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Para a morte, a vida basta

É possível ouvir, ao longe, o barulho da terra sendo movimentada. Uma mão fria avança sem ímpeto para fora do lar dos vermes, com ela traz a sua irmã destra e fazem um apoio ao lado da terra fofa para trazerem consigo o corpo portador das mesmas. Em um devaneio esotérico Zara levanta-se, enquanto uma minhoca passeava por sua sobrancelha esquerda e com estranheza é retirada. 
Sacode a terra, pensa estar acordando de um terrível sonho (daqueles que nos sentimos fora de nós mesmos, daqueles síncopes momentos que nos desencontramos de nós em nós, e voltamos a nos reencontrar ainda mais longes de nós mesmos, no profundo de nossos medos e angústias), mas verifica sua pulsação, olha sua roupa suja, suas unhas incrustradas de terra, recorda-se do ocorrido e leva suas mãos à garganta verificando a existência da ferida que já não doía-lhe mais, mas continuava com a mesma profundidade do momento do ocorrido.
 Chocado, ameaça dar uns passos vacilantes, ele, tonto, cambaleia por entre alguns segundos encostando-se em uma lápide, reparou bem, esfregou os olhos para ler melhor, leu pausadamente, estupefato, era seu nome, verificou onde estava, concluiu... o cemitério. Depois de alguns minutos de torpor tentando se lembrar de todo o evento, surgiram-lhe duas hipóteses: ou ele estava vivo, mas deram equivocadamente o diagnóstico de morto e lhe enterraram vivo (ele conhecia os médicos daquela cidade e sabia que não teriam dificuldade em errarem) ou ele estava, de fato, morto, mas lhe deram uma chance de voltar pra fazer algo. Mas, se lhe deram a chance, quem o fez? Nunca foi religioso, não se sentia especial e sabia que não era. Nenhuma entidade lhe daria o direto de viver de novo para algum propósito. Não acreditava nem em sua própria vida, muito menos em sua morte ou no seu estado morto-vivo.
Entre as confusões de sua própria mente, ele lembra da única certeza que lhe turva a razão: o amor, ou melhor, sua amada. Ele prostra-se, e mira seu nariz na direção da cidade, caminha em seu ritmo habitual e vê passar diante dele, assombradas, algumas criaturas que o observavam com curiosidade e medo, olhando-as força um sorriso amarelo na intenção do cumprimento em morte imitar ao da vida –mas quando a morte lhe cumprimenta, poucos são os que a respondem em vida – apavorando-as e afastando-os ainda mais. “Se em vida já era morto pra eles, agora morto os assombro”, pensou consigo enquanto terminava de bater suas mãos na calça, retirando os últimos detritos. 
Alcançando a entrada da cidade, dispôs-se a entrar com a autoridade que a morte lhe dava: a segurança. Passando, atentamente, pelos bares que introduziam o pequeno vilarejo, percebeu ser alvo dos olhares temerosos dos cidadãos que ali se chocavam. Aproveitando da condição de finado, olhava-os induzindo-os ao pior dentro deles e, como ninguém suporta o próprio abismo, todos corriam a fim de que os pensamentos fugissem junto com as pernas, pra bem longe, a fim de nunca mais serem encontrados, se perderem no caminho de retorno à casa mental. 
O esmaecido recordou-se que era uma quinta e às quintas eram dias de show, portanto toda a cidade estaria na danceteria principal do lugarejo. Ele dirigiu-se, abriu lentamente às portas, percebeu sua invisibilidade mediante a parcimônia dos seguranças que entretinham-se com a música agitada, caminhou até ser acolhido pelas sombras de uma grosseira pilastra. Atento, avistou sua amada que, já estava acompanhada do rapaz que o havia degolado, “nem esperou meu corpo esfriar” pensou consigo, mas por algum motivo não conseguiu sentir raiva do rapaz, apenas indiferença, pensou que essa era a consequência de estar morto: ser frio. A música terminava, ele pegou uma cerveja de uma mesa próxima sem que percebessem e foi caminhando em direção ao palco sem ser notado, ao subi-lo e escancarar sua condição, exalou a todos a necessidade de fugirem conforme reconheciam a pessoa e seu estado. 
Puxou uma cadeira, sentou-se no palco, viu do rosto de Mira escorrer uma lágrima, a mesma que viu no momento em que estava a sentir o aço frio da faca, ajeitou-se melhor sobre a cadeira, encarou seu assassino fixamente nos olhos e via nele a mesma sensação de morte e desespero que ele sentiu ao descobrir-se vivo, quando estava morto, é como se o cemitério inteiro de seu coração estivesse sepultado em seus olhos. O assassino, atemorizado, balbuciava apenas “como?...como?”, mirando-o na pupila foi capaz de responder-lhe:
- Uma faca pode cortar meu pescoço, ainda sim não é capaz de me parar. Porque para além do sangue que corre pelas minhas veias, a minha vida é regida pelo amor que pulsa pelo meu coração e este, senhor, ninguém é capaz de esfaquear.
Sua tentativa rota de dar uma resposta conflitante foi suficiente pra fazer com que seu algoz retirasse trêmulo do estabelecimento, deixando Mira sentada, estática observando-o de perto e, com a coragem que não conhecia que tinha, ousou perguntar:
- Quem é você? – perguntou trêmula a menina
- Pensei que fosse me reconhecer, mesmo depois de morto...
