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Coisas do escuro

Àquela altura da vida, Lilian já esperava estar casada e fazendo planos para o primeiro herdeiro, com um emprego estável e um apartamento num bairro tranquilo do Rio de Janeiro. Agora, contemplando a vida real, pensava em como a vida é capaz de puxar o tapete.
Lilian Borges estava sentada no sofá naquele final de tarde de uma sexta-feira de julho, contemplando a bagunça de sua pequena casa alugada num bairro comum da Zona Norte carioca, o máximo que seu salário atual conseguia pagar, pensando o quão longe ainda estava de conseguir colocar no mundo seu primeiro herdeiro se Rogério continuasse a enrolar. Ela não tinha nada do que reclamar de sua relação, mas estaria mais satisfeita se o namoro que se arrastava por quatro anos tivesse progredido um pouco. Respirou fundo, afinal, não fazia nada bem chorar sobre o namoro derramado.
― Seja bem-vinda ao bairro. – Tinha dito uma senhora idosa que passeava com um poodle pelo passeio da vila onde agora Lilian fixaria residência até conseguir juntar dinheiro suficiente para comprar o seu próprio canto. – Se precisar de alguma coisa, basta me procurar no 207. Sou Suzana. – Disse antes de voltar a caminhada com o animal após uns breves minutos observando o vai-e-vem de caixas.
Agora, retornando os pensamentos para o sofá, quando aquele sol que a castigou durante todo o dia começou a sair de cena, deixando somente o ar abafado de um dia de inverno particularmente quente, Lilian mascava um sanduiche de queijo e um copo de guaraná natural comprado num bar ali perto. Seu glorioso jantar de boas vidas a nova casa. Em meio aos pensamentos, pensou em Rogério e em como seu noivo, ou namorado, ou qualquer porcaria que ela achasse que fosse, a deixou sozinha com três homens estranhos durante todo o processo da mudança. Era quase sete da noite e ele ainda não ligara nenhuma vez para saber como tudo tinha saído. Talvez fosse melhor repensar o relacionamento.
O corpo estava moído e isso era um lembrete de que precisava procurar uma academia nas cercanias. Caiu na cama por volta das nove da noite após uma torrente de água fria e talvez isso não fosse um incômodo por conta do imenso calor do dia. Entretanto, aquilo era mais uma coisa a qual ela precisaria correr quando o dia raiasse. Precisava procurar um eletricista para a instalação do chuveiro elétrico. A vizinha simpática poderia lhe ajudar com essa questão. Qual era o nome dela mesmo? Isso não importava naquele momento. Tentou assistir um pouco de televisão, mas o pessoal da TV por assinatura só ligaria o sinal na segunda-feira e Lilian não conseguia mais assistir a pobre programação dos canais abertos. A única opção, e talvez a mais sensata, era dormir.
O pessoal da mudança havia feito um trabalho decente ao transportar seus valiosos pertences, mas uma obra medonha na hora de colocar as coisas com um mínimo de organização, mesmo ela tendo etiquetado todas as caixas. Havia pertences de cozinha no banheiro ou artigos de banheiro na sala, mas a que ela achava o mais esquisito tinha sido o modo como sua cama havia sido colocado no quarto. Estava de quina virada para a porta. Ela soltou um palavrão baixo enquanto deixava um sorriso de descontentamento transpassar seu rosto cansado. Não faria uma arrumação daquela quando estava prestes a dormir. Somente jogou um lençol sobre o colchão nu, apagou as luzes e deixou o sono vir sorrateiro. Em menos de dez minutos, aquela mulher fazia sua primeira viagem à terra dos sonhos em sua nova casa.
Lilian acordou sobressaltada. O coração batia acelerado dando a impressão que ele pularia pela boca a qualquer momento. Ela não sabia ao certo o que motivara o súbito despertar, mas olhava ao redor do quarto iluminado parcialmente pela luz da rua. Uma colcha velha usada para tapar a janela fora arrancada com o ventilador, mas a mulher duvidava se o cair do leve pano teria força suficiente para criar aquele susto dos infernos. Não tinha ninguém no quarto. Ela levantou e percorreu os outros três cômodos da casa. Verificou as trancas das portas e janelas. Nada violado. Tudo não tinha passado de um sonho? Voltou para a cama sentindo uma perturbação que lhe escapava. De repente, aquela mulher de vinte e seis anos começava a desenvolver um medo infantil, mas de quê? Deixou a cabeça cair no travesseiro e embora sentisse o corpo cansado implorando por uma noite tranquila de sono, Lilian demorou a dormir. Permaneceu um bom tempo acordada com aquela incômoda sensação lhe turvando os pensamentos.
