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“SAGA DE UM NOBRE HOMEM”

tributo

Nasceu em dezenove de março,
do ano de dezenove,
tão magro tal qual um traço,
mal aguentava o abraço
de quando sua mãe o envolve.

Era o quarto filho de seis,
entre três mulheres e três homens,
tudo o que seu pobre pai fez,
foi dividir a pobreza de vez,
até o leite que eles consomem.

Quando do seu nascimento,
já tinha um irmão e duas irmãs,
a mãe por vários momentos,
embora não fosse seu intento,
pensava nos seus amanhãs.
 
Desgraça, pobreza e má sorte,
era o que a vida lhes dava,
às vezes ameaça de morte,
mas já nascera um forte
e a morte se acovardava.

Seu pai Manduca Hermano,
sua mãe, Dona Luíza,
seu pai por vezes insano,
às vezes até desumano,
mas sua mãe a cabeça alisa.

Na hora das suas travessuras,
é quem as arestas apara,
era quase todo dia,
por eles intercedia,
na hora da coça de vara.
 
Viviam num sítio na roça,
um pequeno sítio, porém,
a casa era uma palhoça,
seus irmãos não viviam de troça,
pois já trabalhavam também.

Viviam do que plantavam,
comiam do que colhiam,
seus irmãos nunca brincavam,
às vezes nem descansavam,
pois cedo prá lida iam.

Bem cedo se juntou aos irmãos,
na árdua missão de viver,
e todos uniram suas mãos,
tornaram-se um só coração,
prá aliviar o sofrer

Mal freqüentavam a escola,
como toda criança de lá,
sapatos com furo na sola,
o sol que as costas esfola
para poderem estudar.
 
Levavam mais tempo andando,
do que propriamente na classe,
muitas léguas cavalgando,
o pobre do burro cansando,
implorando que o tempo passe.
 
Dizia que naqueles dias,
a escola ensinava bem mais,
gostava de Geografia,
quase sempre respondia,
dos estados as capitais.

Era bom de matemática,
na conta de tirar e somar,
mas não achava simpática,
era a tal da gramática,
não conseguia assimilar.

Quando chegavam em casa,
a lida já era o esperado,
vermelho tal qual uma brasa, 
a enxada, no ombro parecia uma asa, 
de um pássaro aleijado.

Todos lhe chamavam de Zé,
mas era José Leite Pereira,
mas não um Zé qualquer,
era um Zé pro que der e vier,
um Zé que era nó na madeira.

Zé que cuida dos cavalos,
Zé que colhe a laranja,
Zé que planta no embalo,
deixa a cana no talo
e a semente não esbanja.

Zé de Dona Luíza,
Zé de Manduca Hermano,
Zé que faz o que precisa,
Zé que vivia de brisa,
Zé um grande ser humano.

Manduca seu velho pai,
honesto e de decisões plenas,
segura o mundo que cai,
fecha a porta onde se sai,
foi delegado da cidade,
por dezenove dias apenas.

Segundo a versão do povo,
saiu por ser honesto demais,
saiu, mas fez uma promessa,
“Se me quiserem de novo,
da aldeia, os ladrões, eu removo,
mas complacência, jamais “.

Sempre viveram com Deus,
eram todos evangélicos,
viviam só para os seus,
do filho mais velho um adeus,
da mãe, soluços histéricos.
 
Era comum no lugar,
os filhos irem-se embora,
era um prá aliviar,
uma saudade a deixar,
era um de porta afora.

Iam tentar um futuro,
às vezes nas grandes cidades,
às vezes ficavam em apuro,
tinham que dar muito duro,
sofriam muito no mundo,
pois não conheciam a maldade.

Sofriam de tudo calados,
prá não voltar prá pobreza,
muita das vezes roubados,
por vezes até espancados,
mas achavam ser moleza.
 
Na saída de casa do seu irmão,
passou a ser entre os homens o segundo,
tinha uma vida de cão,
mas não podia dizer não,
viu crescer seu pequeno mundo.
 
Saía, bem cedo, de madrugada,
arrastando uma tropa de burro,
com medo pela estrada,
com susto em encruzilhada,
mas tinha que dar o seu murro.
 
No bornal um pedaço de pão,
no cantil um pouco de água,
no coração um aperto,
mais erro do que acerto,
em função da sua mágoa.
 
Chegava aos lugarejos,
para vender seus produtos,
ouvindo certos gracejos,
dava o preço num lampejo,
às vezes ouvindo insultos.

Não podia retornar,
se tudo não houvesse vendido,
seu pai a se irritar,
do dinheiro precisar,
e de ser repreendido.
 