- Não, claro que sei quem é você, quis dizer... É... Mas, o que é você? – interrogou descompassada
- É fácil identificar um morto quando se vê um, Mira, ele já não carrega as mesmas ambições de um vivo. Não se prega a morte para um morto, para ele a própria vida já lhe basta de consolo ou pesar, jaz com ele a ambição de viver e a necessidade de morrer de novo, mas, em verdade, te digo que em paz ninguém descansa...
Levantando-se da mesa do bar, encarado fixamente pelo dono que trazia em cada fragmento de tempo o restante daquilo que ainda não pode perder, enquanto sua amada tendia a mirar sua altivez, desacreditada do que presenciara, embora não surpresa e nem desconfortável com a presença, afinal já havia desfrutado da companhia da morte e de mortos por tantas vezes enquanto visitava o museu de suas próprias lembranças, vez ou outra, verdadeiramente, se confundia sua melancolia com o próprio cemitério da cidade, enquanto esperava ela, ansiosa, pelas palavras finais do cadáver que se punha defronte, mas ele apenas sorriu, virando-se, deixou a cerveja vazia no balcão, cumprimentou o dono e saiu pela porta ajeitando a roupa.
Embora o medo seja terrível algema, Mira sentia-se livre, levantou-se e, segurando a porta do bar surpreendendo o defunto que prestes fechar-lhe-ia, não se esmoreceu e continuou:
- Espera! Onde vai?
- Para onde sempre pertenci – ora quando nasci saí através de um buraco, nada mais justo que voltar para outro – riu com dificuldade, demonstrando a chaga aberta no pescoço que lhe escorria suavemente a cerveja já desfrutada – E, para onde vou é pedido que fique, que não vá junto.
- Como assim? Quem pede? – pergunta destemperada
- Eu mesmo, ué. A vida não deve dar atenção à morte, Mira, senão ela esquece de cuidar de si, a vida lhe basta a própria vida. 
Seguiu o caminho inverso, com o destino para o cemitério, sabendo que não havia deixado nada para trás, senão a própria certeza da vida. Passou pela entrada da vila e percebeu uma senhora que, gentilmente, o observava, ele sorriu, ela o olhou com olhos que lhe sorriram de volta e ele comentou:
- Engraçado a senhora não se assustar com meu estado.
- Já vi piores, meu amigo. – comentou sorrindo a senhora.
O morto prosseguiria com seu caminhar, quando sentiu a destra da senhora tocar-lhe suavemente o ombro esquerdo e, virando-se, recebeu da mesma uma modesta flor com o singelo comentário da matrona:
- A vida, como a conhecemos, é escrava e órfã do tempo, mas a gentileza, a candura e o amor são necessários aos vivos e aos motos, sem exceção.
- Ainda sim, não consigo compreender sua serenidade mediante ao quadro. Um morto entre os vivos, minha senhora? Não acha isso no mínimo estranho?!
- Depois de todos esses anos viva, meu querido, com todo respeito, a minha pergunta seria porque há ainda tantos vivos entre os mortos?!
Ele sorriu, como não sorria há anos, daqueles que despontam nos lábios e se estendem ao coração, e achou engraçado a piada infame da necessidade de estar morto para sorrir de verdade uma última vez pela vida. Se, de alguma forma, ele recebeu a possibilidade de voltar por um dia, ele poderia considerar sem o peso de sentir-se egoísta (porque estava tão acostumado a deixar suas vontades de lado que, quando se priorizava, sentia-se mal) que, finalmente, havia voltado para si mesmo, para poder sorrir, inclusive quando a vida, por uma última vez lhe dissesse não. 
Prosseguiu caminhando até a entrada do cemitério, parou próximo ao portal, sentiu-se observado, estranhou o frio na espinha, - estava morto, nada mais podia acontecer-lhe - embora a própria ironia de sentir-se observado pela vida, exuberante e linda, que deixava o miocárdio, que já não mais lhe sanfonava, um último acorde, de esperança e saudade, na promessa de ressoar pelo infinito, nas mini orquestras que, juntas, compõem o musical da existência. Ele sorriu para ela mais uma vez, ela sorriu de volta enquanto lhe despontava do canto esquerdo do olho destro o licor da melancolia, trazia consigo todas as palavras que queria dizer, mas jamais foi capaz de dizer, ela guardou consigo a certeza que para os mortos não lhes bastaria somente o caixão ou o buraco, mas a vida e a saudade já lhes havia dado o pagamento que ela precisava, embora não achasse que merecesse.
Ela nunca foi boa em dizer “adeus”, embora sempre soube guardar a certeza do retorno, dessa vez ela sabia que o retorno já não mais viria, que a morte pegava aquilo que era dela – ou pelo menos que ela considerava que fosse - e lhe dava a vida como presente. Os passos do morto em direção à cova soaram como “tique-taques” de um relógio que nunca para, mas tem data certa para o despertador tocar e ela ponderava quando que seria sua hora de acordar. Ela deixou a neblina apagar a visão do cemitério e, tornando-se para o caminho de volta viu a senhora fechando sua venda de verduras, que lhe disse:
- A noite chega para todos.
- Infelizmente... – comentou pensativa 
- Pois é, menina, tem mortos que nunca aprendem a viver e tem vivos que jamais aprendem a morrer...
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Atualizado em: Seg 9 Set 2019

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