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A escolha (Obra gentilmente cedida por Cerson e uma breve finalização por mim)


- Outro dia ouvi, pacientemente, minha bisavó. Idosa, mas lúcida. Ela, entusiasmada falou-me, por longo tempo, de como foi em sua época: a adolescência; o casamento arranjado, o tratamento que o marido, sisudo, amargo e mercenário, dispensava-a.
– Servi para trabalhar e gerar filhos – nove ao todo. Nunca ouvi uma palavra de carinho ou recebi um afago; usava-me, virava-se para o canto e dormia. Eu sempre tive olhos para outro rapaz, mas não o tive. Sonhei com ele quase todas as noites, sempre abafando meus prazeres. Prazeres? Nunca os tive, filha, nunca! Invejo vocês, mas torço para que cada uma de vocês seja mais amada e continue a encarar a pupila do amado. Isto sim é amor; é respeito; é valor; é ser mulher. Imaginemos quantas de vocês, mulheres preparadas, dinâmicas, estão à frente de grandes empresas, governando países, assinando projetos e impondo seus conhecimentos científicos. Eu gostaria muito de estar dentre essas, mas quando a liberdade chegou-me, faltaram-me forças físicas. O estudo e o conhecimento eram reservados ao homem, o varão, o ditador. Podíamos, com certas regras: tricotar, coser, lavar, passar, cozinhar e servi-los, ainda que não o desejássemos. Dê graças a Deus, filha, por Ele ter lhes proporcionado esta evolução, digo, revolução. Você pode escolher casar-se ou não; o amor pode ensejar um casamento formal ou tão somente uma união, agradável, respeitosa. Você pode sem recriminação deixar de amar alguém a qualquer momento, seguir o seu caminho, encontrar outro amor. Gosto Muito disso. Muito. Você não precisa, como eu, andar a dois passos atrás do marido, em silêncio, cabisbaixa, dirigindo palavra a outrem, somente depois dele. Você é livre e amada, filha, e, digo-lhe, sinceramente: adoro tudo isto, queria vivê-lo...
- Não pude mais falar com ela. Ela não conseguiu esperar-me para contar-lhe que amo e sou amada por quem um dia escolhi para fazer parte de minha vida; dividir comigo meus prazeres e anseios. Adoraria tê-lo apresentado a você, bisa, mas... partistes sem ao menos me dá um último beijo.

- Mais minha amada bisa, em vossa homenagem vou viver intensamente e honrar cada mulher que sofreu desigualdade em sua época; onde o machismo estava em alta e o feminismo... mais o que era o feminismo mesmo nos séculos anteriores ao 21? ou será que mesmo com 'tanta moderninade' prevalecemos a viver em um 'machismo moderno'; onde a demagogia do feminismo está forte... sei bem, que embora todos os preconceitos que as mulheres ainda enfrentam, eu tenho o meu poder de escolhar e saberei escolher com sabedoria; não só por mim, mais por todas as minhas ancestrais que foram caladas, massacradas e forçadas a dizerem sim até seu último suspiro de vida!.

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Atualizado em: Ter 17 Jul 2012

Comentários  

#2 Cerson 25-07-2012 13:50
O texto transcende a mediocridade humana em relação à mulher. De toda sorte, época passada para não ser lembrada... Viva a mulher!!! Parabéns, abraços.
#1 azara 21-07-2012 19:10
Bela porem muito amarga,que época dificil deve ter sido.A mulher viver e ser usada.Parabens e um grande abraço.

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