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A Maldição do W

- Oswaldo, com dabliú.
Foi assim que ele se apresentou quando nos conhecemos em uma reunião de amigos comuns. Nenhuma outra referência, simpatia ou coisa que o valha. Mais ouviu do que falou e em momentos em que me detive na figura pareceu-me desconfortável, abatido.
Fiquei pensando o que o atormentava, se bem que o desconforto era nada mais do que uma previsão de minha parte. Aproximei-me.
- Você trabalha em que área? – perguntei.
Ele me olhou por mais segundos do que o habitual para uma resposta tão simples.
- O que alguém com mais de 60 anos de idade se espera que faça.
Desta vez fui eu que o encarei mais demoradamente, em busca do que dizer. Fugia do script.
- Perdão, talvez não tenha respondido adequadamente à sua pergunta.
Balancei a cabeça concordando.
- E você, faz o que?
- Sou contabilista.
- Pretende se aposentar um dia?
- Daqui 20 anos, se tudo der certo.
- Daqui 20 anos. Sei. E depois?
- Depois?
- Sim, depois de se aposentar.
- Não tenho nada planejado.
- Nada planejado. Sei. Mas pretende parar de vez.
- Parar de vez é muito vago. Soa como a morte.
- Pior. Digo por conhecer.
- O que é pior que a morte?
- É ser invisível. Vivo, mas invisível. Significa que você está presente, mas ninguém o enxerga, portanto, para os demais, está ausente. Quer gritar, mas não consegue e mesmo que o faça não haverá ninguém a escutá-lo.
- É um pouco trágico o que você está pintando, Oswaldo com dabliú. – falei-lhe reforçando a letra, assim como fez quando se apresentou, incorporando-a ao nome na tentativa de suavizar o clima. Ele devolveu-me um meio sorriso.
- Talvez seja a maldição do dabliú – emendou.
Sorrimos. Outros se chegaram a nós e desviamos a conversa para assuntos mais frugais.
Despedimo-nos. Nunca mais nos vimos. Deixou-me indagações. Talvez fosse necessário, sim, pensar, não na aposentadoria, mas no pós. Diante da perspectiva de beirarmos e até ultrapassarmos os 100 anos de idade, o que fazer nos 30 finais. É muito tempo para ficarmos invisíveis. Conversando com amigos comuns perguntei do Oswaldo.
- O Oswaldo com dabliú? – disse-me um deles. Parece-me que está fora da cidade.
- Ouvi falar que ele mudou para o interior do estado – replicou outro.
- Figuraça, o Oswaldo com dabliú – indagou o terceiro.
- Mas por que o interesse? – perguntaram-me.
- Conversamos naquela reunião. A conversa ficou inacabada e pensei em terminá-la – respondi.
- Talvez a Susana saiba para onde ele foi. Se conseguir passo para você.
Agradeci. Dias depois, o França me ligou passando o endereço do Oswaldo com dabliú. Pesquisei. Oitocentos quilômetros distante. Nenhum número de contato. Programei-me para a peregrinação. Oito horas iniciais, baldeação, mais 4 horas. Cheguei. No hotel, perguntei do Oswaldo.
- O tal com dabliú? Mora afastado, mas se o senhor quiser peço para alguém levar até lá – gentileza do recepcionista, com certeza proprietário do hotel. Aceitei.
Quarto simples, cama de viúva, guarda-roupa de 2 portas e uma cadeira. Nenhum espelho ou comodidade a mais. Banheiro coletivo, a uns 10 metros. Tudo aparentemente limpo, o que na minha avaliação já alçava o estabelecimento à categoria de 1 estrela. Por isso, dormi como uma pedra. Café da manhã com pão, manteiga e nada mais. Banquetei-me e às 10 em ponto chegou meu transporte. Um veículo último tipo, pois não haveria de existir outro igual, funcionando, em todo o planeta. Um semi-Gordini. O rapaz que o conduzia deveria ter uns 15 anos. A plaquinha com os dizeres “Deus guia” tranquilizou-me. Nada disse o jovem durante a maratona de 20 minutos. Portanto, fiquei sem saber se falava.
