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Fumaça, fumaça

Fumar não é para qualquer um. Fumar exige desprendimento. Exige desprendimento porque leva à abstração. Ao levar à abstração, o cigarro torna-se uma instrumento do
autoconhecimento. Um bom trago, o olhar fixado num ponto indefinido, o pensamento distante. Depois, a visão da fumaça azulada se dissipando em formas e nuances
diferentes. Eis que mergulhamos profundamente dentro de nós mesmos. Quem fumapensa melhor.

***
- Quem fuma pensa melhor. E pensar melhor no que fazer é o que eu mais preciso neste exato momento. Bom, como não há mais nada o que fazer, tentarei contar rapidamente como cheguei nessa situação.

***
Todos os dias Isabel me perturbava com sua ladainha antitabagista. Todos os dias eu lançava mão do argumento acima, até então indestrutível. Quem fuma pensa melhor, Isabel, quem fuma pensa melhor. E insistia na minha tese filosófica em favor do cigarro. Ouvindo a justificativa, minha mulher, quase sempre, se calava. Fazia cara feia, resmungava, discordava. Mas se calava. Satisfeito com a vitória do meu existencialismo sobre o racionalismo exacerbado de Isabel, eu sorria.E podia finalmente terminar meu cigarro em paz.

***
Sou fumante profissional. Gosto do ritual e não de fumar por fumar. Diferente dessas pessoas que fumam a todo momento, andando apressadas sob um sol escaldante ou que fumam por pura ansiedade ou ainda porque não têm nada para fazer, eu espero a hora certa. O momento adequado. Quando acendo um cigarro, estou pronto para desfrutar não apenas do sabor do blend, mas de todos os elementos associados ao prazer de fumar. Meus cinco sentidos têm de ser plenamente contemplados enquanto o fogo consome o pequeno canudo que, propositadamente, desliza suave por entre as falanges de meus dedos. Tenho que estar confortavelmente sentado, relaxado, de preferência sozinho. Se houver silêncio, então, perfeito. Mas quase nunca há.
Moro numa avenida movimentada, quase em frente a uma delegacia de polícia.Vez por outra, sirenes, buzinas e própria gritaria da rua tentam ameaçar minha paz. Mas
não conseguem. Não conseguem porque nada se compara àquele momento. Nadamelhor que sentar na cadeira de balanço da varanda do meu apartamento, à noite, depois
do trabalho, e abrir lentamente uma carteira de Lucky Strike. Alguns acham estranho,mas gosto até de ouvir o som do invólucro se rasgando. Coloco a carteira perto do
ouvido e vou circulando aquela tirinha de plástico em volta da embalagem até que ela se rompe, liberando um ruído característico, agradável. Tec.
Depois, retiro o papel metálico e encosto o nariz sobre os filtros. Inspiro profundamente. Só depois de sentir o aroma daquela pequena porção de fumo socado no
fino papel, industrializado com esmero, puxo, aleatoriamente, meu escolhido. Chega ahora da queima. O acendimento também cumpre seu papel ritualístico. Lanço mão de meu Zippotradicional (o fosco, não aquele brilhante que deixa as marcas dos dedos), abro a tampinha e, mais uma vez, brindo meus ouvidos com oinconfundível barulhinho
produzido pela abertura de um Zippo. Adentra-me às narinas então o delicioso odor de fluido. Alguns reclamam, chamam aquilo de querosene, de gasolina. Mas o bom
fumante, além de se deliciar com aquele cheirinho volátil, sabe até distinguir o velho e bom lighter fluid premium do seu concorrente fabricado pela Rhonson. Coisa de
profissional. Com os lábios devidamente umedecidos pela saliva, levo meu cigarro à boca. Calmamente encosto-lhe a chama azul do isqueiro. Certificando-me que a ponta foi
acesa por igual, chega o sublime momento do primeiro trago. Tudo bem que no decorrer do dia fumei outros cigarros, mas aquele, depois do jantar, na cadeira de balanço que fica na varanda do apartamento, ah, aquele é especial. Não tem como ser diferente. Sinto-me bem. O primeiro trago daquele cigarro desperta-me uma profunda sensação de bem estar. Puxo a fumaça levemente. Sinto então que sou acometido por um leve, quase imperceptível torpor. Normalmente fecho os olhos e tento escutar os pequenos estalos do tabaco sendo queimado pela brasa incandescente que avança vagarosamente rumo ao filtro. Durante cinco ou seis minutos, adentro um universo diferente, onde as soluções para as problemas da vida parecem mais fáceis de serem encontradas. Pura percepção. Concedo aos próximos sete tragos quase a mesma dedicação. Até para apagar, tenho respeito. Fumante que se preza não empurra o cigarro contra o cinzeiro até transformar o filtro num L. Nada disso. Basta encostar a ponta ainda luminosa no cinzeiro, exercer uma leve pressão e pronto. Sobe uma fumacinha fina e o cigarro se apaga sem ser castigado pela deformação.

