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O professor

Crescer em um dos bairros mais violentos da cidade pode não ser o suficiente para lidar com determinadas situações, mas não pensei assim. Aliás, foi justamente o contrário e por isso aceitei a vaga de professor em um bairro que conhecia razoavelmente bem. Sempre fui muito sensível e a música me pegou cedo, de certa forma posso dizer que levei a sério, sério até demais e por isso me tornei professor. Depois de alguns anos estava indo lecionar justamente na escola do bairro onde cresci, onde estudaram meus primos mais velhos e eu mesmo só não estudei lá por que era muito criança e acabei estudando em outra escola mais apropriada para a idade. Não deixava de ser curioso ter me tornado professor de música na região onde tudo começou. Naquela época, início dos anos 80, o rock ainda era comum na periferia e algumas bandas eram vistas como "rock de vileiro" e as três primeiras bandas que ouvi na infância não fugiram a regra: ac/dc, slade e nazareth. Crescer na Vila Trindade em Curitiba é mais ou menos como crescer no Capão Redondo em São Paulo ou na Rocinha no Rio, a diferença é que não havia nem o rap, nem o funk.

Saber o que faz uma pessoa seguir por um caminho e outra por outro, não é uma questão fácil de responder, mesmo por que, apesar de ter feito tudo que fiz, estava eu novamente nas ruas do bairro e a minha posição não era exatamente uma posição que os adolescentes queriam ocupar no futuro. Quando isso aconteceu percebi que havia várias coisas muito erradas no Brasil, mas encarei a situação como um emprego comum. A verdade é que ser professor não é um emprego comum. Uma das primeiras coisas que me chamaram a atenção durante as minhas aulas foi um aluno questionar estar aprendendo sobre bossa nova, música de playboy. Me senti ofendido, sempre gostei de bossa nova e a minha vida estava longe de um playboy. Mais tarde, conversando com ele soube que seu pai estava preso na PCE - Penitenciária Central do Estado, o B.O. deve ter sido grande, obviamente não perguntei o motivo. Era um caminho que eu precisava prestar mais atenção, mas não dei ouvidos.

Eu gostava de andar pela sala e olhar os alunos trabalhando, apesar de conhecer algo do rap nacional da primeira geração, optei por deixá-lo de lado, já havia trabalhado com rap em outra escola e não deu muito certo. Nessas andanças acabei lendo no caderno de um aluno: "a lua cheia clareia as ruas do Capão...", não disse nada, mas fiquei pensando, quem será que escreveu esse poema? Só anos depois, quando já não era mais professor, fui descobrir que era a letra de "da ponte pra cá" lançada pelos Racionais MCs em 2002. O bom de ter usado drogas é que a gente consegue utilizar algumas informações a nosso favor, eu costumava ir embora com uma professora, também novata, por uma das ruas da vila, numa dessas caminhadas ele me mostrou quais casas eram pontos de venda, provavelmente ela ainda devia estar usando e pelo sim pelo não, guardei os pontos. Um dos meus alunos era da correria (envolvido com o tráfico), na verdade quem era da correria de verdade era o irmão dele, mas ele sabia de uma coisa aqui e outra ali, aliás foi ele quem me falou da Maria Gadú, uma cantora que estava lançando seu primeiro disco, ele achou que eu fosse gostar.

Todas as manhãs eu passava pela mesma rua, sem a companhia da professora e em uma das ocasiões vi alguns caras me olhando em um dos pontos de venda, não dei atenção, mas na segunda ou terceira vez comecei a ficar preocupado. Chamei aquele aluno da correria e perguntei: você conhece uns caras daquela casa assim, assim? Conheço professor. Vá lá e diga pra eles que sou professor aqui. Ele foi.  Foi bom ter avisado, eles acharam que eu era da polícia. Nessa mesma época outro aluno comentou comigo sobre a "Guerra dos 500 tiros". Em linhas gerais, foi uma disputa entre traficantes pelo domínio da área, mas alguém teve a brilhante ideia de chamar a polícia e o confronto se generalizou. Apenas um jornal da cidade deu destaque ao assunto, era época de eleições municipais e havia muita coisa em jogo para se trocar o Secretário de Segurança Pública, era uma segunda - feira e o confronto vinha ocorrendo desde quinta, envolveu aproximadamente vinte e três indivíduos de duas gangues e cerca de quarenta homens da polícia militar. O saldo foi dois mortos, dois feridos, armas e munições apreendidos, havia cápsulas de pistolas .45 e fuzil FAL 762 espalhadas pelo chão.

Era o suficiente para eu ter saído dali, soube da "Guerra", mas não dos detalhes, não me interessei e fiquei na minha, soube de coisas corriqueiras, como o caso de um professor que jogou um aluno pra fora da sala. O menino era filho de um traficante, mas o pai não apareceu, quem apareceu foi a mãe que bateu no professor dentro da escola. Quando comecei a dar aulas, um professor me falou que tinha uma pistola, ele me disse que onde lecionava o quadro negro era todo furado de balas, um dia ele chegou e pôs a pistola em cima da mesa e ninguém mais mexeu com ele. Fiquei com aquilo na cabeça, se eu quisesse continuar na profissão teria que comprar uma arma, mas obviamente nunca comprei. Eu tinha muitos problemas pessoais mal resolvidos e a depressão se instalou, andava nervoso e me alterava fácil, chegava na escola, começava a chorar sem motivos, voltava pra casa sem trabalhar e dormia quase o dia todo e comecei a faltar sistematicamente sem avisar, mas ninguém dava importância. Numa manhã em que fiquei trabalhando, no final da última aula, o sinal já tinha batido para a saída, resolvi segurar meus alunos um pouco mais, precisava terminar um assunto, um garoto passou na janela e deu um grito, me assustei e fiquei transtornado. 

Saí da sala e berrei, quem foi o filho da puta que gritou! Ninguém respondeu, apontei o dedo para o primeiro que vi e disse: foi você! Se não foi você, você sabe quem foi. Ele negou e não dedurou ninguém. Trocamos ofensas pesadas e o levei para a coordenação. No caminho comentei com outro garoto que estava com ele, vou dar um tiro nesse filho da puta! Ele respondeu, professor, nesse caso vamos ver quem pode mais. Na hora percebi que tinha mexido com o cara errado. Ele também tinha mexido com o cara errado e eu precisava pensar rápido, ou eu conseguia uma arma o mais rápido possível, ou teria que me acertar com ele. A melhor maneira seria engolir meu orgulho e pedir desculpas, foi o que fiz na coordenação. Ele também se desculpou e o culpado nunca apareceu. Pouco depois pedi exoneração do cargo e a minha carreira de professor acabou ali. Eu não queria comprar uma arma.
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Atualizado em: Sex 1 Mar 2019

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