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Da série: me perguntaram - estranhos sós

Ana Paula, moça pacata de uma cidadezinha do interior de algum canto desse país, é telefonista numa empresa que fica no centro da capital onde mora. Todos os dias ela levanta cedo, com certa preguiça toma seu banho e vai trabalhar. Uma hora e meia intermináveis de um trânsito caótico que a esgota de cansaço mais que o trabalho feito diariamente. Gosta de música e não se dá muito à simpatia com estranhos. Já sai de casa com os fones no ouvido, mesmo que a música esteja desligada, afinal “vai que alguém resolve puxar assunto? Melhor evitar”, ela sempre pensa. Naquela manhã, atrasada, saiu na correria de casa e esqueceu os fones em cima da cama. E assim... Para no ponto. Inquieta, bate os pés e samba de um lado para o outro impaciente na espera pelo ônibus. Vê o ônibus e pensa: “lá vem a coisa entupida! Aff!”. Dá sinal e se surpreende ao entrar! Ele estava vazio! Passa a roleta sorridente e escolhe onde quer sentar... Pensa: “melhor ir pro fundão, porque até encher e alguém chegar lá vou ficando sozinha na minha”. Senta naquela cadeira lá do fundo, perto da porta e quase se deita nela, sentindo-se dona do lugar. O ônibus segue e para dois pontos à frente. Entram várias pessoas e ela pensa: “nuuuu! Vai entupir! Mas tô de boas, o busão tá vazio”. E sorri consigo mesma. Observa a escolha de cada um sobre seus lugares e escorrega na cadeira se jogando, quando de repente, repara uma mulher vindo em sua direção. Ela pensa: “ah! Tô de boas, o busão ta vazio!”, mas nota que alguém vem em sua direção. E pensa: “ah neeeem! Sai de mim! O busão tá vazio sô. Vai pra lá. O busão tá vazio, o busão tá vazio, o busão tá vaz...”. E a mulher senta ao seu lado, quase empurrando-a para o canto. Ela se ajeita no lugar e pensa: “grossa, mal educada, num tá vendo eu aqui não? Topeira!”. A mulher se vira e pergunta: que oras são? Ela pensa: “num te interessa!”, mas educadamente olha no celular e responde com um quase sorriso simpático nos lábios: “sete e quinze”. A mulher se vira sem agradecer e ela pensa: “vaca, nem vai dizer obrigada não?”, mas não diz nada e se vira para a janela, num ato de quase sair por ela, grudando a cara no vidro para evitar mais contato. E a mulher se vira de novo perguntando: “Você tem filhos?”. Ela pensa: “não é da sua conta intrometida do ca**lho!”, mas sorri um riso leve e responde: “não, não tenho não”. E a mulher se empolga e começa a lhe contar animadamente sobre sua vida, seu trabalho, seu marido e filhos, sua grande família, suas viagens de trabalho e lazer... Ana olha para ela com mil e um pensamentos mirabolantes, fingindo ouvir, mas planejando formas inacreditáveis de explodir aquela pessoa da cadeira ao seu lado! Quase meia hora de suplício, ouvindo intimidades de uma estranha no ônibus, a mulher se despede e desce. Aliviada por se ver livre daquele constrangimento de ter que fingir dar atenção para toda aquela história que em nada lhe interessava, Ana pensou: “me perguntaram dia desses, o que é solidão? Hoje eu aprendi. Solidão é estar cercada de gente por todos os lados e sentir necessidade de falar sobre sua vida íntima com uma estranha no ônibus!”.
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Atualizado em: Qui 22 Nov 2018
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