***
Isabel sabia decorado todo o ritual que me envolvia e envolvia todo o ato de fumar. Naturalmente, achava tudo uma bobagem. Idiotices de minha cabeça que, sem
ter nada melhor para pensar, ficava elucubrando sobre inutilidades. E, vocês sabem, mulher não costuma se convencer facilmente. Por mais fundamentado que fosse o meu
argumento de que o cigarro me fazia pensar melhor, a idéia fixa de Isabel começou a falar mais alto. Influenciada por tantas mensagens negativas contra o fumo, de uma hora para outra, ela começou a apelar. - Esse cigarro ainda vai te matar.
Dizia isso com tanta certeza que eu, confesso, ficava amedrontado. Bastava acender um cigarrinho e lá vinha o vaticínio. - Fuma, pode fumar. Mas eu só quero avisar que o
cigarro ainda vai te matar. Ao dizer isso, repetia aquelas estatísticas sombrias tão alardeadas pelas propagandas oficiais. O cigarro é responsável por não sei quanto por
cento das mortes entre homens de meia idade, o cigarro provoca não sei quantos tipos de câncer, o cigarro provoca enfisema pulmonar, o cigarro leva à impotência sexual,
possui não sei quantas substâncias nocivas, o cigarro isso, o cigarro aquilo...E por aí seguia o discurso de Isabel, sempre alerta contra meu prazer, contra meu ritualzinho
inocente.
***

Comecei a me sentir pressionado. Até o cigarrinho da varanda, aquele saboreado na cadeira de balanço, já não tinha o mesmo sabor. Quando eu me preparava para
desfrutar daquele momento, quando dava as clássicas três pancadinhas na lateral dacarteira para socar algum fragmento de fumo que às vezes ensaiava um transbordo, lá
vinha a maldição. - Esse cigarro ainda vai te matar.
***
Como quem passa de um estágio de pressão para outro, agora de reação quase raivosa, Isabel, além de preconizar minha morte em decorrência do fumo, passou a dar uma de vítima.- Esse cigarro ainda vai te matar. E logo complementava: - E eu vou terminar indo junto.

Pronto, dito isso, discorria sobre os malefícios que um simples cigarrinho, segundo ela, produziriam mesmo em quem nunca fumou. E tome propaganda televisiva. Não sei
quantos por centos dos fumantes passivos contraem algum tipo de doença respiratória, três entre dez pessoas que nunca fumaram adoecem porque convivem com fumantes, quem senta perto de um fumante passa a ter pulmão de fumante...Essas coisas. Isabel tornara-se mais agressiva porque, seguindo o exemplo de colegas de trabalho, passou a mudar os hábitos alimentares. Fez dieta, emagreceu, e começou a fazer pilates e musculação. Sentia-se vaidosa como nunca. Ela realmente estava linda - sempre foi, aliás -, mas o problema é que a vaidade aumentava na mesma proporção em que crescia a antipatia contra o meu cigarro.

Eu ia aguentando tudo aquilo sem grandes problemas. Entendia as razões que levavam Isabel a me pressionar, mas algo me perturbava. Diante das ameaças, da insistência, do aborrecimento, do inevitável contraste entre o sedentário fumante frente à bela jovem amante da saúde, passei a sentir um enorme desconforto em fumar dentro de casa. E oque era pior: o cigarrinho da varanda já não tinha mais o mesmo sabor.

***
Foi quando comecei a fumar no carro. Até então, não tinha este costume. Porém, as circunstâncias me empurraram. Primeiro porque no trabalho é praticamente impossível
fumar. Com essa onda terrorista contra o cigarro, fumante é visto como criminoso. O constrangimento impera ao menor indício de que há no recinto algum viciado em
nicotina e alcatrão. Além disso, era dentro do carro, dirigindo de casa para o trabalho e do trabalho para casa, um dos raros momentos em quem eu ficava sozinho. Colocava
um jazzinho no som e tentava me sentir bem.

