person_outline



search

Line Minds. Capítulo 1: Bem Vindo a Cold River.

Minha irmã sempre dizia que a chuva era um reflexo dos sentimentos e que sempre trazia algo pra gente pensar, ela como sempre, estava certa, naquele fim de tarde tomado por uma tempestade, a maior tempestade em muito tempo na verdade, eu não conseguia parar de pensar nela. A luz tinha acabado nos deixando na mais profunda escuridão, será que isso era reflexo de alguma coisa? Eu não sei dizer. Minha irmã e eu fomos acendendo velas por todos os cômodos da casa, que não eram muitos, a sala e a cozinha eram juntas divididas por um pequeno balcão de madeira, banheiro, nossos quartos e também havia o porão mas depois de alguns episódios nós resolvemos trancá-lo. Enfim, após as velas serem posicionadas e acessas iluminando um pouco da casa, me sento ao sofá, seguidamente de mim minha irmã Emma veio e se senta no outro sofá de frente ao meu. Minha irmã era a clássica japonesa fofinha que parecia não pensar em nada, mas só a primeira parte é verdade, ela é a pessoa mais inteligente que eu conheço, amo ela mais que tudo e amo morar com ela, aliás eu não sou japonês, to mais para um italiano misturado com americano, então vocês já sabem onde eu quero chegar, enfim ela sentou-se ao sofá e me encarou por uns instantes, e depois perguntou a mim:
— Acharam ela?
— Ainda não, mas você sabe...— Respondi meio triste e desiludido.
— Vai ficar tudo bem Nick.
— Eu sei, ela sabe se cuidar — respirei fundo e fechei os olhos enquanto milhões de memórias dela passavam na minha cabeça.
— É... Ela cuidava de você melhor do que você mesmo.— Deu uma risada que dava para sentir a felicidade de cada memória que elas haviam juntas.
— Haha — disse sarcasticamente. — Como se ela não cuidasse de você também.
— Com você era mais...E o Richard como esta?
— Tá péssimo, pra ele deve ser tudo muito pior, estavam sempre juntos é como se...Ele perdesse uma parte, a parte mais importante que ele tinha.
— E as Raposas, o que farão?
— O que podemos fazer? Vamos continuar procurando... — Paro, olho em direção ao chão. — Mas ela vai voltar, ela sempre volta... E enquanto espero só tem uma coisa a se fazer.
Por uns instantes e encarei minha bolsa que estava jogada ali ao canto do sofá, era uma bolsa cinza que já estava um pouco gasta, eu a puxei, abri o bolso da frente e tirei um masso de cigarros de menta pretos, com 7 cigarros dentro dele, minha irmã odiava o cheiro então se irritou como sempre:
— Ontem você não disse que tinha parado?
— Mas hoje é outro dia não é?
Ela me olhou com aquele olhar de "É sério?" abrindo seus olhos o máximo que podia e franzindo as sobrancelhas, esse era meu sinal para fumar la fora, ela nunca gostou do cheiro, também não gostava muito mas não chegava a me incomodar. A chuva era grande, mas a minha vontade era maior. Me levantei e caminhei até a varanda que era coberta por um telhadinho de madeira, a única coisa que atrapalhava era o frio. Tirei o esqueiro do bolso da jaqueta e me encostei sobre a cerca da varanda, puxei um cigarro do maço e o acendi. Enquanto fumava comecei a apreciar a vista, nossa casa era um lar de caipiras de classe media como outra qualquer, o que a tornava especial era onde ela ficava, no topo de uma pequena colina que tinha vista para toda a cidade. Cold River, se localizava na fronteira do Canadá com Washington nos Estados Unidos, Cold River é uma cidade pequena como as que você vê em filmes dos anos 80, tinha esse nome pois um enorme rio corta a cidade ao meio, com apenas uma ponte para a travessia, também tinha alguma coisa a ver com o fundador, não me lembro bem. Uma cidade sem lei, caótica, longe de ser bela mas quando eu a olhava daqui de cima me batia uma sensação de paz, como se o tempo parasse. Nossa casa era a única na colina e tudo o que tinha era uma estrada de terra a sua frente com uma imensa caixa da água do outro lado, mesmo sendo solitária e no meio da floresta eu sempre amei muito.
Para mim, fumar era um jeito de refletir, eu sei desculpa ruim para manter um vício mas era meu momento de autoconhecimento e reflexão, era um jeito de pensar bem antes de qualquer decisão. Enquanto eu estava ali viajando nos meus pensamentos, ao longe avisto uma garota de cabelos marrons encharcada com uma expressão estática descendo a estrada em direção a minha casa, ela parecia uma daquelas garotas de filme de terror, vestido branco com dois rabos de cavalo um de cada lado da cabeça. Ela continuava seu caminho até que chega bem em frente a minha cerca, ela para, continua olhando pra frente por um tempo, cai no chão de joelhos e começa a chorar. Eu rapidamente entro em casa, pego o guarda-chuva rosa da minha irmã que vivia jogado na sala e corro porta afora. A garota continuava ao chão com a mesma expressão, eu a cobri da chuva. Ela virou sua cabeça lentamente até mim e começou a me encarar, ela parecia muito assustada, inclinou sua cabeça para o lado e começou a forçar sua vista. Eu perguntei se estava tudo bem, mas ela não me respondia, apenas ficava me encarando. Estendi a mão e ela imediatamente começou a encarar minha mão. Cerca de alguns segundos ela a segurou, ajudei ela a se levantar e a guiei para dentro, quando subi o primeiro degrau da varanda comecei a gritar pela minha irmã que ao avistar a garota entrou em desespero:
— Quem é essa?
— Eu também não sei.
— como assim?
— Ela não fala uma palavra.
Minha irmã pegou na mão dela e a levou até seu quarto. 10 minutos se passaram e eu já estava ficando preocupado. As duas voltaram, a garota estava usando umas roupas da minha irmã, que alias ficaram muito bem nela, ela ajuda a garota se sentar no sofá ao meu lado. Emma estende a mão e diz "Empresta seu esqueiro por favor", eu entrego e ela parte em direção a cozinha dizendo "Já volto", então a garota torna a me encarar. Eu tentando quebrar esse clima estranho digo:
— ehh...Oi?
— Obrigada—a voz dela era linda.
— Por nada, alias o que você tava fazendo aqui em cima em um tempo desses?
— Eu estava meio... É que...
— Não precisa.
— O que?
— Se é muito pessoal, não precisa falar, você sabe, sem confissões sem julgamentos.
— A mais pura verdade — ela deu uma leve risada, a expressão de seu rosto era diferente, é como se ela tivesse virado outra pessoa nesse curto tempo.
— Aliás qual seu...Você sabe, nome?
— Lilly Skye Johnson e o seu?
— Me chamam de...
— Stonn eu sei — me cortando.
— Sabe?
— Eu estudo na Nowi's também.
— Serio? Nunca tinha visto você por lá.
— Acho que depois de toda essa confusão aqui vai ser difícil não ver.
— É, algumas coisas na vida a gente não esquece tão fácil, essa é uma delas, mas... A gente pode fingir que esquece, quer dizer se você quiser.
— Eu ia te agradecer muito, muito mesmo, isso não ia pegar muito bem pra mim né — Disse rindo. — Sabe, eu te achava metido, até que você é simpático.
— Sua honestidade me emociona — disse sarcasticamente.
Emma retorna lentamente com uma xícara de chá na mão tentando não a derrubar, ela para em frente a Lilly dá um enorme sorriso e entrega a xícara com as duas mãos, ela encara a xícara por uns segundos e volta com aquele olhar macabro, Emma diz:
— Que foi não gosta de chá?
— Gosto sim...— ela diz após um tranco, como se fosse puxada de volta a realidade.
— Então pode pegar — Emma ainda com um enorme sorriso, ela não julgava as pessoas independente de como agiam, isso era tão bom quanto ruim mas ela continuava sendo um amor de pessoa.
Ela pega a xícara um pouco desconfiada, dá um leve gole e faz uma expressão que até quem não enxergava podia entender, ela tinha amado. Dava pra ver nos olhos conquistadores de Emma que ela sabia disso como ninguém. Emma chamou Lilly para se sentar ao seu lado e assim a mesma fez, as duas então começaram a conversar sobre diversos assuntos. Minha irmã não tinha muitos amigos, apenas dois, Mayli que não gosta de mim nenhum um pouco e também tem o Simon, ele é legal. Por causa desse fator, eu decidi deixá-las a vontade, era bom a Emma ter outra amiga, uma que eu não odeie no caso, mesmo que ela seja esquisita e provavelmente viciada. Mas aquela garota não me parecia má pessoa, só parecia alguém que tomou péssimas decisões no dia errado e na hora errada, então assim deixei. Enquanto as duas conversavam eu peguei meu notebook e continuei a escrever meu romance, eu vendo capítulos online para completar o orçamento, as vendas são até que boas, tem alguns fãs mas manter uma casa com dois adolescentes é mais caro que o normal, então também trabalho como balconista em um "bar restaurante" como eles chamam, acho que é só um jeito de dizer que é um lugar tanto pra encher a cara, tanto pra levar a família, o lugar é o Cold Honey, um dos restaurantes mais antigos da cidade mas ainda um dos mais famosos. O salário é bom, o horário é bacana, das 13 as 16, e ainda ganho comida, não me levem a mal a comida da Emma é ótima, mas eu não sei, me sinto mal por ver ela cozinhando pra mim todo dia, faz eu me sentir horrível então a comida sempre ajuda. Enquanto eu ia escrevendo minha novel eu ia reparando em um estranho detalhe, Lilly enquanto conversava não parava de me encarar, e eu fingia que não a via mas tava incrivelmente obvio. Passei meu domingo a noite assim, escrevendo no escuro enquanto uma doida que eu encontrei na chuva me encarava sem parar. Fiquei nessa até as 9 da noite, a Emma e ela já estavam bem amigas pro meu gosto, isso é estranho. Quando o relógio bateu exatas nove horas, o sono da Emma bateu junto. Emma parou sua conversa e se levantou esfregando suas mãos em seus olhos, ela caminhou até se quarto e voltou com um travesseiro na mão direita e com a esquerda arrastando um cobertor. Coloca sobre o braço do sofá.
