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Único condenado

A vigília dos corvos consome a hora do diabo. Toda esta noite tomada por lágrimas, consumida pelo ranger de dentes, pela solidão dos desesperados e o eterno. Todo respirar é longo em meio às estreitas ruas, todo segundo dura o existir, o existir não ao menos existiu, a dor o consumiu. Toda a dor consumiu o homem que se deitou à frente do paraíso, o homem que olhou para os olhos de Deus e foi consumido pelo amor, o homem que olha para suas mãos sujas com as próprias cinzas e padece em frente à praça. Ele está bêbado, ele não consegue ficar em pé, ele não sente os seus lábios que beijaram o infinito e o fizeram sentir o calor da chama etérea. O único passo em frente que selou está em meio a sua memória corroída. Sua alma é um deserto vasto em que o vento caminha em ímpeto, seu sorriso foi confinado sob o cemitério de fogo no oitavo círculo e seus olhos vazios tornaram-se um espelho, um espelho para os que ousam fitar o profano, um espelho para o seu próprio peito, para o fogo que queima dentro de sua carcaça e é munido por lágrimas. Seu suspiro consome o mundo, ele traga o ar para sentir uma última vez seus pulmões. Uma freira caminha e vê o corpo vivo, ela se contrai e corre em sua direção. Amor pelo condenado, doce mulher. Sua pele clara e macia contrasta com a pele marcada do Único Condenado, seu sorriso e olhar nobre iluminam o rosto frígido e gelado. Ela lhe promete o céu novamente, mas o homem não mais consegue falar, não ficará de joelhos para o consolo dos únicos braços que se abriram, ele não sente mais a vida. A morte caminha. Suas vestes caem sobre os ombros, vestes escuras e esfumaçadas. Um véu cobre seu semblante, seus pés descalços tocam o chão enquanto uma mão segura a Foice. Sua lâmina é branca e leitosa, seu cabo de marfim carrega os tormentos das almas em suas gravações e sua base é finalizada em prata. Sua outra mão carrega o livro, os nomes, o passado, os mortos. O livro tem capa rubra, suas folhas queimam mas não são consumidas. O caminhar lento segue em direção ao homem com a freira. A freira fita os olhos do homem e em seu espelho vê o rosto coberto pelo véu e o pavor consome suas vísceras. Ao olhar para trás, só encara o vazio. Ela se levanta pacientemente enquanto o homem permanece imóvel, se curva na direção em que virá o espectro e sai calmamente. Para onde irá este homem que caminhará pelos nove círculos e contemplou o infinito? A morte o encara enquanto se agacha em sua direção. Encosta na mesma parede que o homem usa como seu último leito sua foice, o livro rubro é deixado no chão. Suas mãos livres levantam o véu. O espelho agora quebra, o deserto se desfaz, o fogo sucumbe e um sol surge em seu peito. O corpo está sem vida, mas o sol queima. A mulher chamada Morte pega o sol em suas mãos e deixa seu livro rubro. Ao sentir o calor, o marfim de sua foice racha, sua lâmina quebra, sua prata derrete, seu poder se dispersa. A morte agora carrega o seu Sol, o que fora condenado, o que roubou o olhar divino. Deus não vê em sua onipotência sobre o vivo a morte que, agora, carrega em sua mão direita seu antigo arauto, o herege, o único. O condenado.
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Atualizado em: Qui 13 Fev 2020

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