- Volto em quanto tempo? perguntou-me ao fim do trajeto, apaziguando minha dúvida.
Não sabia.
- Eu aviso – respondi-lhe.
- Tem aparelho, não. Se não sabe, não tem como voltar.
- Então, volte no início da tarde.
Ouviu e partiu. Sozinho detive-me na casa à minha frente, solitária até aonde meus olhos alcançavam. Típica do interior. Abri o pequeno portão de ferro, avancei uns 2 metros, dei 2 pancadas seguidas na porta de madeira. Nada. Voltei a bater. Nada. Chamei pelo Oswaldo. Nada.
- Oswaldo com dabliú, sou eu, o Cabral.
Nada.
- Oswaldo. Vim para continuarmos aquela conversa...
A porta abriu.
- Entre, Cabral, por favor.
- Bom revê-lo.
- Vamos sentando. Viajou longe. Por que?
- Ora, iniciamos uma conversa meses atrás e não terminamos. Como você não tem facebook, linkedin, sequer celular, peguei o ônibus e estou aqui.
Ele sorriu.
- Aqui é um bom lugar para os invisíveis como eu.
- Longe de tudo – disse-lhe.
- Perto do essencial.
- Sabe, fiquei intrigado depois daquele nosso encontro, primeiro e único verdade se diga.
- Intrigado?
- Sim, senti que tinha mais a perguntar e ouvir. Por isso, vim.
- Não espalhe, se não vira peregrinação – disse-me um Oswaldo a sorrir com mais entusiasmo que da vez anterior.
Sorri com o mesmo entusiasmo. Emendei:
- Pode deixar.
- Mas o que o intrigou? – perguntou-me.
- Pesquisei sobre você.
- Na Bíblia? Sorriu-me.
- Não é tão velho -respondi-lhe.
- Nem tão santo quanto exige a Santa Igreja. Talvez um apócrifo.
O clima era agradável, com um Oswaldo menos melancólico que o da minha lembrança.
- Você fez uma bela carreira – continuei. Teria muito que ensinar.
- E quem quer aprender?
- Muitos, a começar por mim.
- Você não conta e sabe por que? Quantos anos você tem?
- 45.
- Por isso não conta. Já viveu o suficiente para saber certas coisas que se aprende após os 40 anos. E por que 40 anos? É quando o mercado já começa a olhar para você de maneira diferente, como um profissional com dificuldade de entender as novas regras, as tendências, as tecnologias. Afinal, tudo é muito veloz e um profissional de 40, 45, já não tem a habilidade de um de 25, 30 anos. Sem contar que é caro. E vai assim progressivamente e quando entra na casa dos 50, prepare-se para se tornar invisível. Aos 60, então, é espiritual. É a regra geral.
Pensei antes de falar.
- Mas existem os que se mantêm, são ouvidos, seguidos nas redes e, com mais de 50, 60 anos de idade, tornam-se consultores.
- Eu não me refiro às exceções e, muito menos, julgar os gurus de plantão. Que aproveitem o momento, que transmitam o que sabem; desde que sejam honestos e tenham um propósito, além do só ganhar dinheiro, são bem-vindos. Tem gente disposta e precisando ouvir. As tecnologias ajudam a disseminar o conhecimento, mas não distinguem o que é transmitido. Verdade que existe público para tudo, mas tem muita baboseira sendo colocada na cabeça das pessoas incapazes de discernir.
- Mas de quem é a culpa, nesses casos?
- Dos coveiros. De quem tem o conhecimento, mas enterra a ética. Esse tem que ser responsabilizado, é o culpado. Quem defende que tudo é válido para ganhar dinheiro é desonesto em qualquer atividade, em qualquer tempo. Só que no momento atual, quando as redes possibilitam a todos se tornarem fontes de informação, é preciso distinguir quem merece atenção, quem tem algo de valioso a oferecer, algo que ajude no desenvolvimento, na evolução do outro.
- Concordo com você. Mas o que isso tudo tem a ver com o tornar-se invisível, como você apregoa?
Oswaldo fez-se pensativo por longos segundos. Será que o peguei de surpresa? Não posso acreditar nessa hipótese. Ele retornou.
