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A CASA DO PENHASCO

Passaram-se muitos anos desde que Amora, visitou sua mãe, a vida delas sempre foi proxíma e a distância que se formou entre elas era difícil de suportar. Mas quando se está no auge da juventude, tudo pode esperar menos a enorme vontade de fazer o que todos dizem que é errado! Amora sempre foi muito bonita, morena, alta, cabelos ondulados e longos que pendiam como uma cascata em seus ombros, um corpo bem definido e os olhos profundos e negros, seu rosto era fino e esguio, nariz arrebitado e sorriso largo, a simpatia em pessoa. Na infância ela e sua irma gêmea América, viviam em Capitólio, cidade de Minas Gerais, região essa muito famosa por suas belezas naturais. Mesmo sendo muito parecidas fisicamente, América era mais voluptuosa que Amora, gostava de fortes emoções e não lelava desaforo para casa, sua língua era felina e muitas vezes feria até sua propría irmã. As duas cresceram juntas e diferente do que se possa imaginar, viviam suas vidas separadas, uma não interferia nas escolhas da outra.
Clair tinha muito orgulho das filhas, as criou sozinha, o pai morrera cedo, vitíma de uma doença crônica. As três viviam felizes, pela manhã Clair preparava o café no fogão a lenha, usava álcool para acendê-lo.( Muito tradicionalista, achava o sabor da comida era diferente nesse fogão) e ia trabalhar. Caminhava pois, uns quarenta e cinco minutos para chegar ao serviço . Era atendente da empresa Intermodal, muito conceituada no ramo de Informática. Ao contrário da maioria das empresas que exploram seus atendentes, Clair e os demais eram muito bem tratados e remunerados de acordo, foi assim que ao longo dos anos, Clair sustentou a si e as meninas. A noite no escuro do quarto, Clair se levantava ia até a cozinha, esquentava o leite e colocava o chocolate, subia novamente as escadas e levava a mamadeira para as meninas, elas dormiam juntas, Clair sentava ao lado da cama tocava suavemente a pontinha do dedo na bochecha de uma delas e imediatamente ela se voltava procurando o mama, depois o mesmo ritual se seguia com a segunda e Clair ficava ali sentada olhando... cada gesto, cada traço, cada respiração e agradecia à Deus pelo seu presente vindo do céu.
Desde muito cedo a pacata cidade deixava as meninas inquietas, elas queriam um algo a mais, um pouco de emoção, de aventura. Amora queria conhecer o mundo ao lado do seu príncipe, estar em lugares românticos e tranquilos. Imaginava uma vida longa, ter filhos, envelhecer ao lado do amor verdadeiro... Tudo era planejado meticulosamente. Não queria viver no campo, queria viajar, amar, viver um sonho. Quando sozinha no seu quarto, ficava olhando no espelho e esperando o momento que tudo isso aconteceria e assim ela também poderia cuidar da mãe e da irmã. América já tinha um fogo devorador dentro de si, pra ela não tinha espaço para o amor, mas sim para a adrenalina, aquela vibe que percorre todo o corpo em segundos. Uma sensação que não se sabe onde começa, nem aonde termina. Gostava de ser notada era sempre o centro das atenções. Não era vulgar, mas era forte, dura e presente. Amora era como a água que corre no riacho suave, América a fúria da tempestade.
Mãe e filhas viviam bem, nada lhes faltava. Clair, mesmo jovem quando perdeu seu marido Jorge, não quis casar novamente, sempre caminhava pela manhã, pés descalços a caminho do penhasco próximo da casa, parava do lado direito, os cabelos castanhos soltos contra o vento, os olhos cor de mel fitos no nada, seus pensamentos fluiam e voltavam vazios para ela, sabia que tinha que fazer algo, mas o quê? O seu corpo ainda era forte, robusto, mesmo aos quarenta era muito bonita, alta, mas com traços invejáveis as mais novas. Tinha no rosto as leves marcas de quem viveu, sem perder a jovialidade, olhava fixamente os vales e as colinas, os tons de verde, misturados a relva o cheiro de terra molhada, tudo era muito intenso mas por dentro algo a angústiava.