— Isso ai é pra...
— Eu não vou deixar você sair nessa chuva sua maluca, vai ficar aqui!
— Ah é assim é? — Lilly diz sorrindo.
— É, bom, eu to morrendo de sono então...Boa noite pra vocês.
— Boa noite — diz lilly
— Boa... — digo enquanto continuava focado.
— E você trata de ir dormir cedo, tá se atrasando demais ultimamente.
— Ta bom mãe.
— Idiota — Emma diz para mim dando risada.
Emma anda sonolenta em direção ao quarto, fecha a porta deixando eu e a estranha na sala. Ela parecia feliz, acho que ela também estava precisando de uma amiga, ou ela iria nos matar enquanto dormíamos. Depois de alguns minutos com nós dois na sala, ela olhou pra direita, para esquerda e disse:
— Então...
Ela se levantou e caminhou até minha direção, eu bati a mão no notebook o fechando rapidamente, olhei para ela desfasando, ela começou a rir e sentou-se ao meu lado, ela me encarou um pouco e soltou:
— Posso ler o seu romance?
— É o que? — disse surpreso. — Eu não...Olha...
— Eu to brincando, que cara é essa? — começou a rir sem parar, até que ela para, me olha seria mas dando um sorriso de canto de boca e diz.— ...Mas eu sei que você tá escrevendo romance.
— Como? Romance? Até parece...
— Não, não tava apenas escrevendo um romance, é mais que isso, você tava adorando.
— Garota, eu tenho cara de quem escreve romance? Me faça-me o favor.
— Exatamente, não tem, mas você tava, me explica isso.
— Olha de verdade eu não... — sou interrompido com ela colocando a mão esquerda em meu ombro.
— Eu não vou contar pra ninguém, eu prometo... — ela diz forçando os olhos e sorrindo.
O silêncio rondou a sala por uns segundos, e eu estava... eu não sei, aflito e sem saída, como essa garota podia saber disso? Não poderia ser a Emma, eu ouvi a conversa delas do começo ao fim, não podia ser uma leitora porque escrevo em anonimato, quem será essa garota? E porque ela conversa comigo como se me conhecesse?
— Porque você pensa isso?
— Eu sou boa em ler.
— Ler?
— As pessoas.
— Como assim?
— Posso saber o que as pessoas sentem só de olhar pra elas...
— Desculpa, mas isso é impossível. — disse dando um sorriso forçado.
— Não é não senhor romancista, e eu acabei de provar. — ela estava cheia de uma confiança sem sentido.
— Jura? Então me leia.
— Não consigo.
— É o que?
Ela me encara no fundo dos olhos, aquele olhar frio e estático dela retorna, com sua mão esquerda ela começa a passar dois dedos em meu rosto próximo aos meus olhos e fala lentamente:
— As pessoas veem você como autoridade, como perigo, como um símbolo, elas tem medo de você, mas sua irmã te vê com outros olhos, carinhoso, dedicado e cuidadoso, ela te conhece mais que ninguém, eu pensava como todos mais agora...
— O que?
— O jeito que ela te olha, eu pela primeira vez na vida, estou confusa, então sou eu quem pergunto, quem é você?
Dou um impulso e me levanto rapidamente, a olho ali sentada com aquele olhar penetrante em minha direção, como se quisesse ver através de minha alma, eu só consegui dizer uma coisa:
— Amanhã tem aula então, eu vou dormir tudo bem?
— Tudo bem...
Peguei minha bolsa e meu Notebook e andei rapidamente até o quarto de Emma, entrei brutalmente pela porta a fazendo acordar ligeira, ela me olhou com o olhar abatido e perguntou com a voz dura:
— Ni, o que foi?
— Tranca a porta.
— Que?
— Essa garota, ela tá muito estranha...
— Tudo bem trancarei, mas acho que ela é bem...— ela boceja e continua.— ... Normal.
— Não é não, confia em mim.
Puxei meu canivete do bolso, joguei para Emma, me virei e sai. Enquanto caminhava em direção a porta do meu quarto podia ouvir Emma passando a chave em sua porta, o que já me deixava um pouco mais tranquilo, se quer puxar guerra comigo puxe, mas com minha irmã é outra história. Entrei e fiz o mesmo que Emma. Peguei outro canivete que havia, joguei a bolsa no sofá e segurando o notebook me joguei de rosto a cama. Aquilo que ouvi a pouco havia me abalado, mas a vida já estava um posso cheio de problemas e eu não queria transbordar mais. Tentei ignorar, pelo menos por agora. Me virei e abri o notebook o deixando sobre a minha barriga. Eu estava em um novo estado de dúvidas, um estado em que fiquei durante toda a madrugada tentando aumentar uma linha se quer do meu romance, mas não dava, fiquei ali olhando o arquivo de texto, olhando a barrinha aparecer e desaparecer, olhando os minutos e as horas se passando lentamente no relógio até as 2 da manhã. Nessa hora tentei colocar umas músicas para me inspirar, uma playlist de chillhop que particularmente é um estilo que sempre gostei, cada batida que tinha me fazia entrar em um período de reflexão, funcionava como um cigarro, me fazia pensar no futuro e em como o amanhã podia ser tranquilo se eu o fizesse ser. A música é ótima para refletir, mas não muito para se manter a cordado. Ao pouco fui sentindo meus olhos pesarem pouco a pouco até o escuro das pálpebras invadirem meu campo de visão.
Acordo virado com o notebook caído ao meu lado. O pego e coloco ao chão. Me levanto e vou conferir se está tudo bem com Emma antes de tudo, destranco a porta tentando não fazer barulho, e vou corredor afora. Olho em direção a cozinha e vejo Emma tomando café com Lilly que estava abrindo um sorrisinho provocante que só me fazia pensar em suas invasivas frases viajando na segunda coisa que eu tinha de mais precioso, meus pensamentos. Entro no banheiro, escovo meus dentes e tomo um banho rápido. Corro até meu quarto e me arrumo, coloco uma camisa laranja, uma calça jeans, visto minhas botas laranjas com listras pretas e por fim a jaqueta das raposas, a gangue mais conhecida da cidade da qual eu me orgulho de ser líder. Dou uma última conferida no espelho e amarro meu cabelo, ele não é tão grande assim, bate na altura dos ombros. Vou até cozinha, Emma e Lilly ainda estão a mesa conversando na mesma sintonia de ontem, assustador. Caminho sem pressa até o meu lugar. O olhar de Lilly se virou para mim, ela me olhou de cima a baixo e abriu uma expressão de satisfação. Essa garota apenas me deixava mais confuso. Me sento ao lado de Emma e começo a tomar meu café, eram ovos mexidos, maple syrup por cima e um copo de suco de laranja, Emma sabia me mimar muito bem. Comi aquele prato lentamente, não querendo acabar com aquilo tão rápido, eu tinha que saborear cada pedaço. Termino e dou um beijo no rosto da minha irmã, me levanto e dou uma corrida até meu quarto pego minha bolsa no sofá, retorno a cozinha indo em direção a porta e me despeço:
— Tchau pras duas.
— Espera ai — gritou Emma de boca cheia.
— O que foi mana?
— Eu e a May temos que ir pra casa dela antes da aula terminar um trabalho— Passa o guardanapo sobre os lábios e continua. — você poderia dar carona pra Lilly?
— Poderia? — ela diz toda envergonhada olhando pra baixo, a expressão dela havia se transformado de novo.
— Eu tenho opção?
— Não tem não — diz Emma sorrindo.
Lilly se levanta e pega sua bolsa que estava pendurada na cadeira, de despede de Emma e vamos para fora. Ela para de frente a porta e diz.
— Achou que ia se livrar de mim tão fácil?
— Nem em sonho.
Passamos pela varanda descendo seus três degraus, viramos pra esquerda que era onde meu carro estava parado, era um karmann Ghia. Eu sou apaixonado por esse carro, tirando a cor dele, verde, não era mesmo minha cor, mas quem vê cara não vê coração e isso não atrapalhava em nada. Esse tipo deve ser bem caro hoje em dia, mas é uma herança de família, pelo que sabemos até então era do meu avó que passou pra vaca da minha mãe e ela o largou aqui, então agora é nosso. Entrei primeiro e ela logo em seguida, ela passou os olhos por todo o carro e brincou:
— Acho que vou escrever romances também.
