
Folheio-o.
Deixo-me cair em uma página qualquer 
ao som intenso de chuva
Leio o poema
não controlo o riso abafado 
parece tudo tão irônico.

Sou tocada por inteiro. 
como sempre,
é Inevitável.
sinto cada uma delas
cada lágrima que percorre
as maçãs do meu rosto
É aí que me dou conta
o exato instante
que sou tomada.

Algo que escrevi aos 15
Faz todo o sentido do mundo
agora
aos meus 26.
Poema escrito num outono...
O outono que se faz sempre presente.
O meu presente

Alívio.
A tempestade,
antes em meu interior,
cai lá fora. 
A calmaria, 
antes lá fora, 
em mim vigora.

Assisto a tempestade que se molda,
densa
As árvores que se agitam
As folhas que esbarram e grudam
no vidro límpido suado da janela 
Em instantes
Tudo, curiosamente, cessa.
se esvai a névoa.
Abro novamente a janela 
me apoio ao parapeito 
E como em uma antítese,
sinto o gosto das lágrimas
ainda em meu rosto
evidenciadas pelo meu riso.

Percepção.
Este último dia de outono 
intensificado
mais um tremendo significado
Finalmente,
eu abandonava o passado.
Sem internalizá-lo ou
questioná-lo. 
Simplesmente, 
deixá-lo.

Meu rosto cora
Me sinto tão boba, 
por acreditar que precisava de você, 
para me sentir completa.
Quando sou inteira sozinha. 
Tu, companhia. 
Parceria.
Que perdurou por muito outonos,
não apenas meus. 
Mas, nossos.
Outonos que adorarei recordar, 
recordar as brisas.

Hoje, percebo…
Somos duas pessoas 
que não mais se conhecem 
Com uma história e lembranças,
num passado em comum.
Outonos em comum. 
Repletos de significado
Outonos entrelaçados
Lembranças de manhãs
transformadoras,
como esta.


Janaina Couto ©
[Publicado - 2018]

@janacoutoj

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Atualizado em: Dom 28 Jun 2020

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