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A arte da barganha...

Meu pai tinha o velho costume de criar passarinhos. Sei que dizer isto pode ser um sacrilégio, mas naquela época convivia-se com este costume. Até hoje não sei se os tinha porque adorava o fato de ter uma cantoria pela manhã apenas para si, ou se gostava mesmo das barganhas feitas aos montes envolvendo relógios, bicicletas, rádios, revólveres, garruchas e os pobres pássaros presos na gaiola... já que vale o ditado, mais  um preso que voando.
E como rotineiro hábito saía aos domingos pela manhã para as roças, rever velhos amigos e eleitores, já que sempre foi chegado a política local. Num iluminado domingo de verão, foi até a Serra dos Quintinos em seu fusca amarelo 71, com um amigo do peito, para buscar prosa e também achar algumas coisas para nutrir o seu vício diário da barganha. Adorava  “dar uma manta”, principalmente nos amigos mais chegados. Quando ocorria isto, exibia como um troféu a troca da vaca doente pela novilha prenha, ou novo carro de bois trocado pelo fusca com motor queimando óleo. Não tinha este hábito por maldade, ou para enriquecer às custas dos outros, mas tinha  nisto uma arte, a arte de colocar valor nas coisas... Era realmente um vício, um jogo... tanto que não só dava manta, mas também levava. Tal qual aquele que joga todos os dias, tem o perde e ganha, não sabe parar no melhor momento e na média fica sempre no zero a zero.
Ia então com  o fusca pela estrada empoeirada, quando viu alguns conhecidos próximo a uma casa à beira do largo, parou com o fusca e começou a prosear sobre o tempo, sem chover à dias, a situação do gado, do capim, das roças de milho e arroz. Havia também um grupo de garotos em frente a casa com suas gaiolas de passarinhos exibindo os bichos de estimação. Eram coleirinhos, canarinhos, bicos de lacre, nada que valesse o interesse de meu pai, que se encantava com pássaros mais nobres, como os melros, azulões e trinca-ferros.  Seu interesse na verdade estava numa espingarda de chumbinho combalida com o tempo que um dos proseadores portava. Foi logo perguntando sobre a espingarda, de onde veio, para onde ia... e nestes rodeios começou a barganha. Trocava por um relógio de bolso Tissot único dono... Não queria trocar, mas estava precisando de uma espingarda igual aquela para deixar no sítio, pois podia precisar pra impor respeito e matar, quem sabe, alguma cobra, pois se não fosse isto, nunca trocaria seu Tissot, que nunca atrasou na vida, bastava coloca-lo no braço todo dia que o sistema automático cumpria o papel de dar corda.
Quando sentiu que o dono da espingarda estava inclinado no negócio, resolveu por mais um clima na negociação, pegou e foi verificar melhor a  espingarda. Pois só faria negócio se ela não tivesse o cano viciado, que não deslocasse a mira. Pegou a espingarda e deu um tiro em um arbusto próximo, o acertando em cheio. Enquanto recarregava novamente a espingarda, o amigo que veio junto com ele no fusca, deu uma boa gargalhada e soltou o desafio: “acertar aí é fácil, quero ver você acertar naquele canarinho dento daquela gaiola”. Neste instante meu pai olhou para o lado da casa quando viu uma gaiola pendurada com um passarinho dentro, nem titubeou ou mirou, acionou o gatilho em direção ao desafortunado pássaro que cantava  para alegria e orgulho de seu dono em frente aos demais garotos.
O garoto ainda sem entender o que se passava, correu para a gaiola e não teve dúvidas: começo a chorar dizendo que queria o canarinho dele vivinho de novo dentro da gaiola...
Meu pai não acreditou... havia acertado no pássaro que estava há uns 50 metros com uma espingarda de chumbinho?
Chegou então perto do garoto sem ter muito que fazer, olhou para ele e disse de forma enérgica e dura, que prender passarinho era crime ambiental, e que se a polícia florestal o visse com aquele canarinho ia prender os pais dele. O menino então arregalou os olhos assustados e com medo dos desenrolar dos fatos, parou subitamente de chorar... meu pai não teve dúvidas, a velha tática da barganha funcionava novamente, tinha conseguido mudar o valor das coisas em jogo. E continuou sua argumentação, que ele poderia chamar a polícia florestal para resolver o impasse ou então ele poderia dar uma nota de cinquenta por troca do jás canarinho que estava naquela gaiola, e reforçou que faria isto somente se o menino jurasse também que nunca mais prenderia passarinho algum.
Meu pai voltou então para casa sem cinquenta reais, sem espingarda e sem canarinho, mas com mais uma barganha no currículo.
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Atualizado em: Sáb 10 Set 2016

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