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O MAR COMO TEMA NA LITERATURA MOÇAMBICANA

 INTRODUÇÃO
         O presente trabalho tem como objetivo expor a importânciado mar como temática na literatura moçambicana e como a poesia representou o Oceano Índicodiante de dois períodos históricos, antes e depois da independência.
            É correto afirmar que as literaturas africanas surgiram com a preocupação de denunciar e romper com as arbitrariedades do colonialismo, buscando um sentimento coletivo para criar uma nova identidade cultural. E foi na poesia que esse sentimento de reivindicação mais se efetivou.
            Mas para alguns escritores moçambicanos era impossível usar o mar como tema, visto que o Oceano Índico no imaginário da sociedade moçambicana estava relacionado com a invasão dos portugueses. Exceção de alguns escritores que viam o Oceano Índico como fonte de riqueza e marca essencial da ilha, como no caso de Rui Knopfli, Virgílio de Lemos, Orlando Mendes, Luís Carlos Patraquim, Eduardo White, Júlio Carrilho, Adelino Timóteo, Nelson Saúte, Guita Júnior, Bento Antônio Martins e Sangare Okapi. Para esse o Oceano Índico era tema presente como estruturador e motivacional.
Porém é impossível negar a importância do mar na construção cultural, religioso, econômica e política para ilha de Moçambique. Um mar de gigantesca rede de relações que foram construídas e refeitas ao longo do tempo.
            A volta do mar como temática na literatura moçambicana acontece como movimento de uma nova gama de problemas existenciais e indicia outras estéticas nacional.
                                                                     O MAR COMO TEMA NA LITERATURA MOÇAMBICANA
O mar na literatura representa tanto a paz como a guerra, tanto a esperança como a angústia, tanto a felicidade como a tristeza. Os oceanos representam o medo, mas também o poder.
Essa representação para Portugal é de um passado épico, mas para os países colonizados é de trauma e aflição. Em Moçambique, o mar como tema foi negado por alguns escritores, com exceções de alguns poetas que o citaram como fator estruturante ou como motivação poética.
As literaturas africanas surgem como fenômeno de escrita num contexto de dominação colonial, foram vozes nativas que buscavam reivindicar e romper com o sistema opressivo. No caso de Moçambique a literatura decorreu da necessidade de afirmação de uma nova identidade nacional, prevalecendo assim à dimensão telúrica, uma profunda relação com a terra, e o mar foi pouco representado, pois se encontrava associado aos invasores portugueses.
Moçambique é banhado pelo Oceano Índico e tem em sua história uma gama de culturas, povos de diversas etnias passavam e deixavam suas culturas na ilha, um local de comércio e trocas. Com a chegada dos portugueses a ilha passa a ser pilhada e sucateada de suas riquezas naturais pelo colonizador. Essa colonização tentou apagar as marcas culturais de Moçambique impondo a política de assimilação. O Oceano Índico se torna assim um abismo de medo como diz Carmen Lúcia Tindó Secco:
“O mar, por onde chegaram os colonizadores e também associado ao comércio dos escravos obrigados a diáspora, era temido pelas etnias africanas locais. Visto como local do inimigo, o oceano era considerado território do invasor europeu, espaço por onde se escoou, durante séculos, a carga negra com a qual Portugal tanto lucrou nas Américas. ” (SECCO, 2016, p. 4)
Apesar do mar não ter sido recorrente nas literaturas africanas de língua portuguesa, há um traço da poesia moçambicana que relaciona o Índico a busca de sonhos e que critica a opressão do colonialismo. Entre esses escritores temos Rui Knopfli, Virgílio de Lemos, Orlando Mendes, Luís Carlos Patraquim, Eduardo White, Júlio Carrilho, Guita Júnior, Adelino Timóteo, Nelson Saúte, Bento Antônio Martins e Sangare Okapi.
É a partir da década de 1940 e 1950 que a poesia moçambicana passa a assumir sua identidade. O mar, nesse período poético, quase não aparece como tema, porque ainda há uma negatividade contra o oceano, um receio de perigo que os africanos deviam afastar-se. Isso aparece no poema de José Craveirinha:
Do mar vieram os lívidos navegantes
(...)
E o negro aprendeu as rezas
dos capitães negreiros
dizendo o terço com grilhetas
nos pulsos e nos pés.
(CRAVEIRINHA, 1959, poema inédito)
Nessa fase a poesia surge como forma de denúncia ao sistema colonial, uma poesia que apresenta uma inquietação na busca da identidade nacional. Existe um apelo à coletividade e a valorização da terra nativa. Isso aparece na poesia de Fonseca Amaral, Noêmia de Sousa, José Craveirinha, Orlando Mendes e Rui Nogar. Essa poesia busca refutar a civilização europeia procurando restabelecer as raízes culturais africanas.
O Oceano Índico sempre foi idealizado pelos portugueses como local de conquista, por isso muitos poetas moçambicanos utilizavam a natureza e a terra como tema de sua poesia ou cantar sobre a exaltação do negro. A poesia é voltada para a luta de independência, com o objetivo de resistência e renovação.
Esse imaginário sobre a ilha começa a se modificar a partir da geração da década de 80, nesse momento surgem novas vozes com uma ideologia diferente. Os escritores pós-independência iniciam uma poesia voltada a subjetividade onde o Índico passa a ter uma representação diferente e mais presente, é levado em conta o seu papel importante nas rotas comerciais, culturais e religiosas. Pode-se dizer que esse foi o momento de ruptura na poesia moçambicana.
