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Complexo Vazio

É interessante notarmos como expressões que carregamos conosco de forma tão natural e vazia, datam de um distanciamento cronológico inimaginável. É igualmente incrível percebermos como algo, hoje tido como tão simples, é resultado de um profundo e complexo processo de estruturação e criação intelectual.
  Tomemos como exemplo o "carpe diem", ideal amplamente difundido e idolatrado pelos “novos sangues” da nossa sociedade. O termo em questão é formalmente poético, mas essencialmente filosófico, compondo a principal base da linha de pensamento dos estoicos, vertente que buscava propor, literalmente, uma filosofia de vida.
  Dar-lhes-ei um pensamento comum que o estoicismo contrapõe. Digo contrapõe, uma vez que não rebate. Se dissesse rebate, estaria cometendo um anacronismo, dado que agora me utilizarei de uma expressão contemporânea a qual muito possivelmente não estava formalmente inserida na cultura helenística (peço perdão pela falta de conhecimento da cultura de tal período): “Os ignorantes são mais felizes”.
  São mais felizes, pois não arrastam o peso da reflexão e a petulância do descontentamento. Para o estoico, entretanto, o feliz é o sábio. Aquele que porta a sabedoria consegue viver do momento presente, consegue viver da contemplação, e não da intervenção. Tudo fará sentido mais adiante, não se preocupe.
  A "theoria", contemplação do divino, é a base de tudo. Divino para os gregos da época seria o "cosmos", a ordem pela qual o universo é racionalmente regido, ou melhor, racionalmente se rege. A busca de todo ser humano deveria ser entender tal ordem, e viver de acordo com ela, e não necessariamente de acordo com a ordem dos homens.
  Como já foi dito, a essência é a contemplação, e não a transformação. O indivíduo observa e aprende, observa e se adapta, buscando viver consoante a ordem do "cosmos". Ele visa encontrar seu lugar e sua função dentro da harmonia natural preestabelecida, ele vive de acordo com ela, não contra ela.
  Mas veja bem, isso não se dá de forma acéfala, mas sim através da sabedoria. Após captar a essência (o "cosmos"), ele elabora o conhecimento. Ele não apenas deixa que a vida flua, mas ele entende que a vida deve fluir, e como deve fluir. É então que retomamos o ponto introdutório dessa divagação.
  Como foi dito, a vida tem de fluir, e para que isso ocorra, é necessário que o indivíduo se concentre no momento atual, no presente. Ele precisa se desvencilhar das ancoras do passado e das falsas amarras que levam até o futuro. A nostalgia e, diferente do que o cristianismo afirma, a esperança devem ser combatidas. O fim único de nossas vidas não está no futuro, não consiste  no transcendental, alcançado após a morte e oferecido pela fé religiosa, mas no material, no atual.
  O ser humano tem uma necessidade – compreensível – de se eternizar, a vida mortal não o satisfaz. A religião tenta entregar isso a ele através do imaterial, enquanto a filosofia entrega através do material. A vida não deve se sustentar na esperança da salvação espiritual, ou da possibilidade de vida após a morte. Ela não deve ser um meio, mas sim um fim.
  A vida é um fim em si. O sábio se desvincula daquilo que não compõe seu momento, da angústia, da tensão e da nostalgia. Ele aprende a seguir a ordem e a contemplar o "cosmos", consolida seu lugar no universo a cada instante. O sábio não necessita que seja lembrado por seus sucessores, ou que tenha lugar em algum outro plano espiritual.
  Ele sabe que a eternidade reside em cada momento, ele eterniza o presente, transcende o atual. Assim, o futuro não o frustra e o passado não o prende. Ele é eterno.
  "Carpe diem".
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Atualizado em: Dom 4 Set 2016

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