— Haha engraçadinha.
O celular no meu bolso traseiro me desconfortava, o coloquei sob do painel. Botei a chave no contato e liguei. A viagem até a escola era bem curta, cerca de 10 minutos de carro, 10 minutos que poderiam ser usados para me abalar psicologicamente, por isso decidi me manter quieto para evitar intrigas, mas no meio do caminho não escapei, ela começou a falar:
— Então escritor.
— o que?
— Seu romance...
— O que tem?
— É sobre o que mesmo?
— Ahh não sai dessa...
— Por favor eu to muito curiosa.
— Não.
— Ah é?— Ela se aproximou e começou a fazer cócegas em mim! Enquanto eu dirigia!
— Para com isso! — Gritei de uma forma ignorante para tentar afastá-la, mas não surtiu muito efeito.
— Só depois que você falar.
— Ta bom então. — Mordia meus lábios para conter a vontade de rir. Comecei a balançar o volante do carro pra la e pra cá, perfeito zig zag. — A gente vai morrer eu to avisando.
— Tudo bem, então você prefere morrer do que me falar?
— Ta bom, tá! — Dizia enquanto ela tirava as mãos de mim. — Ok eu falo.
— Isso! — Dizia ela enquanto ela puxava seus punhos fechados em sinal de vitória.
— Olha eu acho que...
— Você está querendo mais por acaso senhor?— Dizia apontando suas mãos como se fossem armas.
— Ta bem, é sobre dois adolescentes de diferentes realidades chamados -----------, que trocam de corpo entre essas realidades...
— Nosso sério?
— Não.
— Porque você esconde isso?
— Isso o que? Você acha que eu escreveria um romance?
— Viu como você é idiota, você tenta se esconder, e eu ainda não consigo ver... — o silêncio tomou conta do carro por alguns mas ela volta a falar — Eu quero ler.
— Ler o que?
— O seu livro, seu idiota.
— Para de me chamar de idiota sua imbecil.
— Imbecil é você. — os dois se encaram sérios mas ambos deixam o sorriso escapar.— mas eu vou ler de qualquer jeito, só te avisando, não, melhor ainda, vou fazer você ler pra mim.
— Como é? Se por um acaso eu escrevesse um romance, isso jamais aconteceria.
— Quer apostar então ro-man-cis-ta? — Parando no meio das sílabas.
— Ta apostado então coi-sa-cha-ta!
— Chato é você.
Quando ela acabou de dizer isso eu me dei conta de uma coisa, que por alguns quilômetros eu não tinha dado conta de nada. Já tínhamos chegado ao estacionamento da escola. Estacionei o carro na vaga mais próxima. O estacionamento sempre era bem vazio, não sei se tinham poucos carros ou se o estacionamento era grande demais. Desliguei o carro e guardei a chave, peguei minha bolsa no banco de trás e ambos saímos do carro. O tranquei, ajeitei a bolsa de forma que as duas alças formassem uma só e a coloquei no braço esquerdo. Ela se aproximou de mim dizendo:
— Ei... — Com um sorriso ela olhou para baixo e depois olhou para cima de uma forma muito graciosa. — Obrigada tá?
— Disponha.
— Eu vou, eu prometo.
Ela acenou e foi em direção aos degraus do estacionamento rapidamente, acho que ela tinha que passar no dormitório, afinal ela ainda estava com as roupas da minha irmã.
Segui para os quatro degraus que ligavam o estacionamento ao pátio. Passei por ele e por fim cheguei ao prédio principal. Quando cheguei as portas, lá estavam cinco lobos a sua frente, para afins de contexto os lobos eram os inimigos da minha gangue, as raposas, dês dos anos 80 essa guerra foi estabelecida após várias denúncias dos lobos a rede de polícia local, o conflito se manteve até os dias de hoje e na porta estavam 5 deles, Wayne, um loirinho rico e revoltado. Muitos dizem que ele pensa estar se vingando do papai estando aqui, alcoólatra, metido e mimado, se não for o pior dos lobos deve estar entre os primeiros, provavelmente só está na gangue pela grana que tem. Sally a ex-Presidente da escola que abandonou seu cargo após descobrirem que ela estava se relacionando com os lobos, era a escola ou aqueles que ela considerava família, na teoria eu a respeito, ela é esperta e isso sim é prova de lealdade, na prática é pura idiotice, ser presidente é um cargo muito alto, nunca irei a entender mas ela deve ter uma ótima razão. Silkie a líder, 1,66 de altura, olhos verdes, descendência indiana e também a famosa traidora das raposas, sim ela era uma de nós, pra ser mais específico era a guia que depois de alguns episódios resolveu sair e desafiar o líder dos lobos para um duelo, para os lobos vencer o líder te faz um, então aqui estamos nós. Olímpo, muito baixo, cabelos lisos e escuros, o ex líder. Ele conseguiu ficar como comandante da matilha simplesmente pelo respeito que os lobos haviam por ele, mas seu duelo com Silkie virou motivo de chacota entre os próprios, dizem que foi a melhor batalha pelo título em muitos anos. Temos por fim o Key, alto, cabelos loiros batendo na cintura e olhos azuis, eu não sei muito dele, acho que ninguém sabe na verdade apenas sei que ele nasceu aqui, mora com o irmão e é convencido e silencioso.
Me aproximei do grupinho e a Raposa judas já veio me diminuir.
— Bem-vindo ao lar raposinha.
— Se é meu lar o que a vagabunda e suas 4 putinhas estão fazendo na minha porta? — Seguidamente de minha fala, Olímpo parte para cima de mim mas é impedido por Silkie.
— Eu pedi pra alguém fazer alguma coisa? Pedi? Eu consigo vencer minhas merdas sozinhas. — Após a bronca os três retornaram a suas posições como cães na coleira.
— É verdade não é mesmo? — Comecei a provocar. — Você é sim, Olímpinho sabe muito bem disso não sabe? — Seus olhos se entulharam de raiva mas é claro, eu não parei — Que foi? Não lembra é? A surra foi tão grande assim foi bebê?
— Eu vou te matar seu arrombado! — Ele avançou em minha direção irado.
— Olímpo para! — Gritou Silkie.
— Para o caralho, chega dessa porra! — Falou ele baixo
Ele se aproxima e tenta me dar um soco, eu seguro seu braço e o puxo, acerto meu joelho em seu estômago fazendo sangue voar de sua boca, com a mesma perna eu passo uma rasteira nele fazendo-o cair, eu coloco meu pé sobre sua garganta no chão e pressiono com toda a minha força enquanto desvio o olhar para a Judas, quando Olímpo começa a perder o ar eu retiro minha bota de seu pescoço. Pisco para Silkie e vou em sua direção, Wayne e Sally tentam vir defender sua dona que estica seus braços a frente deles para os impedir. Ela cruza os braços me encara com desgosto. Passo por ela batendo em seu ombro e paro atrás dela.
— Se eu soubesse que era tão fácil assim tinha virado líder dos lobos também.
Eu conseguia sentir a sua fúria exalando para minha direção, e pensar que já fomos parceiros. Eu dei uma boa risada e segui andando sem olhar para trás, sabia que eles não iriam querer me enfrentar. Fui até a cafeteria da escola em busca de duas pessoas, Julia e Josh que estavam ali sentados, Josh em cima da mesa com os pés sob o banco e Júlia a sua frente no banco entre suas pernas, eles me viram de longe e ambos acenaram pra mim, fui até lá e me sentei a mesa ao lado de Josh, Júlia olhou para mim e toda fofa me avisou:
— Ta tudo pronto pra hoje a tarde.
— Que horas mesmo?
— As uma, mas você pode começar depois do trabalho não tem problema.
— Eu acho que...Isso é inútil. — Diz Josh enquanto olhava para o teto.
— Josh?
— Não é sério, a Lis sabe se cuidar muito bem, ela cuidava de geral aqui, porque ela não iria...
— Jesus, você tá parecendo a Emma agora. — Comparei enquanto ria.
— Stonn, o dia que eu aprender a fazer comida igual sua irmã, eu to bem na vida.
— Tá bom tá bom, gente mesmo que vocês achem que a Lis é independente, pensem um pouco, ela vive cuidando da gente, então não tá na hora de retribuir? Mostrar que a gente se importa com ela? Pensem nisso um pouco. — Júlia.
— Meu deus agora os dois parecem a Emma, qual é.
— Júlia a rainha da moral e da ética. — Josh.
— Por isso você é apaixonado por mim meu bem — Ela brincou.
— Talvez seja mesmo...
— Fofo, eu também amo os dois — Stonn.
A conversa foi invadida por um alto grito feminino do lado de fora seguido de enumeras pessoas correndo em sua direção desesperadas.
— Eu não vou perder isso, seja lá o que for. — Disse Josh entusiasmado, levantando, pulando da mesa e se juntando ao tumultuo.
— Você não vai? — Júlia me perguntou com os olhares de quem já sabia a resposta.
