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Tudo aquilo que ainda não nomeei

Praça XV. 20 horas e 47 minutos de um dia qualquer. Tiro meu pacote de tabaco do bolso e ponho uma quantidade razoável em um pedaço de seda, juntamente com um filtro na ponta. O selo cuidadosamente. Sem pressa. Com minuciosidade. Tudo parecia calmo no dia de hoje. Porém, colocando as mãos no bolso da jaqueta, percebo que o isqueiro que tinha posto ali mais cedo não estava mais. Merda, pensei, enquanto respirava fundo, tentando não culpar a tudo e a todos por mais essa aparente “conspiração do universo”, capaz de me frustrar por mais uma vez.
Amigo, com licença, você tem isqueiro? Pergunto a um passante qualquer, que transitava com seu passo apressado pela rua. Típico de quem acaba de sair do trabalho depois de um dia provavelmente exaustivo e só quer chegar em casa, ver a esposa, os filhos ou apenas ter a própria companhia solitária. Ou eu poderia estar completamente enganado. Afinal é o Centro do Rio. Tudo aqui tem um passo apressado. Tudo cheira a turbulência. A ansiedade. Só de pisar por uma calçada ou duas você já entra em um ritmo tão frenético que sente que pode ter um ataque do coração a qualquer momento. Mas isso não vem ao caso.
Inalando e exalando fumaça, em um ritmo calmo e melancólico, me peguei olhando para as luzes da cidade. Ouvindo os sons dispersos ao redor, de carros, motos, ônibus, pessoas. Conversas ecoavam. Passos e mais passos. Alguns barulhos de saltos agulhas. Outros de sapatos sociais, que embora tenham começado o dia polidos, apresentáveis, agora, ao final do dia, se mostravam já gastos. Minha mente se voltava repentinamente para lembranças meio opacas, que eu não sabia distinguir com clareza. Alguns cheiros, bastante específicos, de pipocas e churros do carrinho de um ambulante me lembravam um pouco a minha infância. Misturados aos cheiros de bebidas entornadas nas calçadas sujas. Tudo ao mesmo tempo. Formando uma mescla, uma tela completa.
Tento trazer a memória com precisão a última vez que tive um momento verdadeiramente feliz. Não que eu fosse exatamente triste. Não. Essa coisa de completude é para quem acreditava em polaridades. Eu não. Embora eu tivesse a necessidade de tentar ser totalidade na maior parte das vezes. Não sou feliz, mas também acho que não sou exatamente triste. Talvez um pouco mais para tons melancólicos. Nem sei dizer. Só tento trazer à lembrança momentos. Como um memorial. Nada em específico. Quanto amigos tive até aqui? Poucos, eu acho. Em meio a essas turbulências de uma grande metrópole movimentada, acho que ninguém dá a mínima mais. Quantos amores? Não sabia precisar. Mas me questionava: quais? Os que existiram de verdade ou os que eu acho que inventei na minha cabeça e no final partiram como folhas ao vento?
Hoje em dia acho que minhas memórias vão se volatizando pouco a pouco. Tal como essa fumaça que o vento já levou. E agora sabe-se lá para onde o vento as levou. Como se os relógios tivessem subitamente congelado. Por um milésimo de segundo, ao terminar o último trago. Mas eles continuam correndo. Os relógios batem. Incessantemente. Tal como o ritmo frenético das ruas daqui. E talvez eu devesse ser menos nostálgico, mesmo sem saber exatamente qual é o ponto exato das minhas frustações. Deveria talvez ser menos trágico neste momento. Me aterrar mais. Como sempre faço. Ser feito da matéria sólida como madeira, que mesmo apodrecendo continua firme.
Logo eu que sou sempre tão contido em relação aos meus sentimentos, me pego em uma turbulência que nem mesmo as tintas que jogo nas minhas telas abstratas são capazes de captar. Eu que carrego o peso do mundo nas costas. Como se fosse uma mochila de suprimentos tão minha. Seria isso uma coisa natural? Intrínseca?  
   
                                                                                                                                 ◊◊◊

Verifico mais uma vez o celular para ver se não haviam mensagens novas. Nada. Justamente quando eu estou com toda energia do mundo dentro mim, é impressionante como parece que ninguém interessante surge para apaziguar. Para saciar as minhas fomes mais ávidas. Não que eu não tivesse nada para fazer ou estivesse entediada. Pelo contrário. Não era o momento de ócio que me atravessava. Eu estava ali, presente, com alguns amigos de faculdade. Todos supostamente atores, como eu. E também o diretor, que tínhamos praticamente como figura de um pai. Sem contar também os figurinistas, assistentes de palco, etc. Todos aqueles que faziam o nosso trabalho acontecer. Todos aqueles que trabalhavam duro para que o próximo espetáculo pudesse acontecer. Bichinhos de teatro. Cada um com suas próprias ambições nesse meio intenso que é a arte cênica. Sentados em uma mesa de um bar aleatório, que ninguém conhecia muito bem, em Copacabana.
Andando pelas ruas, pós ensaio, simplesmente decidimos parar ali para tomar algo. Uma espécie de happy hour depois de um dia inteiro de trabalhos intensos. Em plena terça-feira! Creio que quando se quer muito tomar uma cerveja não tem dia certo ou errado para isso. A gente não costumava se preocupar muito com isso. Sobre se era o dia “certo” ou “errado”. Morais imorais, eu dizia. Eu, pelo menos, era muito assim. Alimentava minhas vontades que surgiam no quotidiano. Como quem alimenta um animalzinho feroz que anseia por algo.
Mas eu já estava começando a ficar um tanto quanto impaciente. Inquieta. Não sei dizer ao certo qual era o ímpeto que surgia em mim. Eu adorava jogar conversa fora ali com eles. Discutir mais um ou outro detalhe da nossa peça que estava a caminho. Como era habitual. Porém, tinha momentos em que eu me sentia flutuante. Uma folha que se descola de uma enorme árvore no outono. E fica flanando no ar por um tempo. Como se eu não estivesse mais ali. Não sei se pelo álcool ou pela minha própria mente, que fazia isso naturalmente. Como se em alguns breves momentos eu pudesse me personificar em sei lá o quê. Sair do meu próprio corpo e observar a mim mesma. Observar atentamente aquela personagem que eu era. Que frequentemente sentia a sensação de não pertencer a lugar algum. Como um deslocamento ou fragmento. Eu me perdia tentando decifrar os traços da minha própria personalidade. Quem era eu e quem eram os outros em mim. O que era invasão, colonização. E o que era eu, como totalidade fragmentária.   
Sim, eu estava inquieta, caótica, turbulenta. Porém não ansiosa. Porque as vezes eu sentia vontade de devorar o mundo, de tentar caber nos mais diversos espaços, mesmo sabendo que nem sempre isso era possível. Eu tinha meu próprio espaço, ele só era demasiadamente móvel.
Não sabia exatamente a quanto tempo eu estava ali sentada. Só sabia que nesse meio tempo tinha aberto discretamente o Tinder várias vezes, por debaixo da mesa. Em busca de uma nova conversa, de uma nova excitação, não sei. Só precisava alimentar o animal feroz que habitava em mim.
Quando estava quase me dando por vencida e voltava a conversar com meus amigos, fixada naquela realidade do bar, o celular vibrou, avisando sobre novas notificações. Era um velho contato, que eu havia saído no mês passado. Aleatoriamente ele perguntou como eu estava e propôs um cinema ou uma praia qualquer dia. O certo era que eu queria algo que fosse realmente novidade. Porque aquele blasé de propostas repetidas era meio enjoativo. Já estava acostumada com aquele cenário repetitivo. E eu queria algo para hoje. O meu tempo é o agora. Algo que fosse comovente, porém imediato. Como um soco no estômago ou um trovão que eletriza o céu repentinamente. O animal estava com fome. Precisava de carne fresca.
Familiarizada que eu estava a viver sob a pele de tantas personagens cênicas – putas, santas, mães, filhas, rebeldes, introvertidas, sonhadoras e suicidas – de uma coisa eu sabia: eu gostava daquilo que me parecia irrevogavelmente intenso. Embora isso me causasse certa aceleração. Quase uma sensação de que se eu não agisse, o mundo poderia explodir a qualquer momento e me partir em milhões de pedacinhos. Desagregar. E, talvez, eu não soubesse ser destoante disso. Eu era feita do fogo primário de tempos mais remotos. E tinha consciência disso. O problema desse elemento é que quando sai de controle, rapidamente é capaz de incendiar florestas inteiras, cidades inteiras e corroer até mesmo aquilo que parecia mais sólido.
Te encontro mais ou menos em uma hora no seu apartamento, pode ser?  Mandei para ele, mesmo sem ter sido convidada ou ao menos saber se ele estava em casa. Pareceu um pouco chocado a princípio, mas disse que poderia ser. Dito e feito. Fiquei mais algum tempo no bar com o pessoal, terminando os últimos goles de uma cerveja que já estava começando a esquentar. Paguei a minha parte da conta e pedi um Uber para Botafogo.
A fim de evitar explicações, julgamentos ou qualquer desconforto, me despedi de todos afirmando que eu estava cansada e que precisava ir para casa. Ao entrar no carro, um leve sorriso de canto de boca surgiu repentinamente em mim. Eu sabia mesmo como viver as personas de mim mesma que habitavam em mim. E a noite só estava começando.      

