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Rota 66 Cap01

CAPITULO 1, A TAVERNA
Outubro, 2013.
Eram 16h42min, de uma tarde ensolarada, acelerando em uma motocicleta Harley Davidson Iron 883, cuja carroceria era de um preto igual à escuridão de uma noite onde não possa se ver a lua, exceto os dois escapamentos que eram cromados, estava eu viajando pelo deserto do estado do Texas nos EUA, a rodovia era vazia e a estrada desaparecia no horizonte da paisagem, pelo retrovisor era a mesma sensação, o ponteiro perto dos 70mph, avistei o que parecia ser um bar no meio do cenário que parecia ser um deserto, não havia nuvens no céu, diminui a velocidade da motocicleta que tinha um ronco agressivo e tremulo dei seta para entrar no pequeno estacionamento de três vagas do tão desejado estabelecimento.
Estacionei a preciosa motocicleta ao lado de um latão de lixo enferrujado, o cheiro estava tão forte que chamava a atenção de pequenas formas de vida, desde rastejantes à besouros e moscas, deixei o capacete que tinha a cor igual a da carroceria da Iron 883 em cima do banco, pois não tinha planos para demorar no lugar, caminhei até a porta da pequena conveniência e empurrei para que eu pudesse entrar, fechando a porta já dentro do bar notei que o lugar não tinha nada de diferente dos outros, algumas mesas com cadeiras perto das grandes janelas onde se podia ver o deserto lá fora e a estrada, um balcão de madeira velho e uma porta a esquerda do balcão, com o salão vazio, olhei para o balconista que estava entediado tentando achar um canal na pequena televisão do recinto e se refrescando com seu ventilador portátil. Aproximei-me do balcão.
— Com licença. —falei utilizando o idioma local.
O rapaz que não passava da casa dos vinte anos com os cabelos curtos e castanhos claros com o rosto liso e fino olhou para mim e fez um gesto respondendo a minha chamada.
— Você tem café? —era um dos meus vícios.
— Foi feito faz duas horas. —ele respondeu sem vontade.
— Vou querer, por favor, sem açúcar. –pude sentir um aroma adocicado e até que agradável, que era trazido pelos fracos ventos do mini ventilador.
Ele se virou para arrumar o meu pedido enquanto sentava-me em um dos assentos que ficavam em frente do balcão, olhei para a televisão que estava sem imagem, estava abafado, dois dos três ventiladores espalhados pela espelunca estavam desligados, ou possivelmente quebrados. Como alguém poderia viver nesse lugar? Pensei analisando o pequeno bar.
— Mais alguma coisa? —ele colocou o copo de vidro com café no balcão.
— Não, obrigado.
— O que traz um turista para essa parte do país? —ele tentava puxar assunto, notando o meu sotaque.
— Sempre quis conhecer essas estradas. Você sabe se tem chances de chover? —aproveitei para perguntar e beber um gole do café requentado.
— Não. O tempo pode mudar rápido e ficar feio, mas não vai chover. —ele respondeu com firmeza. — Aliás, como planeja voltar?
— Voltar? —estranhei a pergunta.
— Sim, você sabe que lugar é esse? —ele fazia cara de malicioso, fechando um pouco os olhos.
— Sei. A rodovia 66. —respondi firme.
— Sim esta mesmo! —ele bateu com as duas mãos no balcão e aumentou o tom da voz, sua expressão mudou e se formou um enorme sorriso malicioso em seu rosto.
— Esta tudo bem, rapaz? —perguntei me levantando.
Olhei para trás para fora do lugar pelas janelas, não acreditei no que meus olhos enxergavam, uma paisagem com muitas arvores e folhas secas pelo chão, procurei o cenário que tinha vivido antes de entrar ali, onde estava aquele deserto? Voltei a olhar para o atendente e cadê ele? Não estava mais lá.
— Ei cara! —gritei claro que com medo do que estava acontecendo.
