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Language matters. / A linguagem que usamos é algo muito importante.

A cada dia me convenço mais de que o Brasil está caminhando rumo à Idade Média e ao fascismo. O que se nota hoje em dia é um grupo de jovens mal informados, mal educados, combativos e que se acham cobertos de razão em tudo. Claro que existem exceções mas, no geral, você encontra pessoas chucras sem o mínimo conhecimento das coisas e que se acham doutores, experts nos mais diversos assuntos. Dou um exemplo: Um grupo chamado Levante da Juventude (que eu acabo de excluir no Facebook) postou uma banner em sua página com os seguintes dizeres "Bicha, pague meu dinheiro." A frase era uma referência à manifestação que eles fizeram em Brasília contra o Eduardo Cunha em que despejaram sobre o cara uma chuva de notas de dólares (o que em si foi engraçado). Longe de querer defender Cunha, eu postei um comentário questionando o uso dessa palavra preconceituosa e homofóbica, lançando o seguinte questionamento: "Se queremos acabar com a homofobia, por que estamos usando um termo homofóbico?" Logo um deles veio me explicar que a palavra não é homofóbica (sic), é uma referência (supostamente engraçada) a uma música da Rihanna ("Bitch Better Have my Money"), o que me deu a oportunidade de explicar a ele que o termo usado é uma tradução infeliz do inglês. A palavra "bitch", além de significar "cadela" (a fêmea do cachorro), quer dizer "megera", "mulher má", "chata" e também pode ter conotação de "prostituta". O fulano, não satisfeito com a minha resposta, argumentou que as palavras têm o sentido que cada indivíduo dá a elas (o que não deixa de ser verdade), sugerindo que ele não é homofóbico. Porém, está óbvio que esse fulano nunca estudou sociolinguística, psicologia da língua, correção política e muito menos tradução! O comentário seguinte era um insulto de um "amiguinho" que tomou as dores do primeiro e me xingou usando a palavra em questão. Como dói discutir com gente ignorante. A verdade é que as palavras também têm o sentido que a sociedade dá a elas. Por exemplo, creio que muit@s se sentiriam ofendidos se eu enchesse a minha página de palavrões porque, em geral, palavrões não são socialmente aceitos. Da mesma forma, é muito provável que eu seria preso se usasse palavras racistas contra os negros ou os judeus em minha página. Em português, posso dizer "negros" sem problema nenhum (porque é uma palavra socialmente aceita e sinônimo de "pretos"). Já em inglês, a palavra "niggers" (que tem a mesma etimologia de "negros") é um grave insulto a esse grupo racial. Obviamente, assim como em português, existem outras opções (preferíveis): "Blacks" e "African-Americans" para citar duas. Sapir Whorf defende que "a estrutura da língua determina ou influencia grandemente os modos de pensar e comportar de uma cultura", eu diria que o mesmo é verdade das palavras que usamos. Uma vez eu ouvi alguém dizer "essas pessoas" (com referência aos 'gays') e perguntei a ela se ela conseguiria dizer a palavra 'gay'. rsrsrsrs Para quem não sabe, essa palavra tinha, na época de Shakespeare, a conotação de "alegre", "feliz". Hoje em dia, significa "homossexual" e seria impensável ouvir alguém dizer "Hoje estou gay." Para concluir, as palavras têm o sentido que cada grupo social dá a elas num determinado momento histórico e num determinado lugar. Portanto, a linguagem que usamos é extremamente importante porque ela molda nossas relações interpessoais e intergrupais. Mais importante, a língua é um condutor de ideias, conceitos e valores e, nesse sentido, a escolha entre uma palavra e outra pode fazer a grande diferença entre respeito e desrespeito.
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Atualizado em: Dom 22 Maio 2016

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