                                                                                                                               ◊◊◊

Ah, eu tinha que admitir, de todos os meus fracos, esse cheiro de café e seus barulhinhos, quando está finalizando seu processo de ser passado, invadindo a sala era um dos melhores prazeres da vida. Me fazia lembrar do quanto eu gostava de observar os detalhes sinestésicos do quotidiano. Talvez por isso eu tivesse tanto gosto por ser roteirista. Transformar aquilo que era típico da banalidade em arte do movimento. Em tela imagética que cria cenas, sentimentos e histórias.
E embora as horas passassem voando e caísse madrugada adentro, lá pelas três e tantas, eu continuava tão ativo quanto quem produz de dia. Aliás, já tinha mesmo me acostumado a produzir nesse horário, tão silencioso e enigmático. Ele parece, justamente, trazer um tipo de energia diferente. Meio semelhante aos processos inconscientes. Quando você mergulha em algo que não está tão claro. Porém sabe que dali surgirão coisas que fazem total sentido para sua produção. Não era psicodelia ou loucura. Eram apenas ritmos que fluíam de maneiras tão próprias e oníricas que se transformavam em arte. 
E era engraçado pensar que apesar de ter recém entrado na casa dos trinta, a tão temida idade da vida do jovem adulto, eu percebia que continuava com um ligeiro brilho nos olhos. Brilho de quem ainda se permite ter alguma capacidade sonhadora. E não. Não que eu não tivesse tido as minhas quedas de Ícaro e meus mergulhos ao fundo do poço. Tive inúmeros. Porém, uma força aquosa me movimentava. Me fazia seguir adiante, sempre com meus fluxos internos. O que também me motivava a me mesclar em moldes diversos. Do surrealismo ao pragmatismo.
Aqui, em Niterói, os movimentos eram tão diferentes dos que eu costumava conhecer quando mais novo, que as vezes eu me perdia nesse turbilhão de pensamentos. E esquecia o que eu estava fazendo ou pensando inicialmente. Longe de casa por tantos anos, eu tinha aprendido a ressignificar o que eu considerava como minha casa. O interior de Minas, que parecia tão grande quando eu era moleque, hoje ficava cada vez mais pequenininho, a cada visita que eu fazia a minha mãe. Como se eu pudesse mapear cada canto que antes não conseguia.
Talvez eu tivesse adquirido uma noção de profundidade que antes eu não tinha. Tudo era tão maior. E claro. Certamente era gostoso respirar aquele ar mais puro do interior. Fingir me perder nas estradas de barro. Criar bichos no quintal. Sentir a cica da fruta arrancada do pé, ainda não madura, que a gente teimava em comer. O cheiro do mato depois da chuva. O primeiro beijo, daqueles de criança, com a prima atrás da árvore do quintal dos avós. A primeira vez com quinze anos, com a namoradinha depois da escola, escondido dos pais. E todas as lembranças a mais. Mas eu já não pertencia mais inteiramente a aquele cenário. Cada experiência nas cidades grandes me mostrava e mostra que as configurações da minha própria mise-en-scène chamada vida é por aqui. Pelo menos por enquanto.
Mas agora, acho que eu deveria voltar ao trabalho. Ter um projeto para terminar, por mais empolgante que possa ser, ainda sim tem seu lado chato. Por isso tomo mais uma xícara de café. Eu deveria entregar esse roteiro até o final de semana. E cada detalhe contava. O problema na verdade é quando você está determinado, mas sente que já tinha gasto grande parte da sua criatividade em projetos anteriores. Eu queria algo esplêndido. De roteiros meia boca Hollywood já estava cheio. E não. Eu não era nenhum gênio capaz de fundar uma nova Nouvelle Vague. Mas acreditava que o cinema latino-americano por si só deveria ser aquela seta fora da curva. E por isso eu sentia que tinha quase a obrigação de tornar meus trabalhos inovadores. Menos clichês ou previsíveis.
Tomava mais uma xícara de café. Parava. Ia até a janela. Observava o pouco movimento de carros circulando a essa hora da noite, aqui pelas ruas do Centro. Se ao menos uma ínfima gotícula de criatividade pudesse de repente cair do céu.
Nesse misto de apreensão e estresse, eu me lembrava de como tudo aparentemente parecia ser mais fácil durante a graduação. Embora tivesse me mudado para Ouro Preto, aos vinte, para fazer filosofia, o impacto da solidão da cidade era tão mais latejante aqui. Sozinho, em outro estado. Tinha uma amizade ou outra por aqui. Pessoas que eu tinha conhecido no mestrado. Gente que certamente estava mais acostumada ao meio artístico cinematográfico do que eu. Mas que acabei me familiarizando e me vinculando aos poucos. Tal como quando se entra em uma piscina gelada e ao invés de pular de cabeça você molha as partes do corpo de vagar. Porém, ao mesmo tempo, os contatos pareciam estar sempre dispersos. Eram gotículas se cruzando e se separando na janela do vidro do ônibus.
Na correria do caos de uma cidade grande como o Rio de Janeiro, ninguém parecia ter tempo inteiramente para nada. Nem mesmo eu tinha a ingenuidade de achar que eu tinha. E isso foi algo que percebi assim que saí do interior e vim para cá. A discrepância entre o interior e os centros urbanos batia forte cada vez mais, na medida em que também os beats acelerados do meu coração batiam descompassados. Talvez devido às três xícaras de café pós meia noite.
Decidi deixar cair meu corpo pesado no colchão que se encontrava no chão da sala; por sinal também era meu quarto. Ainda não tinha conseguido dinheiro para comprar uma cama descente. Afinal, ter recém começado a trabalhar com roteiros cinematográficos não era uma abundância, ainda mais em circunstâncias sócio-políticas como as atuais. Mas dava para pagar as contas. E não tinha jeito, eu definitivamente amava o que eu fazia, apesar dos apesares.
Acendi um beck que já estava pela metade. Depois de ter inúmeras vezes trocado de remédios para insônia, sem obter grandes resultados, foi o que descobri que funcionava. O que me desacelerava por alguns instantes. Conseguia relaxar, enquanto sorvia aquela fumaça densa e sincopada. Eu sentia o peso do meu próprio corpo no colchão. Até finalmente pegar no sono.          

