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Livro das Sensações parte 1

Um barulho forte e inconveniente chegou aos ouvidos de Júlia.

Um som esperado, mas temido, seguido de gosto amargo na boca, arrepio pelo corpo...

Aquelas sensações ruins que todas as manhãs a trazia impetuosamente de volta para a sua medíocre vida.

Não estava sonolenta, o motivo de odiar tanto aquele trinnnn do despertador era outro. Ter que enfrentar sua realidade sem sal e sua vida sem cor.

É certo que havia um pouco de masoquismo de sua parte, aquele barulho irritante poderia ser substituído por uma musica o que amenizaria aquele sofrimento agendado. Mas no fundo ela se punia pela vida sem raízes, sem sonhos, sem história.

Desde muito cedo, Julia percebeu que lidava com a vida e suas lembranças de forma diferente. As experiências ruins eram lembradas apenas a grosso modo, e os detalhes eram substituídos por sensações: aperto no peito, gosto amargo na boca, cheiro de enxofre e...

Uma experiência quase palpável, tão intensa quanto o fato. E isto a deixava cada vez mais distante e arredia com tudo que pudesse fazê-la sofrer.

Se descobriu assim na infância, numa vida de privações com uma mãe muito dura e distante que morreu quando Julia ainda tinha doze anos e um pai sem escrúpulos.

Aqueles quatro anos que viveu apenas com ele depois da morte da mãe...

“É melhor deixar os fantasmas onde estão.”

Um dia, o pai apareceu com um dinheiro bem suspeito. Ela viu que era sua oportunidade de fugir. Pegou umas peças de roupas, parte do dinheiro e entrou no primeiro ônibus para a capital.

No início foi muito difícil sobreviver numa cidade estranha, mas conseguiu emprego numa loja de roupas e alugou um puxadinho, onde vivia até hoje.

O despertador soou novamente tirando Julia de seus pensamentos. Aquele sábado seria longo e ela precisaria estar pronta para a esperada e temida noite. Levantou-se e foi para o trabalho.

***

Numa rua cheia de comércios noturnos, um se destacava. A construção era antiga e sofisticada. Uma alongada escadaria dava ar misterioso à fachada. Na parede rústica, escrito com letras grandes e diferenciadas uma das outras:

Galeria das SENSAÇÕES.

Julia parou ali em frente e não pode deixar de pensar no pai. Desde que fugiu de casa, ficou sem comunicação com ele. Mas inesperadamente recebeu uma encomenda de uma antiga vizinha de sua família. Dentro, a notícia da morte do pai e todos os seus pertences.

Sua vida, seu passado, sua história, tudo dentro de uma caixa de sapato. Uns documentos com as fotos envelhecidas, as certidões de óbito e um jogo de chá novo, que Julia lembrava muito bem, foi ganhado de presente da única tia que soube existir, irmã de seu pai. Foi visitá-los uma vez, visita rápida. Ficou sentada reparando perplexa na casa simples. Rica e prepotente, deixou algum dinheiro e aquele presente destoante da realidade.

Nunca foi usado. Julia perguntou o motivo à mãe, que respondeu:

“Vinho novo em odre velho, estraga o vinho.

Vinho velho em odre novo, estraga o odre.”

Na época, ela não entendeu, nem esqueceu. Mas agora com aquele jogo na mão, entendia. Pra sua mãe aquelas xícaras mereciam um café melhor, uma casa melhor, uma família melhor. Na verdade o vinho não era digno do odre.

- Nós não éramos dignos do jogo de chá, nem das meninas da cidade, nem dos vizinhos. Por isto não nos relacionávamos com ninguém, estragaríamos o vinho.

O isolamento e a sensação de inferioridade ainda acompanhavam Julia. Tinha medo de se aproximar das pessoas, nenhum namorado que fosse, nem um contato mais íntimo com ninguém. Apenas uma amiga, Anna, e mesmo assim porque ela era atrevida, entrava sem ser convidada. Escolheu Julia para amiga e nada mudaria isto. Ela se dava muito mais que recebia naquela amizade, mas aceitava numa boa.

Se privar nos relacionamentos era uma herança que Julia ainda carregava, apesar de odiar. Agora as xícaras estavam ali intactas e a mãe morta. Teve vontade de jogá-las contra a parede, mas se conteve.

Junto com a caixa um envelope lacrado destinado a seu pai, era um convite para a inauguração de uma galeria de Andrea Vicentine - a filha da tia que deu o jogo de xícaras.

Um grupo de adolescentes rindo, falando alto enquanto andava pela rua, trouxe Julia de seus pensamentos. Olhou de novo para a galeria.

“Minha única parenta viva, meu elo com o restante da humanidade. Sem ele, sou uma forasteira em um planeta estranho.”

Apesar de não saber se tinha feito bem em vir, estava ansiosa para entrar. O lugar era atrativo, mas o medo crescia dentro dela.

“Sensações em caps lock.”

Fechou os olhos e uma enxurrada de emoções passou por ela deixando-a ainda mais amedrontada.

Com as pernas trêmulas decidiu entrar e verificar pessoalmente o causador de sensações tão destacadas.

Mulheres de vestidos longos finíssimos e saltos agulhas desfilando elegância e riqueza pela escadaria fez Julia se lembrar de verificar sua aparência. Deu uns passos atrás procurando por sua imagem na vitrine de uma loja ao lado. O espelho refletiu uma mulher adulta de corpo definido, bem diferente da menina de dezesseis anos, magricela e com olhar amedrontado que chegou àquela cidade. Ma focando nos olhos, encontrava guardado aquele ar selvagem amedrontado e frágil da menina.

