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CARTA DE UMA MAEDRASTA

Eu não acordei um dia achando que seria uma madrasta, pelo contrário, eu sonhava em ser mãe, eu brincava de ninar meu bebe e nunca de madrasta e filhinho (que não é meu). Porém, nossas escolhas no decorrer da vida nos levam a desígnios e propósitos diferentes. É um combo e vem tudo junto. Você pode ter sido uma pessoa espetacular, porém ao se relacionar com um homem que tenha filhos vai ao automático e pelo relato do Google você tornou-se a pessoa má e incapaz de sentimentos amorosos (madrasta-bruxa-má).
Entretanto, não se pode ler um livro somente pelo título na capa, não se pode julgar sem conhecer os dois lados da moeda, não se pode saber a essência do perfume com a tampa fechada e não se podem mensurar sentimentos. Madrasta significa apenas mulher do pai e não tem nada a ver com má. Perguntam-me: - “Como pode amar tanto um filho que não é seu?” e respondo: - “da mesma maneira que uma mulher adota uma criança, que se dedica em tempo integral a esse ser humano indefeso, que transborda amor em meio a uma realidade difícil de abandono, e da mesma maneira que me sinto amada pela minha família e por Deus”.
O papel de mãe pela sociedade é lindo. É uma dádiva divina. É nobre. É pura alegria. É reconhecido. E, porque ser madrasta deveria ser sombra de algo obscuro. Os conceitos estão distorcidos, a sociedade está à beira da falência de sentimentos bons, haja vista, os atos de vandalismos dos cidadãos e falta de respeito pelo próximo. A família tradicional tornou-se um leque e quem é você para julgar qualquer ato de amor. Os adultos se relacionam, se magoam e isso precisa ser resolvido apenas entre eles. A separação pode não ter sido amigável e talvez você nunca tenha paz, contudo, o foco precisa ser sempre o bem-estar da criança envolvida e a construção dessa relação tão difícil.
Sim! Sou a madrasta como a sociedade queira dizer, mas em algumas visões diferentes sou a Boadrasta, a Maedrasta e/ou, simplesmente, a Tia Rafa. Quando me relacionei com meu marido a minha enteada já estava sendo formada e tive um prazer imensurável de fazer o primeiro ato carinhoso de muitos que estariam por vir que foi escolher o enxoval dela nos mínimos detalhes, a partir daí, algo dentro de mim só foi crescendo e transbordando como o amor e as responsabilidades. O zelo de cuidar de uma criança que não nasceu do seu ventre, mas que está sendo gerada no seu coração é ainda maior. O medo de errar é constante porque como meu esposo diz tornei-me uma referência para minha enteada, no que faço ou falo. Porém, tenho a certeza absoluta que é a sensação mais incrível do mundo e que me faz amadurecer a cada dia.
Eu não tive aula de inteligência emocional na escola e não sou expert em como lidar com a mãe da minha enteada, mas eu aprendi a cuidar primeiro do meu bem maior que é a vida da minha enteada. Não estou aqui para competir papel nenhum ou sentimento, estou aqui para fazer a diferença porque isso é uma vida saudável, a qual, eu almejo todos os dias. Acho que uma pessoa que não consegui respeitar o sentimento mais nobre de todos os outros que é o Amor, não sabe ser amado. Sendo assim, por qual motivo pessoas ainda questionam o amor de uma madrasta. A escolha é minha e a relação é apenas de nós duas. Se todos soubesse que amor é um remédio infalível para as frustrações diárias, que cura sentimento sombrio, que apaga passados obscuros e que gera perdão. Ah, meu amigo, o mundo seria bem melhor! E, eu posso afirmar que o meu lar é constituído de oração, amor, afeto e cuidado.
Não consigo descrever em palavras o que sinto durante essa jornada. Como disse tudo começou com o primeiro enxoval e foi só aumentando as responsabilidades. Que honra eu tenho de poder ser amiga da minha enteada; de ter uma filha de coração para transbordar amor e carinho; estudar e poder tirar todas as dúvidas do colégio que ela tenha; participar de todos os eventos importantes do colégio mesmo por trás dos bastidores; incentivá-la ao melhor nos estudos como uma simples competição de matemática ou em sua primeira prova de concurso pro Colégio Pedro II; e ajudá-la a desenvolver seus dons artísticos do Jazz. Orarmos juntas com a sensação de paz; acompanhá-la nas consultas médicas e odontológicas; saber que fez sua transição da fase de criança para mocinha e poder desbravar com ela o mundo da primeira consulta ginecológica; cuidar dos cachinhos de anjinho dela; receber ligações dela sobre qualquer assunto ou pedido porque ela sabe que pode contar comigo para tudo e isso é gratificante (acho que estou indo no caminho certo). Eu saio para trabalhar e ter a certeza que estou indo atrás de uma melhor qualidade de vida para ela; utilizo a tabelinha da super-nani na nossa casa apenas para educá-la ou ansiar presenteá-la, pois ela fez por merecer em seus esforços diários; assim como auxiliá-la em seu primeiro desafio empresarial que foi fazer e vender trufas almejando sua economia financeira foi gratificante. Ou precisar assistir às séries da netflix (A barraca do beijo, Stranger Things e Riverdale) só pra conhecer o mundo que tem chamado atenção dela; e cozinhar com amor o canelonni de frango com queijo e molho especial da Tia Rafa associado a sobremesa de beijinho com uva verde preferida dela. Ah... são tantos momentos nossos que eu ficaria escrevendo horas e horas.
Como nem tudo são flores, eu também choro com os medos dela, com os confrontos pessoais dela, eu vivo as dores dela, eu engulo sapos e sorrisos forçados e, às vezes, preciso direcionar algumas decisões para o pai e pra mãe por não querer decepcioná-la. Eu suporto egos feridos, para a felicidade de um serzinho que não tem a cor dos meus olhos ou o meu gene em seu DNA. Tenho inseguranças, mas a esperança predomina. Na nossa relação existe muita permissividade e disciplina positiva. E, isso faz com que os pré-julgamentos de algumas pessoas que acreditam que seus filhos nunca precisarão conviver com outra mulher, na condição de esposa de seu pai não interfira em absolutamente em nada na magia contagiante de amor que transmitimos uma a outra. Eu sou constantemente bombardeada com frases, tipo: “Deixa de ser boba, ela não vai te valorizar no futuro.”; “Guarde forças para quando você tiver seu filho.” e “Você não precisa passar por isso, ela não é sua filha”. Mas lhes digo que eu seria criticada se fosse mãe cedo ou tarde; se não fosse mãe – aquela que gera em seu ventre - como ainda não sou, mas tenho sonhos que se encaixam nessa perspectiva. Então, não me importo em ser criticada por ter escolhido ser madrasta.
Relaxa! Eu faço feliz quem me faz muito feliz! Cada um dá segundo as suas capacidades! O tio do Homem-Aranha disse: - “Com grandes poderes, vêm grandes responsabilidades”.
GRATIDÃO pelo prazer de ser super poderosa, madrasta!
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Atualizado em: Sáb 4 Jan 2020

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