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CACIMBADOS, UMA MEMÓRIA CRÍTICA A GUERRA COLONIAL

  INTRODUÇÃO
             O presente trabalho tem como objetivo expor as consequências da Colonização portuguesa e como esse processo acarretou traumas aos envolvidos na guerra colonial. Utilizando registros e arquivos de memória para confirmar essa denúncia de perda de identidade diante de situações extremas de estresse.
             Expondo a importância desses registros na reconstrução de uma nova identidade para futuras gerações, e como esses relatos estão presentes na literatura. A obra que será analisada dentro desse conceito é “Cacimbados – A vida por um fio”, do escritor português Manuel Bastos, o qual descreve suas memórias da guerra colonial e os traumas causados por ela.
            O sistema ditador do governo português induziu a população a uma ideologia ilusória através da propaganda panfletária, a qual afirmava não existir guerra que esta era apenas simbólica. Essa ideia é rebatida e denunciada pelo autor em sua obra Cacimbados. Provando que a violência e seus traumas podem originar problemas irreparáveis na vida de quem participou ativamente na guerra colonial.
CACIMBADOS, UMA MEMÓRIA CRÍTICA A GUERRA COLONIAL
            O colonialismo português causou traumas tanto nos africano quanto em seu próprio povo. A literatura teve um papel importante em registrar esses acontecimentos que denunciam as atrocidades os traumas causados pela guerra colonial. São óbvios os danos que sofreram as pessoas que participaram ativamente da guerra colonial, através de seus depoimentos em documentários ou por seus relatos em textos de memórias.
            É certo que houve um prolongado silêncio sobre a colonização e diversas tentativas do governo para o apagamento da memória coletiva do que foi o esse período. A propaganda panfletária empenhada por Portugal era persuadir a população que os terroristas africanos ameaçavam a identidade nacional.
            Essa ideologia foi se modificando a partir do momento em que os jovens que foram cumprir o serviço obrigatório em África retornaram a Portugal, existindo uma transformação psicológica nessa geração, começando nesse período a descolonização.
            Os arquivos e testemunhos cumprem o papel de revelar  o que não pode ser elucidado, mas conservar acesa o repúdio contra essa violência que não pode se repetir. As literaturas que compõem esse gênero precisam ser divulgadas e estudadas cada vez mais para conscientizar a sociedade.
                                                                                                                      CACIMBADOS
            A obra analisada nesse artigo será “Cacimbados a vida por um fio”, do autor Manuel Bastos. Ele lutou na guerra colonial e escreveu em seu blog as memórias desse período, surgindo a partir disso o livro que reuniu todos esses textos. Embora, o autor teve um período de luto pós-guerra para conseguir enfrentar suas memórias. É evidente que os traumas causados pela guerra colonial jamais serão totalmente esquecidos, mas após quarenta anos Manuel conseguiu registrá-los.
             No livro Cacimbados, Manuel Bastos além de descrever as atrocidades da guerra, ele também expõe seus conceitos contra tudo aquilo. Logo no início do livro ele afirma que “todos perdem na guerra”, ou seja, tanto colonizadores como os colonizados. É apresentada uma nova face da guerra colonial por alguém que vivenciou de perto, alguém que estava inserido naquele ambiente.
            O livro tem capítulos nomeados, dando a ideia de contos. A cada um deles o autor descreve um momento marcante da guerra, um livro que faz reflexão sobre a guerra colonial. Por meio de fotos ele vai registrando tanto o companheirismo quanto o desespero dos soldados. A narrativa aparece por vezes em primeira pessoa, em outras na terceira.
            O gênero do livro é difícil de classificar, assemelha-se com registros de arquivos fotográficos. A linguagem é um relato, não um diário, mas um caderno de memória, o escritor tem anseio apenas de registrar, dizer o que presenciou.
            O tempo da narrativa é lento, determinadas situações são descritas com tantos detalhes que a narrativa se estende por páginas, ocasiões que poderiam ser descritas em segundos. Isso acontece pela intensidade que foi aquele momento para o autor, a memória capta detalhes que outras pessoas que fora daquele ambiente, não conseguiriam nunca perceber.
             Manuel Bastos se posiciona contra a guerra colonial, foi para guerra para o cumprimento militar obrigatório, lutar com um propósito inserido na mente dos portugueses pelo ditador Salazar. Uma fantasia do poder de Portugal, o qual fez muita propaganda para iludir seu povo.
