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AUSÊNCIA

Me surpreende que mesmo há muito tempo sem te ver, falar, fitar sentir, tocar, encara ou simplesmente lhe escrever… não houve sequer um dia em que eu não tenha pensado em ti. É absurdamente estranho. Você distante, me magoando, não só por isso; mas também, por não fazer questão, como quem já não mais se lembra, sem me chamar - sabendo onde e como me encontrar -, saindo com nossos colegas, mantendo contato e saindo com todos os meus amigos sem sequer pronunciar o meu nome. Não sei se fico feliz por você aparentemente ter superado e seguido em frente ou incrivelmente decepcionada por perceber que não marquei o quanto imaginava, na mesma intensidade que as estações contigo marcou a mim. Adoraria conseguir lidar muito bem com as idas e vindas, chegadas e partidas, mas não é do meu eu. Desmorono. 

E mesmo na ausência, você se faz tão presente… é na rotina do meu dia, na pausa para o café, na caminhada até a faculdade, é durante o meu banho, até na insônia da calma noite chuvosa… não precisa de muito, basta o soar de uma música para eu memorar um instante, ouvir uma frase sutil e julgá-la tipicamente sua, o notar de um perfume e percebê-lo familiar, é simplesmente tornar um lugar e desejar insanamente o teu toque, o teu corpo, a sua fala mansa, ansiar temerosamente estar novamente no envolto do teu abraço e ser preenchida pelo teu cheiro. Sim, a sua presença é leve. 

Confesso, nos primeiros dias estava a ponto de delirar. Ouvia o seu nome, relia nossas mensagens de texto, procurei todas as nossas fotos; lógico, escrevi muito na tentativa de exteriorizar e arrancar de mim o peso da sua ausência e até usei todas as suas camisas que ainda estavam no meu armário. Passei em claro todas as madrugadas quentes de agosto pensando em nós, em você, em tudo que aconteceu e que poderia ter acontecido - martirizando-me sobre o eterno “e se”. Em cada instante sozinha, eu pensava na dura transição do “nós” para o “ eu e você”. 

Eu ainda penso em nós. É, sobretudo, nas frias madrugadas tempestuosas, ao ser acordada pelos estrondos dos trovões, ao perceber o quarto iluminado não só pelo clarão da lua que atravessa a imensa janela, mas também dos raios luminosos que invadem e espantam a escuridão - você sabe, eu detesto raios por temê-los -; instante que me sinto pequena, frágil e extremamente vulnerável… lembro o quanto você me julgava boba e infantil por isso, mas ainda assim, me abraçava fortemente e não me soltava… não faz ideia do quanto eu me via protegida, naquele instante, ouvindo sua respiração, o meu mundo estava concentrado em você, mesmo que não estivesse vazia, uma felicidade insana me preenchia ao me dar conta de que você sempre estaria ali, comigo e eu por você. 

No entanto, é especialmente nas noites de sexta que o meu corpo pulsa e anseia pelo seu toque. O desejo de ter você, por inteiro, não somente no meu corpo, bem como na minha alma, como também o desejo de uma vida ao seu lado, de modo que meros instantes não são o suficiente. Me arrepio ao escrever isso. Sim eu sei, disse para ti inúmeras vezes “que a nossa coisa perdure, enquanto sentido fizer”, ela ainda fazia sentido para mim, em partes; jamais irei esquecer a imensidão que o tempo contigo me proporcionou, sobretudo, me fez ser alguém melhor, mudou minha visão sobre algumas coisas, me ensinou muito e  acabou agregando uma oitava cor ao arco-íris que chamo de vida… até a ruptura. 