— Ah não, to arrumando problemas demais pra mim, não quero mais um... — Parei e pensei. — ... Se bem que..
— O que?
— Talvez isso seja culpa minha?
— Pera você tá perguntando? O que você fez Stonn?!
— Então aconteceram umas coisas, eu tava meio estranho e quando eu tava vindo para cá, você não vai acreditar, estavam os lobos na porta e...
— Você bateu em quem?
— No Olimpo...
— A gente já não falou disso? Você vai acabar provocando outra guerra, os Lobos e as Raposas estavam em um estado tão grande de paz, o que você fez?!
— Relaxa Ju, agora ele é simplesmente um nada agora, afinal quem tá no comando é a Silkie não?
— Ela pode ser, mas ele é quem tem mais influência ali Stonn.
— Influência é poder e poder é influência, a única com poder é a Silkie então estamos bem, ela não quebraria a brecha de paz por um lixo daquele, se o Olimpo fazer algo sem sua permissão, ela acaba com ele. — Me sentei ao lado de Júlia, e a encarei profundamente. — Ju, tá tudo bem e vai continuar tudo bem, eu prometo.
Ela me olhou com uma inocência tão grande, ela acreditava nisso, ela acreditava tanto em mim que até eu mesmo passei a acreditar, me senti muito bem com isso mesmo não devendo. A troca de olhares foi cortada por Josh que entrou correndo na cafeteria, veio até nossa direção e eu questionei:
— Então? — Ele me olhava palidamente, nunca tinha o visto assim, pela primeira vez Josh tinha perdido o controle da situação — Josh?
— Corpo — Respondeu seco e direto, eu não tinha entendido ainda, Corpo? O que isso queria dizer?
— Corpo?
— Tem um cadáver na porra da sala! — Eu e Julia entramos em choque, nossos olhares se combinaram em um tom branco e vazio, Júlia não expressava nada, não que ela precisasse mas eu tinha que manter a compostura.
— Como...assim?
— Um garoto, um garoto foi morto na sala ele está...Jogado com uma faca e... Eu não sei, eu não... — disse Josh. Júlia se levantou e foi abraçar Josh, ambos sem reação.
— Gente...— Os dois me olharam em uma sincronia pálida — Nós temos que procurar a Lis o mais rápido possível, ela deve estar bem agora mas por quanto tempo? Um garoto acabou de morrer! Lis pode ser a próxima. Aliás quem era? — Josh me deu um meio olhar, sua cabeça estava fazendo uma coisa e seus olhos seguiam fazendo outra.
— Eu...Eu ouvi um nome lá, Michael...Michael Thannel.
— Okay, okay, Júlia leva ele pra casa e eu preciso pensar no que fazer.
— Não precisa, eu consigo, eu preciso — Josh tentando se manter, mas falhando. Eu precisava dele mas não assim, aterrorizado e assustado, eu precisava do Josh esperto que sempre tinha controle de tudo. Me levantei cheguei perto dele e botei minhas mãos sob seus ombros.
— Josh eu sei, eu preciso de você mas não assim e nem agora, vai pra casa...
— Mas...
— As quatro eu quero todo mundo no bar, convoque todas as raposas e nós vamos achar a Lis, okay?
Ele Simplesmente acenou a cabeça e eles foram embora abraçados. Eu fui fazer o que já deveria ter feito, sai dali e me dirigi para a confusão, me guiei pela única pista, a nojenta curiosidade das pessoas em ver o que não poderiam desver mais. Por três corredores passei, no primeiro a exaltação corria, pessoas iam e voltavam com a mesma expressão em seus rostos, a do medo. No segundo as lágrimas formavam poças de angustia pelo piso, pessoas jogadas para todos os lados, chorando e sendo consoladas. No terceiro tudo isso se combinava em uma multidão de mentes despreparadas se formando na porta da sala em que o corpo deveria estar. Eu entrei na confusão e empurrei todos a minha frente até me aproximar da porta, que foi quando eu o vi, cabelos brancos, pele clara, olhos azuis, Michael Thanell jogado ao canto da janela, banhado em seu próprio sangue com uma faca em sua mão e um buraco em sua barriga. Michael não tinha se suicidado, com certeza não, havia um enorme rastro de sangue da porta até onde ele estava como se ele tivesse sido arrastado até lá, ou seja, temos um assassino a solta, então o que iriamos fazer? Procurar a Lis para salvá-la do assassino ou procurar o assassino para não machucar a Lis? Para mim a primeira alternativa parecia certa. Me virei e sai do local rapidamente, caminhava pelo corredor batendo as mãos em meus bolsos a procura de meu celular, calça, blusa e bolsa, não o encontrava, só podia ter deixado no carro. Fui até a saída do prédio e no caminho eu apenas observava a definição do caos correndo pela escola, a polícia invadindo junto com um monte de repórteres doidos para fotografar aquela desgraça. Prossegui até o estacionamento sem prestar muito atenção nos detalhes a minha volta, só pensava quem poderia ser o assassino mas ninguém vinha a minha mente, o que estava acontecendo com essa cidade? Desci os curtos degraus e de longe avistei ela novamente, Lilly encostada no capô do meu carro, de longe eu falei alto:
— Ai...— Ela olha para trás desesperada e continuo. — ...Dá pra sair de cima do meu carro?
Ela se afasta do carro, vem em minha direção e fica para de frente para mim olhando para baixo, eu confuso a questiono:
— Ta tudo...
— Entra no carro. — me interrompe com um baixo tom.
— Como assim? Porque?
— Eu sei onde a Lis está.
— O que? Onde?
Ela aponta para o carro enquanto me encarava, eu entendi o recado. Nesse momento eu estava desalinhado e aflito, como ela poderia saber? Na verdade ela também poderia não saber, mas se soubesse teria algo haver com o corpo la dentro? Procurei minha chave nos meus bolsos, a peguei tremendo e corri em direção a porta do motorista, mal conseguia encaixar a chave a fechadura, entrei e vi de cara meu celular em cima do painel, eu rapidamente o peguei e o joguei no chão, pisei sobre ele e abri a porta ela entrar em seguida. E assim ela fez, entrou, fechou a porta e eu segurei firme em seu braço e a questionei:
—Cade ela?
Ela tirou minha mão de seu braço e disse:
— Casa do Richard.
— Olha eu não...
— Sim.
— Não, ele não...
— Confia em mim, ela está. Olha Nicolas, se ela é importante para você, você vai ter que confiar em mim, tá certo?
Nossos olhares voltaram a se cruzar e um milhão de sentimentos e dúvidas os circulavam. Naquele instante eu era um homem com a mente embaralhada, talvez eu não tivesse outra opção a não ser me agarrar a qualquer pista, para um homem no deserto qualquer gota da água é bem-vinda.
— Ta...Mas já te digo, ele não sabe nada, eu confio nele.
— Veremos...
— Aliás, pode ver se meu celular esta ai no banco de trás por favor?
— Claro... — Enquanto ela procurava entre a bagunça do banco traseiro, eu peguei silenciosamente celular abaixo do meu pé, arrastei para desbloquear e mandei uma mensagem para Josh "Eu Lilly Jhones", abri o porta-luvas e disfarcei:
— Ah encontrei, obrigado.
Dei partida e iniciei a viagem, a casa de Richard era cerca de 30 minutos da escola, eu já havia ido la algumas vezes, e tinha certeza que isso era impossível, ele é quem tinha maior preocupação com ela, ele estava saindo para procurá-la todo santo dia, algumas vezes ele até chegava a esquecer de dormir. Uma boa parte do caminho eu simplesmente fumava um cigarro enquanto eu fixava meus olhos nela, esperando alguma reação de culpa, de pena ou de qualquer outra coisa, apenas para tentar adivinhar o que me aguardava. Logo no meio da viagem eu comecei a interrogá-la, tem muito dessa garota que eu preciso saber:
— Então.
— O que?
— Como você sabe onde ela está?
— Eu já te disse Nicolas, eu sou boa em ler as pessoas.
— Tá! Então estamos indo suspeitar de uma pessoa porque você acha que é vidente?
— Não é bem isso tá mais pra...Eu não sei, telepata?
— Olha minha filha, eu não ligo pra que caralhos você...
— Eu te conto.
— Dá pra você parar de me cortar?
— Não, mas é o seguinte, eu sei que você não confia em mim, eu sei que você me acha doida e eu sei que depois que eu te contar o que realmente tá acontecendo você vai se afastar, mas por favor você tem que confiar em mim, pelo menos por enquanto, nós vamos precisar um do outro...
— Eu vou precisar de você?
— só vamos até a casa do Richard, depois eu te explico tudo.
Afirmei positivamente com a minha cabeça, podia fingir que confiava nessa garota pelo bem da Lis, mas também não daria mole, se Richard tivesse qualquer informação as raposas seriam as primeiras a ouvir, se bem que... Se um sequestrador procurasse sua vítima ninguém iria des...Não Nicolas! Chega, é isso que essa garota quer, ela quer mexer com você, ela quer fazer joguinhos, ela quer botar você contra sua família, eu não darei esse gosto a ela. O caminho como já disse não era longo, mas as dúvidas faziam ele ficar maior. Nenhuma palavra foi dita até chegarmos a casa, seus hipnotizantes olhos verdes se cruzando aos meus maquiavam o silêncio. Seu olhar me arrepiava, fazia meu coração bater, é como se eu esperasse algo de ruim acontecer a qualquer momento, a sensação de não saber alguma coisa é a pior sensação que existe. A primeira coisa que fiz quando parei o carro foi pegar meu celular, abrir os contatos e deslizar até o de Emma.