                                                                                                                             ◊◊◊

Puta merda! Não acredito que eu perdi a porra da hora mais uma vez. Eu catava minhas roupas jogadas pelo chão e enfiava tudo de qualquer jeito pelo corpo. Nessa tentativa ridícula, batia os braços e as pernas em tudo quanto era canto do quarto, acordando o rapaz seminu que ainda dormia em um sono profundo. Qual era mesmo o seu nome? Felipe? Fernando? Algo assim. Eu vestia as roupas sem muitas noções, enfiando a cabeça e as pernas nos lugares errados. Parecia um furacão descontrolado. Até que finalmente consegui ajeitar tudo, abotoar as calças e arrumar a minha franja reta despenteada.
Pedi um Uber para casa e fui embora sem olhar para trás. Ele pareceu meio atordoado com essa saída súbita. Sem a famosa cerimônia de tomarmos café juntos, sorrindo e comentando sobre a noite anterior. Ainda bem que eu tinha uma desculpa realista para me desvencilhar disso. Não suportava esses clichês. Porém, pior do que isso, era que só de pensar que eu ainda tinha que ir para casa, tomar um banho, para tirar aquele cheiro úmido de testosterona da pele, trocar a roupa, para não perceberem que era a mesma de ontem e ajeitar minimamente a minha aparência, para que ninguém desconfiasse que eu havia mentido na noite anterior, já me deixava esgotada.
Mas eu estava acostumada. Eu nutria meus apetites e depois limpava as cenas dos crimes. Sem deixar vestígios. Felizmente ou infelizmente eu tinha me tornado muito boa em inventar desculpas e situações só para poder viver minha vida em paz. Sem nenhuma consideração alheia. Poderia até ter alguns amigos mais próximos, que eu revelava um ou dois detalhes mais íntimos da minha vida. Mas eu não poderia me dar ao luxo de confiar em ninguém. De deixar que meu trabalho fosse comprometido pela minha vida privada. Era assim que as coisas funcionavam.  
Cheguei ao ensaio já exausta. Porém, só de pisar naquele palco improvisado de taco sentia as energias retornando ao meu corpo. E como era gratificante estar ali. Me lembrava de que talvez fosse por isso que eu tivesse escolhido ser atriz. Cada vez que adentrava a pele de algum personagem, eu sentia um calor interno. Uma eletricidade que se espalhava por toda a coluna. Algo me abraçando. E agora mais do que nunca. Tudo isso porque após inúmeras audiências fracassadas, tinha finalmente conseguido o papel que eu tanto queria. Sentia que estava com tudo. Não estava ainda no que poderia ser considerado “o topo”. Mas, aos vinte e dois, sentia que as coisas estavam começando a se encaminhar nos trilhos certos. E eu confesso que sentia um orgulho próprio crescendo.
Dizem que nós mulheres temos ciclos que se findam e se iniciam de sete em sete anos. E eu estava apenas no começo da idade do novo. Da exploração de novos mundos e possibilidades. Por isso me inflamava de novas expectativas. Mesmo sabendo que criar algumas delas era um pouco perigoso. Então eu só queimava com aquilo que eu sentia que tinha algum calor para mim. Alguma faísca mínima. Eram apenas nesses momentos que eu conseguia me entregar e ser verdadeira. Nos outros, era apenas mais uma das minhas múltiplas personas agindo. E fugindo daquilo que eu sentia que não era para mim. 
Ao final do ensaio, o diretor comentou que queria conversar comigo. Um frio na barriga crescia.  Eu estava otimista. Pensava que finalmente tinha chegado a hora de eu ser reconhecida. Expectativas. Quem sabe uma indicação nova. Algum trabalho promissor para quando a temporada chegasse ao fim. Me preparava para isso. Talvez fosse por isso que Reinaldo andava tão mais próximo de mim nos últimos tempos. Sentia uma atenção especial se desenvolvendo. Não que ares de condescendência tomassem a minha cabeça. Mas me sentia preparada para avançar para uma nova etapa. Como se eu pudesse me expandir para algo que estava por vir.     
Luana, veja bem, tenho observado o seu trabalho como atriz principal; e você é realmente bastante ativa nesta companhia, comentou ele, com um tom um pouco mais intimista do que o habitual. O que me causou estranheza, pois parecia que algo não estava certo. Comecei a pensar que talvez pudesse perder o meu papel. Porém deixei esses medos passarem ligeiros após essa pausa. E ele continuou. Porém, o que eu quero realmente dizer é que mulheres tão novas quanto você não sobrevivem nesse meio artístico sem que saiam com as pessoas certas, se é que me entende, ele falava macio e convicto. Eu ouvia suas palavras em silêncio, quase sem reação, pois não estava acreditando naquilo que ouvia. Parecia que eu estava em uma espécie de cenário irreal, desses que você não acredita que está fazendo parte. Sendo assim, queria propor aqui em off que você saísse para jantar amanhã comigo, propôs, tentando alisar minha coxa direita com muita naturalidade. Ouvi dizer que um caça talentos famoso está pelo Rio de Janeiro; e com os contatos certos, você poderia subir a um outro patamar, ainda mais sendo bonita e acessível, digamos assim.
Conforme ele tentava me convencer de todos esses absurdos e se sentia cada vez mais no direito de me tocar, a maré da incredulidade logo passava e, retornando à realidade crua, eu explodia em raiva. Olha, Reinaldo, eu respeito muito o seu trabalho e tudo o que fez pela gente nessa companhia, mas você não tem o direito de se dirigir a mim dessa forma, esbravejei, me afastando dele atordoada. Eu só vou te dar uma chance sua putinha, falou em um tom mais agressivo, porém, ainda mantendo sua firmeza impassível e dura, enquanto segurava meu braço para eu não ir embora. E eu sei que para você vai ser fácil, você trepa com qualquer um mesmo, completou rindo agressivamente, baixinho, como quem se diverte.
Comecei a sentir as lágrimas a caminho, mas ainda fui capaz de engolir o que estava por vir e gritei para ele nunca mais encostar um dedo em mim. Era um grito oco, mas firme, que surgiu em um impulso que eu não sabia dizer muito bem da onde partia. Era defesa. Era o mínimo de resistência que meu corpo ainda abalado conseguia ecoar. Consegui me soltar dele bruscamente e saí tão rápido pela porta que não sabia se corria ou se andava. Só queria chegar em casa. Sair daquele ambiente doentio. O mais rápido possível. Não tinha mais ninguém no prédio. E eu não queria ficar sozinha com ele de novo. Toda aquela imagem agradável e paternal que eu tinha dele agora já não fazia mais tanto sentido.  
Me mantive impassível o caminho todo. Mas quando cheguei no meu apartamento não aguentei. Desabei. Ali no chão frio mesmo. Como cacos que se espatifam no chão. E se esparramam para todos os cantos. Não sabia dizer exatamente o que eu sentia. Se era raiva. Se era nojo. Medo. Angústia. Ou até mesmo a sensação torturante de que eu poderia ser devorada pelos lobos a qualquer momento. Em quem confiar? Eu não acreditava nas palavras que ele tinha dirigido a mim. Parecia uma fábula inventada de mal gosto. Em cada vírgula eu sentia a sua ambição nojenta e vulgar. O seu status de poder imundo, que fazia ele sentir como se pudesse fazer com os outros o que bem quisesse. Como marionetes a seu bel prazer. Não era aquele homem que eu tinha conhecido a um tempo atrás. Não sabia mais quem ele era. E aquele cenário todo ficava rodopiando na minha mente. Me fazia sentir náuseas. Minha cabeça começava a doer. Não conseguia respirar direito.     
Quando se é mulher, toda a liberdade e afirmação que a gente jura ter conquistado, pode parecer ruir quando coisas desse tipo acontecem. Pequenas e grandes fatalidades do quotidiano. Que nos jogam de um lado para o outro. Chacoalhando. Supondo que somos meras bonecas. Para enfeitar e decorar os ambientes. Para exalar o odor da graça e do recato. Da submissão frente a um jogo de poder desleal. Cruel e esmagador. O que era segurança? Em quem confiar?
Eu sabia do meu valor. Não poderia ser medido por um sex appeal. Por um corpo desejável nos lençóis que cheiram a capital. Eu sabia do quanto eu tinha dado duro para chegar até aqui. Tinha aberto mão de muita coisa. Da zona de conforto que deveria ter sido se eu tivesse cursado administração para trabalhar na rede de hotéis do meu pai. Agradando a todos. Sendo tudo aquilo que esperavam de mim.
Ao invés disso, eu sabia que não era isso que eu queria para minha vida. Eu era atriz, porque lá no fundo eu sentia pulsar em mim uma paixão pelo o que eu fazia. E homem nenhum seria capaz de me parar. Nem mesmo aqueles que me ofereciam o poder fácil. Porque eu sei que esse poder deles jamais seria negociado. Dado de bandeja. E sabia que só me sentiria poderosa se eu tivesse conquistado isso tudo com as minhas próprias garras. E eu não iria parar até conseguir. 