                                                                  DESCONSTRUÇÃO DA FANTASIA LUSITANA DIANTE DA REALIDADE
            Ao chegar à África, ele percebe que aquela guerra não tem nenhum fundamento, e começa a refletir sobre os motivos de ter que lutar. O escritor reúne todos os conhecimentos para dizer não à guerra, na sua narrativa aparece conhecimento da física, biologia, entre outros.
             No primeiro capítulo, Manuel Bastos faz uma reflexão sobre os traumas de  todos que participaram da guerra, ele também diz sobre a quantidade de portugueses que não retornaram da África.
(...) De quase um milhão de portugueses que foram combater, perto de dez mil não regressaram, mais de cem mil não regressaram completamente, algo de si ficou lá, e um número ainda não determinado continua na guerra, vítimas do transtorno do stress pós-traumático. (BASTOS, 2008, p.10)
             Manuel é consciente das perdas físicas e mentais desses soldados ao retornarem para Portugal, muitos jamais se recuperaram. Um trauma de guerra ocasiona um dano grave na mente e na vida deles.
            O autor questiona se não são eles os escravos mandados a morte, devido às condições deploráveis em que são enviados para a guerra, começando pela viagem no Niassa. Considera a luta pelo império desnecessária, pois eles não ganham nada com isso.
“Num país que manda soldados numa viagem que não cumpre os requisitos mínimos para transporte de porcos, e ainda por cima defenderem um império ameaçado, a última coisa que se espera é que alguém pergunte “por que”. (BASTOS, 2008, p.24)
            Uma guerra que oficialmente não existe, mas que ninguém tem a audácia de perguntar os motivos de terem que morrer por esse império. Vão à guerra, mas não sabem o por quê.
            No capítulo quatro existe uma voz de consciência que afirma que os portugueses vão à guerra com muita excitação, mas que voltarão como farrapos, quando conseguem voltar. Manuel titula esse capítulo como “A prostituta do Apocalipse” (a cidade grande lá na Metrópole), comparando essa voz com a guerra. Mas na verdade é sua própria consciência diante do caos da guerra.
 (...) A arma para estes não é um adereço, nem um adorno; é um fardo, um fardo pesado mas precioso, do qual, sentem, depende a sua vida. São estes os actores desta peça, os que sofrem e fazem sofrer a guerra. (BASTOS, 2008, p. 35)
            A guerra transforma os homens e o estresse de cada momento causa a perda da sua humanidade. Manuel descreve os atos que são obrigados a fazer para continuar vivos e o medo da  morte, ele relata a forma que os soldados carregam suas armas.
 “Sabes o que importa numa guerra? Não é os turras que matamos. As guerras são para os soldados se matarem uns aos outros. O que importa é o que não são soldados. O que importa é os que morrem sem saberem porquê”. (BASTOS, 2008, p. 38)
            Diante de tudo isso o narrador chega à conclusão que a guerra não é um ato heroico, é uma estupidez que só prejudica aos que estão no campo de batalha. Ela mata a todos, mesmo aqueles que não ultrapassam seus limites.
            No capítulo oito o tempo é estendido quando o narrador descreve a morte do soldado Lourenço, no momento dessa morte rápida, Manuel retrocede todo o tempo de vida do soldado e o humaniza quando discorre sobre suas memórias e lembranças.
“Momentos antes de acordar o Lourenço sonhará com a namorada e vai ter a última erecção da sua vida; por volta das sete e  um quarto vai sentir fome e vai lembrar-se dos pequenos almoços que a mãe lhe levava à cama enquanto criança, e às oito e vinte cinco minutos vai morrer”. (BASTOS, 2008, p. 41)
            O narrador critica a falta de respeito de sua pátria por seus soldados mortos, uma indignação contra o sistema político que leva os seus para guerra e os ignora. As memórias de Manuel são acompanhadas de reflexão contra a alienação a qual vive o povo português.
(...) A guerra continuou ainda durante muito tempo, indiferente aos mortos. Quase sempre ignorados, tantas vezes negados. Que má consciência pátria esta que se envergonha dos seus mortos. (BASTOS, 2008, p. 42)
            O sentimento do narrador é de revolta, mesmo que ele esteja falando sobre outros soldados entende-se que ele também é um personagem, sofre mais ao ter que lembrar e registrar. As suas lembranças também são de outros, sendo assim, uma memória coletiva.
