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Cuidar do outro é também cuidar de si

Dia desses, esperando consulta médica numa clínica escutei, sem muita escolha – afinal a sala era pequena, a conversa de quem ali também esperava atendimento. Confesso que não achei ruim, essas discussões aleatórias e alheias são ótimas para reflexões próprias, bem estudo de caso, sabe, onde intimamente você aconselha de forma gratuita, com a certeza do certo a se fazer, mas sem dar ‘um pio’, claro.
Bom, estava a escutar reclamações maritais. Pois sim, uma moça confidenciava à outra suas imensas e frequentes insatisfações com o marido que, pelo que entendi, já se relacionavam há um bom tempo.
Entre as várias reclamações que escutei, e não as achei estranhas, eu mesma sou casada e me identifiquei bastante com alguns relatos, pensei a respeito dessa nossa expectativa do outro e, de como nós mesmos não atingimos as do companheiro.
Partindo da ideia que, se estão juntos têm, no mínimo, alguns objetivos juntos ou gostam de algumas coisas que se complementam ou completam, confundir a sua incerteza com a falta de interesse do outro é muito comum. Estar incerto, por exemplo, da infidelidade do parceiro (mais comum do que pensamos) é ‘ver’ em pequenas atitudes ou decisões, que o outro sempre procura manter-se longe, isso porque assumimos que ele tem interesse em outros que não nós mesmos. Uma ligação fora do horário e ele diz que é do trabalho, uma mensagem que chega e ela vai ler na cozinha... tudo vira indício de algo sempre imoral ou ilegal, considerando o que foi combinado entre os dois.
Estar incerto sobre suas próprias habilidades e, o outro, de alguma forma não as enfatiza também pode ser ‘lido’ como potencialização da insegurança em si. Vejamos: ela adora sua performance no trabalho, tem ideias compartilhadas com superiores e aprovadas. O que achava que não estava indo bem, percebe que pode ser ‘que tenha pegado o jeito’, assim, chega em casa, tenta dividir com o parceiro, até mesmo para ter uma aprovação dele, como se esperasse que ele comprovasse o fato. E, desilude-se, ele prefere ver os vídeos recebidos ao longo do dia pelo Whastapp.
Complicado não? A partir do momento em que identificamos que o outro dá importância para um desejo nosso, a ponto de realizá-lo ou torná-lo seu próprio, o bem-estar e a vontade de dividir a vida a dois volta à tona. Quando somos validados, ou melhor, temos nossas inseguranças validadas pelo parceiro como uma atitude de preocupação conosco, revive a relação, nos faz ver o motivo que ainda nos faz ficar juntos: o cuidado um com o outro.
Numa tentativa burra de explicar ao meu marido sobre isso ele logo disparou, como se eu o ofendesse: cuidado? Ora, amor não é ficar preocupado toda hora, ‘pisar em ovos’ o tempo todo. Não tem que ser um melindre só não! Só respirei fundo e pensei que esse será nosso ‘tema’ matrimonial em outra vida, acho que nesta não vim com a paciência necessária para explicar-lhe isso o que significa o tal ‘cuidado’ na relação.
Mas enfim, aqui eu tento... Cuidado, ao meu ver, é suportar os defeitos ou dificuldades do companheiro no sentido de ser um suporte naquilo que o outro mesmo não gosta em si, ou ainda, dar suporte numa dificuldade a ponto de tornar-se um complemento positivo. Quer um exemplo para ficar mais fácil a visualização (mental, claro) do que digo? Pois bem, meu marido tem um sério problema de esquecimento. Sim, muito sério mesmo, esquece tudo, até a mim mesma. Certa vez ele me deixou em meu escritório cedo e foi para o trabalho dele com o carro. Ao sair, no fim do dia, era lógico que ele me buscaria, uma vez que ele mesmo havia me deixado lá sem meio de transporte e para que eu trabalhasse, certo? Não, não é lógico. Ele veio parar em casa e ainda achou ruim de eu não abrir o portão (que ainda é manual). Acreditam? Ele me ligou, já com intuito de brigar comigo pela demora em deixá-lo entrar na garagem quando o lembrei de que ele havia me deixado para trás... E isso não acontece só uma vez na vida e outra na morte não, é constante. Esquecer o crachá do trabalho em casa (aí não bate ponto), esquecer o celular em outra cidade quando viaja... E esta é uma dificuldade dele que eu não gosto, mesmo, justamente porque sou extremamente perfeccionista e organizada. Essa nossa diferença sempre é motivo de discussão. Mas, parando para refletir.... Estarmos juntos não é para isso, também? Complementar ou completar o que falta no outro? Será que eu não sou a ‘lembrança’ que ele não tem? Será que não é mais fácil eu ajudá-lo a recriminá-lo por algo que ele mesmo detesta em si?
Quando a angustia do outro passa a ser nossa, no sentido de ajuda-lo que ele quer alcançar, mudar, resolver ou mesmo melhorar, mesmo que seja apenas ouvindo e entendendo, dando valor na 'reclamação', isso muitas vezes basta e mais, mostra que somos ‘cuidadosos’ com o outro. Essa atitude é de um valor inestimável.
Assisti noite dessas um vídeo de Ivan Capelatto que falava justamente sobre este tema: as angústias do parceiro e como ajudamo-nos mutuamente. Entendendo, claro, que a ‘angustia’ colocada era no sentido de ‘algo que me falta’. Meu caso por exemplo, e que falei logo acima, falta-me paciência. Meu marido é um poço de calmaria. Isso também, muitas vezes foi motivo de imensas e incontroláveis discussões... Hoje já tento ver diferente, somos uma completude. As mãos se encaixam, os corpos ao deitarem se encaixam, os lábios se encaixam (num gostoso beijo) e as virtudes/defeitos há de se encaixarem, não?
O que também tirei de interessante do vídeo de Capelatto é que, algo sempre tem que ser feito. E o verbo ‘ter’ aqui não é no sentido de ser uma obrigação, mas uma condição de gerar bem-estar aos dois. A indiferença, que realmente trata-se da ausência de interesse, principalmente num relacionamento, não deve fazer morada. Pois, com ela, também temos a ausência de atenção, de cuidado, de consideração, de afeto e assim a consequentemente faz-se a morte da união.
Sei que fiquei ali a escutar as moças por alguns instantes e, internamente, as aconselhei como faço comigo mesma constantemente, isso porque quero resolver é nesta vida mesmo... A próxima tenho que trabalhar minha dificuldade em fazer baliza!
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Atualizado em: Qua 25 Abr 2018

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