                                                                                                                          ◊◊◊

Definitivamente aqueles últimos dias tinham sido insuportáveis. Os meus únicos momentos de mínimas calmarias e desligamentos eram quando eu entrava em contato com as minhas tintas. Mas como eu estava correndo para entregar uma nova coleção a tempo para a vernissage da semana que vem, eu já não conseguia abstrair e pintar mais com tanta paciência. Acendia um tabaco atrás do outro. Eu não parava. Estava tão frenético. De repente tinha me tornado muito parecido com o ritmo daqui. Eu simplesmente queria que tudo saísse o melhor possível. Uma grande oportunidade como essa não acontecia todos os dias. Ainda mais para quem está começando agora. Precisava então ser o melhor no que eu estava fazendo.
O telefone tocava. E eu, com as minhas mãos sujas de amarelos, marrons e tons ocres, bufava ainda mais, pensando que aquela deveria ser mais uma distração. Ou mais uma tormenta. Era da galeria. Já atendi esperando pelo pior e infelizmente ele veio. Me dizendo que como eu ainda não tinha nome no mercado, ao invés de disponibilizarem uma sala inteira para meus quadros, eles decidiram, de última hora, reduzir para apenas uma parede. E provavelmente ela era minúscula. Em um canto isolado. Sem muita vida. Tinha me esforçado tanto para levar diversas obras que combinavam entre si. Que só faziam total sentido juntas. Mas era inegociável. No fundo eu sabia desde o início que estava bom demais para ser verdade quando recebi a proposta.
Logo depois de desligar o telefone, lavei as mãos. Sentei no pequeno sofá de dois lugares da sala e me perdi nos meus próprios desânimos por algumas horas. Era como se toda a energia que eu investi ao longo desse tempo todo já não servisse mais para muita coisa. E pesava. Frustrava sim. Como quem se frustra com a potência que investiu aparentemente no lugar errado. No momento errado talvez. Não sei. Não restava muito o que saber. Deixei o quadro que estava diante de mim do jeito que estava. Pela metade. Andei até a cozinha, abri a geladeira para ver se tinha alguma coisa minimamente animante e achei uma garrafa de vinho. Não sabia de quem era. Deveria ser de algum dos meninos ou de alguma de suas visitas aleatórias, da festa que deram semana passada, quando eu estava fora. Foda-se. Depois eu compro outra.
Levei a garrafa para sala e acabei com ela. Sem longas demoras. Enquanto voltava a terminar também o quadro. Eu estava claramente bêbado. Mas não sem controle. Sozinho em casa. Mas não me sentindo solitário, como na maior parte do tempo. Sentia a coragem voltando. Coragem líquida talvez, como diriam meus amigos. E eu voltava a botar os pés no chão novamente, quando voltava a ficar sóbrio. Recobrando a razão. Aquela que me tornava sólido e disposto a seguir em frente.
Apesar dessa pequena frustação, os dias que se seguiram foram de intensa criação. Acho que descontei toda a minha amargura nas telas, nas formas. Passei dias inteiros em casa pintando. Porém, mergulhado em uma certa melancolia também. Era estranho como quase toda vez que eu começava uma nova tela parecia que meus sentimentos escorriam junto com as cores. Eu não era muito de demonstrar as coisas. De me portar como uma pessoa sentimental. Mas quando eu segurava o pincel, era o momento que tudo vinha à tona. Quase como em uma espécie de vômito catártico. E eu estava em sincronia com as minhas palhetas de cores. Com as minhas formas abstratas. Com meus significados. Com cada tom sobre tom. O que nos resta então, em meio a isso tudo? Nem eu sei dizer. E a minha cabeça doía. Quando me dei conta já era sábado à noite. E eu estava exausto emocionalmente.
Um dos meninos, percebendo meu estado, sugeriu que eu saísse um pouco. Sair? Mas acho que ainda tenho coisas para terminar, falei para ele em tom indignado. Ai Arthur, para de agir que nem um velho, você só tem vinte anos ainda, vai te fazer bem, comentou como quem está cansado de tentar convencer alguém das mesmas coisas, além do mais, vou precisar do quarto essa noite. E eu me lembrava do quão descarado os colegas de quarto poderiam ser. Como já estava acostumado com esses pedidos, resolvi ceder. Tomei um banho, vesti um jeans um pouco desbotado e fui andando. Uma das vantagens de morar na Lapa era estar sempre a dois passos de qualquer coisa. Culturalmente falando. Ou simplesmente para farrear.
Sabe aquela sensação estranha de que mesmo estando cercado de pessoas, você se sente sozinho? É como se seu corpo fosse mais um na multidão. Um formigueiro de gente, indo e vindo naquele pequeno espaço da boate e você está ali. No anonimato passivo. E não. Eu não fico angustiado de estar no meio de multidões. Não tenho fobia disso nem nada. Talvez eu até goste um pouco. Às vezes costumo me sentir como um voyeur do quotidiano. Com alguém atento a cada detalhe. Como se as pessoas fossem pequenos borrões de cores. De tons quentes e frios.
A essa altura o álcool começava a fazer um leve efeito. O corpo ficava mais leve. Os ombros relaxavam. As mandíbulas. Os olhos. Tudo em mim era suave. Eu começava até a fazer pequenos movimentos com o corpo. Bem mínimos mesmo. Ao ínfimo som da música, que eu não sabia dizer qual era exatamente. Pensava novamente no controle e decidia ir até o terraço para fumar. Voltar a botar os pés no chão. Mas quando botei a mão no bolso percebi que tinha esquecido o tabaco em cima da mesa. Como sempre mais uma colaboração para que as coisas não acontecessem. Típico.
Desci as escadas em um ritmo que misturava a minha frustação com o som do ambiente. Parei em um canto mais afastado e fiquei observando aquelas formas dançantes na minha frente. Nesse mar de sensações humanas, que só cada um sabe que carrega. Ou as vezes o álcool os faz esquecer que sabem. Mas continuam sentindo mesmo assim. Toda adrenalina da noite. Todo tesão. Toda ansiedade. Todo desânimo. Toda frustação. Todo sonho e idealização volátil. Tudo ali acontecendo a cada instante. Todo esse ritmo agridoce do balanço das horas que eu nem sempre compreendia muito bem.
Do outro lado da pista um par de olhos me olhava com tanta fixidez que me intrigava. Era um olhar masculino. E eu não sabia muito bem como lidar com aquilo. Me sentia desconfortável. Mas de alguma forma um pouco magnetizado. Não. Eu não era gay, pensava comigo mesmo na minha consciência. Ele sorria, como quem tentava tranquilizar alguém com os gestos. Eu não deveria ter bebido. Eu não era gay. Ele se aproximava de mim como quem se sente convidado. Não. Não. Não se aproxime. O que eu estava fazendo. Eu não era assim. Oi, cumprimentava uma voz macia no meu ouvido. E eu sentia aquele hálito quente misturado a sensação gélida de uma bala de menta arrepiando os pelos da minha nuca. Não. Eu não era gay. Eu tentava dizer alguma coisa. Fazer uma menção de recuar. Fugir agora mesmo. Sair correndo daquele estabelecimento. Mas começava a sentir um par de mãos envolta do meu pescoço. E meus pensamentos ficaram em suspenso. Eu não era.... Meus olhos se fecharam automaticamente. E eu senti uma onda de calor. Não sei mais o que era. Não sei mais o que fui. Sentia uma ereção latejante começando. E as mãos dele procurando algo como se já soubesse o que acontecia. Você quer sair daqui? Perguntou, com um sorriso meio travesso. O que eu estava fazendo? Eu deveria ir para casa agora mesmo. Isso já estava passando dos limites. Sim, respondi tão rápido que até me assustei com aquela prontidão. Da onde eu tirei essas coisas?
No dia seguinte, quando os primeiros feixes de luz entravam pela janela, através da cortina mal fechada, eu acordei. Por alguns instantes deixei aqueles tons amarelo-alaranjados iluminarem parte do meu corpo. Ainda nu. Emaranhado nos lençóis cor de creme. De um motel qualquer do Centro que eu mal sabia o nome direito. A minha esquerda estava ele. Ainda meio sonolento. Se espreguiçando como um gato manhoso. Também nu. E agora eu via com mais clareza alguns dos detalhes daquele corpo. Detalhes que a falta de luminosidade e a euforia da noite anterior não me fizeram reparar. Um corpo masculino como o meu. Porém tão diferente de mim ao mesmo tempo. Já não me sentia mais desconfortável. Pelo contrário. Experienciar aquele tipo de toque, que eu nunca tinha me dado ao prazer de sentir, me fazia ter a ligeira sensação de que algo se abria em mim. Talvez uma nova perspectiva. Talvez novas formas de sentir as sensações. Não sabia dizer. Só poderia estar enlouquecendo.
Apesar disso tudo, não poderia me manter assim tão inebriado. Precisava me justificar. Esclarecer as coisas para ele. Talvez para mim também. Disse então a ele, um pouco hesitante, que embora a noite tivesse sido realmente muito boa, eu não era quem ele pensava que eu era. E não poderia ser mesmo. E quem você é afinal? Me indagou ele, brincando e rindo, como se aquela situação fosse divertida. Uma pergunta que me irritava um pouco, mas ao mesmo tempo se tornava quase angustiante. Não sabia ao certo. As minhas sólidas certezas estavam se evaporado junto com os prazeres da noite anterior. Olha, eu não sou gay, respondi de maneira séria, como quem precisa defender uma causa. Mesmo sem saber se falava sério ou não. Eu também não sou, Arthur, comentou ele, parecendo se divertir ainda mais. Parecia estar disposto a me irritar profundamente ou me torturar. Acho que percebeu quando fiquei atônito, encarando ele por longos segundos. Já ouviu falar em uma coisa chamada bissexualidade? Existe e não foi um conceito eu que inventei não, dizia ele bastante afirmativo de si, mas ao mesmo tempo brincalhão. E continuou. Quem sabe agora você não ache a “solução” para os seus “problemas”.                  

                                                                                                                                  ◊◊◊ 

Resolvi dar uma variada hoje. Tinha acordado invadido por um bom humor tamanho. E por isso, ao final do dia, decidi parar em uma cafeteria que eu gostava para tomar um expresso duplo. Eu gostava muito do meu próprio café, mas hoje senti que a atmosfera pedia um toque diferente. Não sei porque, mas eu tinha essa mania de me “presentear” vez ou outra com alguma coisa que eu gostava muito. Às vezes porque eu estava muito feliz. Outras porque estava um pouco triste. Sempre tinha uma justificativa que dizia respeito a alguma emoção muito forte pulsando. Embora eu não fosse uma pessoa impulsiva.   
Consegui uma mesa um pouco mais reservada, fiz o meu pedido e aproveitei para abrir o notebook e trabalhar um pouco mais. Apesar de eu já ter entregado o roteiro ontem, me sentia cheio de energia pulsante para começar algo novo. O bom de ir a uma das poucas cafeterias que abria em um final de tarde de domingo era poder escrever meus roteiros com mais tranquilidade. Sem a interferência dos barulhos das conversas, dos talheres, xícaras e sons ao redor. Inspirava fundo, totalmente despretensioso. E percebia como era bom essa sensação. O cheiro do café. As poucas pessoas que circulavam por ali, passeando despretensiosamente, porque, afinal, hoje não era dia de semana. Tudo fluía bem. 
Parecia banal, mas alguns segundos eu me enchia de espanto por perceber o quanto era bom a sensação de se sentir vivo. Não apenas ter consciência que se está vivo. Mas sentir algo fluido e quente ao mesmo tempo por dentro. Era uma mistura de algo que cheirava a infância, a um calor muito primordial, como a terra após um dia inteiro exposta ao sol, misturado a algo mais feroz, talvez mais instintivo. E quando o gosto do café expresso chegou a minha língua, eu sentia um prazer enorme se mesclando a aquilo tudo. Quando eu falava sobre isso, muitas pessoas chegavam a me olhar com estranheza. Como quem não compreende que essas sensações sinestésicas são mais quotidianas do que parecem. E são simples. Não complexas como pode parecer. Mas profundas.
Cada gota de café, cada cheiro do ambiente. Tudo parecia um novo material ainda não explorado, que poderia ficar bom nas cenas que vinham a minha mente. As palavras pareciam escorrer pelos meus dedos com uma imensa facilidade. Mas eu precisava de mais. Terminei de beber o café e saí para caminhar um pouco. Como um flâneur sem nenhum destino em específico. O sol estava prestes a se pôr. Parei por fim, apoiado a uma mureta. Com um olhar um pouco distante. Mergulhado no que minha visão enquadrava em um contraste entre a palheta de cores do céu e a da Baía de Guanabara. E aquilo bastava.
Por alguns momentos eu ficava em suspenso por ali. Quase sem fôlego. Por alguns momentos eu pertencia a aquela cidade. E o lar no interior já se desembaraçava. Não existiam mais tantos apegos a ter uma cidade natal. Estava conformado a ser esse andarilho cosmopolita. Que embora fosse um pouco solitário as vezes, no pequeno espaço do apartamento, ainda sim me sentia livre. Cada respiração era uma expansão. De mim. Das minhas forças criativas. De todos aqueles sonhos que eu adiei. Mas desengavetei depois que resolvi me dedicar ao mestrado aqui. E agora todos esses pequenos processos faziam cada vez mais sentido. Naquele momento tudo estava exatamente onde deveria estar. E eu estava presente. E as palavras tornavam a jorrar novamente, depois que o êxtase passava aos poucos. Eu abria novamente, então, a tela do notebook e escrevia meus brainstorms como se eu pudesse me apossar das palavras. Fazer as ideias e histórias dançarem no ar.
Quando já estava escuro e os pontos de luz do mar ficavam meio ofuscados, decidi ir finalizando minhas escritas e ir para casa. Já estava começando a esfriar. E o vento da orla, de uma tarde de outono, começava a se mostrar ainda mais evidente. Optei por voltar a pé para casa. Caminhar um pouco sob esse céu me fazia bem.
Tive então a ideia de chamar alguns amigos para tomar um vinho lá em casa hoje. Acho que viria bem a calhar. Passei no mercado e comprei três garrafas de Concha y Toro: um Malbec, um Cabernet Sauvignon e um Merlot. Uma pequena variação de uvas que agradaria a todos os gostos. Paguei as compras, enquanto mandava uma mensagem no grupo. Se eles não topassem, ao menos eu teria um mini estoque de vinho. Mas para minha sorte eles se animaram. Fazia tempo que eu não marcava algo assim. Alguns até perguntaram: Diego, o que deu em você? Mas acho que hoje valia a pena deixar fluir.
Tinha convidado poucas pessoas. Acho que o ambiente ficava mais aconchegante assim. Alguns fumavam na janela. Outros bebiam taças de vinho. Discutíamos ideias. Projetos eventuais. Falávamos bobeiras. Casos da vida. Risadas embriagadas. Tudo parecia se tornar uma questão existencial. Acho que era sob essa atmosfera que eu queria viver. Sem comparar direta ou indiretamente o passado com o presente. Sem estabelecer juízos de valor que não possam se modificar com o tempo. E se tornarem outros. E depois mais outros. Criando movimentos vivos.
       