O tempo passara e as meninas agora eram mulheres e sua beleza era inegável
nas ruas da cidade os olhares sempre se voltavam para ambas, mas ás vezes eles não sabiam ao certo com qual das duas falavam... Isso divertia muito a América. Numa tarde o sol já se punha nas serras elas se encontraram perto da Toca, barzinho local e ali esperavam seus amigos para conversar.
Amora disse:
- Oi tudo bem América? Hoje não te vi cedo, aonde voce foi?
- Tudo, sai fui ver o que a mamãe tanto faz naquele penhasco, ela olha, olha e fica em transe... Mas não vi nada de mais. Acho que ele sente falta do pai, mesmo ele sendo um bebado chato. Afinal ela nunca quis ninguém alem dele e
já faz 8 anos. Pra mim ela tinha que virar a página.
- É eu sei, mas ela tem o jeito dela e eu acredito que esse é o melhor modo que ela achou para sobreviver a tudo isso, afinal fora muitas perdas, a casa, o pai e tudo que ela passou com ele nos ultimos meses, foi muito triste.
- É mas a vida continua a gente tem que viver o hoje e vamos falar de outra coisa. Voce já pensou para onde vamos nas férias? Disse América.
- Estava pensando num ambiente praiano o que voce acha? A gente toma um bronze, curte e sai desse buraco.
- Sim eu concordo, mas qual será nosso destino? ouvi dizer que a Bahia tem lugares lindos... E paradisíacos...
- Ai América, eu pesquisei e vi que salvador, tem praias lindas, lugares paradisíacos, paisagens que nos fazer pensar no Olimpo, toda aquela beleza, as águas translúcidas, a vida marinha em todo seu esplendor, voce esta me entendendo?
- Entendendo, claro! Quase vi uma sereia pulando na minha frente.... O mar é realmente uma maravihosa expressão da natureza... Disse América, dando palmadinhas nas costas da irmã.
As duas adentraram no Tocas e foram se encontrar com seus amigos, mas por dentro a vontade delas era realmente sair de Capitólio e conhecer o mundo, mas nenhuma delas sabia ao certo o porquê.
Caminhando pois, retornando para casa, o caminho parecia bem mais suave do que era, mas as lembanças sempre se faziam presentes... A única diferença física que as gêmeas tinham era um pequeno sinal na parte interna da coxa, uma cicatriz que América conseguira ali mesmo naquela rua quando andava de bicicleta e caira nos espinhos. Como ela se recusara a tirar o espinho ele acabou ficando encravado e inflamou pouco depois, com a demora para retirá-lo acabou ficando a marca.
As duas chegaram em casa, não era tarde, Clair já dormia. Elas foram até o quarto da mãe, lhe deram um beijo suave na face e foram para o quarto. Enquanto América tomava banho, Amora pesquisa os resorts que elas conheceriam, começariam pela Bahia e depois o mundo... A maior preocupação da América era converser a mãe a viajar com elas, afinal seria apenas cinco dias e elas precisavam a muito desse momento relax.
A noite findou-se ambas olhando pela janela, o escuro da noite era aplacado pela luz do luar, naquele momento Deus tocava a terra, não havia medo, nem incertezas, apenas paz. O vento soprava por entre as árvores e o barulho das copas parecia uma linda sinfonia, o vento seguia, limpando e purificando por onde passava. Naquele momento a tranquilidade as envolvia.
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Tudo estava pronto, destino escolhido, passagem compradas, roupas separadas, mas e a mala? Não tinha mala, nem maleta, nem valize e agora?
- Já sei, senta aí, Amora. Vamos fazer o seguinte, voce vai à cidade compra as malas discretas por favor, nada de unicórnios e afins, hein?!! E eu vu conversar com a mamãe, para convencê-la ir com a gente.
