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Arroz Queimado

1.
A tampa é afastada da panela…arroz queimado! Alberto, então, chega a conclusão de que não estava com fome. Essa não era a primeira derrota que sofria naquele dia, ou quem sabe, naquela semana. Tudo estava assim ultimamente. Não ligava mais se as coisas davam certas ou erradas. A vida passava por ele, e ele não passava por ela. Aceitara, por exemplo, trazer trabalho para casa em plena véspera de feriado prolongado, enquanto seus colegas de departamento organizavam uma festa na chácara de seu chefe, Dr. Pedro, com direito à piscina e churrasco.
Fazer o que? Não podia deixar Dr. Pedro na mão, o considerava um bom homem, já que permitia com que tivesse um emprego. Além do mais, alguém precisaria se sacrificar e ficar em casa para finalizar o Relatório de Resultados Trimestrais, uma vez que seria necessário enviá-lo ao presidente da empresa logo na manhã de segunda-feira. Mas, Alberto tinha um plano, faria todo o serviço naquela noite mesmo, dormiria tarde, e assim, poderia passar o resto dos dias de descanso usufruindo de sua solidão.
 2.
Manhã de feriado, quando Alberto finalmente morde o primeiro pedaço do seu pão de forma com manteiga, a campainha toca. Frustrado, ele deixa o prato no sofá e vai atender. Era a vizinha do apartamento ao lado, parecia nervosa e estava com um papel na mão – o qual Alberto identificou ser um boleto bancário. A mulher danou-se a falar, o assunto era algo sobre o valor absurdo da conta de energia. Ele apenas concordava positivamente com a cabeça e soltava um ou outro “aham”. Com o passar dos anos, Alberto perdera a capacidade de conversar com outras pessoas que não fossem Dr. Pedro, e sobre outros assuntos que não envolvessem trabalho.
Enquanto a fala da vizinha prosseguia, Alberto olhou mais de uma vez em direção ao sofá, especificamente, para o prato com pão, porém chegou à conclusão de que não havia tanto problema em perder alguns minutos ali. Aliás, não tinha tanta fome mesmo!
3.
O celular novo parecia cair em câmera lenta da mesa da cozinha, estando a tela virada para a direção do chão. Alberto fecha os olhos como se isto fosse impedi-lo de ouvir o barulho da queda.
Ele se abaixa para recolher o aparelho, um frio na barriga o toma, não queria ver o dano causado pelo acidente. Então, vira o celular e… graças à capinha protetora, nada havia acontecido!  Sendo assim, para se certificar de que nenhum defeito de funcionamento ocorreu, Alberto resolve acessar suas redes sociais. Acabou conseguindo fazer isto normalmente, logo, nenhuma sequela aparente. Pôde, afinal, se distrair navegando na virtualidade. Curtiu fotos e vídeos postados pelos seus colegas ao longo daquele divertido feriado na chácara de Dr. Pedro. Depois, riu com as postagens de outras pessoas a quem seguia. Existia muito divertimento naquele mundo. Mas aí, lembrou-se do relatório! Notou que havia colocado uma informação totalmente equivocada. Precisava corrigi-la e produzir um e-mail em forma de errata para que seu chefe não o enviasse ao presidente amanhã assim que chegasse ao escritório. Correu para o seu notebook, começou a fazer as alterações, e de repente, um cheiro invadiu o seu nariz. Veio a lembrança de que estava com fome antes de o celular cair. Alguma coisa queimava no fogão.
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Atualizado em: Dom 23 Jun 2019

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