O vento aumentava lá fora derrubando mais folhas das arvores e levantando algumas que estavam pelo chão, à televisão começou com um chiado irritante, logo notei passos em direção à porta pelo lado de fora então pulei para trás do balcão em um reflexo de defesa, procurando por qualquer rastro que o atendente poderia ter deixado, e só o que encontrei foi uma chave, uma chave maior do que as outras que já tinha visto, com a cor de ouro queimado. Abaixei para pega-lá e escutei além do chiado da velha televisão, o rangido da porta abrindo, guardei a chave no bolso escondido da jaqueta que estava usando e fiquei aguardando ainda abaixado. Depois da loucura que vi através das janelas, pensei em tomar cuidado com meus próximos passos, não sabia o que estava acontecendo ou o que poderia estar por vir. Ouvi passos no piso de madeira se aproximando devagar do balcão, procurei algo que servisse para me proteger do que estivesse entrado naquele lugar, mas não encontrei nada no chão nem nas prateleiras da bancada. Notei que minha ultima saída era a porta que ficava uns três metros de onde eu estava, comecei a rastejar devagar e parei quando ouvi mais passos, era uma segunda pessoa, calafrios era o que comecei a sentir, a visão ofuscou e o coração acelerou, meu corpo paralisava minhas mãos tremiam a cada passo que eu escutava, os passos não eram normais, eram devagar e parecia que uma das pernas era arrastada, um grunhido ia ficando cada vez mais alto.
Sem escolha nenhuma tive que agir o mais rápido, mordi os lábios inferiores até que uma dor insuportável me acordou daquela paralisia maldita, então peguei do bolso da calça uma moeda de 50 centavos e joguei-a na parede do lado oposto da porta em que eu desejava, por um momento ouvi os passos mudando de direção, levantei e corri para a porta que estava destrancada, antes de entrar por completo virei com a cabeça para poder ver do que estava correndo... Quando vi o que era arregalei os olhos e entrei pela porta, fechei-la e tranquei por dentro com a chave que estava na fechadura. Encostado à porta em estado de choque me veio em mente àquilo que vi antes de entrar na sala, um homem, pelo menos parecia, arriscaria um metro e oitenta centímetros, magro com roupas de couro e pano pesado, reforçadas, rasgadas, em uma das mãos ele carregava uma cimitarra de mais ou menos 1 metro, o rosto da ‘criatura’ era medonho o maxilar quebrado com a boca aberta e os olhos fundos e negros, na cabeça faltava uma parte, como se tivesse sem metade da nuca, até os ombros sangue seco
decorava suas vestes e seu pescoço, não tive muito tempo para checar a segunda presença que estava mais ao lado oposto do balcão. Voltando para o presente, as criaturas gritavam monstruosamente, dei uma checada no quarto, tinha um armário fechado na parede da direita e outro na parede da frente, o quarto era tão pequeno que quase que os dois armários se encostavam, com isso precisei respirar fundo para que eu não começasse com um ataque claustrofóbico. Três passos foram o bastante para alcançar o da direita em seguida puxei as portas de madeira e me deparei com roupas, algumas de couro outras de um tecido grosso, parecendo àquelas roupas de filmes antigos de guerra onde cavaleiros lutavam pela hora de proteger seus reis e rainhas. Então me virei para abrir o outro armário, ele estava trancado. A CHAVE! Veio-me a mente, procurei a fechadura e vi que era perfeito, peguei a chave do bolso da jaqueta e encaixei-a na fechadura, girei duas vezes com a chave para o lado esquerdo, abri as portas do armário e me assustei novamente, pensei ‘O que esta acontecendo? Onde estou? Estou drogado? Será que aquele cara colocou algo no meu café?’ Não acreditava no que estava vivendo no momento. Então de repente, ouvi um estrondo vindo lá do salão, lembreime das criaturas que estavam a gritar e os chiados daquela pequena televisão agora foram silenciados. Sem escolhas peguei a espada de dois gumes que media cerca de 1metro e 20centimetros e a largura de quatro dedos adultos que estava dentro do armário, vesti a aljava que estava carregada com umas 10 flechas contando rápido e peguei o arco que era de uma madeira tão leve e com detalhes feitos por uma faca, eu arrisquei.