Foi uma manhã estranha. Lilian passou um café, sentou no sofá da sala com a caneca e duas torradas com geleia, mas não sentia fome. Foi um gesto puramente mecânico. Aquela mesma sensação ainda a afligia e por algum motivo, que a preocupava para ser honesto, o coração ainda batia acelerado. Havia uma inquietação constante.
Saiu para comprar algumas coisas ou somente para espairecer, ela não tinha muita certeza. Saía da vila quando encontrou a mulher do dia anterior. Agora lembrava o nome da vizinha num rompante de iluminação.
― Bom dia, vizinha. – Cumprimentou Suzana com o poodle a tiracolo. – Passou bem essa primeira noite?
Lilian era uma mulher transparente e sua expressão já devia retratar que havia passado uma noite do cão, mas estamos falando aqui daquelas velhas convenções sociais. Por mais que se encontre alguém que claramente não está tendo um bom dia, as pessoas são compelidas a desejar um bom dia e era aquilo que a mulher com o semblante de derrota pensou nos breves segundos antes de balbuciar uma resposta.
― Tirando o cansaço da mudança, posso dizer que foi um bom começo.
― Eu já passei por isso, minha filha. No dia em que nos mudamos, o Aquiles aqui também ficou uma pilha. É difícil se acostumar com a nova casa assim logo de cara, mas lembre-se que estou aqui para o que der e vier.
Lilian sabia que devia cortar aquela conversa logo ou ficaria presa numa espiral de comentários esdrúxulos, entretanto, precisou de muita força para conter um sorriso ao ouvir o nome do cachorro. Um poodle chamado Aquiles era uma peculiaridade a qual ela não estava muito acostumada.
O eletricista apareceu logo após o almoço. Um homem de uns quarenta e poucos anos recomendado por Dona Suzana em sua conversa de mais cedo. Aparentemente era o sujeito que atendia a todos os domicílios da região. Um técnico da companhia de eletricidade que, por um preço módico e discrição, poderia ligar um disjuntor a parte do relógio de energia. Sabe como é. Com essas altas tarifas energéticas de hoje em dia...
A noite veio e a casa estava minimamente arrumada. O chuveiro quente já funcionava. O tal eletricista tinha feito outros reparos em tomadas e nos bocais das lâmpadas. A casa agora tinha um jeito de casa e não de um depósito de caixas. A maioria das caixas acumulavam na pequena varanda na parte dos fundos da casa onde havia um pequeno quintal de concreto, aparentemente construído com as sobras de material. Lilian ainda se intrigava com certos aspectos daquela construção. Como uma das paredes do quarto lhe parecia ter sido erguida na diagonal; ou um retângulo de concreto no teto do corredor, bem na entrada para o banheiro; ou uma espécie de alçapão no teto da cozinha. Talvez, um dia, Lilian tivesse a curiosidade de saber o que se escondia acima de sua cabeça. Um espaço de quinquilharias dos antigos donos. Vai saber.
Por volta das onze da noite tomou coragem para deitar e essa era o exato sentimento. A mulher, mesmo cansada por mais um pesado dia de arrumação, precisava reunir coragem para apagar as luzes e deitar na cama agora posicionada de um jeito aceitável, mas de modo que ela conseguisse enxergar a sala. Uma dessas coisas psicológicas que sempre cismam em ficar dando pancadinhas dentro da cabeça. Lilian ficou por um tempo deitada de lado observado o mostrador do relógio digital posicionado sobre a estante da sala. Podia ser fruto de seu estado de espírito, mas a noite parecia bem mais escura. Os minutos foram passando e o cansaço era implacável. Sem perceber, a mulher assustada já dormir um sono profundo.
