person_outline



search

O açougueiro

De novo!... Como isso acontece? Como vim parar aqui? Que lugar é esse?... Acho que estou louco, meu Deus! Não, não estou... estou ciente de tudo, minha mente está perfeita; posso sentir. Meu Deus!, é pior: acho que estou... não; não acho, tenho certeza, mas não ouso falar.  A cada nova viagem minha mente se confunde e essas malditas perguntas retornam.
    É um conjunto de três prédios velhos de quatro andares cada. São idênticos, mas o do meio está completamente desabitado e decadente, diferenciando-se nisso dos outros dois.
    Estou em frente a prédios, mas não há ninguém por perto. Tudo está em silêncio absoluto. Os avisto por completo: menos por dentro; dentro não consigo; parece que há um estranho campo de força me bloqueando a visão. Todas as lembranças vão surgindo; surgindo em camadas. E aquela mais terrível, aquela de 1986 outra vez me persegue e me dilacera. Os malditos prédios se parecem muito com os conjuntos habitacionais de Chernobyl, e tenho aquela velha sensação de abandono e marasmo, de coisa estagnada tão peculiar à cidade ucraniana, mesmo antes do acidente.
    Não sei por que estou aqui. Não sei! Deus, não sei!... Semana passada estive em Londres e na anterior em Budapeste. E aquele terrível acidente de avião... Deus!... Deus do céu, aquela cena me tiraria os nervos se eles ainda estivessem comigo. Pobre menino, pobre menino!... Queimando em sua poltrona... E eu nada pude fazer. Nada! Nada... Mas por que eu estava lá? Por quê?...
    Agora um homem passa por mim; vai muito apressado, quase correndo. Parece está contorcido de raiva... não sei bem... talvez dor... dor e angústia, desespero... raiva, muita raiva e medo... Isso mesmo: o medo o domina completamente. Como sei disso? Como?  Não vejo o seu rosto, e nem mesmo qualquer pedaço de sua pele, a não ser as mãos. Mas sinto; sinto tudo ao redor... Tudo; como se eu fosse uma maldita antena. Às vezes não vejo nem sinto nada, como se o sinal ficasse fraco. É desesperador. Desesperador!
    Está cabisbaixo, o homem; e eu não consigo me desligar dele; é como um ímã me puxando... Já conheço esse tipo de situação e sou forçado a segui-lo, seguir o seu caminho, não posso mais seguir o meu... Deus, que armadilha é essa!?
    Não posso perdê-lo de vista... Lá está ele, tem a cabeça coberta por um agasalho de capuz, um pé de tênis desamarrado e esfarrapado, pois pisa nele pela rua coberta de pedregulhos. Julgo seu estado tão caótico e enlouquecido ao cruzar comigo que o cadarço, com toda a certeza, é o menor dos seus problemas. Traz numa das mãos uma corda enrolada e na outra um banco de madeira. Na rua não há ninguém, salvo a mulher que surgiu perto do poste. Ela é esguia, mas tem muitas curvas; sua beleza é envolvente, envolvente a ponto de mesmo eu, que já não sinto sensação carnal, desejá-la de um jeito incontrolável, quase doentio. Tem cabelos negros levemente ondulados e olhos desabitados que insinuam a beira do abismo, saltam do pescoço fino veias grossas e azuladas, acentuadas pelo branco mórbido de sua pele; arrasta uma mala com rodinhas que rangem de um jeito monótono, usa um impecável terno violeta e sapatos elegantes da mesma cor. Decididamente existe algo arrepiante nela, algo maligno e doce ao mesmo tempo, algo irresistível e sedutor nessa mulher de rosto imparcial deslocada na paisagem. Ela masca mecanicamente um chiclete, então tenho a certeza que alguma coisa notável irá acontecer logo, logo.
    O homem quer entrar no prédio, mas aparenta um receio... não sei bem... de novo a merda do sinal está fraco... Um grande receio... Como se dentro estivesse o fim; olha em volta com angústia redobrada, talvez se certificando de que não é observado, ou à procura de algo desconhecido a ele para poder ajudá-lo; clama por ajuda. Então, num ato de desespero instantâneo, puxa, com as duas mãos, os cabelos como se quisesse arrancá-los da cabeça e cai de joelhos, socando com violência o chão de terra. Logo se levanta e corre em direção ao caminho por onde veio; passa novamente por mim e, em seguida, cruza com a mulher. Ela sopra-lhe ao ouvido de um jeito lânguido e ele para bruscamente. Uma fina poeira sobe e rápido se desfaz; de repente, toda sua figura se torna cheia de decisão. O homem não vê, absolutamente, a tal mulher, pois do contrário não teria chorado como uma criancinha (mesmo durante aqueles breves segundos) ao retornar à frente do prédio, e jamais teria tirado a cueca do ânus, porque homem nenhum tem a coragem de mostrar-se patético e desarmado na presença duma mulher, muito menos sendo ela, diabolicamente, atraente. Não mesmo! Nem na hora da morte. De alguma maneira obscura a dedução, a mulher é invisível ao homem. Por que não a mim? De vez em quando ela me olha de rabo de olho e eu gelaria. Ou arderia, talvez.
