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A Vida Extraordinária de Nonnino

Havia mais de 200 anos que não tínhamos um velório em nosso mundo. Ainda mais com um falecido visivelmente sorridente no caixão! Esta é a estória que eu tenho para contar.
Primeiro vou nos apresentar. Somos de um planeta do Sistema Solar. Muitos de nós já passaram pela superfície do planeta Terra e hoje estão aqui, vizinhos a vocês, somente uma dimensão acima. Eu sou um deles. Ascendi há 230 anos e sou conhecido como Settimo.
Neste nosso estágio eliminamos doenças, desigualdades, preconceitos e a morte. Essa última, na verdade não foi eliminada, apenas transformada. Não partimos “desta para melhor”, como vocês dizem. Muito menos “descansamos” da existência anterior. Vivemos libertos da métrica dos anos. Experimentamos a eternidade!
Nessa dimensão, ninguém é mais que o outro, ninguém tem mais que o outro, somos iguais. Não temos um governante e, sim, uma Junta Governativa, composta por membros eleitos para períodos determinados. A duração dos mandatos é flexível, de acordo com a necessidade e vontade geral, e todos podem se eleger se assim desejarem.
Eliminados os desafios da sobrevivência, nossas maiores preocupações são com os animais e a natureza da qual fazemos parte. As discordâncias, quando aparecem, são debatidas levando em consideração todas as opiniões para chegar a uma solução de agrado geral.
Temos um poder alimentado durante séculos – o de colapsar a realidade que desejamos através da união de pensamentos. Funciona da seguinte forma: após debates e atingido o senso comum, reunimo-nos em um local apropriado onde todos focam na realidade desejada e a forte e sincera energia gerada por esse sentimento cria ondas que “concretizam” o desejado. Esse local chamamos de Centro Difusor de Energia.
Talvez alguns de vocês possam considerá-lo iguais aos templos de seus deuses, mas é diferente. Aliás, nossa crença é na Centelha Divina que cada um carrega dentro de si. Então, o que fazemos é estimular essa Chama Interior e juntá-las em uma só Força capaz de materializar o que desejamos.
Somos uma sociedade que evoluiu para as transmissões através de ondas. Os mais novos de nós conhecem apenas essa forma de existência. Os mais experientes conheceram o sistema anterior, vivenciaram a transição e, por isso, conhecem os dois lados da realidade existencial. Eu sou um deles!
Apresentado o nosso mundo, vamos à estória do Nonnino.
Literalmente, ele caiu em cima de nós. Veio sem ter consciência de nada. Apenas surgiu e nós o acolhemos. Sua aparência de idoso assustou os mais novos que nunca tinham estado frente a frente com alguém de pele sulcada, cabelos naturalmente prateados e tudo que caracteriza um ser de idade considerada avançada. Para quem vive na crença e realidade da eternidade foi um choque.
Se para alguns de nós essa presença repentina causou certo desconforto, imaginem para Nonnino. Quando o descobrimos em uma de nossas colinas, ele demonstrava total desorientação. Olhos assustados, girando em todas as direções, confessou ter pensado estar no Céu, ou Inferno, segundo seu mérito. Aliviamos suas dúvidas.
Passado o impacto inicial tínhamos que decidir o que fazer com o visitante. Reunimo-nos no Centro, o qual já expliquei, e dada a situação inédita para os membros da Junta o encontro se estendeu além do esperado. Finalmente chegamos a uma conclusão aprovada por todos: o levaríamos a um espaço pouco afastado onde ele residiria por um tempo, até que deixasse de ser o centro das atenções. Seria bom para ele e para nossa comunidade. Após essa quarentena, vamos dizer assim, tentaríamos devolvê-lo ao seu local de origem que, naquele momento, não sabíamos qual era. Assim foi feito.
Alojamos Nonnino em uma pequena “casa” onde teria suas necessidades básicas integralmente atendidas. Claro, só alguns mais experientes e conhecedores de alguns dos hábitos dos viventes da superfície poderiam compreender quais eram essas necessidades.
Antes de continuar, devo trazer a vocês a versão do visitante sobre como chegou ao nosso mundo. Disse ele ser aposentado, conceito que para muitos soou incompreensível. Pelo que se lembrava andava na rua, debaixo de forte sol quando, de repente, sentiu uma forte vertigem. Desmaiou e acordou em nossa colina, como já descrito. Foi só.
Interessante nessa estória toda é que Nonnino trazia uma bagagem consigo, uma valise pesada em cujo interior havia mais de 20 objetos desconhecidos pelos mais jovens. Tinham partes flexíveis e símbolos que se assemelhavam a letras, talvez conceitos em uma linguagem estranha. Perguntado do que se tratava, ele disse:
- São portais que levam a lugares distantes, permitem entrar na mente de outras pessoas, nos deslocar tanto para o passado quanto para o futuro. E completou – “é magia”.
Claro que para quem só conhece a eternidade, esses conceitos de passado e futuro soam incompreensíveis. Depois, para quem vive uma realidade 100% digital, aquilo era, no mínimo, ultrapassado. E assim ficaram, sem entender o poder daqueles estranhos objetos.
Nonnino os carregou para sua nova morada.
Os mais curiosos, vez ou outra passavam pela casa do visitante. Muitas vezes o viam manipulando um dos objetos. Percebiam no olhar do Nonnino imersão absoluta em seu portal. Era quase o mesmo efeito hipnotizador de suas telas digitais, através das quais obtinham conhecimento e diversão. Como era possível, se perguntavam, se não tinham visíveis fontes de alimentação conhecidas por eles. Muito, muito estranho tudo aquilo.