                                                                                                                                    ◊◊◊

Os últimos seis meses tinham sido particularmente duros. Com a rotina intensa de ensaios na companhia, quase não sobrava tempo para investir em qualquer outro projeto que fosse. Mas eu estava satisfeita. Tínhamos acabado de realizar a primeira apresentação. E apesar de não ter dado tanto público como gostaríamos, fomos bastante elogiados pela crítica. A sensação calorosa de que todo aquele esforço tinha valido a pena me inflamava agora. Especialmente porque depois daquele episódio, a cada ensaio, Reinaldo fazia de tudo para me sabotar. Tudo que eu fazia quando estava trabalhando tinha que ter o dobro de cuidado e dedicação. Mais do que qualquer outro ali.
Eu odiava essa sensação de ter que me afirmar o tempo todo, com mais determinação a cada dia, só para não ser engolida. Para não ficar para trás. Depois do assédio muita coisa acho que muda na vida de uma pessoa. Os medos vêm mais fortes à mente e reverberam no corpo todo. E tudo aquilo que parecia tão leve e natural, agora demorava um pouco mais para ser executado. Uns dias são de completo bloqueio. Tudo fica meio estranho. Opaco. Sem brilho. Sem som. E sem cor. Mas eu continuava. Trabalhava duro. Batia o texto com a minha colega de apartamento até mesmo nos finais de semana e feriados. 
Infelizmente, quando se é um homem influente no meio artístico, poucos são aqueles que não compactuam direta ou indiretamente com esse tipo de posicionamento. Era bizarro pensar que nesse meio, como todos queriam estar ao menos uma vez sob os holofotes brilhantes, se sujeitavam a todo tipo de coisas. Como cachorrinhos que vem lamber os dedos do dono. Mas felizmente eu tinha conseguido me desvencilhar disso. Não que eu me sentisse melhor do que ninguém ou mais esperta. Porém sabia o quanto eu vinha lutando para existir aqui. E ao mesmo tempo queria poder ter o orgulho caloroso de quem eu estava me tornando. Sem depender de jogos sujos para isso. Sem depender de cicatrizes maculadas pelo ar fétido de ter que se vender.   
Apesar de tudo, era bom poder contar com as pessoas com quem eu trabalhava na companhia. Eu via hoje, ao termino da peça, o brilho nos olhos de cada um. Mesmo nos olhos daqueles que estavam mais desesperançosos com os nossos processos de criação. Estávamos todos integrados. Por alguns momentos sentia uma atmosfera familiar. Quase que de pertencimento. Certamente era um momento muito propício para comemorarmos essa nossa pequena vitória.
Escolhemos, então, um bar próximo dali para brindar. Reinaldo disse que daria carona para alguns no seu carro e que o consumo de hoje seria por conta dele. Claro, tinha que forjar ser um homem com uma personalidade carismática, que fazia todos ao seu redor o idolatrarem. Se eles soubessem as sujeiras que se escondiam por trás daquela máscara. Aquilo me enojava. Decidi pegar um Uber para evitar qualquer situação na qual tivesse que estar supostamente sujeita a ele de alguma maneira. Até mesmo na minha conta do bar eu fiz questão de pedir uma comanda separada. Todos estavam tão eufóricos com a conquista de hoje que nem perceberam. Ainda bem. Pois odiava ter que me explicar. Mas ele percebeu. E pareceu ainda mais enfurecido com o meu desdém.
Tentava me desprender um pouco daquele olhar nauseante. Aproveitar um pouco o ambiente com o pessoal. Afinal de contas, aquela era também a minha noite. Mas confesso que tinha momentos em que minha mente parecia me trair. E a tranquilidade da noite em amigos, se transformava em uma crescente angústia. Começava a me sentir sufocada. Como quem sente duas mãos pesadas estrangulando a garganta. Me lembrava dos pesadelos que andava tendo. Me lembrava dos olhares. Das sabotagens. Precisava de um ar. De um respiro mais longo. O que é segurança? Mas para minha sorte, o bar tinha uma espécie de terraço. A salvação. Uma área aconchegante destinada para os fumantes. Ou para quem sentia que poderia ter uma crise a qualquer momento.
Apoiada na sacada, eu tentava respirar lentamente. Minha cabeça doía. E eu tentava me concentrar em qualquer outra coisa para não colapsar. O que é segurança? Necessitava de algo que fosse um pouco mais rápido que uma respiração lenta e profunda. Você por acaso teria um cigarro? Perguntei a um rapaz que fumava ligeiramente próximo a mim. Não. Eu não tinha o hábito de fumar. A menos que eu estivesse muito nervosa ou angustiada. E sabia que mesmo não sendo habitual não era a melhor opção. Mas as vezes a gente recorria às medidas mais drásticas.
Você está bem? Me perguntou ele, com um olhar um tanto quanto melancólico. Eu comentei que só estava passando por uma noite um pouco complicada. Felizmente, ele não procurou entrar em detalhes. Só se calou. E voltou a fumar no seu canto, sem me encarar muito.
Parecia que compartilhávamos um silêncio bastante confortável enquanto fumávamos. Daqueles que não é preciso dizer nada. E nem mesmo inventar falar de como estava o tempo, para não criar distancias. Para uma mulher como eu, que costumo ser bastante comunicativa, ficar um longo tempo em meio a um silêncio pairando no ar, ao estar na presença de alguém, não costumava ser um bom sinal. Mas não nesse caso. Estranhamente os nossos silêncios se comunicavam de uma maneira bastante peculiar e razoável.
Inalando e exalando fumaça, começava a surgir uma agradável calmaria. Minha cabeça começava a voltar para o lugar. As imagens de pânico se desfaziam. Acho que elas começavam a ir embora com o vento. Meu nome é Luana, disse, sentindo a necessidade de me apresentar a aquele estranho. Prazer, Arthur.
A partir disso, conversamos um pouco. Tentei puxar assuntos para compensar o episódio anterior. Me distrair um pouco. Ele me dizia que tinha vindo ao bar com seus colegas de casa. Ideia deles. Arthur parecia ser um tanto quanto introvertido demais. Disse que eles já estavam um pouco bêbados na mesa lá em baixo e que ele preferia ficar um pouco distante. Não gostava muito de perder o controle. Achei aquilo meio engraçado. Porque todo mundo parece necessitar de umas doses de escapes momentâneos hoje em dia. As vivências pesam as vezes. Então não sei. Estar o tempo todo em um estado de sobriedade me parece ser meio exaustivo. Mas acho que aquela pose rígida não duraria muito tempo.
O tempo foi passando e um cigarro se transformou em dois. Depois em três long necks. E aos poucos parecia que já éramos amigos de longa data. Embora eu saiba que quando eu bebo um pouco tenho a tendência a ficar mais sociável do que o de costume. Mas isso não vinha ao caso.
Eu ia percebendo que ele tinha uma linguagem corporal meio enigmática. Não sabia dizer se ele estava tenso ou relaxado. O que queria de mim. O que pensava. Entretanto, como não sou muito de analisar eternamente as coisas, mas sim agir, perguntei se ele queria tomar mais umas cervejas no meu apartamento. O que o fez parecer meio hesitante a princípio. Mas depois agiu como se fosse exatamente a pergunta que ele estivesse esperando. E eu já não estava muito preocupada em disfarçar nada. Em esconder nada.                

