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Mundo cão

Dizem que a vida é sagrada e, não se deve dispor dela...alguma escrita citada na igreja ou algum livro de autoajuda, sabe-se lá.
  As pessoas que dizem isso, vivem vidas relativamente confortáveis, recostam-se em suas cadeiras estofadas, ajeitam os óculos à cara e digitam palavras em suas máquinas automáticas, protegidos em seu mundo seguro, jamais farão a mínima ideia do que se passa na cabeça da menina esquálida que acabara de entrar no posto de saúde, capengando ela segue, a dor de seu corpo é nada diante da vergonha de ser alvo dos olhares de pena e reprovação, esses olhares tem um pesar latente, apontam e massacram.
  Chegar a esse ponto foi natural, um final à rigor para uma sobrevida, para Luciléia não existe nada que a prenda nesse mundo, de homens que batem em meninas e sem qualquer remorso, as violentam, um mundo de mulheres que fazem não ver a tudo isso, pessoas que machucam meninas em lugar de protege-las, melhor mesmo é sair disso tudo.
  A moça da recepção que a atendera, não viu que seu rosto estava deformado, não perguntou sobre a boca inchada e as múltiplas escoriações pelo corpo, tomou-lhe o documento e preencheu a ficha e... se visse, não faria diferença, a cena é comum e corriqueira nas periferias das grandes cidades, alheia jogou a ficha no balcão e virou a cara:
   _. Senta ali e espera que o médico já vem.
  O canto onde as portas dos consultórios se localizavam, ficava fora do saguão, um beco fora dos olhos dos curiosos, uma fileira de bancos vazios e a menina se sentou com cuidado para não sentir as dores do corpo e, não havia uma parte do corpo dessa menina que não doesse.
  Essa menina tinha 13 anos e já era esposa de um traficante, esposa por caridade e escrava sexual, de uma besta que via prazer em torturar, humilhar, espancar e violentar.
  E não havia como voltar para casa, essa vida de agora já era a fuga de uma vida terrível.
 Entre o tratamento que a mãe lhe dava e o tratamento que o traficante lhe impunha, não havia nem melhor nem pior.
  Luciléia tinha que esperar um bocado, todo o corpo lhe doía, uma dor que dilacerava feito infecção e crescia mais e mais.
  Percebeu que a porta do consultório estava entreaberta e, uma ideia lhe veio à mente, tinha que agir rápido, olhou em volta e ninguém estava atento à ela, levantou-se e entrou na sala, ao lado da mesa havia um armarinho, daqueles confeccionados de vidro, que a porta também estava aberta com uma grande quantidade de remédios.
  Luciléia notou que no cestinho de lixo havia jogada uma sacolinha de plástico, muito rápido encheu a sacola com todos os remédios que pôde e correu no corredor em direção ao banheiro, tão rápido que ninguém se deu conta da cena.
  Enquanto tirava os comprimidos das embalagens, se despedia das pessoas que a maltrataram, se despedia das surras e dos seguidos estupros, se despedia dessa vida de cão.
  Como já não comia há vários dias, teve dificuldade para engolir o monte todo, alguns comprimidos escorreram dos palmos juntos, os mesmos palmos apararam o jato de água da torneira e desceu tudo, tudo de uma vez.
  A moça da recepção achou estranho quando aquela menina esquelética saiu correndo pelo saguão e ganhou a porta da saída, mas não deu muita atenção ao fato.
  O sol bateu em cheio o seu rosto, um clarão intenso que a fez piscar, um último raio de sol antes da tragédia do final tão próximo, as pessoas que viram seu rosto nesse momento tiveram dificuldades para saber se seu rosto esboçava um sorriso ou fora o sol que feria os seus olhos.
  Já não via mais nada, as coisas se embaralhavam em sua frente, pessoas, carros e casas formavam uma massa uniforme e sem cor, tudo ficou cinza.
  Cambaleou uns trinta metros fora do portão do posto, tombou na guia e seu corpo rolou para dentro do córrego.
  Aquele mundo mal deu lugar ao azul infinito do nada.
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Atualizado em: Qua 24 Out 2018
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