A gritaria aumentava, coloquei o arco dentro da aljava e segurei a espada com as duas mãos em posição de ataque mesmo sem saber como conduzir. Quando me dei conta os gritos lá fora terminaram, agora pelo contrario um silencio absoluto tomava conta do lugar, colei com um dos ouvidos na porta pra poder escutar alguma coisa, mas estava realmente tudo em silencio e nem sequer ouvia o barulho do único ventilador grande que até eu entrar naquele quarto estava a girar, segurei a espada que não era muito pesada com a mão direita e com a esquerda destranquei a porta, segurei a maçaneta, a girei devagar e fui puxando a porta, engoli em seco, deixei aberta até a metade coloquei apenas a cabeça pra fora do quarto para ver o que estava acontecendo quando uma cimitarra vem em minha direção, recuei rapidamente e voltei dois passos para trás, a criatura atravessou com a cimitarra a porta de madeira que separa o bar do pequeno quarto, não pensei duas vezes, ergui a espada com as duas mãos e desci com ela cortando fora metade do braço do morto-vivo, a espada desceu tão rapidamente e com tanta força que não consegui para-la antes que tocasse no chão, recuei mais uma vez e a criatura sem metade de um braço entrou no quarto, meu próximo golpe tinha que ser fatal, pois se eu errasse esse próximo ataque provavelmente não iria sobreviver para pensar em mais alguma coisa, sem poder tentar um corte atravessando o pescoço e decapitando a criatura por causa do espaço do quarto, estiquei os braços para frente com a espada segurada pelas duas mãos, minha mira não falhou, acertei dentro da boca da criatura e danificando seu rosto, empurrei para que a espada saísse pela nuca. O morto-vivo então parou de se mexer ou fazer barulhos, apoiei meu pé esquerdo no monstro e puxei a espada de volta, o corpo caiu para trás abrindo a porta agora por inteiro. Aproximei-me devagar e espiei novamente, o bar parecia vazio, mas lembrei de que ouvi dois diferentes passos eu poderia estar delirando é claro, como poderia explicar toda essa situação. Contei até três e sai correndo e gritando para a porta de saída com a espada na mão, sem olhar para os lados puxei a porta e sai do lugar, era incrível, uma floresta, estrada de barro e trilhas eu avistei, fui até ao lado da conveniência, a motocicleta tinha sumido, o estacionamento tinha sumido, tudo tinha mudado, como se fosse uma mágica ou um sonho, saquei o celular do bolso, ‘sem serviço’ estava escrito, mas onde eu estava? O que aconteceu? Estava escurecendo e esfriando, no céu nuvens se formavam, o sol estava se pondo, entrei de novo no bar agora com mais calma e certa experiência, examinei o lugar de um lado para o outro e não tinha nada, decidi então passar a noite ali mesmo, pelo menos tinha teto e era mais quente do que a floresta, coloquei a espada e a aljava com as flechas e o arco em cima do balcão ao lado da televisão quebrada por um possível golpe da cimitarra
daquela criatura com quem batalhei pela minha vida, caminhei até a porta do quarto e arrastei o corpo daquela ‘coisa’, arrastei ele até o lado oposto do balcão onde tinha jogado a moeda, e coloquei três cadeiras em pé sob ele, qualquer movimento que ele fizesse eu ouviria, o pedaço do braço arrancado junto com a cimitarra eu os joguei no armário que estavam às armas. Tranquei a porta que era o único jeito de sair do local, empurrando duas mesas na frente da porta, estava frio, minha jaqueta de couro era desconfortável para dormir e não dava conta do frio incomum que fazia aquela hora, a calça jeans também não era o bastante, tive então que deixar minhas roupas e colocar aquelas que estavam no armário. Confortáveis e quentes elas eram, roupas diferentes, cores escuras, tinha um colete de couro marrom ainda para vestir, mas para dormir o que estava vestindo já era o suficiente, apaguei então a luz pelo interruptor que ficava na parede esquerda do lugar, deitei-me de trás do balcão no chão e demorei a pegar no sono, pensei no que estava acontecendo, pensei em adormecer e na manhã seguinte acordar no hotel em Dallas, pensei que no meio do meu sono aquela criatura me acordaria com um golpe de espada. O frio aumentou tive que usar a minha jaqueta como cobertor cobrindo apenas meus braços e meu tórax. Adormeci.