                                                                                                                                    ◊◊◊

Os últimos três meses tinham sido bastante diferentes do que eu estava habituado. Com a chegada de um novo ano, ao invés de eu me sentir um pouco reflexivo ou melancólico, me sentia até esperançoso. Não que pudesse ser considerado um ímpeto de euforia ou algo assim. Era apenas um toque de leveza.
A minha produção artística tinha aumentado consideravelmente. Enquanto a quantidade de tabacos vinha diminuído. Era bom estar sob uma nova perspectiva. Mais calorosa talvez. Acho que resultava da estranheza de saber que quando eu achava que a vida era mesmo essa coisa que acontecia em meio a matizes acinzentados e suas variações, achando que nada mais poderia me surpreender, eu poderia estar completamente errado.
Não costumava me deixar balançar por qualquer pessoa ou situação, mas quando ela surgiu naquela noite foi como uma reviravolta. Como as formas abstratas de uma tela dançando para mim no escuro. E me saltava aos olhos que, embora ela não fosse nada parecida comigo, as nossas imensidões dialogavam.
Depois do meu último término, a anos atrás, me pegava convivendo com a estranha sensação de que talvez ninguém mais fosse capaz de ver através de mim. De que talvez ninguém fosse se interessar realmente por aquilo que eu era. Melancólico, abstrato e pessimista. Um retrato daquilo que eu não sabia ser diferente. E o episódio no quarto de motel barato tinha mexido um pouco com isso também. Porém, tinha sido só um encontro efêmero. Desses que até vem com intensidades e cheios de novidade. Mas que não dão em nada no final das contas. E eu estava conformado de saber que meus encontros com as pessoas estavam fadados a isso. Não que eu fosse de muitas pessoas, de muitos contatos. Pelo contrário. Preferia nitidamente a minha própria companhia. Acho que ela era menos decepcionante. Embora eu me pegasse sendo uma decepção a mim mesmo diversas vezes.
Mas o que estava pensando, antes de me perder nesses pessimismos típicos, é que desde aquela primeira vez com um homem, em um dia na qual eu não estava esperando nada, algo tinha acontecido. Porém, eu já não focava mais nisso. Tentava apagar aquilo da memória. Dificilmente me entregava assim. Eu preferia aprofundar as minhas raízes no meu trabalho. Na minha arte. Assim eu era. Assim as coisas deveriam ser.
Porém, apesar disso, eu gostava de mergulhar nos abismos das pessoas que me interessavam. Era intrigante empreender esses mergulhos mais profundos. Mesmo que eu tivesse um pouco de receio de me aventurar em coisas desse tipo. E assim eu empreendi essa descida ao caos que habitava em Luana. E que eu achava até bonito. Meio confuso. Cheio de amarras embaraçadas. Algumas meio ininteligíveis. Mas ainda assim, tinha uma certa beleza. Uma abstração que me enchia os olhos.   
No começo foi um pouco difícil lidar com toda aquela energia. Com todo aquele vigor. Eu queria ser casa, aconchego terreno. E embora ela parecesse querer também, ela gostava de ser livre. Voar que nem os pássaros selvagens. Ela me dizia que não queria namorar. Que preferia deixar as coisas como estavam. Com algumas saídas entre nós. Com mais frequência do que se poderia chamar de casual. E eu não estava habituado a isso. Não estava acostumado a coabitar em um relacionamento na qual eu tivesse que dividir. Na qual fossemos um, mas ao mesmo tempo continuássemos a sermos dois. Individualmente. Eu gostava de quando nos fundíamos em uma coisa só. Porém, confesso que talvez também gostasse do jeito como preservávamos nossos espaços subjetivos. Nossos refúgios solos. Acho que encarava isso como estar em algo mais aberto. Não sabia dizer ao certo. Mas preferia deixar um pouco de lado essa minha mania de entender tudo. De nomear e explicar tudo. 
E dia após dia ela me ensinava a desbravar as intensidades. A ser pura pulsão. A lidar com eventuais ciúmes. A ressignificar a palavra “minha”. Que já não era sobre posse. Era sobre entregas. E eu a ensinava a desacelerar. A saber parar também. Pois alguns de seus excessos poderiam se tornar um tanto quanto destrutivos. Éramos fogo e terra. Duas faces da mesma moeda no final das contas. E não precisávamos de “porquês” plausíveis para coexistir.

                                                                                                                               ◊◊◊

Muita coisa tinha se passado nesses últimos tempos sem que eu percebesse. As apresentações continuaram a acontecer. Os dias se tornaram mais corridos. Três meses se passaram como se fossem três semanas. Mas era extremamente gratificante. Eu tinha conseguido finalmente ter tido coragem para contar aos meus amigos da companhia o ocorrido. E, para minha surpresa, a maioria tinha me apoiado. A confiança começava a se estabelecer nos nossos vínculos.
Ao término da temporada, decidimos entre nós que nos desvencilharíamos da companhia teatral de Reinaldo e fundaríamos nosso próprio grupo. Confesso que não era uma decisão exatamente fácil. Estava sendo difícil para todos. Ainda mais que agora tínhamos um nome e um certo reconhecimento. E isso pesava na vida de qualquer artista. Sobretudo de quem estava em início de carreira. Mas entre o prestígio artístico turbulento e a tranquilidade de poder trabalhar em um ambiente na qual eu não fosse constantemente assediada, eu preferia zelar pela minha saúde mental. Isso era importante. E eu merecia estar em um ambiente que me fizessem bem. Que fosse simplesmente saudável para eu estar. Pois cada dia a mais naquele lugar fazia eu me sentir como quem está constantemente se equilibrando em uma corda bamba para não adoecer. Entre a euforia de cada apresentação bem-sucedida e os constantes olhares perseguidores. E também os toques, nada sutis, disfarçados de esbarrões ou incidentes. Como se a minha pele não me pertencesse. Como se fosse objeto público. O que é estar segura?
E sim. Eu tinha consciência de que, infelizmente, eu ganharia menos. Que talvez o caminho a ser percorrido fosse mais longo em trabalhos independentes. O meio artístico poderia ser bem ingrato quando queria. Ainda mais quando era mantido vivo pelas influências, pelos prestígios e acordos absurdos. Tudo isso pesava tremendamente na balança. Será que vai ser o suficiente? Será que vai dar para pagar as contas e ainda seguir adiante com os projetos? Não. Não era fácil. Mas era preferível.
Porém, para além desse inconveniente, a minha vida também tinha adquirido rumos interessantes nos últimos tempos. Quando Arthur apareceu naquela noite, em que uma crise e um turbilhão de sentimentos angustiantes me atravessava, eu sinceramente achei que ia ser só mais um estranho. Uma conversa para matar o tempo e aliviar o peso. Um corpo a mais ou a menos na minha cama. Um êxtase de uma noite que iria embora com os primeiros raios de sol. Uma presença calorosa para acalentar por um tempo extremamente efêmero, como as brasas queimando em uma fogueira, que se apaga depois de um tempo. Seria apenas o habitual. Tão habitual quanto almoçar todos os dias ou escovar os dentes. Apenas mais uma necessidade. Pois a minha fome não era nunca pequena.
Porém, surpreendentemente, a noite em claro com ele no meu apartamento se tornou um convite para uma exposição na semana seguinte. E depois se tornou um convite meu para ele assistir a minha peça. Não era como estar em um relacionamento. Mas ao mesmo tempo era parecido. Algo do tipo. E, estranhamente, o ponto mais forte entre a gente não era o sexo. O que fazia falta. Mas acho que entre nós existia uma espécie de cumplicidade de quem se cruza assim, por acaso, e se conecta. Continuávamos com os nossos quotidianos, com os nossos pequenos e expansivos mundinhos individuais. Mas eles se entrelaçavam. Nas conversas, nos orgasmos, nos olhares, nas peles, nas artes e nas dores indizíveis de cada um.      
Eu gostava de estar com ele. Sentia que eu não perdia as minhas liberdades. Nem as minhas individualidades me forçando a me dissolver em uma presença masculina. Eu me bastava. Eu era um fragmento inteiro. Mas ainda assim era bom poder me adentrar nessas trocas. E eu conseguia ser sincera. Sem ter qualquer imprescindibilidade de ser alguma persona em específico para me proteger ou agradar.  A gente era simplesmente o que era. E isso era o suficiente.
E claro, eu continuava com as minhas próprias aventuras particulares. Conhecer pessoas era sempre algo que me atraía muito. Eu gostava de encarar esses personagens quotidianos. Saber como funcionavam, como se conectavam com as coisas ao redor. Achava bonita essa coisa de experimentar a multiplicidade. A multiplicidade de corpos, gostos, efeitos, cheiros, ambientes, sons e temperaturas. E embora desde muito cedo parecesse uma coisa muito natural para mim, não costumava encarar as coisas na aleatoriedade. Como atriz, eu gostava de prestar atenção nos gestos, nas pequenas sutilezas. O que pode um corpo sentir e experienciar?     

