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Fim de ano, começo de ano

Ontem, fim de ano.

Eu com sono, tentei descansar. O barulho começou cedo. Resolvi sair à rua, dar uma volta até passar a meia-noite. No bairro, agitação.

Uma criança reclamava de fome enquanto o pai acendia um rojão.

Quantos não são assim? Aluguel atrasado, conta de luz vencida, água prestes a ser cortada, e rojões sendo queimados.

Meia-noite. Céu iluminado pelo trovejar colorido dos fogos de artifício. Uma alegria artificial no ar. Depois, música, bebidas. Que se danem os vizinhos que reclamam do barulho. Às favas as contas de água e luz, a fome das crianças. É alegria. E a alegria varou a madrugada.

Hoje, primeiro dia de ano.

Ressaca, fome, contas atrasadas. Para onde foi a alegria? Para onde foi o dinheiro dos rojões queimados?

Passeio agora pela rua. A criança que no ano passado reclamou de fome, brinca na rua, com o mesmo semblante desconsolado. O pai não se vê, deve estar curando a ressaca, ou fazendo mais um filho para abandonar no mundo.

Virada de ano deveria servir para reflexão, correção de rumos, olhar o futuro. Alegria artificial não passa disso: um artifício, como os fogos. Intensos no brilho, intensos no barulho, no colorido, mas efêmeros. A única coisa que permanece mais tempo é a incômoda fumaça.

Fumaça incômoda dos sonhos não realizados, das oportunidades perdidas, da desilusão da vida. Bebida para afogar as mágoas, mas o que afoga mesmo é a perseverança, o bom-senso, a esperança…
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Atualizado em: Sáb 4 Jan 2020

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