Tinha a obrigação e o dever,
de voltar só com os jacás,
pois prá ter o que comer,
era preciso vender,
só voltar prá buscar mais.

Não via a vida passar,
não conhecia o prazer
só viver prá trabalhar,
pois tinha que ajudar
os seus irmãos a viver.

Não via a hora de ir também,
tentar a vida lá fora,
tentar ter o que não tem,
sua mãe dizer amém,
na hora de ir-se embora.

Finalmente chegou o grande dia,
seu irmão mandou lhe chamar,
tinha um emprego arranjado,
salário pequeno em um pequeno mercado,
era tudo o que podia lhe dar.

Já estava com seus quinze anos,
prestes a completar dezesseis,
na cabeça só tinha um sonho,
e agora estava risonho,
pois o destino o satisfez.
 
Ficou totalmente eufórico,
com o irmão iria morar,
do armazém seria “caixeiro”,
trabalhar o dia inteiro,
não iria mais estudar.

Arrumou a pouca roupa que tinha,
e de filho perderam o segundo,
sua mãe com o coração apertado,
mesmo o tendo abençoado,
viu-o sair ao encontro do mundo.
 
Despediu-se abraçando as manas,
nem sequer olhou prá trás,
soslaiou a touceira de cana,
jurando a Deus e a si mesmo,
ali não voltar nunca mais.

Partiu para o Rio de Janeiro,
deslumbrou-se com a imensidão,
no bolso muito pouco dinheiro,
mas olhou com exagero,
sonhando ser um milhão.
 
Prometeu a Deus e a si mesmo,
que seu tempo não iria perder,
daria seu sangue a esmo, 
e com a força do seu trabalho,
esta luta ele iria vencer.

Trabalhava como um cavalo,
hora extra era comum fazer,
pois achava que só deste modo,
e contando com a sorte,
ele iria enriquecer.
 
Empenhou-se muito neste emprego,
o patrão cobrando crédito,
só a noite é que tinha sossego,
e na solidão do seu aconchego,
enaltecia todo o seu mérito.
 
Na idade já tinha dezoito,
e o exército lhe convocou,
ficou feliz e afoito,
foi como o prazer de um coito,
quando se apresentou.

Vestiu a farda orgulhoso,
sentia-se muito importante,
viu-se um soldado garboso,
pois mesmo sendo medroso,
tornou-se forte num instante.

Serviu na cavalaria,
e também foi artilheiro,
montava canhão todo o dia,
entre todos da artilharia,
queria ser o primeiro.

Durante se tempo no quartel,
os seus sonhos se consomem,
achava que lá era o céu,
e com tudo o que aprendera,
tornara-se agora um homem.
 
Era muito dedicado
e levava tudo a sério,
de “Caxias” era chamado,
conhecia do riscado,
não via nenhum mistério.
 
Era muito responsável,
em tudo que lhe compete,
sempre fôra aventureiro,
“Sou um soldado brasileiro,
comigo ninguém se mete”.

Seu tempo de baixa chegou,
e lhe tirou toda a glória,
um pouco triste ficou,
a saudade lhe apertou,
mas se orgulhou da vitória.

Tirou a fantasia do sonho,
iria começar tudo do zero,
embora meio tristonho,
por alguns meses bisonhos,
“Que a vida melhore, espero”.
 
Levou algum tempo vagando,
tentando arranjar trabalho,
algumas portas fechando,
ele já se desesperando,
“Desempregado eu nada valho”.

Tinha um orgulho muito grande
 e o amor próprio ferido,
 “Que uma benção Deus me mande,
que meu desespero abrande,
pois estou meio perdido“.
 
Deus ouviu as suas preces,
pois começou a trabalhar,
ajudante de cozinha, parece,
mas qualquer coisa que viesse,
era melhor do que fome passar.

Morava agora num quarto de aluguel
com dois amigos de sofrimento,
no trabalho tinha o que comer,
os amigos pareciam só ter
comida em alguns momentos.
 
Acabou seu emprego deixando,
para trabalhar numa obra,
o salário já aumentando,
a vida estava melhorando,
já tinha alguma sobra.

Aprendeu a profissão com rapidez,
logo se tornou um profissional,
parecia que desta vez,
todo o sonho se refez,
foi uma vitória pessoal.
 
Cada vez mais se dedicava,
cada vez mais aprendia,
tudo da profissão estudava,
a tudo aperfeiçoava,
as coisas bem feitas, fazia.

Passou a ser muito procurado,
pela qualidade do serviço,
o preço agora era tratado,
antes do trabalho começado,
ganhava muito com isso.
 