Com a independência vem também alguns problemas, aquela nação utópica desejada por todos não acontece, problemas internos surgem e causam desesperança. É nesse momento que a poesia também sofre mudanças ideológicas, os poetas começam a revisitar a história moçambicana e espaços que antes eram apenas do colonizador, mas que agora também se faz parte da cultura moçambicana, marcas ocidentais deixadas por aqueles que ali passaram.Luís Carlos Patraquim expõe essa ideia de traços provocados por essa gama de culturas:
Minha ilha/vulva de fogo e pedra no Índico esquecida. Circum-navego-te, dos crespos cabelos da rocha ao ventre arfante e esculturo-te de azul e sol. Tu, solto colmo o oriente, para sempre de ti exilada. Foste uma vez a sumptuosidade mercantil, cortesão impossível roçagando-se nas paredes altas dos palácios. Sobre a flor árabe e excisão esboçada com nomes de longe. São Paulo. Fadário quinhentista de “armas e varões assinalados”. São Paulo e rastilho do evangelho nas bombardas dos galeões. São Paulo rosa, ébano, sangue, tinir de cristais, gibões e espadas, arfar de vozes nas alcovas efémeras. Nas ranhuras deste empedrado com torre a escandir lamentos dormirão os fantasmas? Almas minhas de panos e missangas gentis, quem vos partiu o parto em tijolo ficado e envelhecido? (PATRAQUIM, 1992: 42)
Patraquim critica abertamente a epopeia lusíada mostrando que o colonialismo não é aceitável e nem seus paradigmas. Ele busca destacar a cultura árabe tão presente no imaginário moçambicano.
Em 1984 surge a geração da CHARRUA, revista dirigida por Luís Carlos Patraquim, a qual também tem a participação de outros escritores como Eduardo White, Armando Artur, Marcelo Panguana, Ungulani Ba Ka Khosa. Essa revista representa o início de uma nova tendência literária moçambicana, mudança que segue até os dias atuais. A partir desse período já não aparece a preocupação com a nação, mas uma abertura temática e estética prevalece na escrita moçambicana. Nessa perspectiva que Jessica Falconi afirma que:
A representação do Índico e da Ilha de Moçambique adquirem os contornos de um processo de revisão da versão da história construída pelo discurso oficial da moçambicanidade, sendo a Ilha de Moçambique um dos lugares emblemáticos da multiplicidade de narrativas do passado e do presente. (FALCONI, 2013, p. 9)
A partir desse movimento de mudança na literatura moçambicana, a ilha é tema de reflexão, um local que se tornaria um marco para os estudiosos interculturais, a ilha poderosa como “zona de contato” como diz Mary Louise Pratt (1999, p. 27) que define essas zonas de contato como espaços sociais onde culturas díspares se encontram, se chocam, se entrelaçam uma com a outra, muitas vezes em relações de poder altamente assimétricas, tais como o colonialismo.
Esse movimento transcende a temática de território nacional que existia antes da independência de Moçambique, é construído um novo olhar para o mar, o Oceano Índico é visto agora como o meio de “transnacionalidade”, como diz Francisco Noa (2017, p. 72) que é por esse motivo o grande aumento de publicações literárias que tem por tema a viagem ou a evocação de outros espaços e de outras realidades. Mostrando assim o papel importante do mar, no caso o Oceano Índico, nas relações decisivas reais ou imaginárias com outros mundos.
Portanto, é possível afirmar que a trajetória da poesia moçambicana sempre teve o mar presente em sua temática, mesmo que não diretamente e nem como tema dominante, mas presente em seu valor cultural, social, político e econômico. Dessa forma revela que o Oceano Índico nunca foi um local vazio sem perspectiva e sem história, mas que ele foi o principal meio da formação da ilha de Moçambique. E como diz Francisco Noa:
“Mas sobre tudo um lugar onde a imaginação poética não apenas recria dimensões até aí insuspeitas, como também se manifesta como um poderoso exercício de liberdade estética, de afirmação da subjetividade e de consciência histórica. ” ( NOA, 2017, p. 72)
Assim, tanto a poesia como o mar ampliam mundos, formam pensamentos imaginários, ideológicos ou concretos e relacionam o sentimento com a vida. Pois tanto um como o outro transcendem para a existência da reinvenção dos destinos sejam eles individuais ou coletivos.
                                                                                                                              CONCLUSÃO
             A literatura moçambicana surge como uma ideia de revolução social, concretizando a ruptura com as literaturas do colonizador português. O tema era voltado as riquezas da própria terra e uma chamada a coletividade.
            O mar, no caso o Oceano Índico, era negado como tema por ser no imaginário da ilha um traço da literatura do colonizador, isso criou uma negatividade em relação ao índico. Mas mesmo assim ele ainda esteve presente na poesia de alguns escritores moçambicanos como motivo de sonhos e de críticas ao sistema colonial.
Então, foi só no período pós independência que a poesia de Moçambique passou a ser mais subjetiva e direcionada para outros temas e outras estéticas. Esses novos escritores buscavam assim, uma transnacionalidade.
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Atualizado em: Sáb 4 Jan 2020

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