                                                                                                                                      ◊◊◊

Meus processos de escrita se tornaram um pouco bloqueados novamente. Era impressionante como o fluxo da abundância nem sempre era contínuo. Tinha dias que simplesmente não adiantava a quantidade de café e nem o meu apreço pelos seus sabores. Não escorria quase nada pelos dedos batendo nas teclas do notebook. E muito menos nas anotações do bloco de notas. Eu estava dormindo um pouco mal. Preocupado novamente com prazos e processos criativos. Parecia que minha mente andava em outro lugar. Talvez estivesse vagando pelo interior de Minas. Pelas lembranças incompletas de saudades que as vezes apertam no peito. Da minha mãe, dos meus três irmãos, da vó que ajudou a me criar. E até mesmo dos gatos e cachorros que meu irmão mais novo tinha mania de resgatar da rua eu parecia sentir falta.
Minha vida obviamente fazia mais sentido por aqui. Eu sentia que fluía melhor por aqui. Mas ao mesmo tempo, as vezes me sentia tão pequeno nesse mar de gente. Gente que se esbarra, mas que não se atravessam. Morar em uma cidade grande as vezes trazia seus pesos. Surgiam sentimentos conflituosos. Uma saudade do conforto de casa misturada a sensação apavorante de ficar sozinho. E eu sei. Eu sei que tinha prometido a mim mesmo naquele dia que tudo isso bastava. Que eu não precisava deixar a minha mente flutuar em saudades que cheiram a medo da solidão. Porque aquele passado já não me pertencia mais. Eu acho que só tinha mesmo era medo de ficar sozinho. Perdido na cidade que ainda não me acolheu como filho.
Cada vez mais eu percebia também que acender um beck antes de dormir não estava mais funcionando como calmante natural. Meu corpo parecia não responder mais. Tinha se tensionado. O fluxo aquoso tinha se tornado o gelo sólido de um inverno europeu. E a chuva continuava caindo lá fora, escorrendo pela minha janela sem parar. Madrugada silenciosa. Daquelas que eu costumava considerar perfeita para terminar um roteiro ou criar algo novo. Mas hoje era só mais uma madrugada na qual a insônia vinha me abraçar ternamente.
Mas afinal de contas, os dias ruins não eram todos que eu tinha. De vez em quando, ainda saía com os amigos do mestrado. Convidava eles para fazer algo. Eu era bastante comunicativo quando eu queria. Adorava estar rodeado de pessoas com quem eu pudesse trocar experiências acadêmicas. E até mesmo experiências de vida. Para jogar um papo fora ou sei lá. Sabia que fazia bem. E eu gostava dessa sensação de tomar “banho de gente”.
Porém, ultimamente, a maior parte do meu tempo eu estava passando no meu quarto. Escrevendo sem parar. Apagando e reescrevendo. E sentindo uma tremenda vontade de jogar tudo fora as vezes. Porque apesar de todos os apesares, de se fazer o que gosta, a gente ainda tem que lidar com os prazos. Tem que pagar as contas.
Por vezes, me pegava chorando no meio do banho repentinamente. Mas nem eu sabia exatamente pelo o quê. Não sabia dizer exatamente se era bom ou ruim. Porque ao mesmo tempo em que me batia um prazer imenso por estar vivo, mesmo com as diversas cicatrizes, me crescia uma estranha angústia. Mas eu só deixava escorrer. Era bom deixar escorrer todos aqueles sentimentos. Deixar cair as gotículas no tapete e serem absorvidas pelo tecido. Deixar a pele secar ao vento. Deixar as emoções viverem fluxos parecidos com os ciclos da água. Afinal, ter me mantido otimista ao longo desses trinta anos é o que me sustentava. Apenas tentava lidar com essas emoções na medida em que surgiam. E acho que grande parte dos meus roteiros se refletiam em um pouco disso. Por mais imparciais que parecessem ser. Mas o fato é que eu precisava de uma reinvenção urgente. Para não acabar enlouquecendo.
No dia em que fui entregar um dos meus últimos roteiros, não pude deixar de observar um cartaz bastante convidativo pregado em um dos murais. Com suas cores misturadas e vibrantes, ele indicava um workshop de curta duração de dança contemporânea. Nem sei ao certo porque passou pela minha cabeça me inscrever. Nunca tinha me arriscado a dançar nada na vida. Para dizer a verdade, ultimamente os meus movimentos tinham sido muito mais voltados para a minha produção, para meus fluxos de consciência. Mas talvez fosse bom estourar esta bolha. Sair um pouco desses ciclos repetitivos. Eu não tinha nada a perder mesmo. E sendo de curta duração, eu não precisava me comprometer a permanecer por longos tempos.  
Para a minha surpresa, a primeira aula tinha sido melhor do que eu imaginava. Era bom ter essa sensação de movimento. Me sentia meio desengonçado sim. Mas fluía. De alguma maneira. O som da música do estúdio e os balanços dos corpos ao redor. Sentia até uma facilidade em me comunicar com as pessoas. Com algumas mais do que outras. Tanto com as palavras, quanto com o corpo. E não pude deixar de notar que o espaço parecia permeado por uma maioria de mulheres. E que elas pareciam ser potentes no que faziam. Leves na dança. Envoltas em uma certa aura transcendente. Mas sempre tinha quem se destacasse mais. Era claramente perceptível.      

                                                                                                                               ◊◊◊

Tirar um cochilo a tarde tinha suas vantagens. Muitos não gostavam. Mas eu, particularmente, me sentia renovado. Mais até do que no sono da noite. Tanto que acordei, lavei o rosto e estranhamente tive ânimo para dar os toques finais a um quadro que eu estava trabalhando nesses últimos tempos. As cores que eu utilizava agora não puxavam mais tanto para os tons amarronzados, amarelados foscos e nem cinzas. Era o vermelho vivo e voraz e os alaranjados que saltavam aos meus olhos. As formas dançavam com mais facilidade. Tinham paixão. Movimento. Talvez elas estivessem precisando disso. E embora eu ainda nutrisse um apego pelas formas antigas, eu achava bonito como novas coisas me apareciam. Ia sentindo aos poucos que eu não tinha mais tanto medo assim do novo. Não me pareciam mais abismos fundos e incertos. Embora ainda fossem imprevisíveis. No fundo, talvez, a perspectiva do novo sempre estivesse ali, como um velho amigo me rondando. Eu só deveria não hesitar em acessá-lo. 
Enraizado nessas sensações de bom humor, decidi fazer uma pequena surpresa para Lua. Assim, de última hora. Nada demais. Só me veio de repente um ímpeto de vê-la. Já fazia umas duas semanas que não nos víamos pessoalmente. E por mais que trocássemos mensagens diariamente, não era exatamente a mesma coisa. Então tomei uma ducha rápida, troquei a roupa respingada de tintas e parti. Sem tabacos no bolso. Sem grandes expectativas. Assim, de cara limpa e coração lavado.
Já era começo de noite quando peguei o metrô em direção ao Flamengo. Estava um pouco cheio, mas não impossível. Conforme ele andava, eu começava a prestar atenção nas pessoas ao redor. Geralmente, em transportes públicos, eu costumava me voltar muito para dentro. Para os meus próprios pensamentos ou sensações desagradáveis do ambiente. Mas hoje só observava. Nada em especial. Alguns rostos cansados do trabalho. Alguns concentrados em uma tela ou em algum livro. Uma ou duas crianças que pareciam brincar de se esconder uma da outra através da saia longa, em estilo indiano, da mãe. Mas a mulher aparentemente não se importava. Aparentava estar imersa em algum tipo de estranha alegria causada pela agitação dos pequenos. Como traços de cores vibrantes em meio a matizes acinzentados.
Quando cheguei a meu destino, não precisei procurar muito para vislumbrar de longe a fisionomia dela através dos vidros. Seu jeito enérgico e apaixonante de se mexer e de se comunicar. Ela se destacava sem fazer grandes esforços. Era o natural dela.
Ao que tudo indica, a aula já estava no final. Resolvi esperar em um dos bancos do lado de fora. Alguns minutos não iriam ser problemáticos. Observava o pátio ao redor. As pessoas que saíam da aula. As árvores com os seus tons vivos de verão, porém encobertas pelo escuro da noite. Tudo parecia estar exatamente onde deveria estar. Mas a demora começava a ser um pouco longa demais. Cinco minutos se tornaram dez. Depois quinze. Depois vinte. Vinte e cinco. Meia hora! Todos saíam e nada dela. Não queria parecer paranoico. Não queria parecer preocupado ou tenso. Mas comecei a achar aquilo meio estranho. Decidi encontrá-la. Mas talvez não tivesse sido boa ideia.
Na pequena sala, ela beijava um rapaz ao fundo, com as luzes apagadas. Uma espécie de facada no peito, mesmo que tivéssemos uma liberdade conversada tantas e tantas vezes. Eu soube que era ela, porque a luz do poste amarelado do lado de fora fazia com que alguns feixes iluminassem seu rosto. Qual a distância entre as palavras e a realidade? Sabia que não deveria me sentir assim. Mas talvez começasse a pesar os sentimentos mais obscurecidos. Os ciúmes. Os pessimismos. A sensação de que tudo não passava de algo fadado a fracassar. Eu não sabia se eu era suficiente. Começava a me sentir inseguro.  
Eu estava quase dando as costas para ir embora. Porém, devido aos barulhos de passos, ela percebeu que não estava a sós. Vi quando ela abriu os olhos subitamente e se espantou com a minha presença ali. Sem entender muito bem o que se passava. E talvez um pouco preocupada também.
Ela vinha em minha direção, tentando talvez apaziguar. Mas eu estava paralisado com o que via. Meus batimentos começaram a acelerar. Aquilo não poderia ser real. Parecia um fruto da minha imaginação. Eu só poderia estar ficando louco. E da minha boca só saía quase inaudível um loop lento e confuso de uma palavra que só eu parecia ouvir. Diego?