Acordou durante a madrugada. Não por susto, mas por mero capricho de uma bexiga cheia. Foi até a cozinha e entornou um copo de água garganta abaixo logo após o banheiro. Não precisou acender as luzes. A iluminação dos postes da vila a deixavam caminhar pela casa sem problema embora ainda tivesse a sensação de tudo estar mais escuro do que deveria. Sequer estava com sede, mas são uma dessas cosias que se faz inconscientemente. Enquanto bebia, observou o tampo de gesso no teto da cozinha. O suposto alçapão. Por algum motivo ele parecia fora do lugar. Tentou se livrar daquele pensamento quando viu um vulto passar pela sala. A cena quase lembrava a de um filme de terror, mas Lilian não deixou o copo cair e se estilhaçar no chão como o velho clichê cinematográfico. Ela colocou o copo dentro da pia e foi de encontro a tal visão. Teria sido a mente da mulher lhe pregando mais uma peça? Não havia nada na sala, mas por que aquela estranha sensação estava mais latente do que nunca? Voltou para a cama e mal tinha se ajeitado debaixo das cobertas quando viu o vulto passar diante do relógio digital. Seu coração desatou a bater forte demais. Colocou as cobertas sobre a cabeça e ficou lá apenas esperando. Tinha quase certeza de que quem estivesse perambulando por sua casa, poderia ouvir as batidas dentro de seu peito.
Agora podia ouvir passos se aproximado. Lilian tinha a nítida sensação de que alguma coisa estava com ela dentro do quarto. As lágrimas começaram a brotar no canto dos olhos. Era um pavor irreal que tomava conta de seu corpo. Sentia que se a urgência pedisse, a mulher não ter forças para correr. Tinha lido uma vez que em situações de alerta é lançado na corrente sanguínea uma carga de adrenalina que deixavam as pessoas mais despertas e mais fortes. Isso definitivamente não estava acontecendo no momento. Seu corpo parecia gelatina, se desfazendo no colchão. Sentiu o canto inferior da cama ceder como se alguém acabasse de sentar. Uma psicopata da Zona Norte com uma faca na mão e nesse momento ela só pensava em quanto Rogério era um péssimo namorado. Coisas estranhas para se pensar diante da morte, não é? A respiração chiada do invasor seria algo que ela levaria para o resto da vida caso conseguisse sair viva daquele encontro macabro.
A coisa toda durou cerca de trinta minutos, mas que na cabeça de Lilian parecia ter demorado uma eternidade. Sem avisos, a cama voltou ao seu estado normal e os passos arrastados foram se afastando junto com aquela respiração dos infernos. Ela não dormiu e tampouco tirou as cobertas do rosto. Havia perdido o costume de rezar, mas durante todo o restante da noite entoou todas as orações ensinadas por sua avó durante a infância. A coragem só retornou quando os primeiros raios de sol entraram pela janela. Ela andou pela casa e procurou o sinal da invasão, mas as portas estavam trancadas. Teria tudo isso uma alucinação? Estava quase se convencendo quando notou o tampo do teto da cozinha. Estava lá, fechando uma passagem para o suposto alçapão, mas colocada ao contrário do que ela tinha reparado quando levantou para o banheiro. Foi nesse momento que seu coração deu um novo salto. Um misto de medo e curiosidade.
Menos de uma semana após ter se mudado e o caminhão estava lá novamente, mas agora fazendo o caminho inverso. Lilian acompanhou tudo da calçada. Desde o incidente daquela noite fatídica, a mulher não passara mais um minuto sequer por lá, pedindo abrigo na casa dos pais que prontamente lhe assistiram dizendo, inclusive, que a menina, porque os pais sempre tratam seus filhos como eternas crianças, poderia ficar o tempo necessário. Do outro lado da rua, observando pela janela com seu poodle nos braços, Suzana via mais uma saída de vizinhos. A quarta pessoa a abandonar aquela casinha modesta naquela vila num bairro da Zona Norte carioca.
Lilian estava ao lado de seu pai no banco do carona sendo seguidos pelo caminhão da mudança rumo a um novo endereço. Ele falava e ela respondia, mas seus pensamentos estavam pregados naquele alçapão. Até fez menção em abri-lo, chegou a puxar uma cadeira e coloca-la sob o buraco no teto, porém foi tomada por um pânico insano. Podia ser novamente sua mente lhe pregando uma peça, mas, por uns breves segundos, juraria ter ouvido o som da maldita respiração vinda detrás daquele tampo.
Tratou de afastar seus pensamentos e embora fosse levar aquela curiosidade para o resto da vida, há coisas que é melhor ficarem sem explicação, principalmente as coisas do escuro.
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Atualizado em: Sáb 10 Set 2016

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