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A Amarelinha

Imagine o dia em que alguém se aproxima de você e diz: “Pare, pare agora! Largue tudo o que está fazendo e me obedeça”. E então ordene: “Comece a pular amarelinha. E nunca pare!”. E você obedece. Não sabe o exato motivo, mas mesmo assim obedece. A partir desse momento você passa a pular amarelinha por pelo menos 5 horas diárias, com dois dias de pausa durante a semana.
  É-lhe dito que quanto mais pular, uma melhor pessoa você se tornará. Esse alguém insiste que você deve continuar, sem cambalear e sem desistir. Você obedece. Por 10 anos pratica quase que incessantemente a arte da amarelinha. Aprende como pular melhor e mais rápido, aprende a melhor superfície possível para a prática, assim como a melhor maneira de posicionar os pés nos quadrados da brincadeira.
  O processo é penoso. Você não sabe o porquê de tudo aquilo, não sabe o motivo pelo qual tudo gira em torno da amarelinha. É cada vez mais sacrificante levantar pela manhã, tomar um rápido café, calçar seu tênis e então ir pular mais uma vez. Mas você continua. Essa é sua rotina, é o que faz durante todos os dias da sua vida, e provavelmente o que fará pelo resto dela.
  Já lhe foi contado que um dia seus conhecimentos seriam postos a prova e que sua habilidade definiria o caminho que trilharia desse momento em diante. Você não questiona, apenas obedece. Se falhar no teste, não há problema, por mais um ano treinará e caso não seja suficiente, treinará por mais outro, e por mais outro, até que esteja preparado.
  O grande dia chega, já com os pés extremamente calejados, você consegue. PARABÉNS! Finalmente passou no teste, todo o trabalho que teve foi por um bom motivo, agora você reconhece. Ou não.
  Por esse breve momento, você se torna pura euforia. Pura não pela intensidade do sentimento, mas pela sua exclusividade. Sente apenas euforia, e nada mais. Não há noção de conclusão ou de êxito, de glória ou de orgulho. Você deve ficar feliz. Você obedece. Agora está apto a aprender técnicas superiores de amarelinha, e o ciclo se reinicia.
  Como se sente? Fazendo sempre mais do mesmo, sem ter motivo, sem ter vontade, sem entender o que se passa a sua volta, apenas cumprindo ordens desse alguém. Percebe, então, que esse alguém não é uma pessoa, não é sua mãe, não é seu pai, seu professor e nem seu avô, mas na verdade é um ente. Um ente chamado sociedade.
  Não sente; segue enfrente.
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Atualizado em: Ter 23 Ago 2016

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