— Ta fazendo o que?
— Ligando pra Emma.
Pressiono sobre seu contato e início uma chamada, após exatos 1 minuto e 22 segundos ela atende:
— Alô...Nick? — Mal conseguia ouvi-la, eram gritos e vozes para todo lado, provavelmente na escola.
— Você tá com a May?
— Ela tá aqui, Nick o que está acontecendo aqui?
— Passa pra ela por favor.
— Mas...
— Por favor passa pra ela.
— Nicolas? — Ela pergunta provavelmente tão confusa quanto eu.
— Leva a Emma pra casa pra mim por favor.
— O que aconteceu lá dentro? Estamos tentando entrar para ver.
— Não! Não faz isso, tem um...um corpo lá...
— O QUE?! — O seu grito foi mais alto que a multidão.
— Por favor, leve a Emma para casa, ela é... Você sabe eu...
— Tudo bem pode deixar.
— Obrigado.
Ela desliga o celular e eu olho para Lilly que estava ali ao lado me observando com aquele olhar inocente. A gente torna a se encarar por um pouco de tempo e ela corta o silêncio:
— Isso é fofo...Você é um bom irmão né?
— A Lis, onde ela está? — Eu não ia deixá-la mexer comigo.
— Lá ué. — Ela diz apontando seu indicador em direção a casa de Richard. Era uma casa de classe média, azul, bem comum mas também bem bonita. Era limpa e parecia que a tinta havia sido retocada ontem, perfeita como uma casa de musical. — Vem comigo.
Lilly abre a porta e sai do carro confiante, ela caminha até a frente da casa e para de frente a caixa de correio. Eu saio do carro apenas me perguntando o que eu estou fazendo aqui. Dou a volta no veículo e caminho até ficar ao lado de Lilly. Nós dois encaramos aquela grande casa, eu viro meu rosto para ela e pergunto:
— E agora o que faremos?
— A gente entra! — Ela afirmou e seguidamente caminhou em direção a porta.
— Ok...A gente entra — Eu saquei meu canivete e fui logo atrás de Lilly.
— Pra que a faca?
— A gente tem que se defender ué! — Cochichei alto.
— Você sabe que não tem ninguém lá dentro né?
— Como você saberia disso?
— Do mesmo jeito que eu descobri onde ela está. — Nós dois começamos a cochichar alto nesse instante.
— Essa história está mal contada.
— De novo? O que custa confiar em mim só um pouco?
— Ta bom, eu confio em você.
— Nossa, obrigada. — Ela agradece com os olhos arregalados, como se eu não estivesse fazendo mais que a obrigação.
— Se...
— A não...
— Você deixar eu entrar te usando como refém. — Cochicho no pé de seu ouvido.
— Como é que é?!
— Olha me escuta, eu vou entrar com o canivete no seu pescoço, se não tiver ninguém lá dentro esperando pra me matar eu te solto e confio cem por cento em você.
— Você tá ficando maluco?
— O que foi você não confia em mim?
— Você está se ouvindo por acaso? Você quer enfiar uma faca no meu pescoço!
— Eu não quero enfiar a faca, quero simplesmente dar um sinal a mim mesmo de que eu posso confiar em você, sem me preocupar, porque é difícil confiar em um novo alguém, principalmente um que você conheceu ontem no seu jardim.
— Sim Nicolas, você me ajudou ontem, por isso estamos aqui, mas já que você insiste manda a ver.
E assim nos posicionamos, ela foi a frente enquanto eu ia com a faca na altura de sua garganta, eu sei que é estranho e até um pouco doentio mas é necessário, não posso arriscar morrer assim, não posso arriscar ser o próximo Michael Thannel, e principalmente não posso arriscar largar minha irmã aqui sozinha. Ela era o meu tudo, não tinha nada mais importante e ainda tinham tantas coisas dela que eu ainda precisava ver, ela se formando, ela crescendo, ela casando e isso eu não ia perder. Fomos nessa posição até frente a porta. Lilly colocou suas mãos na maçaneta e a girou de uma forma ignorante, ela tentou empurrar a porta mas ela não saia do lugar. Ela brava começou a sacudir a porta sem parar fazendo muito barulho, até que ela para, olha para baixo e diz decepcionada:
— Ta trancada...
— Como assim tá trancada?
— Ta trancada ué.
— Achei que você tinha tudo pronto, como você ia invadir uma casa sem a chave?
— Eu achei que tava aberta!
— Como você...Ah cacete, eu devia ter adivinhado...
— Para de reclamar e vem me ajudar a procurar.
— Não, nem vem...É isso que da...
— Droga, eu tento ajudar e é assim que sou agradecida. — Ela empurra minha mão pra longe de seu pescoço e vai a olhar em baixo dos vasos do jardim.
Enquanto ela ia procurando a chave, eu fui olhar janela a dentro. Haviam duas janelas próximas a porta, uma de cada lado, e por elas eu não avistei nada nem ninguém. Talvez uma armadilha, ou talvez a casa estivesse vazia mesmo, mas porque a casa de Richard? Tentei não concluir nada até ela me mostrar o que queria. Falando nela, enquanto eu olhava a segunda janela, ela começa a falar:
— Sabe Nicolas...
— O que? — Respondia com os olhos ainda vidrados na janela da casa.
— Acho que isso não é questão de confiança...É outra coisa...
— Do que você tá falando?
— Essa história de você colocar a faca no meu pescoço — ela ia olhando vaso por vaso.
— O que tem?
— Talvez você só queira... Ah achei a chave. — ela corre em direção a porta, coloca a chave na fechadura e vira a maçaneta abrindo a porta com brutalidade, quando ela ia adentrar eu chamei sua atenção.
— Ei, podemos voltar a posição? — Disse erguendo a faca.
— Fazer o que né...
Ela para em frente a porta de costas para mim, eu passo meus braços em volta dela posicionando a faca novamente. Nós entramos porta a dentro com dificuldade pela distância de nossos pés. La dentro não havia ninguém, apenas um monte de quadros de orquídeas e moveis comuns de sala iluminados pela luz fraca da janela. Eu passei meus olhos sobre aquele silencioso e escuro lugar procurando um interruptor que por sinal estava um pouco distante da porta, eu guardei a faca e fui até lá acender. Eu não sei o por que mas mesmo com a sala iluminada o jeito pacífico que aquela casa tinha, me entristecia, uma casa sem pessoas é como um show sem música e eu queria sair dali logo. Olhei em direção a Lilly e ela continuava na mesma posição, parecia estar pensativa mas com um olhar de quem sabia exatamente o que fazer. Com alguns passos eu me aproximei dela, colocando a mão sobre seu ombro, ela virou seu rosto ligando aquele seu velho olhar estático ao meu, mas tinha algo diferente a esse olhar, como se ele estivesse polvilhado com um pingo de medo, eu penso ser culpa minha:
— Desculpa.
— Pelo que?- seu olhar é forrado por dúvida.
— A faca...E o resto...
— O que? Porque isso agora?
— Você parecia assustada, mas viu? Não tem nada aqui, obrigado por tentar ajudar mas eu disse que ele não sabia de nada.
— Não, não estou — Ela ri um pouco — Ele sabe sim, em comigo, vamos achar a sua amiga.
— Lilly! A casa está vazia. — Digo enquanto vou seguindo seus passos.
— No porão.
— Como assim? — A certeza e incerteza formaram um sentimento que eu jamais vou conseguir explicar.
— Só vem comigo.
Caminhamos pelo corredor da casa, passando por diversas portas abertas e quadros de orquídeas por toda a parede, o que só me deixava mais intrigado, porque tantas orquídeas? Não estou exagerando quando digo que em cada cômodo deviam haver uns 5 quadros em cada parede, e no corredor era quadro atrás de quadro, alguns chegavam a se repetir mas qual será o significado disto? Chegamos ao fim do corredor, novamente de frente a uma porta, a única fechada em todo corredor. Lilly e eu ficamos lado a lado, ela me olhou e eu fiz sinal com a cabeça, ela segurou na maçaneta respirando fundo, ela abriu a porta delicadamente e quando ela viu, ela surtou:
— Mas o que?
— Como assim?
Atrás daquela porta ao fim do corredor, havia outra porta. Ela tão desentendida quanto eu, abriu a segunda porta que havia outra porta, ela olhou com um olhar perturbado e comentou:
— Qual o sentido? — Dizia enquanto segura firmemente a maçaneta da próxima porta e a abria revelando mais uma porta, que ela abre rapidamente. — outra?