- No fundo nada mudou, adolescente num corpo de mulher.

Disse Julia pra si mesmo enquanto arrumava o cabelo.

A aquela altura estava arrependida de ser tão distraída com a própria imagem. Usando um vestido floral, sandálias rasteiras, brincos médios e batom discreto, estava bonitinha, pronta para um passeio no parque, num domingo à tarde. Mas para uma festa daquelas ...

Sua prima era com certeza muito rica, o lugar era imponente, luxuoso e estava lotado. Por dentro era ainda mais atraente, beleza contrastando sofisticação e simplicidade; rústico e brilho, nude e vivacidade.

Era um centro de vendas e exposições, onde se encontrava de tudo, restaurantes, lojas, centro estético, artes das mais variadas formas..., Julia nunca tinha visto nada parecido.

Apesar do medo e tensão, tentou relaxar e curtir a noite com promessa de grandes experiências.

Por um momento desejou que Anna estivesse ali para partilhar com ela aquela experiência.

A livraria era futurista e os livros expostos de forma que pareciam voar. Julia pegou um que estava nos destaques. Grosso, capa áspera e escrito em alto relevo, letras lisas contrastando com a textura da capa: Livro da sensações.

Ela saiu à procura de um cantinho para olhá-lo melhor e uma estante lhe chamou a atenção. Uma variação da luz por alguns segundos lhe deu a sensação de ter visto uma falha na parede. Detalhista como era, se aproximou e olhou mais de perto e percebeu um remendo, como se a parede estivesse inacabada. Aproximou-se ainda mais. Não havia parede, eram apenas cortinas de um material resistente, que deslizavam abrindo passagem para outro ambiente.

“O permitido e o proibido definido apenas pela luz...”

Julia estava perplexa, esperou um momento que ninguém estivesse olhando, passou por traz da estante, correu a cortina e chegou ao restaurante.

“Em que mundo estou?”.

Continuou por toda a galeria entrando de ambiente em ambiente.

Estava pasma como os ambientes mesmo sem paredes eram personalizados, luz, cheiro, ventilação, tudo característico proporcionando sensações totalmente diferenciadas.

Aquelas trocas tão rápidas e drásticas de sensações deixou Julia meio atordoada. Atravessou a parede para o lado, na vertical e se deparou com um local grande e arejado. Era um galpão, rústico e mal acabado.

Assim era de fato a galeria, o resto era artifício para manipular os sentidos.

“E conseguiram, lugar mágico, atraente e misterioso.”

Julia olhou pra cima e viu que as telhas eram móveis e estavam abertas, permitindo que a brisa noturna trouxesse ventilação natural. Por isto, apesar de ser um ambiente fechado, estava bem arejado, sem a artificialidade do ar condicionado.

Explorou todo aquele espaço. Quando ouvia passos de alguém, se escondia. Era interessante ver toda a galeria ali da área de serviço, era como ver o espetáculo pelos bastidores, sem luxo, e muito trabalho.

Os funcionários que lá fora sorriam como que em um mundo encantado, simplesmente perdiam a magia ao atravessar aquelas cortinas, e as princesas davam lugar a gatas borralheiras, com aparência de cansaço. Cansadas certamente do teatro que eram obrigadas a representar lá fora.

Voltou para o ambiente dos convidados e foi até os banheiros. Numa das portas estava escrito "banheiro quebrado, não entre".  Mexeu nas cortinas, e estas se abriu como se estivesse num conto de fadas.

“Que perigo”

Pensou enquanto entrava.

O banheiro era enorme. Se sentou num canto quase deitando-se, sem nem se preocupar com o fato de estar num banheiro. O peso do livro já estava fazendo doer seus braços.

Apreciou por mais um tempo a capa do livro, e depois o abriu. Uma onda de sensações levou Julia para aquele ambiente imaginário... a textura da folha, o cheiro, a cor, tudo atraia-a para o mundo do personagem. Chamava-se Rodrigo.

Começou a ler.

Estava mais que só sentindo, ela vivia o que Rodrigo vivia, aliás, ela se relacionava com ele.

Sentia-o a meia luz, alto, moreno, atraente, sussurrando aquelas coisas lindas e provocantes ao seu ouvido.

-Meu Deus, que livro é este!

As palavras eram reduzidas, mas recheadas de emoções. Cada vez que virava a folha, mudava o sentimento, e com ele também o cheiro, a textura, a cor, e uma nova emoção tomava conta de Julia.

Era transportada para outro mundo, como se estivesse com ele na praia, fechasse os olhos e abrisse numa festa, e depois num jantar a luz de velas, diante de um perigo eminente e em tantas outras experiências que era melhor nem dizer.

Às vezes ela sentia o coração batendo forte, a respiração ofegante, as pernas trêmulas..., ela já não diferenciava seus sentimentos dos sentimentos do personagem.

O medo, a fome, o desejo, a paixão eram dela, como se tivesse roubado do personagem. Ou seria o contrário. A verdade é que Julia estava se sentindo viva como nunca, capaz de amar, desejar, se entregar...

-Chega!

Continue lendo no próximo post:
Livro das sensações- parte 2
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Atualizado em: Sáb 22 Out 2016

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