- Tá bom qualquer coisa te ligo, mas e se eu não conseguir... Antes que ela terminasse América, bradou:
- Se voce não consegue comprar uma mala sem ajuda, como pensa em viajar pelo mundo? Anda, vai e faça, voce consegue.
América respirou fundo e caminhou até a cozinha, chegando lá ela viu sua mãe debruçada no para-peito da janela, ela assim como a mãe faziam isso com frequência, era um jeito de exteriorizar os sentimentos, ver a paisagem e fugir dos problemas. - Mãe. disse América, preciso falar com voce.
Ao fitar os olhos da mãe,viu que estavam mareados e vermelhos, com certeza estava chorando, com saudades do meu pai.
- Mãe, sei que é dificil continuar, depois de tudo o que vivemos e passamos, as coisas nunca mais serão as mesmas, mas temos que continuar, mãe, temos que viver. A gente só tem essa vida, voce não pode ficar parada e deixar ela passar, voce tem que sair, convesar, ver gente nova... Voce precisa de distração, não precisa esquecer o pai, mas lembre-se dos momentos bons, das risadas, dos sorrisos e de tudo que ele fez por nós. Esqueça o que foi ruim e todo o sofrimento, ele não ia querer isso, ele quer o seu bem o nosso bem e todo esse amor a gente leva no coração, não é falta de respeito, é amor, é vida que segue. E voce, voce não está sozinha, enquanto eu viver eu vou cuidar de voce, sempre até o fim. Mas eu não posso continuar sem caminhar com voce do meu lado, não posso mãe. Eu te amo e...
Antes que ela concluísse, Clair a envolveu nos braços e as duas choraram juntas e em silêncio permaneceram por alguns minutos. A tarde era límpida e suave, a brisa soprava e trazia o cheiro das flores, os pássaros cantavam em unissono, esse era o único som que se ouvia.
Clair, conduziu América até o penhasco, as duas caminhavam quietas, mas algo reluzia entre elas, a cadência dos passos era diferente... Ao chegarem, Clair disse:
- Tudo o que voce vê aqui, até onde seus olhos alcançam, foi idealizado por mim e por seu pai, ele era um homem muito inteligente, não havia nada a que ele quisesse fazer e não conseguisse, até nossa casa, foi feita por suas mãos...
Na verdade ele morreu para nos salvar, quando ele ia ao médico e este prescrevia os remédios ele comprava apenas o essêncial e o restante investia n casa e na nossa alimentação, eu não via isso na época, mesmo ele sendo rude o amor dele por voces, por nós era grande, jeito dele mas era, cada parte desse vale me lembra ele, sua respiração e determinação. tinha seus defeitos, mas tinha um grande coração. Quando soube que seu quadro era irreversível, sofri muito, mas decidi, apoiá-lo até o fim, mesmo sofrendo por ele. E hoje eu me vejo vazia, sinto falta das conversas e até das brigas, aquelas grosserias de quem não tem o que dizer... Ele foi um grande homem e me deu voces que são o meu tesouro. E Hoje América, eu não sei lidar com isso, com essa ausência...Doí muito, não cabe aqui no meu peito... Me sinto só e não queria ser fraca prá voce e sua irmã, mas eu estou desmoronando, igual a esse penhasco, dia após dia. Mas eu entendo o que voce diz, obrigada, minha filha...meu anjo...pedacinho de mim... Um dia te dei a vida, hoje voce devolve a minha. Vou seguir com voces, sempre juntas e seu pai, vai no meu coração.
- No meu também, mãe.
Nesse momento, Elas olham para trás e Amora está chegando.
- Oi, oi, o que voces estão fazendo? Tô chamando a um tempão e ninguém me escuta. Eu comprei as malas... Ai são tão lindas! Tem rodinhas e um zíper suuuper reforçado.
- Espero que voce tenha trazido uma prá mim, amora, disse Clair.
-Sim mamãe, eu trouxe, voce vi gostar e trouxe chaveiros prá gente personalizar, o meu é do Capitão América, é claro, o seu mamãe é da Capitã Marvel e o seu América é do Thor.
