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O Pequeno Algoz

Abandonado, ele foi. Pelo mundo. Pela vida. Por tudo que já existiu e por tudo o que existirá.
O renegado, pelo mundo vagou sem direção durante muito, muito tempo. E nunca, nunca se encontrou. Jamais se encontrará. E nenhum lugar para repousar, ele achará.

“Você finge que está vivendo e então vai dormir”, como se houvesse outro ser em seu corpo, tais palavras sua mente proferiu sem o seu consentimento. O’Braun estava ficando louco?
Sem nenhum motivo aparente, O’Braun sentia repulsa de seu filho. Nem ele mesmo sabia o porquê, mas olhá-lo dava-lhe náuseas. “Será que ele é tão parecido assim com Lin?”, perguntou-se ele.
Em um delírio, numa noite pútrida, O’Braun proferiu dezenas de vezes o nome de sua falecida esposa. Lágrimas rolavam de seu rosto e, ao ver o rosto de seu pequeno filho, o fez ter vontade de não existir. Como sua maior alegria tornara-se sua grande maldição? Ele não culpava seu filho, no entanto não conseguia esconder sua infelicidade.
Ao cair da manhã, pôs-se logo de pé, acordando também a seu filho, Werner. Poucas pessoas sabiam que a família Kang ainda residia na cidade de Shuri. Eles foram até o Centro, comprar comida e suprimentos necessários para uma semana. Para O’Braun, sair de casa era pior do que ser torturado. As poucas pessoas que os viam não deixavam de murmurar coisas acerca deles.
“Eh, parece que a família Kang caiu de vez após a morte de Lin.”
“Esperava o que também? Era ela quem movimentava as coisas.”
“Parece que O’Braun não lidou muito bem com a sua perda.”
“E aquele filho deles? Olhá-lo me dá vontade de morrer.”
“O filho deles me faz sentir repulsa. Como uma mulher tão boa com Lin, foi ter um filho tão excêntrico como ele?”
Mais e mais. Os murmúrios continuavam e, seus passos aumentavam. Em pouco tempo, O’Braun já se encontrava em casa.
O barulho da chuva ecoava no telhado afora.
Pensamentos intrusivos começaram a tomar forma em sua mente. Ele se debruçou na bancada da cozinha, e tentou se acalmar. “Seu filho é a causa de todos os problemas”, sua mente não cansava de dizer-lhe. Um sentimento que ele conhecia bem, se instalou em seu peito.
Werner estava parado ao seu lado, ouvindo seu pai gritar e brigar consigo mesmo. A pequena criança estava espantada.
E então, de súbito, houve uma pausa.
Seu pai o fitou incisivamente, seus olhos já não eram mais os mesmos. “É o único jeito de lhe salvar.”, tentou dizer O’Braun, mas sua voz se fez inaudível.
A mente de O’Braun continuava a borbulhar, tangenciada por pensamentos nefastos, sua racionalidade se dissipou, por fim. Abruptamente, abriu a porta e correu casa afora. Com seus olhos raivosos e sua esperança dissipada, jogou-se contra um carro que estava passando em alta velocidade.
Para O’Braun, um alívio.
Para Werner, um desespero.
Na chuva que, incessantemente, corria afora, Werner correu com suas pequeninas pernas até seu pai. As lágrimas se misturavam em meio à chuva e, enquanto seu pai gemia de dor, ele viu a paz em seus olhos no meio daquele jardim que jazia em tom carmim.
Por um vislumbre de tempo, percebeu, ele, que havia uma fagulha de felicidade nos olhos de seu pai ao vê-lo.
Pela primeira vez, ele não viu medo nos olhos dele ao olhá-lo. Havia um resquício de esperança de seu pai não odiá-lo tanto quanto aparentava.
"Talvez ele até me amasse", proferiu Werner para si mesmo, enquanto soluçava.
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Atualizado em: Sex 21 Jun 2019

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