Já era a quarta porta e nós estávamos completamente desacreditados. Ela abriu a quarta com mais ignorância que das outras, e a quarta porta foi a última revelando um quarto azul com um carpete rosa iluminado por um enorme candelabro, mas simplesmente havia isso, um quarto, sem moveis, sem quadros de orquídeas, sem nada. Nós entramos procurando alguma pista ou explicação, mas não havia nada. Quatro portas para um quarto vazio, isso não fazia o menor sentido, obviamente alguém estava tentando esconder algo mas o que? E se é algo tão estranho que precisa de quatro portas poque elas não estavam trancadas? Lilly começou a olhar em volta e eu pergunto:
— Mas o que é isso?
— Eu também não sei...Mas a sua amiga...Eu tenho certeza que ela estava aqui?
— Não acho, se ele fosse raptada porque deixariam as portas abertas? — Olho em direção as quatro portas — E se ela tivesse fugido porque ela as fecharia de novo...
— Espera! — Ela deu um grito de repente.
— O que foi? — Perguntei já colocando a mão em seu ombro —Tudo bem?
— Tem duas pessoas aqui...
— Realmente tem.
— Me dá o canivete!
— Que?
— Me dá o canivete!
— Mas...Pra que?
— Dá pra confiar em mim e me dar a droga do canivete?!
Eu suspiro, tiro-o do bolso da jaqueta e entrego em suas mãos, ela o segura sem jeito com a lâmina apontada para baixo, tenho certeza que ela não me machucaria e do jeito que o empunhava, ela nem conseguiria. Ela se ajoelha e começa a rasgar o carpete, faz o corte em um formato de "u", ela começa a puxar o carpete no sentido contrário com um pouco de dificuldade, olha para mim e diz:
— Me ajuda.
Fico ao seu lado e pego na ponta do pedaço do carpete, nós o puxamos até a ponta da sala revelando o piso de madeira e um alçapão. Eu rapidamente largo o carpete e vou em direção aquele enorme quadrado de ferro cravado ao piso ajoelho, Lilly se ajoelha ao meu lado e nós nos encaremos pensando no que fazer. Vejo a pequena brecha, uma fresta entre o quadrado de ferro e o piso. "já sei" digo enquanto engatinho em direção ao canivete jogado no rasgo do carpete, o pego e volto para onde estava, enfio sua lâmina na fresta e pressiono o cabo, fazendo-o de alavanca. Eu fiz muita força e mesmo assim não consegui, levantei-me e com meu pé pressionei o cabo jogando meu peso, e funcionou. O quadrado se soltou do chão fazendo um incomodo som. Lilly se aproximou e o segurou impedindo que ele entrasse novamente, eu agacho rapidamente apara ajudá-la, estava muito pesado. Nós dois fazendo força levantamos o quadrado que revelou uma escada, nós jogamos a porta de ferro contra o piso gerando novamente outro som incomodo, Lilly de olhos arregalados diz para mim enquanto ainda encarava o buraco:
— Puta merda...
— Isso é... — mal consigo concluir minha fala.
—Loucura. — mas ela completa pra mim.
— Eu vou primeiro.
— A vontade.
Me coloquei ao buraco apoiando meus pés nos degraus da escada, apenas deixando meus braços e cabeça para fora. Apanhei o canivete e mordi o cabo, o deixando na minha boca para facilitar minha decida. Comecei a descer naquela escada que parecia ser imensa. O buraco era meio apertado e fazia muito frio. Estava muito escuro, enquanto descia via lá no final uma luz, mas de resto eu não conseguia ver nada, apenas conseguia ver Lilly acima de mim descendo com dificuldade aquela escada velha de madeira. Quanto mais descíamos mais eu me perguntava que porra era aquela, a curiosidade de chegar até o fim só não era maior que o próprio buraco, que parecia não terminar nunca. Chegando ao fim, chegando perto daquela forte luz avistei que ela saia de uma porta entre aberta. Com o pé nó último degrau, eu rapidamente retirei o canivete de minha boca e o empunhei com a mão esquerda. Enquanto esperava Lilly completar o percurso apenas analisava a porta, ela era muito diferente das outras portas da casa, essa era branca com alguns desenhos entalhados na madeira, pareciam ser cerejeiras. Lilly finalmente terminou e seguidamente se posicionou ao meu lado, sem dizer nada dei um suave empurrão na porta, ela abriu fazendo um alto ruido e nos ligando com outro quarto que parece ter sido decorado por uma garota de 13 anos, rosa e azul como o cômodo a cima. Entramos ao quarto e nos deparamos com uma cena horrível, la dentro haviam três celas, uma com a porta escancarada e vazia como se alguém tivesse sido tirado as pressas de lá, uma com um corpo de uma garota de cabelos castanhos perdurada ao teto pelo pescoço com um lençol e a última com uma garota muito branca, com cabelos muito longos e pretos sentada ao chão com os braços em volta de seus joelhos. Lilly não pensou duas vezes e correu em direção a sala que a garota estava, e começou a sacudir as grades rosas:
— Ei, tudo bem? — Ela gritava em choque.
A garota lá dentro deu um olhar arregalado para Lilly, levantou-se e correu em direção, a mesma começou a sacudir a cela pelo outro lado e a gritar tão alto quanto Lilly:
— Por favor me ajudem! Por favor! — Ela desliza suas mãos sobre as grades enquanto cai lentamente de joelhos ao chão.
Lilly olha em volta e avista uma mesa lotada de papéis e ouras bagunças a cima, ela corre direto até lá, e eu faço o mesmo, nós dois fuçamos em busca de uma chave, mexendo em gavetas e empurrando papéis para o chão avisto diversas coisas bizarras, papéis de cartas, roupas femininas e fotos de garotas nessas celas, era perturbador e eu ia acabar com Richard da próxima vez que o vice. Lilly olhou na primeira gaveta, na segunda, na terceira e na quarta ela achou um bolo de chaves, com muitas chaves mesmo. "Achei!" ela grita enquanto retorna para a cela já colocando uma das chaves na fechadura, o que não funciona, ela tenta outra, e outra e mais outra e fica nesse repetitivo processo, me aproximo das grades, ajoelho ficando de frente para a garota, ela me olha com um olhar vazio e distante dali, ela devia ter sofrido muito até então, mas eu precisava saber da Lis para não deixar o mesmo acontecer com ela:
— Tudo bem? — Eu pergunto enquanto via suas lágrimas escorrendo de seus olhos como se fosse uma fonte.
— O...Obrigado. — Ela mal conseguia falar, parecia que tinha ficado uma eternidade pressa aqui.
— Vai ficar tudo bem, a gente vai tirar você daqui. — Tentava dar um olhar de reconforto para ela. — Olha eu sei, você deve ter passado por muita coisa, desculpe mas eu preciso perguntar, tinha outra garota aqui? — Ela afirmava positivamente com sua cabeça trêmula. — Ela era morena, com o cabelo longo?
— Mu...Muito...Longo...— Ela respondia fazendo o mesmo movimento com a cabeça.
— Você viu pra onde ela... — Antes do término de minha pergunta a grade faz um enorme estralo, Lilly tinha achado a chave certa.
Lilly com um pouco de esforço abre a porta um pouco enferrujada e a garota sai de lá engatinhando pelo carpete rosa. Lilly se abaixa a sua frente e inicia um monte de perguntas:
— Ei, ei... — Ela coloca as duas mãos sobre o rosto pálido da garota. — Ta tudo bem agora, tá bom?
A garota afirma positivamente com a cabeça enquanto uma sequência de lágrimas ia escorrendo pelo seu rosto suado.
— Qual o seu nome? — Pergunto a ela, que não me respondia apenas olhava com o mesmo olhar estático que Lilly havia, então torno-me a repetir. — Qual o seu nome? Ei queremos te ajudar, então confia na gente, precisamos saber quem é você para entender essa situação...
— Eu...Não...Sei, eu não...— A intensidade com que as lágrimas escorriam aumentavam.
— Olha você tem que colaborar tá bom?
— Espera! — Lilly gritou enquanto seu olhar se transformava de novo, desta vez serio e preocupado. — Ela é... Como... Eu...
— Como você? — nunca me senti tão confuso.
— Não é ela, são eles.
— Dá pra alguém me explicar?!
— Como vocês ficaram assim?
— Vocês? — Quanto mais perguntava mais eu era ignorado.
— Não sei, a gente só...E depois ficamos assim, eu não sei — Ela para de chorar. Ela e Lilly trocam olhares profundos e vazios — você é como eu? Você pode...
— Nós vamos te ajudar.
— Como assim nós? — Olho para Lilly sem saber qual expressão eu deveria fazer, eu precisava de uma explicação apenas, e foi o que pedi. — Olha eu não vou fazer porra nenhuma, até você, ou você me explicarem o que está acontecendo aqui!
— Acho melhor você se sentar. — Lilly dizia isso com gozação na voz mas com seriedade em seus olhos, assim eu fiz meio sem reação.
— Me expli...
— Eu leio mentes.
— É o que?!
— Eu sei, eu sei, você provavelmente não vai acreditar de primeira, vai achar que eu sou doida, que ela aqui do lado é doida, mas não, eu leio mentes e você tem que acreditar em mim.
— Oi?