                                                                                                                             ◊◊◊

O meu espanto de ontem trouxe à tona diversas memórias adormecidas. Nove meses atrás, naquele quarto de um motel barato no Centro do Rio. Apesar de não termos trocado contatos, eu me lembrava de Arthur com carinho. Eu já tinha dormido com outros caras. Até mais do que com mulheres. Mas o que eu achava engraçado nele era seu jeito tão dúbio. Ele hesitava, entrava em negação. Porém, tinha uma força que o puxava para o outro lado. Que o fazia se entregar por fim. E isso fazia ele parecer uma pessoa cansada. Aparentemente cansado de lutar diariamente contra si mesmo.
Confesso que tive uma felicidade súbita de saber que o quotidiano banal ainda podia fazer as pessoas se cruzarem assim. Parecia cinematograficamente arranjado. Coisa que não aconteceria duas vezes na mesma existência. Pois só de roteirizar já me parecia improvável. E acho engraçado de pensar que se mudassem o cenário, talvez fosse mais plausível esse contexto. Se acontecesse no interior talvez fosse mais viável. Estávamos acostumados a cruzar com um ou outro conhecido diariamente. Todo mundo parecia saber da vida de todo mundo. Mas em uma cidade como o Rio de Janeiro tudo parecia tão distante. Não geograficamente falando. Eram as conexões que eram difíceis. Efêmeras como chuva de verão carioca.
Ontem à noite, as coisas aconteceram de uma maneira improvável. Eu diria quase mística ou misteriosa. Lua não entendeu muito bem o que se passava. Não sabia se sentia culpa ou tentava entender o que aquele estranho encontro significava. Jogava palavras ao vento freneticamente, tentando formular atitudes coerentes. Arthur, por sua vez, parecia congelado. Estático. Como quem não consegue reagir muito bem. E talvez nem quisesse reagir. A barreira só se rompeu quando eu sugeri que sentássemos em outro lugar para conversar, pois os porteiros já estavam querendo fechar o estúdio.
A noite me pareceu mais longa do que o habitual. Cada um, a seu modo, tentava explicar o que se passava. Três perspectivas. Três enquadramentos. Três narrativas diferentes. Que pareciam correr em paralelo. Mas que se mesclavam. E se complementavam.
Me peguei me perguntando o porquê de eu e Arthur termos perdido contato. Talvez por medo dele, talvez por distração minha. Não sei dizer. Mas mesmo antes de me encontrar com ele, ainda me lembrava daquela noite com emoções pairando no ar. Fixamos uma certa nostalgia um do outro. Gostava da sensação de ter sido a primeira experiência na vida de alguém. Gostava de pensar que talvez eu pudesse ser marcante para alguém. Como tatuagem que fica na pele para a vida toda, mesmo desbotando com o tempo. E que eu era capaz de romper paradigmas que pareciam totalmente cristalizados. Não sei se pela dureza do tempo ou da vida.  
Já Lua, me trazia outras sensações. Parecia que tudo era rápido demais, porém intenso como um furacão. Un coup de foudre. Ela me atraía de uma maneira que nem eu sabia ao certo como explicar. Parecia contrastar comigo. Me puxava para o fundo. Como uma sereia que encantava pescadores. Tinha lábia. E embora eu fosse quase dez anos mais velho, ela conseguia fazer fluir as minhas estruturas de uma maneira impressionante. Parecia que eu já não era mais tão experiente. Parecia que todos esses anos já não importavam mais. Fazia eu me sentir como se o meu tempo fosse o agora. Duas semanas saindo juntos parece que tinham se tornado dois meses.

                                                                                                                            ◊◊◊

Como personagens tão diferentes eram capazes de se atrelar assim? Tudo acontecera tão repentinamente e com tons tão vorazes. Não me recordo muito bem como as coisas foram capazes de saltar assim tão rápidas. Mas quando me dei conta, já nos emaranhávamos nos meus lençóis. Era aquele ambiente, no meu pequeno apartamento, divido com uma amiga, na Urca, que parecia que o tempo e o espaço eram capazes de se expandir a cada momento. Os espaços vazios eram preenchidos. Os cômodos. As mobílias. Os corpos. As células. Selvagens. Como se os interiores suplicassem por serem alimentados. Mas sem afobações. Sem ansiedades.  
Eu, que sempre tinha fomes, inquietações e agitações atravessadas na carne, me sentia inundada em serenidade. Sentia que era capaz de ser nutrida por aqueles dois homens. Por aquelas presenças. Não como quem depende. Mas como quem se sente conectada. Éramos pertencimento? Éramos elementos que se combinavam. Quase que necessários um ao outro naquele presente. No instante tudo se fazia valer. Éramos os gozos do fogo se espalhando em labaredas crescentes. Dos líquidos que escorriam pelas têmporas, pelas bocas, pelas costelas e pelas coxas. Penetrando as três camadas da terra. A crosta. O manto. Até chegar no núcleo. E explodir novamente. Em múltiplos pedacinhos brilhantes que se estilhaçam. E depois cair em riso. Em suspiros entrecortados. E afagos com as pontas dos dedos.
Aquela noite fazia eu me questionar. Não como quem se indaga querendo saber uma verdade estática. Lispector estava certa: “quem se indaga é incompleta”. Quais os limites da pele? Quais os limites dos poros? Mas não. Eu não era incompleta. Eu era algo em aberto. Em andamentos. Como quem abre o peito e em uma fração de segundos é capaz de inspirar todo ar disponível. E se sentir preenchida. De algo. De uma sensação pulsante. Gelatinosa? Macia? Quente!
Eu era planta carnívora. Eu era a ressaca do mar. Não sei o que fui. Não sei o que era. Eu era intensidade. Éramos intensidades. E quando os primeiros raios de sol começaram a surgir pelo vidro da janela, senti que me enchia de luz.
Arthur dormia tranquilo. Esparramado no colchão. Tal como em um sonho infantil, imperturbável. Diego, que não tinha pregado os olhos em nenhum momento, foi até a cozinha passar um café. Eu saía de um banho rápido, enrolada em uma toalha vermelha felpuda, sem me secar por completa. Abria a janela e deixava que o vento e os feixes amarelados secassem cada gotícula da minha pele. Uma a uma. E sentia os pelos se arrepiando. Um banho de energia.
O cheiro do café quente envolvia o apartamento. Eu deixava meu corpo pesar para trás. E me deitava. Incrédula. Radiante. Atônita. Fechava os olhos. Sentia a pele morna de Arthur esbarrando na minha sem querer. Ele parecia despertar com a minha presença. E me abraçou. Como quem segura preguiçosamente um travesseiro macio contra o corpo.
Os carros e ônibus circulavam ao longe. Alguns pássaros cantavam. A cidade despertava para uma manhã de verão de sábado. Diego vinha trazendo na garrafa térmica o nosso café. Mas pareceu se esquecer dele segundos depois, pousando-o na mesinha de cabeceira. Ele se aconchegava junto da gente. Como quem finaliza uma grande cena. Gran finale. Como quem compõem o espaço do colchão com aquilo que faltava. E era bom estar aqui. Era bom poder ir pegando no sono. Vagarosa. Isso bastava.              

                                                                                                                                      ◊◊◊

Todas aquelas certezas, tão sólidas, tão feitas, pareciam tomar outros rumos. Cada momento se transformava em efeitos labirínticos. Às vezes eu sentia como se tudo acontecesse tão rápido que eu precisava de um tempo para assimilar. Era o tipo de interação que despertava tantos tipos de emoções variadas que nem eu mesmo sabia se faziam parte do meu espectro. Confesso que talvez eu tenha entrado em uma espécie de pânico a princípio. Eu não sei se sabia mais lidar tão bem assim com as novidades. Ainda mais quando envolviam duas pessoas ao mesmo tempo. O meu próprio temperamento se mesclando a lida com os temperamentos de Lua e Diego. Uma mistura de angústia com prazeres. Mas não era exatamente ruim. Não. Não era sobre isso.
Apesar de tudo o que vinha acontecendo nesses últimos tempos, depois daquela noite, tentávamos continuar com os nossos quotidianos normalmente. Embora fosse improvável. Ao mesmo tempo que quase nada parecia ter mudado na rotina, quase tudo tinha mudado. Eu sentia que meus tons iam se modificando também. Realidade e abstração. As fronteiras se alargavam. A minha maneira de ver algumas coisas também. As vivências em meio a cidade. Acho que eu me sentia acolhido. Quase confortável. Era possível ser casa em dois seres diferentes ao mesmo tempo? Era possível multiplicar os sentimentos?
Quanto mais eu achava que entendia da vida, das coisas do mundo, das possibilidades, das pessoas, mais eu me enganava. Cada vez mais as palavras sentiam a necessidade de serem ressignificadas. Quase como se eu pudesse criar uma nova língua. Mas nem mesmo eu sabia precisamente como torná-las plenas em si mesmas. Compreensíveis. Desemaranhadas. O que éramos então? Amigos? Amantes? Companheiros? Combinações? Delírios tropicais de veraneio?
Tudo o que vivíamos me parecia ser sobre aprendizados. Aprendendo a ver. A ouvir. A inspirar. A provar. A sentir. Ou reaprendizados. Era confuso. Oblíquo. Delicioso. Inebriante. Divertido. Apavorante. Talvez fosse sobre os sentimentos inefáveis. Aqueles que nos atravessam repentinamente. Ao sabor das estações do ano. E nunca permanecem os mesmos. Vão se constituindo e mudando toda hora. Como expressar em palavras ou em pensamentos tudo aquilo que ainda não nomeei?
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Atualizado em: Ter 11 Fev 2020

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