Mesmo tendo pouco estudo,
lidava com arquitetos,
quando não entendia tudo,
mantinha-se às vezes mudo,
sem que eles percebessem,
era melhor ficar quieto.
 
Levava os desenhos prá casa
e estudava tudo com jeito,
enquanto não compreendesse,
enquanto tudo não entendesse,
ele não dormia direito.
 
Passava a noite estudando,
prá que seu conhecimento aumente,
já acordava pensando,
na obra se dedicando,
era muito inteligente.

Demonstrava que sabia,
tudo da profissão,
pois o prazer que sentia,
quando o serviço fazia,
era amostra de dedicação.

O seu serviço era digno,
de se chamar obra de arte,
eram belas esculturas,
envolto em lindas molduras,
com apresentação de encarte.

Estabeleceu-se na vida,
já podia sonhar mais alto,
já pensava em casar,
seus sonhos realizar,
sua vida dera um salto.

Enveredou a namorar,
uma linda moça paulista,
começou a planejar,
prá com ela realizar,
todos os seus sonhos a vista.
 
Um namoro curto, porém,
pois o amor tem suas tramas,
e no afã do desejo,
entre caricias e beijos,
foram parar numa cama.

Casou-se e teve dois filhos,
uma menina e um menino,
mas depois de sete anos,
percebeu alguns enganos,
era obra do destino.
 
Seu casamento acabou,
com a rapidez que começara,
muita tristeza ficou,
ele se decepcionou,
pois não era o que sonhara.

Após a separação,
a sua vida mudou,
houve litígio no desquite,
embora ninguém acredite,
lutou com muito apetite,
e com a guarda dos filhos ficou.

Suportou a dor como um forte,
com seus dois filhos pequenos,
de seis e de quatro anos,
com pensamentos profanos,
seus dias não foram amenos.

Agora tinha os seus filhos,
e o trabalho prá tocar,
perdeu todo o seu brilho,
sua vida saiu do trilho,
passou a descarrilar.

Lutou como um bravo guerreiro,
prá toda a mágoa suportar,
trabalhar o dia inteiro,
tornar-se um homem caseiro,
para os seus filhos criar.

A sua mãe já viúva,
com ele fôra morar,
da casa e dos seus filhos cuidava,
enquanto ele trabalhava,
e dinheiro arranjava,
prá fome ninguém passar.

Porém sua mãe já idosa,
om a saúde debilitada,
embora nunca reclame,
teve um forte derrame,
e foi hospitalizada.

Dois problemas desta estirpe,
fardo demais prá um homem é,
mas com as força de Deus,
e com muito amor pelos seus,
não sucumbiu ante a fé.

Convocou toda a família,
prá as agruras dividir,
pois problemas tinha em pilha,
com seu filho e sua filha,
e sua mãe a lhe afligir.

O caso da sua mãe era grave,
não podia mais andar,
não mexia mais o braço,
mal conseguia falar,
e as idéias, coitada,
nada de concatenar.

Combinou com a irmã mais velha,
de todos juntos morar,
ela cuidava da mãe deles,
e dos seus filhos, aqueles,
ela ajudaria a criar.

Teve muitos problemas,
junto desta família,
pois enquanto ele trabalha,
os seus filhos ela humilha,
via ser diminuídos
o seu filho e a sua filha.

Suportou tudo calado,
pois precisava demais,
sentia-se muito humilhado,
as vezes tripudiado,
mas revoltar-se jamais.

Mais uma vez o destino,
uma peça lhe teceu,
pois depois de alguns anos,
a sua mãe faleceu,
uma parte do seu coração,
junto com ela morreu.

Planejava a sua vida,
sempre para o amanhã,
trabalhava prá vencer,
com afinco e muito elã,
esforçava-se demais,
com verdadeiro afã.

Construiu sua casa própria,
munido de muita vontade,
tinha um orgulho tremendo,
aumentou sua vaidade,
pois mostrara que vencera,
esta é que era a verdade.

Fôra morar com seus dois filhos,
numa casa suntuosa,
um quarto prá cada um,
no jardim plantava rosa,
queria manter sua vida,
sempre florida e cheirosa.

Não se casara de novo,
para manter sua moral,
tinha que dar bons exemplos,
sua casa ser um templo,
onde não penetra o mal.

Nunca perder a fé e manter a esperança,
acreditar sempre em Deus,
seguir os mandamentos seus,
ensinava às crianças.

Estudar para vencer,
era este o seu ditado,
“Nesta luta contra a vida,
com as chances divididas,
tem que se estar preparado.”