                                                                                                                   MEMÓRIAS E TRAUMAS
             Muitas vítimas de guerra inconscientemente optam por não lembrar ou selecionam suas memórias, resgatam outros acontecimentos nos quais estiveram envolvidos ou participaram ativamente. No caso de “cacimbados”, o narrador tem esse perfil e suas memórias ao contrário de ser limitada, é ampla ao descrever o passado. Isso é evidente ao descrever o momento da morte do soldado Lourenço, um tiro que deveria ser rápido é prolongado e caracterizado em sua trajetória, ele utiliza conhecimento da física para descrever esse episódio, como indica o trecho a seguir:
“E quando o estilhaço do morteiro – depois de passar pelo capim, por entre um acajueiro e um embondeiro, por entre duas Berliets, depois de assobiar junto às cabeças dos seus camaradas – veio mergulhar na sua fronte, deixando apenas uma pequena mancha negra onde entrou, para depois atravessar o cérebro lado a lado, ficando a escassos milímetros de sair pela nuca (...) e nos permitir um, ainda que breve, momento de luto.” (BASTOS, 2008, p. 43)
            Essa memória não sofreu aceleração ao ser descrita, por ser um momento de estresse e uma morte que poderia ter sido do próprio narrador. Seu sentimento é expresso quando diz que o soldado “morreu “ e “não tivemos tempo de chorar a sua morte”, ele critica mais uma vez a negação da guerra, que para pátria é simbólica, mas para aqueles soldados é tão real.
            No capítulo dez o narrador questiona os motivos dos guerrilheiros africanos serem considerados inimigos, se eles são apenas homens que lutam pelo governo assim como os portugueses. Busca uma justificativa do por que ter que matar e considerá-los oponentes. Isso fica evidente quando fazem um prisioneiro, ao conhecê-lo melhor surge uma afetividade entre eles. Mais uma vez o narrador expõe seu desagrado contra a guerra colonial.
(...)Quem visse Samuel Ntaluma à minha frente andando de marcha-atrás enquanto eu lhe dava lume não diria que éramos inimigos. ( BASTOS, 2008, p. 61)
            Em seu questionamento, Manuel relembra um livro de sua infância no qual exibia uma imagem de um homem numa África idealizada, retratando o colonizador como um herói, em um ambiente sem conflitos. Uma propaganda lusitana que ocultava a verdadeira realidade, essa publicidade do governo ditador tinha o propósito de iludir o povo que estavam em Portugal, uma reafirmação do seu poder absoluto, sendo assim, os portugueses iam alucinados para lutar pela pátria.
             Diante de todas as brutalidades que vivenciou, o narrador conclui que se esses livros didáticos mostrassem a realidade dos soldados em África, ninguém ia querer ser soldado.
“Talvez que se os livros escolares mostrassem soldados sujos agarrados às armas, como sacos de lixo abandonados no meio de uma floresta em África(...) talvez deixasse de haver quem aceitasse ser soldado”. (BASTOS, 2008, p. 73)
            O trauma da guerra não é só de quem sofreu, mas também do sujeito que precisou cometer os atos insanos. Em Cacimbados isso é descrito pelo autor ao lembrar que destruíram uma vila com granadas, tiraram fotos como troféu, mas nenhum deles saiu feliz. Os danos causados pela guerra são ignorados pelos governos que se favorecem, essas memórias quando registradas e divulgadas incitam à luta da sociedade contra esses ditadores.
            É interessante que o tempo da narrativa nesse episódio é acelerado, pois é descrito em apenas um parágrafo, diferente da morte do soldado Lourenço que foi estendido por páginas, como se o narrador limitasse sua memória por ser um ato barbárie que cometeu. Indicando que a memória é vulnerável a usos de manipulações, apontando que existem limites de acesso ao passado.
                                                                                       A CIÊNCIA PRESENTE NA NARRATIVA
            No capítulo titulado “Efémero”, o narrador faz uso da biologia para relatar a morte do soldado Ricardo, indicando ser uma pessoa instruída. Nesse capítulo o tempo também é estendido, por ser uma memória de perda, uma diversidade importante da memória em relembrar o passado permeado de conflitos e  tensões.