O silêncio toma conta da sala e os olhares crescem. As respostas que tanto queria apenas trouxeram mais dúvidas, ler mentes? Que porra era essa? Eu não sei mesmo o que falar, essa garota deve ser louca, mas o que é loucura? É uma coisa tão indefinida, por exemplo eu estou exatamente em um calabouço em baixo da casa de uma pessoa que eu pensava conhecer com um corpo enforcado ao meu lado, talvez...Eu tenha ficado louco sem perceber.
— Como...Assim? — As palavras mal saiam.
— Na minha cabeça não tem só a minha voz, tem a de todo mundo a minha volta. — Ele inspira e continua. — olha é bem mais aprofundado que isso, nem eu consigo explicar direito, então vamos fazer o seguinte, nós vamos tirar esses dois daqui, vamos levá-los para a sua casa e lá eu respondo, todas as suas perguntas, vamos lá.
Ela levanta e estende a mão da garota que a segura fragilmente, as duas vão caminhando em direção a porta mais são interrompidas pelo meu grito.
— Espera! Espera! Ler mentes? Como assim? Ridículo! E esse corpo na cela do meio? Vamos simplesmente ignorá-lo? E que...
— já estava aqui quando eles chegaram! Eles não sabem. — Lilly explica com um tom de raiva.
— Como assim eles?! Olha eu...Eu...
— Ana. — Ela me corta com gosto em sua voz.
— Q...Que? — Uma perturbação percorre cada parte do meu corpo.
— Ana Hatashi Nysa. — Ela me olha enquanto aquele ardo nome saia de seus lábios.
— Com...
— Eu já te disse, agora por favor, vamos em bora!
Eu afirmo com a cabeça lentamente, como ela poderia saber?! Ninguém sabia! Não era possível ser isso, é surreal, devia ser outra coisa, mas eu não ia descobrir nada naquele buraco imundo, se eu não saísse dali logo eu enlouqueceria então decidi entrar no seu joguinho. O pior de tudo é como a desgraçada me olhava, aqueles olhos inocentes e que exalavam a verdade, parecia que ela estava falando sério, mas né? Por favor, isso não faz sentido. Sai daquele calabouço e fui para o buraco, com nós três dentro dele apenas ficava cada vez mais apertado, Lilly me olhou e disse sem vontade:
— Vai primeiro.
— Tá bem...
O clima estava estranho, ele simplesmente tinha pesado e a personalidade dela mais uma vez tinha mudado, parecia que ela tinha se arrependido de mentir assim para mim em uma situação dessas, mas não me importei apenas precisava pensar no que fazer com tudo isso, Onde estava a Lis? Quem era a garota no buraco? O corpo? E o que mais me afligia, como essa estranha sabia daquela droga de nome? Subi os degraus refletindo da forma que eu desci pobre de respostas e voltei rico de perguntas. Cheguei ao topo do buraco, subi e ajudei a garota a sair também, Lilly veio por último.
— Okay Nicolas, vamos para sua casa.
— Porque a minha?!
— Porque o desgraçado do seu amigo jamais pensaria em procurá-los por lá.
Que droga, onde eu fui me meter? Fizemos essa busca toda e ainda sim não encontramos a Lis, sera que ela está bem? Será que ela está...Viva? A garota que encontramos tinha essas respostas, mas não era o momento certo para fazer perguntas, concordei em levá-la para minha casa, talvez se ela se acalmasse e se sentisse segura pelo menos um pouco ela contaria tudo o que sabia. Saímos da casa, eu ainda na frente, e Lilly de mãos dadas com ela atrás. Entramos ao carro e fomos para minha casa. No início da viagem, Lilly tentava puxar assunto com a garota, perguntando de onde ela, ou "eles" como ela dizia, eram, de eles estavam bem e coisas assim, enquanto eu a encarava friamente pelo retrovisor, notei um detalhe importante, ela tinha duas cores de olhos, o da esquerda era castanho e o da direita era azul. Eu não me aguentei até em casa, eu precisava saber quem eu estava levando para meu lar, para perto da pessoa que eu amo, a gente literalmente acabou de achá-la em um buraco, eu tinha mil e duas perguntas para fazer.
— Então...Qual seu nome mesmo? — Pergunto dando o sorriso mais falso que eu tinha.
— Eu não...
— Eles não sabem Nicolas!
— Ta bem, tá bom, mas então que história de "eles" é essa?
— Posso falar sobre? — Lilly pergunta olhando fundo para ela.
— Po...Pode...
—Ótimo, então o que? — Pergunto a Lilly que estava com os olhos fechados, parecia se concentrando e botando os pensamentos em ordem.
— Ela...Ou eles, como eu posso te chamar?
— Acho que pode me chamar de ela, afinal eu sou um tipo de garota... — Foi a primeira frase que ela disse sem gaguejar.
— Okay, então ela, não é bem ela, sabe aquele jogador o Edan que desapareceu a alguns dias e um tal de Léia?
— Sei, dois dos 7 desaparecidos, o que tem?— Já tinha raciocinado e já esperava ouvir alguma coisa bizarra.
— Eles estão no seu banco traseiro agora.
Comecei a encará-la pelo retrovisor de novo, ela tinha um pouco das feições de ojojoj, mas isso era tão impossível quanto ler mentes. Eu nunca fui uma pessoa com a mente fechada, mas essas coisas irreais não encaixavam na minha cabeça, então a garota bonita no meu banco de trás era uma espécie de mutação? Duas pessoas juntas em um corpo só? Que porra esta acontecendo hoje?
— Espera...Espera! Tipo, duas pessoas...Em um corpo só?
— Exatamente.
— Uhun, okay, isso ai é verdade garota? — Pergunto olhando para o branco de trás.
— É sim...— A menina responde com um pouco de vergonha em sua voz. Eu não estava entendo mais nada!
— Haha, isso é tão...Tão...ridículo, e o que deixa pior é que eu estou quase acreditando, como assim?
— Você vai acabar se acostumando, acredite.
— Tá, pera um pouquinho, você descobriu essa história da menina fusão ai, lendo... A mente?
— Foi.
— Não, não é possível, não é possível, legal, conheci duas pessoas com superpoderes hoje, que beleza...— Eu estou desacreditado em mim mesmo, eu estava realmente acreditando que eu estava dirigindo com aberrações, que droga! — isso é tão, ridículo, como é que...
— Já que estamos nós confessando, você é como nós Nicolas!
Freio o carro imediatamente, fazendo um impacto jogando nossos corpos um pouco para frente, olho para Lilly que estava em pânico segurando no painel, ela me olha furiosa e desesperada.
— Que porra foi essa?!
— Eu sou o que?!
— Como nós idiota, você é como nós, é isso que você quer ouvir? Você quer matar a gente? Imbecil!
— Como assim como vocês? Eu sou uma aberração também?!
Ela desfere um tapa contra meu rosto, provavelmente meu rosto estava com a marca de seus dedos. Ela tenta falar algo enquanto suas lágrimas escorrem por todo o rosto, e ela começa a chorar muito alto e me olhar com uma expressão quebrada.
— Você...é igual...é... — O choro não a deixava terminar.
Ficar ali alguns segundos, apenas alguns segundos olhando aqueles enomres olhos verdes em mágoa e afogados em tristeza me trouxe um pensamento, uma certeza, que eu sou um escroto filho de uma puta. Aquela garota ao meu lado não era uma inimiga, era uma aliada, ela veio até aqui tentar me ajudar a achar uma pessoa que amo, nós salvamos uma pessoa, ela me contou o que deve ser um de seus maiores segredos na esperança que eu pudesse a ajudar e mesmo assim, eu a tratei como lixo, o lixo que eu sou, mas também o lixo que eu podia parar de ser. Lilly encharcada a lágrimas tenta sair do carro, mas quando ela encosta na maçaneta, eu pego em seu braço e a puxo para mim, dando um abraço.
— Me...Solta!
— Não! Me des...Me desculpa...
Ela tenta lutar no incio, se contorcendo, lacrimando e me empurrando mas logo ela responde com um abraço bem mais forte e apertado que o meu, ela precisava disso, e ficamos assim durante um minuto todo, ela com a cabeça em meu peito o inundando em lágrimas e eu com os braços a sua volta, por cima de seus ombros olhando pelo vidro embasado do carro, vendo o reflexo de um completo idiota.
— Olha...— Balanço a cabeça negativamente. — As vezes, eu sou meio idiota...
— Meio? — Ela fazia um abafado questionamento.
— É...As vezes eu sou um pouco, eu não sei...Rude...Eu... Eu machuco as pessoas, sem perceber porque eu tenho medo delas...fazerem primeiro e olha o problema não é você...Eu meio que confio...
— Espera! - ela grita enquanto me empurra e olha para o banco traseiro.
— O que?
— Puta que pariu.
— Merda!
A garota tinha sumido, droga! Saímos do carro e olhamos por toda a volta, avistamos ela correndo em direção a uma casa no meio do nada, era praticamente só mato e aquela parecia ser a única casa ao redor. Largamos o carro e corremos atrás dela, ela já estava um pouco longe, quando estávamos na metade do caminho ela já havia adentrado na velha casa de madeira tomada pela selva. Próximos a casa ela estava na varanda olhando em nossa direção assustada, ela entra e fecha a porta em furor. Chego correndo e tento abrir a porta, esta trancada, então grito:
— Ei! Abre!