Assim se passaram alguns dias até que algo aconteceu. Uma pane geral desconectou nosso acesso às fontes de informação. De uma hora para outra nenhum contato possível, exceto a telepatia que alguns, preparados e permitidos, praticavam em situações especiais.
Importante dizer que nosso sistema alimentador de energia é diferente ao da superfície. Centrais elétricas, captação de energia eólica, energia nuclear, nada disso existe por aqui. A energia permanente e estável que alimenta a comunicação entre todos é sugada do calor do ar ambiente, brotando do solo, espalhada por todos os cantos. Até mesmo a energia de cada um de nós, ajuda a alimentar o sistema. Loucura? Real em nossa comunidade, nesta dimensão.
Como jamais havia acontecido tal apagão, desnecessário dizer que trouxe certa apreensão. Mas os membros da Junta Governativa puseram-se logo à ação para resolver a inédita situação, sem sobressaltos.
Enquanto esperavam a solução, um grupo de crianças, com suas telas às escuras, saiu às ruas e, ao passar em frente à casa do visitante, depararam com uma cena inexplicável. Nonnino continuava diante de um daqueles objetos, aparentemente conectado. Mas como podia ser? Aproximaram-se do visitante pela primeira vez, orientados que estavam a não o importunar.
- O que está fazendo? – perguntou um deles.
Nonnino desviou seu olhar para o grupo, olhou-os por alguns segundos e, sorrindo, respondeu:
- Viajando. Estou em contato com um de meus heróis preferidos de lá de onde eu vim – Leonardo da Vinci.
- Mas sem conexão, como consegue? – insistiu outro.
- Estou sempre conectado. Preciso só dos olhos e das mãos.
- Só?
- Eu não disse que era magia? Querem experimentar?
As crianças estavam entre curiosas, impacientes e com medo de desobedecer às ordens.
- Venham – disse-lhes Nonnino – vou mostrar como acontece.
Acabaram capitulando. Entraram no interior da casa e se depararam com os objetos cuidadosamente dispostos sobre a mesa lateral.
- Peguem um – incentivou-os Nonnino.
Nenhum deles arriscou.
- Está bem, então eu mesmo vou escolher. Deixe-me ver. Ah, Peter Pan. Acredito que vocês vão gostar. Não fiquem aí parados. Sentem-se em círculo. Eu vou contar o que tem aqui dentro.
Hesitantes obedeceram.
- Fechem os olhos e ouçam minha voz.
Nonnino iniciou a narração das aventuras de Peter Pan na Terra do Nunca. Tinha o dom do contador de estórias. Lia, modulava a voz ora diante do perigo, ora diante da conquista, ora diante de um gesto emocionante do personagem. A um pequeno intervalo da narrativa desviou o olhar para o grupo e percebeu alguns de olhos abertos, todos atentos, grudados em sua narração.
- E foi assim que tudo aconteceu – finalizou, após um tempo razoavelmente longo. O que acharam?
- Eu gostei – adiantou-se uma das crianças.
- Eu vi tudo de perto – disse outra.
- Eu também estava lá – emendou uma terceira.
- Pois eu lhe digo que se quiserem podem vir mais vezes que eu tenho muitas outras estórias nesses objetos que chamamos de livros.
- Livros? sussurraram alguns ao mesmo tempo.
- Nome estranho – disse uma das crianças.
Elas se foram, mas voltaram, uma, duas, dezenas de vezes, mesmo após o restabelecimento de suas conexões que, aliás foi rápido. Ouviam Nonnino, aprenderam a ler aqueles símbolos estranhos, conheceram uma certa Emília e um tal de Saci-Pererê; também, Pinóquio. Até que certa tarde, após ouvirem e lerem trechos da estória de Alice no País das Maravilhas, viram Nonnino sorrir, fechar os olhos e não os abrir mais. Não entenderam o que havia acontecido. Foi quando eu expliquei que em algumas culturas ainda havia o que entendiam como interrupção da vida, que chamam de morte.
A preparação para o funeral foi outro desafio. Como preparar o corpo e o que fazer com ele? Mandá-lo de volta para a dimensão da qual havia saído era improvável, pois ainda desconheciam de onde ele viera. Incinerá-lo, talvez! Durante esse tempo, ele ficou no chamado velório, como já sabemos, e ninguém conseguiu tirar-lhe o sorriso.
Nonnino acabou enterrado na colina, no exato local onde chegara. Colocamos seus livros com ele, no caixão. Descobri que mesmo em uma sociedade avançada, como a nossa, crenças conseguem se instalar. Neste caso, algumas crianças juram ouvir Nonnino contar suas estórias, sempre que chegam ao local de sua nova morada.
Só posso deduzir que talvez por isso ele manteve o sorriso. Partiu consciente de que atingira a eternidade, através de suas estórias!
Jorge Basile Guglielmelli – narrador de estórias, produtor de conteúdo
Bônus:
“A escrita talvez seja a maior das invenções humanas, unindo pessoas que nunca conheceram umas às outras, cidadãos de épocas distantes. Os livros rompem os grilhões do tempo. Um livro é a prova de que os humanos são capazes de realizar magia.”
Carl Sagan - Cosmos
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Atualizado em: Sáb 4 Jan 2020

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