Ainda enquanto estávamos juntos, ao deitar na cama cansada à procura do sono, imaginava um futuro incrível, deduzindo infindas possibilidades, criando e reinventando as cenas mais distintas… com apenas uma coisa em comum, você em todas elas. Vez ou outra me pego fazendo a mesma coisa, não largo essa velha mania, madrugada que coloco os meus fones na fútil tentativa de me dissociar do teu eu. Não é incomum, busco me castigar afirmando para mim mesma que você não merece tomar todo esse tempo de mim, digo realmente, alto e em bom tom, com convicção - pois preciso que digam com seriedade já que sou teimosa -, corro para o espelho e reproduzo mais duas ou três vezes a mesma oração. 

Mas, não adianta, não importa o quanto eu queira, tenho raiva de você por arrancar todo esse tempo de mim, tempo que eu gasto pensando em nós, escorre; e tenho ainda mais raiva de mim por atrelar a culpa a você de uma coisa que está em mim. Quem sabe, talvez com o correr do tempo, eu me acomode a sua ausência até não mais percebê-la; e se isso for verdade, que o tempo sana tudo, Deus, como eu quero que ele passe.  

Porém, acima de tudo, isso não é a parte difícil, o duro é assumir que, apesar de tudo, eu sinto falta de alguém que, ao final, me magoou. Jamais irei me perdoar por uma coisa dessas. Como se habitassem duas pessoas em você, o cara pelo qual, talvez, me apaixonei e o cara que me fez ir embora, não faz ideia do quanto sinto a presença da ausência desse primeiro. Não sou tola, recordo com clareza todas as suas condutas que me magoaram, desde ações à omissões, coisas que falou, coisas que você não fez… foram tantas. Sim, penso “ele não me merece, nunca mereceu”. Mas, instantaneamente, recordo das partes gostosas, dos instantes que fui surpreendida, que, aliás,  superam de longe as demais coisas - que se fazem diante dessa comparação tão bobas - e me remetem à minha criação do seu “primeiro eu”; portanto, acabo me sentindo uma mentirosa. 

É assim, sempre dessa mesma forma, que novamente aquele desejo me consome, uma chama azul, um fogo me domina de tanto que queimo em intensidade na ânsia de ter-te comigo… me contorço e o meu corpo estremece na abstinência do teu toque, desejando o teu amor, desejando com todas as minhas forças a ponto de te fazer pensar em mim, a ponto de sentir você pensando em mim, até que tudo se desfecha em brasa. Delírio.Chame do que quiser, loucura, insanidade, seja qual for o adjetivo, não conseguirá definir. Eu nunca imaginei que chegaria a esse nível. Qual o sentido disso? Me levará a o que? Será que é tudo isso em vão? Acredito que não, quero acreditar que não, acreditar que não foi e não é tempo perdido, não quero reconhecer que estou alimentando o que já morreu. Isso não é simplesmente paixão… 

Me corta as suas ações, pois elas me dizem que fui para ti apenas um capítulo. Enquanto eu fiz e faço de você o meu melhor livro, aquele favorito, que jamais canso de ler e reler. Eu gostaria de ter razões suficientes para acreditar que seu intuito é justamente tentar demonstrar isso, mas, que no fundo diverge da realidade. Realmente me corta, pois eu ainda te desejo. O meu íntimo, ainda que não insista em acreditar que estávamos “destinados a ficar juntos” (não sei qual  termo usar para definir), ele espera, com força, que você enxergue o quanto é gostoso quando estamos juntos, ao menos, para mim foi. Não, eu não estou dizendo que quero ser tudo para você; mas, a pessoa a quem não trocaria por nada. Nos proporcionamos um amor puro, percebi assim. Serei eternamente agradecida por essa dádiva. Sobretudo, eu gostei imensuravelmente da nossa coisa. Adoro o vínculo que construímos e é cortante vê-lo se diluindo. Talvez, eu não seja o grande amor da sua vida ou você da minha, o destino é uma álea, aliás, nem sei se existe isso de “o eterno amor” ou sequer “o grande amor da vida de alguém”, mas, saiba, que o nosso foi - ainda é - o amor mais intenso que vivi. 