***
Acontece que fumar no carro não tem o mesmo sabor. Não há como se concentrar, não há como presentear nossos sentidos com a visão da fumaça azulada, nem com os odores de fluido, muito menos com os estalidos do fumo. Tampouco podemos manusear o cigarro entre as falanges do médio e do indicador. O sabor, então, não precisa nem falar. Perde-se consideravelmente. Ao volante, é preciso ficar atento ao trânsito, não podemos abrir os vidros por causa de assaltos, não podemos mantê-los fechados por conta da fumaça. Mas, em meio a tantas dificuldades, uma se sobressaía. O acendedor. Aquele objeto arredondado que você aperta no painel do carro só para ter dor de cabeça. Das duas, uma: ou ele, depois de pressionado, fica lá enterrado no painel sem querer sair ou, quando sai, causa uma enorme aflição em quem vai manuseá-lo. Não sei se você sabe, mas aquele acendedor veicular (é esse seu nome oficial) produz calor a partir de uma resistência elétrica. Sempre que utilizava o tal acendedor, vinha-me a preocupação de o objeto cair e me queimar ou queimar o carro ou provocar um incêndio, sei lá.
***
Isabel percebeu que eu deixara de fumar dentro de casa. Me agradeceu, sorriu, tentou até me fazer parar de fumar. Argumentou que eu iria ficar mais bonito, ia viver mais.
Isabel achava que eu podia começar a malhar, comer salada e até me assustar com as quantidades de calorias presentes numa única azeitona. Foi quando deixei bem claro que não tinha este interesse. Eu respeitava o lado saudável da minha mulher, até abri mão de um pequeno prazer doméstico para evitar maiores problemas. Mas parar de fumar, não. Foi quando firmamos um pacto: eu parava de fumar dentro de casa, o que na realidade já estava acontecendo, e ela parava de torrar minha paciência com esta conversa de geração saúde. Ah, sim. Em meio às negociações, instituí a pequena exigência de que dentro do carro, nada de reclamações contra meu cigarro. O carro seria minha ilha de liberdade. Um ilha torturante, mas uma ilha de liberdade.

***
Pois bem, há uns trinta minutos decidimos sair de carro. Hoje é sexta-feira, último dia para se assistir a peça teatral mais badalada do ano. Seria a primeira vez em que Isabel ficaria ao meu lado dentro do carro sabendo que aquele ambiente era o único em que ainda me era permitido fumar. Sim, ela sabia disso. Eu já tinha lhe explicado das dificuldades de fumar na empresa, já tinha dito que não gosto de fumar quando estou caminhando, que só acendo um cigarrinho em momentos de descontração. Dirigir um
carro numa cidade grande não permite momentos de descontração, mas, enfim, era só aquele o espaço que me restava. Confesso que estava pronto para utilizar a oportunidade e me fazer de vítima. Queria aproveitar que ela me veria pela primeira vez naquela situação ridícula para despertar sua piedade. Dentro de mim, havia o interesse também de mostrar que era ela a responsável por toda aquela tortura. A tortura de só poder fumar dentro de um carro. Isabel, por sua vez, não parecia
muito preocupada. Tinha pressa para chegar ao teatro e, em pé ao lado do carro, esperava que eu entrasse para poder lhe abrir a porta do passageiro. Fazia cara de
impaciente.
***
Abri a porta e me sentei ao volante já com cara de vítima. Isabel sentou-se ao meu lado. Liguei o carro, mas, só de picuinha, não dei a partida. Puxei calmamente a carteira de Lucky Strike do bolso da camisa, peguei um cigarrinho e apertei o acendedor. Olhei para Isabel que, sorrindo com o que julgava ser uma infantilidade boba de quem quer
chamar atenção, repetiu sua cantilena. - Em casa ou no carro, esse cigarro ainda vai te matar. Antes que eu respondesse, ouvi o disparo do acendedor pulando do painel. Foi quando uma idéia me ocorreu. Tentando chamar a atenção de minha mulher para as dificuldades de se fumar num lugar tão incômodo, deixei,de propósito o acendedor incandescente me escapulir das mãos. Simulando desespero, me abaixei para procurá-lo. Na verdade, estava verdadeiramente desesperado, mas, naquele instante, dada as circunstâncias, até que valia a pena uma queimadurazinha para despertar a sensibilidade de minha mulher e voltar a fumar na varanda.

Abaixado, com cara quase nos pedais, procurei o tal acendedor. Já estava aflito quando encontrei o maldito. Antes de levantar a cabeça, entretanto, um barulho enorme invadiu o carro. Meu coração disparou com o susto. Levantei imediatamente. Ao olhar para o banco do passageiro, deparei-me com Isabel morta. Tinha a cabeça ensanguentada e os olhos esbugalhados. Não havia dúvida. Estava morta. Não sei bem ainda o que aconteceu, mas, ao ver o vidro lateral que fica rente à minha
cabeça estilhaçado, suponho que uma bala perdida atingiu minha mulher. De todos os lados, escuto e vejo sirenes de polícia. Agora, sim, estou verdadeiramente desesperado.

E nada mais me resta neste momento senão acender meu cigarro e pensar melhor no que fazer. Quem fuma pensa melhor.
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Atualizado em: Sex 11 Jan 2019
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