    Depois de limpar o choro, ele volta a olhar ao redor, e da maneira que o faz fica evidente que esse gesto, agora, tem um quê de despedida. Então entra e desaparece.
    O quarto andar é – todo ele – um enorme salão repleto de cadeiras e mesas sujas, quebradas e velhas, alguns ventiladores de teto jogados pelo chão, discos de vinil também quebrados e espalhados pelo lugar, roupas já muito usadas, gastas e empoeiradas (quase todas rasgadas) penduram-se nas pontas de vidros das janelas que têm seus estilhaços untando o chão próximo às paredes, margeando todo o perímetro do andar. Colchões deformados e fedorentos estão uns sobre os outros. Em suma, uma desordem absurda, abrigo de aranhas e insetos; um amontoado de quinquilharias e despojos dos anos, dando a imaginar que ali houve uma batalha feroz.
    No centro desse ambiente babélico está um homem atormentado e de capuz: Bruce Walker, de Alamosa no Colorado. Açougueiro, filhinho único sem pai. A mãe estava sobre uma cama, vegetando. Mas mesmo antes já não andava bem. Ela fez-lhe tudo o quanto pode na vida, mimou-o. Bruce era um reizinho convicto, e todo satisfeito da mãe que lhe pôs a coroa. Orgulhoso de ser quem era: o melhor açougueiro de Alamosa. Não faltava carne fresca no seu açougue, de porco e de boi.
    Com a mãe nutria, em acordo com a voz popular, um laço forte e uma grande unidade. Ela nunca o reprimia e ele de modo algum a repelia, mesmo quando era tratado - e havia constância nisso - como um incapaz sem poder de decisão; mesmo tendo já ele quase 40 anos. Não se pode negar que essa mãe tinha lá seus meios de não se mostrar abusiva ou ditadora; talvez, inclusive, esses meios não passassem do seu natural, do seu espontâneo. Existe sim a hipótese da mãe está alheia a tal conduta de aspecto premeditado e tudo não fosse mais que originalidade. Em todo caso, ele parecia, de fato, não se incomodar com nada do que ela estabelecesse como diretriz ao par. Estavam sempre juntos, fosse de dia, fosse de noite; nas praças, na igreja, no cinema, no açougue.
   - Deus seja louvado! - alguém sempre falava na igreja. - Família pequena, mas unida... E que filho dedicado!
    Mas sobreveio a calamidade: um derrame fez da mãe uma inválida e ele ficou só, recebendo de herança as carnes inertes para cuidar. Perdeu o reinado de uma hora para outra e também, como consequência, sua única companhia e súdita. Não tinha amigo algum, apenas os clientes do açougue. Nem namorada. Aliás, as moças o achavam bem bonito, mas o jeito sinistro e fechado espantava a todas. Jamais se dispunha a rir, Bruce Walker.
    – Isso não é justo, seu filho da puta! – gritou no hospital com o médico ao receber a notícia do estado da mãe. – Deus filho da puta!
    Passou cinco dias sem sair de casa, com portas e janelas fechadas; não aceitava visitas para a mãe acamada, não atendia telefonemas, nem mesmo respondia ao chamado da campainha. No sexto dia foi visto pela vizinha, todo descabelado com um aspecto horrível e encardido. Ela estranhou bastante vê-lo àquela hora, no meio daquele breu todo, quase imperceptível aos olhos, e ainda por cima cavando no quintal.
    - Tsc, tsc, tsc... O pobrezinho enlouqueceu de vez! - calculou a solitária senhora. - É a mãe!...
   Foi graças a escuridão quase total, só amenizada timidamente pela curiosidade de uma lua desbotada e bisbilhoteira, que a vizinha não viu direito o que Bruce fazia, se enterrava ou se apenas mexia na terra. E é claro que qualquer das hipóteses poria o homem na condição de atormentado, mas a segunda equivaleria, indubitavelmente, a constatação da loucura total e irreversível.