- Qual é o seu preço, Cabral?
- Meu preço? Você quer dizer quanto eu valho? Profissionalmente...
- Pessoalmente! – interrompeu-me.
- Como pessoalmente?
- Pessoalmente, ora. Como pessoa, qual é o seu valor?
- Nossa, difícil. Talvez nunca tenha pensado neste tipo de abordagem.
- Então, quase ninguém pensa nisso. O valor de uma pessoa, de um ser humano é sempre analisado do ponto de vista profissional. Quanto vale um médico, um engenheiro, um advogado, um padeiro, um contabilista. É o valor de mercado. Agora, eu pergunto: quanto vale o João, o Antonio, a Maria, o Cabral e tantos outros bilhões espalhados pelo planeta?
- Não existe uma métrica para avaliar isso.
- Pois então, é justamente isso. Se você produz o mercado reconhece seu desempenho e estabelece um valor para o seu trabalho. Sem produzir, não tem como avaliar, dar um valor. Então, você é posto para fora do jogo. E o que é pior: não depende de você. Os parâmetros do mercado estabelecem que passou de certa idade, é hora de colocá-lo para escanteio, independente de você querer e ter condições de permanecer em campo. Você não se encaixa mais no padrão que estabelece não apenas a questão da idade, mas, veladamente, a cor, o sexo, a aparência física entre outros itens.
Eu ouvia a explicação do Oswaldo sem perder nenhuma palavra.
- E, preste atenção no que eu vou dizer agora: ninguém vai admitir que esses parâmetros existem, e os “aceitam” como algo que não pode ser modificado. Até porque se você insistir em abordar o assunto vai ser execrado e expulso de campo, para continuar na analogia futebolística. Ou seja, as portas irão se fechar para o delator e isso é horrível, pois sempre há a esperança de que com você vai ser diferente. A esperança prevalece.
- Tudo bem, concordo que tudo isso exista, que boa parte aceite as regras, fiquem calados na esperança de ter um destino diferente. Mas, e os que se arriscam, abrem seus próprios caminhos e se dão bem. Os empreendedores?
- Merecem respeito, pela coragem, pela ousadia. Mas, veja, esses heróis, entendamos assim, constroem uma trajetória “off market”, ou se preferir, “off game”. Eles se aventuram, se arriscam, se impõem, fora das regras naturais do mercado. Tanto que quando alcançam o sucesso, viram notícia. Virar notícia é visto como “olhe, ele é um vencedor”. Mas eu entendo como “olhe, uma exceção”. Vendem o vencedor como exemplo, tipo “se ele conseguiu, você também pode”. Ótimo, mas é por sua conta. Quantos empreendem e tem resultados negativos? Muitos. Esses não se tornam exemplos, perdem-se nas estatísticas do mercado, sem nome, portanto, invisíveis. E daí aconselham: você tem que ser um empreendedor. Vendem cursos de como se tornar um, tem os conselheiros, palestras onde os gurus são verdadeiras celebridades, vendendo fórmulas prontas e por aí vai. O mercado se expande, abre nichos e alguns se aproveitam. Assim é. Agora eu pergunto: somos todos fadados a ser empreendedores? E quem não é, faz o que?
- É cruel esse cenário, afinal chegamos aos 60 com a probabilidade de atingir 90, 100 anos.
- Ser empreendedor ou invisível. Eu sou invisível e isso merece uma comemoração. Vou abrir uma cachacinha feita aqui na região. Aqui se visita uns aos outros, conversamos no bar ou até aqui em casa. É só convidar que a turma vem.
Oswaldo abriu a garrafa de cachaça. Brindamos.
- Ao visível que me tornei. Sem dabliú. Somente Oswaldo. Tchim-tchim.
De um gole só.
Sai pensativo, mas feliz. Faltava-me esse papo para refletir.
- E então, encontrou Oswaldo com dabliú? – perguntaram-me dias depois os amigos comuns.
- Oswaldo com dabliú?... ele se foi, não existe mais!
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Atualizado em: Qui 5 Dez 2019

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