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Mente solitária

O relógio marcava cinco horas da manhã. Eu estava inquieto na cama, não havia dormido bem durante a noite. Levantei, fui até a janela, vi que o céu começava a clarear. Já se viam algumas pessoas saindo de suas casas. Me vesti lentamente, como se não quisesse ter que sair de casa. Meu quarto estava horrível, cheirava mal, baratas e ratos andavam pelo chão, como se ali fosse seu habitat natural. Havia roupas sujas e livros rasgados em todo canto. Seringas do dia anterior estavam ao lado da cama, hoje eu queria mais.

Abri a porta lentamente, um carro estacionava em frente à minha casa. Esperei o homem se distanciar. Já na rua, acendi um cigarro, tive dificuldade, pois ventava forte e o céu ameaçava desabar. Dei a primeira tragada, a fumaça desceu rasgando a minha garganta, mas eu continuei fumando, sem ligar para o desconforto. Me sentia vazio e a fumaça, de certa forma, preenchia o vácuo que tomava conta de mim. Caminhei duas quadras. Um cachorro passou por mim e rosnou. Meu coração acelerou, quase que saindo pela boca. Andei sem rumo por mais alguns minutos, o coração ainda acelerado. Começou a chover. Achei um abrigo para acender mais um cigarro, fumei com pressa. Sentia um calafrio na minha pele, nos meus ossos. Me sentia angustiado, sozinho no meio da cidade, no meio do nada. Olhei a hora no relógio, quatro e quinze da tarde. Como eu podia ter andado tanto e não ter percebido que o tempo passou? Fui pegar mais um cigarro, já não havia nenhum. Comprei uma carteira. Aquele dinheiro não me faria falta, o prazer compensaria.

Voltei para casa, senti um cheiro fétido de enxofre e um frio incomum, insuportável. Sentei na poltrona, fiquei pensando por alguns minutos. Me dirigi ao meu quarto, abri uma gaveta. Havia uma caixa, dentro estava a minha salvação. Amarrei meu braço, peguei uma seringa. Podia sentir a angústia diminuindo dentro de mim. Fiquei deitado no chão, mas era como se eu estivesse flutuando. Baratas e ratos passavam em cima do meu corpo, mas eu não ligava. O efeito passou, eu queria mais. Injetei novamente em minha veia. A angústia sumiu novamente e mais uma vez o efeito passou. Procurei por mais, mas dessa vez não encontrei. Fiquei desesperado, levantei e me dirigi a porta para ir comprar mais.

Ouvi uma voz me chamando, uma voz rouca que eu não sabia de onde vinha. Fiquei paralisado, minhas pernas não se moviam, fui tomado por um apavoramento que nunca havia sentido antes. Fiquei paralisado apenas alguns segundos, mas pareceu uma eternidade. Finalmente consegui mover meus lábios para perguntar quem estava falando comigo. Apenas um silêncio ensurdecedor como resposta. Caminhei até a cozinha, ouvi a voz novamente. Não consegui entender o que ela me dizia, mas era como se eu estivesse ouvindo a própria morte falar comigo. Eu não estava pensando, mas meu corpo estava se movendo. Saí da cozinha e fui até o quarto. Peguei uma corda. Não sabia o motivo, mas era como se eu estivesse sendo induzido a fazer isso. Fui ao pátio, amarrei uma ponta da corda em um galho e a outra ponta em meu pescoço. Tentei enforcar-me, mas o galho quebrou. Fiquei no chão, deitado de costas, olhando para o céu, chorando. Ouvi a voz, o medo tomou conta de mim outra vez. Fechei os olhos, tapei os ouvidos, mas seguia ouvindo a voz, estava dentro da minha cabeça. Abri os olhos, vi o vulto negro de um homem, o medo aumentou. Rastejando tentei me afastar dele, mas ele começou a caminhar em minha direção e cada vez mais o pavor dominava o meu corpo. Cheguei ao muro, estava sem saída. O homem vulto parou, ficou me olhando. Meus braços moveram-se, mesmo sem eu querer. Enfiei meus polegares em meus olhos, fiquei cego. Não senti dor alguma, apenas fiquei na escuridão, o sangue escorrendo pelo meu rosto. Não entendia o motivo de ter feito aquilo, apenas fiz. Fui tateando de quatro até chegar na cozinha. Agora não podia saber se o homem estava apenas me observando ou se havia desaparecido.

Rastejei até meu quarto, passando por cima de ratos, baratas e sujeira de todo o tipo. Tateei no escuro à procura de uma gaveta, consegui encontrá-la. Dentro estavam minhas duas armas e algumas facas. Peguei o revólver, estava carregado. Eu estava cego, mas podia vê-lo em minha mão. Eu não entendi o porquê de ter feito as coisas que fiz hoje ao meu próprio corpo, apenas estava fazendo. Uma força exterior me comandava. Eu queria apenas me drogar como todos os outros dias, escapar do meu sofrimento. Larguei o revólver, peguei a pistola, também estava carregada, era pesada. Coloquei em paralelo à minha orelha esquerda, disparei quinze vezes, o barulho me deixou surdo. Peguei novamente o revólver, coloquei em paralelo à minha orelha direita, disparei seis vezes. Peguei uma de minhas facas, cortei fora metade do dedo anelar, mas não senti dor. Novamente não sabia por que estava fazendo isso comigo mesmo. Cortei mais um dedo, mais outro. Já me faltavam dois olhos, a audição e três dedos. Qual seria o próximo passo? Peguei outra faca, com um golpe rápido abri um profundo e longo corte vermelho em meu pescoço. Enquanto agonizava, recuperei o comando de meu corpo, senti a dor q eu havia me causado. O sangue escorria farto do meu pescoço. Voltei a enxergar, mas tudo o que eu via era o vulto do homem que me assombrara. Ele caminhou para perto de mim, pude ver que vestia um terno preto. Ele se abaixou e pude ver seu rosto, era o meu.

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Atualizado em: Seg 9 Dez 2019

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