    Mas como a tudo o cérebro humano sabe desconfiar ou formular previsões, a solitária senhora conjecturou, para além da loucura, algo a mais do que esta primeira sensação, e um vulto gelado lhe encostou no coração, dividindo, dessa forma, o órgão ao meio: de um lado o desequilíbrio mental e do outro algo que ela mesma não podia maquinar precisamente; mas com toda certeza cheirava a um mistério agonizante.
    - Mas que estranho!... A essa hora!...
      Jamais cuidara de ninguém esse homem nublado. Por toda a vida foi cuidado; estava, por isso, irado e agressivo; gritava e batia na inválida longe do olhar e do conhecimento de todos. Nessas horas saiam lágrimas dos olhos dela, e um som rouco e abafado causava asco ao filho.
    – Traidora!... Traidora!...– dizia rangendo os dentes ao subir as escadas do prédio.
    Quando criança, Bruce gostava de matar filhotinhos ou torturá-los, às vezes punha-os em formigueiros e olhava a cena divertido. A mãe viu nisso um traço de doença mental, uma perversidade incoerente com uma criança; mas não quis recorrer à ciência para esclarecer a coisa, preferindo repousar o coração materno sobre o fino travesseiro da dúvida. Achou menos perigoso e menos triste inventar a dúvida, e essa falsa dúvida foi embalando seus sonhos de mãe até, gota a gota, com o correr do tempo, forjar-se em verdade absoluta: "Meu filho é um homem são e perfeito". Assim, a mãe fechou, de vez, os olhos e passou, sem receios, a mão sobre a cabeça do garoto esquisito. Aliás, corroída por um remorso desqualificado por ter pensado mal da mentalidade do pobre Bruce, intensificou o exagero nos cuidados a ele. E foi assim até o fim.
    Enfim, também entro no prédio. O homem está, agora, em pé sobre o banco, com o laço já pronto e esperando o pescoço, ele chora novamente feito um garotinho frágil. Deus!... Consigo ler sua mente!... Consigo agora!... Que terror, que tragédia! Que coisa abominável!... Como teve coragem? Assassino doente! Matou a mãe amorosa e equivocada.
 – Maldita velha desgraçada! Acabou com a minha vida! – vocifera. – E agora quem vai fazer a torta de maçã? Quem vai fazer massagem nos meus pés à noite quando chego do trabalho? Quem vai amolar minhas facas? Quem? Quem?... – diz tremendo e espumando feito um cão raivoso.
    Nos dois minutos seguintes fica estático em cima do banco com a corda envolta no pescoço, olhando para o chão e ainda chorando baixinho. Vasculha, então, as lembranças do dia do matricídio. Vasculha para ele e para mim. O maldito assassino quer a última lembrança macabra para justificar o seu ato e a sua raiva.  Matou à paulada.
    Mas primeiro cortou-lhe a língua para não mais ouvir aquele som irritante de foca, depois quebrou-lhe os membros e, por fim, rachou-lhe a cabeça com o seu martelo de carne, espalhando os miolos pela cama. Em seguida limpou a sujeira minuciosamente, colocando tudo num pequeno saco de lixo preto; tirou toda a roupa da morta, vestiu-a com um avental xadrez com cheiro de banha de porco, costurou-lhe a cabeça rachada, pondo dentro uma pequena economia de dois mil dólares; extraiu-lhe todos os órgãos, substituindo-os por peças de roupas dela besuntadas de clorofórmio e outro produto químico. Finalmente pegou, todo trêmulo, algum objeto da velha sobre a penteadeira cheia de perfumes vencidos, oculto numa caixinha de madeira preta com laço vermelho, e foi para o quintal já de madrugada, carregando também o saco de lixo preto. Retornou depois de breves minutos.
 - Oca! Está oca agora, assim como você me deixou, perversa.
   O último ato foi embalar o corpo num grosso saco plástico com zíper; escondeu-o na câmara frigorífica do açougue comprado com o dinheiro da mãe empalhada.
    Bruce ergue a cabeça, mostra o rosto contorcido pela raiva, limpa as lágrimas e diz pausadamente: “Mal-di-ta...” Logo em seguida repete o mais alto que pode, fazendo expandir-se um longo eco pelo prédio abandonado: “Maldita...” E empurra o banco para trás, jogando-se à morte.
    Quase no mesmo instante, um sobrenatural ranger de rodinhas e um som característico de sapatos enchem o ar. Um pombo solitário arrulha próximo, concedendo justificativa aos piores agouros, mas logo voa espantado pelo barulho. O corpo do açougueiro treme e ainda balança com um restinho de vida na corda quando um chiclete mascado é lançado e cai próximo a ele.
Pin It
Atualizado em: Ter 12 Dez 2017
  • Nenhum comentário encontrado

Curtir no Facebook

Autores.com.br
Curitiba - PR
Fone: (41) 3342-5554
WhatsApp whatsapp (41) 99115-5222