(...) o medo, que aumentou a produção da adrenalina; o medo, que estimulou o coração; o medo, que elevou o nível de açúcar no sangue; o medo; que escolheu criteriosamente que músculos contrair e que músculos relaxar; o medo, que fez as mãos erguerem, nessa ínfima fração de tempo. (BASTOS, 2008, p. 79)
            Nesse trecho Manuel cita dois conhecimentos importantes, a biologia ao descrever as reações do corpo humano diante do medo e de tensões. E da física ao determinar o tempo, dividindo-o em fração de segundos. Justificando esse conhecimento o narrador afirma que são mistérios da natureza humana, que cada homem tem suas memórias como uma biblioteca itinerante.
                                        A IMPORTÂNCIA DOS REGISTROS HISTÓRICOS PARA A CONSTRUÇÃO DE UMA IDENTIDADE
            Os arquivos e registros são necessários para a desconstrução de ideologias ilusórias, expondo verdades concretas da história, sendo atividades da memória fundamentais no campo social. Essa revisitação ao passado é essencial para construção de uma nova identidade.
            Esse conceito é aplicado na viagem do narrador para África, desde o início da viagem ele já questiona o interesse do governo por eles devido às condições da viagem. Percebe naquele momento que as ideologias de lutar pelo império eram jogos de poder, que os soldados não tinham menor valor para o governo. O narrador aponta isso quando diz não ter dúvidas o quanto “valem para quem os mandou para aqui”.
            Desse momento em diante Manuel se questiona e critica esse governo ditador que os mandou à África como animais ao abate. Apontando que se não fosse à guerra, talvez, eles fossem amigos dos africanos, saberiam seus nomes, beberiam e ririam como eles. Mas o ódio foi à manipulação do governo ditador para colonizar e oprimir, tornando os soldados sem identidade.
                                                                                  MEMÓRIAS E APAGAMENTO DOS CACIMBADOS
            No capítulo vinte e dois, Mueda a Arder, o narrador expressa seu antagonismo contra os governantes que apagam da história os crimes de guerras e os traumas que elas causam, como se elas nunca tivessem existido. Ele denuncia esse apagamento e a cegueira moral deles, define a guerra como a negação da racionalidade, ferramenta utilizada por usurpadores e tiranos.
“É isso a guerra: a eliminação do outro, a glorificação da morte pela redução da diferença”. (BASTOS, 2008, p. 121)
             Acusa esses governos de perpetrarem guerras estúpidas, matam como uma formalidade da violência institucional, e quando chega a esses níveis, a estupidez é difícil de classificar.
            É importante apreender que ao mesmo tempo em que o narrador vive uma situação emocional de grande estresse, ele também relembra sua infância, momentos vividos na vila que morava com sua mãe, como se precisasse dessa memória para não perder a sanidade diante do caos.
            Outro momento onde isso também ocorre é no capitulo vinte e quatro, Manuel escreve uma carta para um amor que ainda não tem, apenas para desabafar sobre a morte de um soldado. Ele observa que a guerra tira a humanidade das pessoas, mas ele usa o choro como exercício para não habituar-se à morte e atrocidades ao seu redor.
“Eu choro sempre que morre alguém, mesmo que morram várias pessoas por dia. É a minha maneira de não aprender a morte; mesmo que não apeteça chorar, choro. É uma espécie de exercício para não me esquecer que sou humano” (...) “São pessoas como eu que fazem isso, pessoas que aceitaram a missão de nos irmos abatendo uns aos outros,por um motivo de que já nem sequer lembramos”. (BASTOS, 2008, p. 129-130)
             Manuel critica a perda imposta da identidade dos soldados, ninguém os chama pelo nome como se isso já fosse um apagamento deles da história, o preço de cada soldado é um lugar vazio até ser substituído.
            Essa memória da violência mental e física possui uma característica única, transmite o indivíduo para o evento real. Ele em seu testemunho recria um evento que vivenciou, mesmo fragmentada a lembrança é do próprio episódio. Esta representação está contida nos testemunhos de circunstâncias traumáticas. Sem esses registros, depoimentos, arquivos, testemunhos, não seria possível transmitir a gerações futuras o absurdo dessa violência.
            Isso está presente em  Cacimbados quando o narrador descreve o medo. A violência mental causada na guerra o acompanha a toda parte, o som de explosão é alerta de uma morte, “na guerra quando aconteceu algo e não se sabe o que aconteceu, aconteceu uma desgraça”, isso permeia todo o livro, a espera do pior sempre presente.