- A o meu é do Thor? E por acaso ele vem com um martelo?
- Martelo, mas um martelo para quê?
Todas cairam na risada.
A noite que se seguiu foram para os preparativos, as três estavam exultantes, muito felizes. E Amora adorava isso. "E se lá na Bahia, em algum lugar no meio do mar, da areia, ds dunas, sei lá, em algum lugar, meu príncipe eu encontrar. E depois, a noites juntos a luz do luar eu e o meu príncipe a me beijar. Lá na Bahia, a lua, o céu e o mar..." Pensava e repetia quase como um mantra, em todos, absolutamente todos os momentos.
A noite findou-se o sol nasceu, Amora acordou e disse:
- Praaaaaaiiiiiiaaaaa!!!!!!!!
- Acordando e levantando....
-Cala, boca Amora, quem acorda desse jeito? Quer me matar? - Disse América, bocejando.
Clair, como sempre já tinha o café pronto e a mesa posta. As meninas desciam correndo, num misto de alegria e pressa. Até mesmo Clair, estava ansiosa, vestia uma roupa leve, um vestido floral de alcinha e uma sandália.
Amora, usava um vestido branco com bolinhas pretas, rasteirinha com misangas e os cabelos estavam soltos , os braços adornados por pulseiras.
Já América, usava um shorts jeans e regata branca, calçava uma rasteirinha cinza. Os cabelos presos e óculos escuros.
O caminho até a Bahia foi curtíssimo, devido a toda empolgação. Elas nunca tinham viajado de avião e foi tudo uma grande curtição. O boing cruzava o céu e rasgava as as nuvens, nem os cúmulos nimbus, nem os cirrus o segurava... Era tudo fantástico, nada faltava. Clair via a felicidade das filhas e adorava fazer parte desse momento. Chegando no aeroporto havia um ônibus fretado que as levou ao balneário.
A entrada do resorte era linda, com palmeiras imperiais e mini heras, as pedras fazim um sigue sague frenético no chão, o saguão do hotel era enorme os umbrais enormes, em estilo jônico, rico em cada detalhe. Mas o mar, há o mar... esse sim era o ponto alto o apíce da viagem, a areia branca, fofinha, quentinha... E um banho de água salgada!
Ao chegar, só guardaram as malas, devidamente identificadas e foram para a praia. O mar estava calmo, tranquilo e super aconchegante, muito receptivo aos banhistas. O sol forte aquecia as águas e a brisa refrescava. Tmaram água de côco, comeram uma porção de peixe e não saiam da água. Ao fim do dia o sol se ponto, num tom alaranjado e forte, repousava no mar. Foram para o hotel, banharam-se e foram jantar. A comida era leve: Salada, salmão e arroz à grega. O suco era servido numa enorme taça de cristal.
Houve uma apresentação um grupo musical chamado Los Mariaches e os presentes foram à loucura. Clair, América e Amora estavam tão felizes que nem viram a noite e os dias passarem. Clair recuperou o sorriso largo e bonito, América, abrandou o coração e Amora nem lembrou do seu príncipe. Foram dias memoráveis. Na volta pra casa o clima ea outro, renovado, abençoado...Chegando enfim novamente em Capitólio, América levou sua mãe e Amora até o penhasco e disse:
-Fomos tão longe buscar a felicidade, hoje percebo que a felicidade está aqui, é estar com voces! Mesmo com nossas limitações e fraquezas, somos uma familia e tudo o que precisamos nós já temos. Fomos tão longe buscar a felicidade... E ela sempre esteve do nosso lado. No teu sorriso mãe, no teu olhar Amora e nas palavras que eu tinha medo de dizer. Hoje eu percebo, o que a vida nos deu e só peço sabedoria para aproveitar e caminhar lado a lado com voces, hoje, amanhã e sempre.


FIM
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Atualizado em: Seg 8 Jul 2019

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