Ensinava muitas coisas,
que da memória não sai,
quando sentir-se em apuros,
com medo do seu futuro,
“Segura na mão de Deus e vai”

Ensinava todas coisas,
comuns aos homens de bem,
“Não inveje nunca aos outros,
mesmo achando que é pouco, 
agradeça o que tens.”

E “Contentai-vos com o pouco,
que o destino vos legou,
quem deseja ter demais,
perde tudo o que ganhou”

Às vezes era meio grosso,
por vezes até meio rude,
não suportava mentiras,
tinha sempre em sua mira,
pessoas que ao outro ilude.

Cobrava muita decência,
postura e dignidade,
 pois para deixa-lo feliz,
fez-se o que ele quis,
viver com honestidade.

“Devolver até troco errado,
que se recebe no bar,
você engana uns coitados,
pode viver enganado,
mas a Deus não pode enganar”

“Você deve ficar sempre bem
com a sua consciência,
não mostrar para ninguém
que você é um alguém,
que vive com maledicência.”

“Manter as suas amizades
e tratar bem a todo mundo,
não se envolver em intrigas,
nunca se meter em brigas”
era um conselho profundo.

“O seu modo de bem viver,
independe da sua idade,
pois se crime cometer,
ao próximo o mal fazer,
é sua a responsabilidade.”

Pros amigos de seus filhos,
mantinha o portão aberto,
uma forma ardilosa,
de mante-los sempre perto.

Agia desta forma,
sem saber o que fazia,
uma coisa elementar,
usava psicologia.

Era um psicólogo nato,
sem estudar nenhuma ciência,
lidava com muito tato,
demonstrava ser pacato,
usava só de inteligência.

Por vezes, entre seus porres,
deixava a saudade aflorar,
com músicas sentimentais,
alguma lágrima se esvai,
com Alcides Geradi a cantar:

“Os beijos que me deste,
não quero mais saber,
o mal que fizeste,
procuro esquecer, mas tento e não consigo,
se quando algum amigo, me perguntar por ti,
eu digo que não sei,
se alguma vez te amei,
eu hoje te esqueci,
Se Deus quisesse um dia,
devolver meu passado,
Perdão lhe pediria,
mas não suportaria,
Viver mais ao seu lado,
não quero nem lembrar,
Que um dia já fui teu,
está tudo acabado
Prá que ressuscitar
o amor que morreu.”

Seus filhos ficaram adultos,
os dois no caminho do bem,
todos a Deus tementes,
e com vontades prementes,
de vencerem a vida também.

Ao ver seus filhos adultos,
agradecia a Deus,
sentia-se muito orgulhoso,
ficava muito vaidoso,
ao relembrar que eram seus.

Sofreu tudo nesta vida,
e disso ninguém duvida,
mas teve certas alegrias,
visualizava novos dias,
mesmo com a alma sofrida

Viu seus filhos irem embora,
e ficava irrequieto,
sentia um certo ciúme,
mas já sentia o perfume,
que exalava dos futuros netos.

De netos teve cinco,
dois da filha e três do filho,
era comum olhar prá ele,
sentir toda a emoção dele,
e ver nos seus olhos um certo brilho.

Passou a morar sozinho,
não vendia a sua privacidade,
nem que de milhão lhe dessem dez, 
pois queria ver os seus filhos,
vivendo com intensidade,
curtindo a felicidade,
andando com os próprios pés.

Fazia questão que aos domingos,
almoçassem em sua casa,
sentia orgulho disso,
pois mantinha o compromisso,
de tê-los sob sua asa.

Nas festas de fim de ano,
juntos todos passavam,
eram muitas alegrias,
muito prazer ele sentia,
quando a família abraçava.

Mas o tempo foi passando,
e a idade não perdoa,
já estava aposentado,
e se sentia cansado,
de ficar parado, à toa.

De repente adoeceu,
já não era o que era antes,
os pulmões não suportaram,
a vida inteira tragaram,
a fumaça de um fumante.

Custou-se muito a descobrir,
antes que a doença avance,
mas a pura realidade,
sem esconder-se a verdade,
a doença era câncer.

Ficou pouco tempo doente,
dezoito dias apenas,
foi um sofrimento profundo,
pois a pior coisa do mundo
foi assistir esta cena.

Morreu na hora da visita,
sem sequer deu um adeus,
esperou chegar seus filhos,
olhou-os como clamando,
prá ir prá perto de Deus.

Foi-se um nobre homem,
prá qualifica-lo adjetivo não há,
deixou uma grande lacuna,
o alicerce, uma coluna,
da construção de um lar.

Nobre homem de compromisso,
que da minha memória não sai,
não poderia ficar omisso,
pois me orgulho muito disso,
este homem foi MEU PAI.
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Atualizado em: Seg 25 Maio 2020

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