            A aflição de ver um amigo pisando em uma mina e morrer induz o narrador ao extremo desespero, ele busca a definição dos medos, pois tenta entender como cada um deles é representado em determinadas situações e por indivíduos diferentes. Sendo confrontado com o valor de ser uma peça descartável, ele questiona mais os motivos dessa guerra.
“Nada ficou na minha mente dos instantes que se seguiram, em que deixei de existir. Apenas o abismo negro e vazio que implodiu todo o meu ser, apenas o tenebroso conhecimento da morte iminente. O medo dos medos: o medo da não existência, tão esmagador que nem o pior pesadelo pode antecipar, para nos ir preparando para horrenda visão do seu rosto, um pesadelo que tivesse a meritória função de ir preparando um homem para enfrentar o rosto apocalíptico do medo absoluto”. (BASTOS, 2008, p. 180)
            Ele conclui esse capítulo afirmando que o pior medo é o da não existência, seja da morte simbólica ou da física.
            Manuel termina o livro com o relato da perda de suas pernas, como se ele já esperasse que alguma coisa fosse lhe acontecer, mas mesmo tendo consciência que na guerra muitas tragédias ocorrem, ele ficou surpreso naquele momento. Apesar disso Manuel sentiu o desejo de não ir embora da África, como se só aquele lugar e os que estavam ali, pudessem entender o que é viver na guerra.
“Ás vezes dou por mim, à distância, olhando o poço fundo do tempo com uma vertigem. Dou por mim a escrever coisas sobre a guerra colonial como se quisesse trazer de volta a magia de África que, quem sabe, só existe na minha memória. Ou simplesmente como se quisesse preservar o que de África ainda resta em mim”. (BASTOS, 2008, p. 184)
            Situações de extremo estresse causam em algumas vítimas, o apego às circunstâncias que as oprimem, não conseguindo desprender-se do passado. Isso, talvez, ocorreu com o narrador, uma vez que lembra com saudade da África. Mesmo que essas lembranças sejam o retorno da dor e do desespero ou um reflexo de culpa.
          A obra Cacimbados reúne testemunho, registros e arquivos que sustentam as memórias de Manuel, as fotos exibidas na obra têm uma sequência dos relatos descritos pelo narrador. Os traumas da guerra colonial vistos por outra face produz no leitor a sensibilidade de entender que na guerra não há heróis, apenas vítimas.
                                                                                                              CONCLUSÃO
             A obra Cacimbados cumpre o papel de denunciar o sistema colonial por meio dos relatos de memórias contidos nele.  A crítica ao governo é presente em todo o livro, o autor busca detalhar o descaso de Portugal para com os enviados à guerra na África.
            É evidente que esses registros históricos promoveram uma mudança no pensamento da nova geração, quando voltavam da guerra colonial compreendiam que haviam sido iludidos pela propaganda enganosa de Portugal, a qual  afirmava existir uma guerra apenas simbólica. Visto que em África ficaram completamente esquecidos, mandados como animais para lutarem por uma pátria que não valorizava seu povo, o governo ditador apenas buscava poder.
            Esses registros de memórias foram essenciais para a revisitação do passado, pois eles denunciaram toda violência física e mental causada pelo Colonialismo português. A tomada de posse do presente e a construção de uma identidade perdida foram necessárias para amenizar esses traumas, isso só foi possível através desses registros de memórias.
           Estando a violência desumana descrita nesses arquivos, cria-se uma consciência coletiva contra esse período colonial, uma nova luta para evitar que brutalidades desse aspecto não se repitam.
                                                                                                      REFERÊNCIAS
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RIBEIRO, Margarida Calafate. Uma História de Regressos. Império, Guerra Colonial e Pós-Colonialismo. Porto: Afrontamento, 2004.
RIBEIRO, Margarida Calafate; FERREIRA, Ana Paula. Fantasmas e Fantasias Imperiais no Imaginário Português. Porto: Campo de Letras, 2003.
SANTOS, Boaventura de Sousa.  Entre Próspero e Caliban: colonialismo, pós-colonialismo e inter-identidade. A gramática do tempo: para uma nova cultura política. 3.ed. São Paulo: Cortez, 2010.
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Atualizado em: Sáb 4 Jan 2020

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