E, por falar em destino, infelizmente, você será a minha eterna saudade, quem sabe a eterna quedinha, talvez o eterno desejo. Não sei. Mas, tenho certeza de que faz e fará parte das minhas melhores recordações.  Jamais esquecerei a grandiosidade do que me permiti sentir, com você. Sequer cogitarei intitular como fase, paixão ou ilusão tudo o que pulsa aqui. Agora, já não faço ideia da sua percepção sobre o nosso enredo, espero que seja um tanto parecida com a minha. 
Me fará sorrir se, eventualmente, de alguma forma, eu souber que pensa em mim com carinho, que te atingi de um jeito bonito. Soa tão simples quando diante do que eu acreditei causar.  E é um imenso contraste se comparado ao que me causou. Seria um prazer se lembrasse de mim como a garota pelo qual foi apaixonado, a amiga pela qual teve carinho, a mulher que te causou imenso desejo, a menina… que te proporcionou conhecer um sentimento que queima de tão intenso, quem incendiou a sua vida amorosa, sobretudo, quem realmente lhe despertou o amor. 

Não se é preciso ser perfeito para ser alguém incrível. 

Vez ou outra me pego pensando se, depois da ruptura, houve uma madrugada sequer em que você tenha me desejado. Me desejado de alma; como por um lapso temporal já desejou, já demonstrou, já gostou. Sentiu.  Desejo mesmo, sabe? Que só em me olhar te consumia, sendo preenchido por uma vontade insana e intensa, como uma fúria interior, um querer que corrói, uma imensidão latente implorando para me ter ao seu lado por toda a vida… Não faz ideia do quanto eu amava imensuravelmente esses instantes. 

Será que, por um momento, uma mísera vez, se questionou se ama ou amou?

As suas palavras, escritas, cuspiram na minha cara que não. E, ainda assim, demoro a acreditar. Contradizem tudo o que vivi. 


“Olha, desculpa. 
Me desculpa por cada vez que te deixei triste, por cada momento que te decepcionei. 
E, principalmente, por às vezes parecer um idiota com você.
A real é que essa coisa é grandiosa e eu não sei lidar. 
Eu não levo nada a sério na minha vida, muito menos ela própria.
E, sobretudo, não sei sequer um dedinho do que é sentir algo por alguém. 
Por isso, mudo repentinamente, sem mais nem menos, fico diferente do nada, meu estado de espírito me controla naturalmente e eu esqueço que as pessoas tem sentimentos e que preciso respeitá - los
Eu quero me afastar de você. Não por mal, mas por que não te faz bem ficar comigo. 
E eu não sou bosta nenhuma e não tenho nada pra te oferecer de bom. 
Por fim, agora, ainda que compartilhamos a mesma lua, estamos muito longe um do outro.
É isso.
Ps. Sou grato pelo tempo que esteve comigo. Foi puro. “


Não faz ideia do alvoroço sentimental que as suas palavras frias me causaram. Juro, ri ao terminar de ler, um riso sem alegria, aquilo era o cúmulo do absurdo. “Você sabe, não sou a pessoa que insiste na presença de quem já não quer ficar. Perde o sentido”. Depois de tudo o que você vomitou, pensei o infinito e o mundo e não dirigi a ti mais nenhuma palavra. 

Ainda que eu diga para mim mesma, com veracidade, em alto e em bom tom, que eu simplesmente me acostumei com a sua presença, me sinto uma mentirosa, tentando envenenar o meu pensamento na fútil tentativa de sanar o meu sentir. Nunca imaginei que seria doloroso e difícil assumir, bater no peito e falar, mesmo que somente para mim, que eu amo você. 

Isso é tão irônico, não é? Eu aqui, em devaneios por sentir o peso da sua ausência, enquanto ti sequer depois daquele dia, da ruptura, me ligou...


Janaina Couto ©
[Publicado - 2020]
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Atualizado em: Ter 24 Mar 2020

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