— Não! — Ela grita com toda a força que tinha lá de dentro.
— Por favor abre. — Lilly diz calmamente com as duas mãos sobre a porta.
— Olha...Eu abriria pra você, mas não pra ele.
— Ele não...
— Lilly, deixa, é culpa minha. — Ela afirma com a cabeça e se afasta da porta. Eu me viro e me sento encostado na porta. — Então, me desculpa.
— Não!
—Por que?
— Por que você é um idiota!
— Eu sou?
—É...É muito, eu não sei como essa garota chegou até você, mas ela devia te deixar o mais rápido possível. Eu achei que você, que vocês iriam me ajudar a descobrir o que aconteceu comigo, mas não, você é igual a todo mundo! As pessoas até agora, só me machucaram, eu cansei disso! Eu cansei de ser vista como aberração!
— Você sabe o que é uma aberração? — Esperava sua resposta, mas ela se mantinha em silêncio. — aberração é aquele que...Jura nunca julgar o diferente, sempre manter a mente aberta mas acaba mentindo para si mesmo, acho que todo mundo faz isso, fala, fala e acaba...Sendo babaca sem perceber, porque quando uma coisa é nova, a gente tenta afastar, não é bom sair da sua zona de conforto, então a gente sente medo.— respiro fundo e prossigo— Aberração também, é aquele que é ingrato, que tratou uma pessoa que só queria ajudar, feito um lixo, mas não porque ele não confia nela...Mas porque ele não quer confiar. Isso tudo é muito doido pra ele, papo de maluco. Vocês devem estar nessa a um bom tempo, eu sei que não deve ser fácil, mas se coloquem no lugar dele, ele acordou, tomou café com a irmã, foi pra escola, achou a porra de um corpo, e depois foi pra casa de alguém que ele jurava conhecer e encontrou um calabouço com duas garotas la dentro, e ele descobriu que essa garota é uma espécie de combinação ou coisa do tipo, se vocês ouvissem isso do nada igual ele como vocês ficariam? Isso é assustador. E falando na garota, que é metade Edan, eu nunca me dei bem com o Edan, nunca, mas me escuta, eu quero que ele se foda, eu não gosto dele nem um pouco, e não quero gostar desse merda, ele é um completo imbecil, metido e um tremendo escroto, igual a mim...Mas você, a garota ai dentro da casa, você não é ele, e é você quem eu quero ajudar, e pra você que eu estou fazendo esse enorme discurso de desculpas, então... Me desculpa! E Lilly me desculpa também, eu sou um completo desgraçado — Olho para a Lilly que tava com um fino sorriso mas ainda olhos bravos direcionados para o lado — vamos te ajudar, ou pelo menos tentar, eu prometo. E também se você sair...Eu levo você pra comer no Cold Honey, o Edan adora, eu sei você não é ele, mas talvez você também goste?
Ela abre uma fresta da porta apenas revelando metade de seu rosto.
— No Cold Honey?
— É — Um sorriso afetivo sai de mim enquanto e me levanto da porta.
— Pode ser...Eu acho...
A porta é aberta, ela fica ali dentro parada revezando o olhar entre nós e o chão, provavelmente pensando se deveria confiar em mim, e eu também estava assim, eu nunca estive tão encima do muro.
— Lua. — Eu e Lilly olhamos embaralhados para ela. — meu nome...Meu nome é lua.
Lilly avança em sua direção e salta até ela a envolvendo em um forte abraço.
— Vem cá! — Lilly grita enquanto Lua olha para baixo de um jeito bem meigo.
Eu fiquei bem feliz com isso, se essa loucura toda fosse verdade, essas garotas precisariam uma da outra, e se o que a Lilly disse também for, eu também iria. Esperei o momento delas terminar enquanto fumava um cigarro. Depois da reconciliação nós voltamos pro carro, a viagem toda ninguém deu um piu, o calor do momento faz coisas doidas com a gente, e aquele monologo foi uma delas. Infelizmente toda loucura é verdade, e essa não era exceção. Eu não queria confiar nessas garotas, nem um pouco, eu não queria acreditar nessa história de superpoder mas o pior de tudo, é que eu já estava. Chegando no Cold Honey Lua estava animada, eu tinha acertado na mosca, ela também amava esse lugar, ela saiu do carro saltando com uma criança e correu para dentro. Lilly e eu saímos juntos e fomos em direção ao restaurante. Ela segura no meu braço me fazendo parar no caminho, ela me olha dando um sorriso.
— Desculpa.
— Porque isso agora? — Ela não me havia feito nada, não tinha motivo.
— É que eu meio que te forcei a confiar em mim e...
— Não tem problema, olha isso tudo é muito... Estranho, mas escuta, o problema aqui não é você, olha isso tudo é de explodir a cabeça, parece que eu to sonhando, e vai demorar um pouco pra isso entrar na minha cabeça, e de novo, desculpa ter te ofendido.
— Não se preocupa com isso, e que eu fui chamada assim bastante, eu meio que cresci com isso e nunca me encaixei então quando eu ouvi novamente eu meio que surtei... Mas a gente não pode mais brigar por coisinha besta assim daqui pra frente, porque a gente tem que unir, eu, você e ela.
—Lilly, qual é o meu...Você sabe, você disse lá traz que eu era como vocês, então o que eu faço?
— Eu não sei ao certo mas, eu não consigo te ler Nicolas, é a primeira pessoa que isso acontece.
— Mas então...Lá no calabouço, você disse um nome, você não pode...Ter chutado, aquele nome é...
— Sua irmã.
— Emma?
— É, eu não sei bem o que ela fez então desculpa de novo, mas olha, sua irmã te acha muito parecido com ela. Emma também não tem bons sentimentos por ela, mas ela te ama muito, saiba disso.
— É... — nos encaramos sorridentes por um curto momento e somos interrompidos por lua gritando na porta do restaurante.
— Ei! Gente dá pra ir logo?! — Ela era impaciente como Edan.
Avançamos juntos até a porta do restaurante, paramos sorrindo ao lado de lua e juntos entramos. Era cedo, não haviam muitas pessoas la dentro, normalmente o restaurante lotava na parte da tarde. As meninas logo correram para uma mesa ao fundo, encostada a parede. Eu fui até o balcão dei oi para o meu chefe.
— Ei Nicolas veio acompanhado hoje é.
— É...— olho para as duas que estão sentadas a mesa rindo — Hoje sim.
— Isso é ótimo, mas o que aconteceu na escola, já acharam algum culpado?
— Ainda não ---, e acho que nem vão, você sabe como as leis funcionam por aqui.
— Não funcionam.
—É, talvez as Raposas possam fazer algo depois de procurarmos a Lis.
— Ainda não encontraram a menina?
— Ainda não, mas eu sei que ela tá bem, ela é durona.
— Espero que sim, mas não se preocupe com isso, até lá temos a super repórter aqui pra resolver tudo! — Diz apontando para uma menina negra com lindos dreads e olhos cor de mel sentada ao balcão, usando uma camisa xadrez e escrevendo em um notebook enquanto bebia café.
— Isso ai, podem contar comigo! — Ela diz rindo enquanto continuava concentrada escrevendo. — Oi Nicolas.
— Eai Akira. — Ela era do jornal da escola, nós nunca conversamos mas já nos cruzamos bastante.
— Nicolas!
— Fala -----.
— Você está com tantas admiradoras assim?
— Admiradoras?
— É, você recebeu isso hoje de manhã, eu não abri nem nada, pegue.
Ele retira um envelope vermelho de trás do balcão e me entrega, a garota começa a fixar a carta enquanto eu a abria. Lá estava escrito "Nicolas Hataky, Lilly Jones e amiga, compareçam ao telhado do colégio amanhã após a aula, eu sei que temos algo em comum e podemos, e desde de já agradeço.". Não entendi nada, mesmo, tem mais pessoas como nós? Como sabiam que estávamos com Lua? Não sei o que fazer, mas não duvido de mais nada nessa semana, preciso falar com as meninas.
— Obrigado ----, eu já volto. — No momento que me viro para ir contar para as meninas, a garota ao meu lado grita.
— Ei espera! — Paro e viro lentamente, ela procura algo em sua bolsa e puxa um envelope vermelho idêntico ao meu. — O que você sabe disso?
— Você também é como...Nós?
— Nós? Do que você está falando?
Não acredito nisso, é possivelmente mais uma pessoa assim, ela não sabe disso ainda ou ela está me testando para ver se eu sei também.
— As habilidades. — Cochichei na esperança que ela entendesse.
— Habilidades? Como assim? Então você sabe o que é isso? — Eu a olho de uma forma estranha e ela procegue. — Por favor poderia me explicar? Eu recebi isso na minha mesa de manhã, o que seria?
— Então Akira...
— O que foi?
— Pegue suas coisas, seu café e uma dose de vodca e vem sentar com a gente, você não vai acreditar...
Fim do Capítulo 1.
fShare
0
Pin It
Atualizado em: Qua 13 Mar 2019
  • Nenhum comentário encontrado

Curtir no Facebook

Autores.com.br
Curitiba - PR
Fone: (41) 3342-5554
WhatsApp whatsapp (41) 99115-5222