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Diário de um passageiro (paródia da música "Diário de um detento")

"Atlântico Norte, 14 de abril de 1912, 8h da manhã.
Aqui estou, mais um dia.
Com o olhar para fora da vigia.
Você não sabe como é navegar na terceira e nesse frio de rachar.
Vou conversando com um tal de Manuel.
O nosso Capitão é bem cruel.
No navio em pé, tripulantes de má fé.
Servindo ao Smith, um capitão bom.
Comandante, só se misturava com os “Dom”
Primeira classe eu  desejo.
Nela eu penso.
O dia tá frio. O clima tá tenso.
A mudança de vida é tudo que eu quero.

Mas na grande Nova York, a minha chance é zero.
Será que Deus ouviu minha oração?
Será que o juiz aceitou a apelação?
Mando um recado lá pro meu irmão:
Se tiver com prostitutas, tá ruim na minha mão.
Ele ainda tá com a italianinha.
Pode crer ela é boazinha.
Tirei um dia a menos ou um dia a mais, sei lá...
Tanto faz, os dias são iguais.
Acendo um cigarro, e vejo o dia passar.
Na proa do navio acho que vou vomitar.
Deus quantos homes e muita mulher.
Terceira classe é diferente, né?
Somos maus vistos toda hora, não chegamos aos seus pés
Um homem vai morrer na cabine 10.
Cada passageiro uma mãe, uma crença.
Cada vida uma desavença.
Cada vida um motivo, uma história de lágrima,
sangue, vidas e glórias, abandono, miséria, ódio,
corre compre logo a passagem, seja ligeiro.
Misture bem essa química.
Pronto: eis um pobre passageiro
Conversas no corredor, nas cabines, na proa.
Ao redor das mesas, da primeira classe.
Mas eu conheço o sistema, meu bom.

Lá na primeira não tem santo.
Rátátátá... Preciso evitar
que um tripulante faça minha mulher chorar.
Minha palavra de honra não se aceita
pra navegar num navio das calças preta.
Tic, tac, ainda é 6h40.
O relógio no navio anda em câmera lenta.
Ratatatá, na Segunda classe vou passar.
Tem  gente de bem, afobada, católica.
Lendo jornal, satisfeita, hipócrita.
Tranqüila por dentro, a caminho dos EUA.
Olhando pra min, curiosos, é lógico.
Não, não é não, eu não sou psicótico
Minha vida não tem tanto valor
quanto a do milionário John Jacob Astor
Hoje, tá difícil, o frio não parou.
O navio ta rápido Capitão comemorou.
Os companheiros de cabine, são bons de papo.
Bebemos rum, jogamos buraco.
Peço a Deus uma viajem tranqüila.
Pelos meus cálculos só faltam dois dias.
Tem uma cabine lá em cima fechada.
Desde duas horas ninguém abre pra nada.
Um tripulante correndo nos contou sem demora

Um passageiro roubou uma senhora

Quem foi? Quem sabe? Não conta.
Foi preso numa cabine escura lá na ponta (...)
Assim vai ser minha vida daqui pra frente
Em Nova York, longe dos parentes
Meu senhor me diz agora
Um emprego tá esperando você.
Pega aquele seu uísque importado.
Seu currículo em Belfast, deixa de lado.
A vida na Europa é sem futuro.
Sua carreira fica branda desse lado do mundo.
Já ouviu falar de Lúcifer?
Que veio do Inferno com moral.
Um dia... no Titanic, terceira classe, é só mais um.
Comendo comida ruim sem dignidade...
Aqui tem gente de Paris, Southampton, Cherbourg,
Queenstown, Northlew, Devon, Rússia
Suécia, Irlanda Itália.
Passageiro bom passei pelo convés.
Eu passei o dia na cabine com dez.
Três classes 2.240 pessoas.
Que pagaram no mínimo US$ 35, cada.
Algumas horas, um oficial veio aqui
Passou apressado nem a cara eu vi

Falou que o rapaz da cabine escapou
Assaltou uma senhora, agora roubou um doutor.
Pagando de bonzão ele interroga e abusa
com nós da terceira classe como um objeto ele usa.
 “Fale logo rapaz onde o bandido está

 Ele roubou uma senhora e agora escapou?"
Aquele homem psicótico no mar se atirou.
O homem era louco matava sem dó.
Ele estava sentado numa cabine maior
Agora foi pro fundo do mar com seu paletó!
Essas coisas me incomodam
Vou sentar no convés pra ver se melhora
E o navio navega, nesse imenso mar
Não já já Nova York tá aí

Vou desembarcar, de lá não vou sair.
Se for emprego ruim, não tenha dó de min.

Emprego na Europa tá muito ruim
Fui pra cabine me deitar, com Deus nosso Senhor
Navio Navegando a todo vapor

11 horas da noite eu senti um calafrio.
Era do vento e também do frio
Senti o navio dá uma tremida
Houve algo errado, disso eu sabia.
Manter a calma é o que todo passageiro tenta.
Nós fomos acordados de forma violenta.
Mandaram colocar os coletes em todos,
Subimos correndo, a grade trancada

Fecharam a grade, tem água na cabine
Acabou-se o navio está afundando
Num ice Berg ele foi bater
Os vigias do mastro custaram a ver.
Dois homens desesperados começaram a discutir.
Mas não imaginavam o que estaria por vir.
Água subindo chamei meu amigo Mário.
Mulheres e crianças primeiro seu otário.
Abriu uma brecha no casco do gigante.
Vamos descer os botes imediatamente.
Ficamos trancados num salão, eram muitos homens.
Mandando SOS pelo radiofone.
Ratatatá, a banda tocava.
No convés mulheres desesperadas!
Corriam choravam, procuravam parentes...
A água está subindo tá morrendo mais gente!
Terceira classe é descartável no navio.
Naquela noite gelada de abril.
Bote pra mim? Claro que eu quis.
Subi e fiquei muito feliz.
Ratatatá! A chaminé cai sobre a água.
e dezenas de passageiros ela esmaga.
Um senhor pulou na água
olha só que agonia
Dois minutos depois morreu de hipotermia
sem chance, sem colete
gritando por socorro.
Vai afundar com o navio o senhor do lábio roxo.
Cadáveres na água, banhando ou submersos
Capitão Smith não deixou seu posto!
A água do Atlântico é fria todos penam.
O bote se afasta ao longe eu vejo
Ratatatá, o navio se parte
A proa afunda a popa vai junto movimento ligeiro

Todos vão acreditar no meu depoimento?
Dia 15 de abril, diário de um passageiro."

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Atualizado em: Ter 5 Jun 2012

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