Sonhava com aquela estrada, a rota 66, aquele deserto, eu montado na iron 883, acelerando cada vez mais, com o vento batendo contra meu corpo, olhando para o asfalto que sumia no horizonte, o dia ensolarado, fechei os olhos por 3 segundos quando os abri de volta o céu que vinha do horizonte ficava escuro com nuvens negras, com trovões por todos os lados, o clima de agradável mudou para um frio tão absoluto que uma camada de gelo aparecia por cima da viseira do capacete, no meio do asfalto apareceu uma criança, uma menina, então tentei desviar dela jogando a moto para o deserto, não conseguindo controlar e desviar dos vários cactos que existiam ali do lado da rodovia, fui jogado por cima do guidão caindo no em meio dos arbustos de cactos, rolando e me cortando a cada rodada, bati meu joelho esquerdo em uma rocha pontiaguda e imediatamente senti queimando, estava sangrando... Despertei ofegante daquele maldito pesadelo, assustado, desnorteado, com a visão turva, sentei tentando olhar em volta esperando o pior cenário. Ainda com dificuldades de respirar e com calafrios pelo corpo vi a claridade pela parede, consegui me acalmar e controlar a respiração, já era de manhã, o cheiro era insuportável, corpo em decomposição, levantei-me, procurei meu celular no bolso da calça jeans, que estava em cima da bancada, estava descarregado, claro, esses celulares com varias funções, mas sempre descarregando rápido. Coloquei-o de volta no bolso da calça, dobrei-la e guardei em um dos armários junto com o resto das minhas roupas antigas. Voltei para frente do bar, vesti o colete de couro de mangas longas, coloquei a aljava com o arco e as flechas nas costas, segurei a espada suja com o sangue do morto-vivo com a mão direita, estava pronto para sair, arrastei as duas mesas que bloquearam a saída durante a noite, olhei a ultima vez para a criatura no chão, lembrei-me da cena da luta que vivi na tarde passada, balancei a cabeça para focar no presente, destranquei a porta e puxei-la, passei por ela e o dia já começava com uma manhã ensolarada, onde os ventos traziam bons aromas, pude notar o canto de aves pequenas, olhei adentro da floresta, mas apenas o que se mexia eram as folhas e galhos das mais variadas arvores, desde pequenas até as gigantes, arbustos com flores, mas o que mais me chamou atenção foi exatamente um conjunto de tulipas negras que nasciam do lado da taverna, exatamente onde a preciosa Iron 883 fora estacionada. Olhei para frente novamente, fechei os olhos, respirei fundo, ainda com os olhos fechados comecei a caminhar, devagar, quando senti uma brisa me envolvendo, por um segundo achei que estava sendo abraçado suavemente pelo vento, abri os olhos, meu corpo se arrepiou desde as pernas, até minha espinha, segurei a espada mais firme, respirei fundo. O céu estava mudando, já haviam nuvens escuras, e o clima estava esfriando, mas por alguma razão nada podia me abalar, olhei fixamente para frente, e mentalizei apenas que precisava sair daquele lugar, e com uma coragem desconhecida, falei em voz alta:
- Estou pronto!
Mesmo sem saber o que estava acontecendo, mesmo ter sobrevivido ao caos de ontem de tarde, por um momento, me senti em casa, era essa a sensação, aquele frio na barriga de ansiedade.
Balancei a cabeça para que aqueles pensamentos se dissipassem. Olhei para o céu, vi que algumas nuvens se formavam rapidamente, e uma rajada cortante de vento gelado me atingiu, me dando arrepios e paralisando meus dedos que seguravam o cabo da espada. Estava com um mau pressentimento. Precisava encontrar algum jeito de voltar para a minha realidade, algum jeito de acordar daquele sonho, daquele pesadelo. Eu estava pronto pelo que estava por vir, ou pelo menos eu achava isso.
Continua em, Floresta negra, morte gelada - Capitulo 2
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Atualizado em: Seg 2 Mar 2020

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